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Aos 100 anos da grande revolução russa, é necessário estudar e tirar todas as lições daquela que foi sua principal conquista: a construção, um ano e meio depois da tomada do poder, da III Internacional, a Internacional Comunista. Foi a mais avançada tentativa de formar uma direção revolucionária mundial. E a primeira a conceber essa direção como uma organização centralizada de partidos revolucionários, para desenvolver a revolução socialista e tomar o poder em todos os países do mundo.

Por: Alicia Sagra

Fundar a III Internacional foi uma das constantes preocupações de Lenin. Conta Trotsky que em 1915, na Conferência de Zimmerwald, onde se juntaram os poucos socialistas que estavam contra a guerra, Lenin foi tão duro com os reformistas, apesar de ter aceitado assinar uma declaração contra a guerra com eles, porque sua preocupação central era a Internacional.  Trotsky disse que aí Lenin colocou a primeira pedra da III Internacional, e sua intransigência com os reformistas devia-se à sua concepção de que os revolucionários deveriam fundar seu próprio partido, e que os reformistas, se assim o quisessem, que formassem o seu.

Por que essa obsessão com a Internacional?

Tal como disse o intelectual marxista George Novack, isso não se deve a um dogma, nem a um sonho sentimental. O internacionalismo baseia-se no caráter mundial da economia capitalista. Ao contrário do que acontecia com as sociedades feudais, a sociedade capitalista não está fragmentada e isolada. O capitalismo, desde o princípio, operou sobre bases mundiais, estendeu o mercado mundial, impôs uma divisão mundial do trabalho. Nenhum país capitalista pode viver isolado do mundo, o que se aprofundou enormemente com o surgimento do imperialismo no início do século XX. Isso provoca a internacionalização da luta de classes e impõe a necessidade da organização internacional dos trabalhadores para poder avançar na tarefa de derrotar o imperialismo e construir o socialismo em nível mundial.

O primeiro grande passo

Em 1864, deu-se a primeira tentativa e surgiu a Primeira Internacional, da qual Marx e Engels participaram. O primeiro passo para unir as forças operárias através das fronteiras foi muito importante para combater a política da burguesia europeia, que utilizava os operários de um país para quebrar as greves de outro, mas enfrentou a fragilidade do incipiente grau de organização do proletariado da época. Não foi um partido, mas uma frente única de organizações e dirigentes operários.

Ela tinha uma clara definição de classe, mas não era o mesmo a nível ideológico. Nela, conviviam os seguidores de Marx e Engels, defensores do socialismo científico, e os setores do anarquismo, expressos por Proudhon e Bakunin. As diferenças teórico-programáticas vieram à tona com força quando a Primeira Internacional teve que enfrentar seu primeiro grande desafio revolucionário: o da Comuna de Paris em 1871.

A esmagadora derrota da Comuna provoca uma grande desmoralização, ao mesmo tempo em que confirmava as posições defendidas por Marx e Engels. As lições da Comuna aumentaram a influência dos fundadores do socialismo científico, ao mesmo tempo em que cresciam as atividades desleais de Bakunin, que finalmente levaram à sua dissolução 1872.[1]

A segunda tentativa

Em 1889, dá-se um grande avanço com a construção da II Internacional, a Internacional Socialista. Já não como uma frente única, mas como uma federação de partidos marxistas que, segundo Trotsky, teve o grande mérito de educar milhões de trabalhadores no marxismo.

Mas, destruiu-se como internacional revolucionária em 1914, quando os grandes partidos que a integravam apoiaram seus governos imperialistas na Primeira Guerra Mundial.

As consequências da grande traição de 1914. O papel do centrismo.

Como não poderia ser de outra maneira, o efeito da traição foi demolidor. A Internacional Socialista, que tinha educado milhões no internacionalismo proletário, rompia com seus princípios e passava a votar a favor dos créditos de guerra de cada um dos países imperialistas. Isto é chamava os operários alemães a matar os operários franceses e ingleses, e vice-versa, na frente de guerra. Como isso pôde acontecer?

O regime não centralizado da Segunda permitia que no seio de seu principal partido, o alemão, existissem três alas, que também se refletiam na Internacional. A direita, que se apoiava nos operários privilegiados com o surgimento do imperialismo, representada por Berstein e Vollmar; o centro, que dirigia o partido, encabeçado por Kautsky e Bebel; e a esquerda, Rosa Luxemburgo, Karl Liebknecht, Clara Zetkin…

Nos diversos congressos do partido alemão e da Segunda Internacional, o centro e a esquerda votavam juntos e a direita era derrotada. Assim, no congresso da Basileia de 1912, vota-se que a Internacional deverá desenvolver uma grande agitação contra a guerra e, se esta fosse declarada, deveria ser “utilizado com todas as forças a crise econômica causada pela guerra para sublevar as massas e precipitar assim a queda do sistema capitalista” (Manifesto da Basileia).

A II Internacional desenvolve uma grande campanha de agitação em todos os países, mas não se consegue impedir a guerra. Aí as coisas mudam. Os centristas unem-se à direita e vota-se em todos os países (com a honrosa exceção dos partidos russo e sérvio), a favor dos créditos de guerra, isto é favor de cada um dos governos imperialistas.

A grande traição concretiza-se não porque a direita tornou-se maioria, mas porque recebeu o apoio dos centristas. O que confirma tragicamente a definição de Lenin de que o centro é mais perigoso que os próprios reformistas, que se apresentam sem disfarces, o que permite enfrentá-los com mais facilidade.

As polêmicas sobre a III Internacional

A traição da Segunda Internacional foi tremenda, mas isso não quis dizer que ficou evidente para sua base. Pelo contrário, a grande maioria seguiu seus dirigentes e caiu na embriaguez do chauvinismo e a defesa do próprio país na guerra imperialista. Isso influenciou a heterogênea minoria de dirigentes que estavam contra a guerra.

A maior parte desses dirigentes opinava que não se podia abandonar a Segunda Internacional, que se deveria esperar a guerra acabar para que as coisas voltassem à normalidade. Muitos, sobretudo os pertencentes aos maiores partidos, temiam o isolamento que o rompimento com a Internacional implicaria.

Outra era a visão da minoria revolucionária, entre os quais se destacavam Lenin e Trotsky na Rússia; Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht na Alemanha; Kristian Rakovsky na Romênia; John Maclean na Escócia. Sobre este setor, Trotsky disse: “Nós, os revolucionários socialistas, não queremos a guerra. Mas não a tememos. Não nos entregaremos ao desespero pelo fato de que a guerra rompeu a Internacional. A história já se encarregou disso. A época revolucionária criará novas formas de organização surgidas dos recursos inesgotáveis do socialismo proletário, novas formas que estarão à altura da grandeza das novas tarefas.[2]

Mas, esse acordo em relação à falência irreversível da Segunda não implicava em um acordo em relação à Terceira.

Rosa Luxemburgo não concordava que o central fosse elaborar novos programas nem uma nova Internacional construída por “dezenas de pessoas”, mas por “ações de milhões de homens”. Por isso, opunha-se ao “derrotismo revolucionário” proposto por Lenin e defendia “a luta contra a guerra”. Aí, dizia, “a vontade consciente das massas” será desenvolvida.[3]

Lenin não tinha dúvidas: “A Segunda Internacional está morta, vencida pelo oportunismo. Abaixo o oportunismo e viva a Terceira Internacional, expurgada não só dos renegados, mas também do oportunismo.[4] Embora consciente das dificuldades, afirma que, para construir a Internacional, era necessário que existissem partidos dispostos a fazê-lo. Que os bolcheviques estavam dispostos a tomar a tarefa para si. Mas que, se fosse necessário, continuariam na velha Internacional até que se criassem as bases para a nova em diversos países[5]. O que centralmente esperava era a evolução da Liga Espártaco, dirigida por Rosa Luxemburgo.

Trotsky estava cada vez mais próximo de Lenin, embora não respondesse às suas exigências de que assumisse a política do “derrotismo revolucionário”.

A Conferência de Zimmerwald

Foi um encontro dos poucos dirigentes da II Internacional contrários à guerra imperialista. Trotsky descreve-a da seguinte maneira:

No verão de 1915, apresentou-se em Paris o deputado italiano Morgari, secretário da fração socialista do Parlamento romano e eclético ingênuo, com a intenção de convocar os socialistas franceses e ingleses a uma conferência internacional (…). A organização da conferência ficou a cargo de Grimm, dirigente socialista de Berna, que naquele momento esforçava-se o quanto podia para erguer-se acima das limitações de seu partido, que eram também as suas. Escolheu para local da reunião um povoado no alto das montanhas, situado a dez quilômetros de Berna, chamado Zimmerwald. Acomodamo-nos como pudemos em quatro carros e tomamos o caminho da serra. As pessoas ficavam olhando, com certa curiosidade, para esta estranha caravana. Os próprios delegados brincavam sobre o fato que, cinquenta anos depois da fundação da Primeira Internacional, todos os internacionalistas do mundo pudessem caber em quatro carros. Mas eles não eram céticos. O fio histórico rompe-se com muita frequência, então um novo nó precisa ser dado. Isto foi precisamente o que faríamos em Zimmerwald.

Os dias da conferência – de 5 a 8 de setembro – foram agitadíssimos. A ala revolucionária, liderada por Lenin, e a ala pacifista, que compreendia a maioria dos delegados, concordaram com dificuldade com um manifesto coletivo, esboçado por mim.

O manifesto estava longe de dizer o que deveria ser dito, mas era, apesar de tudo, um grande passo adiante. Lenin mantinha-se na extrema esquerda da conferência. Em muitas questões, ele estava em uma minoria de um, mesmo na ala esquerda, à qual eu não pertencia formalmente, embora estivesse identificado com ela nas questões fundamentais.

Lenin temperou em Zimmerwald a mola das futuras ações internacionais. Naquele povoado montanhoso da Suíça, ele estava assentando a pedra fundamental da Internacional revolucionária (…). Liebknecht não compareceu a Zimmerwald. Já era prisioneiro do exército dos Hohenzollern, antes de ir para o presídio. Mas enviou uma carta que proclamou sua passagem abrupta do pacifismo à revolução. Seu nome foi citado muitas vezes na conferência. Aquele nome era já uma palavra de ordem na luta que estava rompendo o socialismo mundial (…).

A conferência de Zimmerwald deu um grande impulso ao movimento antiguerra em muitos países. Na Alemanha, os espartaquistas intensificaram sua atividade. (…) As diferenças essencialmente sem importância que ainda me separavam de Lenin em Zimmerwald apagaram-se durante os meses seguintes (…) [6] 

Durante a Conferência, Lenin desenvolveu um violento combate contra os centristas, apesar de estar em uma evidente minoria (8 dos 38 delegados). Ele sabia que sua proposta não podia ganhar a Conferência, mas queria ganhar os melhores quadros da Segunda Internacional para ela. Por isso é que Trotsky afirma que “Lenin temperou em Zimmerwald a mola das futuras ações internacionais” que haveria de colocar em marcha. E, segundo sua própria afirmação, ele mesmo foi ganho, nos meses seguintes, para a maior parte das propostas leninistas.

Coerente com essa política, Lenin exigiu que, junto com o Manifesto conjunto, também fosse publicada a resolução apresentada por Radek em nome da “esquerda zimmerwaldiana”, que dizia: “Repúdio aos créditos de guerra, saída dos ministros socialistas dos governos burgueses, a denúncia do caráter capitalista, antissocialista da guerra na tribuna parlamentar, nas colunas de imprensa legal e, se for necessário, ilegal, luta aguda contra o social-patriotismo, … organização de manifestações de rua contra os governos, propaganda nas trincheiras pela solidariedade internacional, incentivo às greves econômicas, o esforço para transformá-las em greves políticas, sob condições favoráveis. Guerra civil, não paz social: esta é a bandeira!.[7]

O triunfo da revolução russa e a explosão da revolução alemã

A partir de 1915, a situação começa a mudar e ocorrem mobilizações contra a guerra na Escócia, Berlim e Romênia. E desenvolve-se o trabalho dos bolcheviques, de Trotsky, de Rakovsky pela nova Internacional. Estabelecem-se contatos na França, na Suécia, nos EUA, na Suíça. Mas o grande salto acontece com o triunfo da revolução de outubro em 1917. Aí, os bolcheviques demonstraram que era possível. Como disse Rosa Luxemburgo, “eles ousaram”.

Mas os bolcheviques sabiam que isso era apenas o primeiro passo, que sem o desenvolvimento da revolução mundial tudo estava em perigo e que a construção da Terceira continuava sendo a grande tarefa. Assim, em meio aos desafios do poder, à assinatura da paz de Brest-Litovsk, à resposta ao problema da fome, à luta pelo fim das desigualdades e das opressões, continuaram privilegiando a tarefa de construção da Internacional. Enviaram os seus melhores propagandistas a cargos diplomáticos para desenvolver esse trabalho nos países que tinham reconhecido o novo estado. Ao mesmo tempo, realizaram um intenso trabalho político sobre os prisioneiros de guerra do exército czarista. Deste trabalho, dirigido pelo revolucionário polonês Karl Radek, surgem os grupos comunistas húngaro, iugoslavo, búlgaro, checoslovaco, que passaram a fazer parte das seções estrangeiras do partido bolchevique e que pouco a pouco voltavam a seus países para construir e participar dos processos revolucionários que explodiam por toda Europa.

Esse trabalho avançava, mas, para Lenin, ainda não estavam dadas as condições para concretizar a grande tarefa, todos esses grupos eram muito pequenos e muito dependentes do partido bolchevique.

A eclosão da revolução alemã em novembro de 1918 abriu as portas para tais condições. Em dezembro do mesmo ano, a Liga Espártaco de Rosa Luxemburgo funde-se com os Comunistas Internacionalistas da Alemanha e dão origem ao Partido Comunista Alemão. Isso era o que Lenin esperava: “Quando a Liga Espártaco passou a chamar-se de Partido Comunista Alemão, a fundação da III Internacional, da Internacional Comunista, verdadeiramente comunista, verdadeiramente internacional, transformou-se em um fato. Formalmente, a III Internacional ainda não foi consagrada, mas a III Internacional existe na realidade, a partir deste momento“. O que Lenin não sabia é que neste mesmo espaço de tempo despontava a insurreição de 5 de janeiro de 1919, e que os dois grandes dirigentes do partido comunista, Rosa e Liebknecht seriam assassinados.

Em 24 de janeiro, foi publicado no Pravda a notícia do assassinato e convoca-se uma Conferência Socialista Internacional. A convocação foi assinada pelo Partido Comunista russo, Lenin e Trotsky, pelo Partido Comunista alemão, pelo Partido Comunista finlandês, pela Federação Socialista dos Bálcãs, pelo Partido Socialista Operário Norte-americano e pelas representações estrangeiras (que estavam na Rússia) dos partidos comunistas polonês, húngaro, austríaco e letão.

Não foi fácil fundar a III Internacional

Em 2 de março de 1919, em plena guerra civil, Lenin abre a Conferência Internacional honrando a memória de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, “os melhores representantes” da Terceira Internacional. A importância dada pelos bolcheviques a essa reunião tem sua máxima expressão quando Trotsky deixa a frente de guerra para participar da Conferência.

Muitos delegados internacionais não chegam ou chegam tarde.  Grande parte das representações presentes fazia parte das seções estrangeiras do partido russo. Os partidos presentes com existência própria, o alemão, o polonês, o austríaco e o húngaro, eram muito pequenos em relação ao russo, que nesse momento contava com 500 mil militantes. Tudo isso é o que faz pensar que fora um erro fundar naquele momento a Terceira Internacional, porque não havia representatividade suficiente para fazê-lo. Acreditamos que a história demonstrou o contrário.

Nessa conferência, que durou de 2 a 6 de março, foi apresentado um informe sobre a revolução alemã e a situação do Estado russo. Votou-se a resolução de Lenin sobre a democracia burguesa e a ditadura do proletariado, mas o ponto central foi a discussão sobre a fundação da Terceira Internacional, e a discussão foi difícil.

O delegado alemão defendeu a posição de Rosa, de que ainda não era tempo, havia muita debilidade, o único partido forte era o russo. E é de se imaginar o peso da opinião da grande dirigente recentemente assassinada. Zinoviev, um dos grandes propagandistas dos bolcheviques, responde dizendo: “Não queremos trabalhar agora com o sentimento de que somos muito débeis, ao invés, devemos ser invadidos pelo sentimento de nossa força, da convicção de que o futuro pertence à III Internacional (…). Após uma reflexão madura, nosso partido propõe construir imediatamente a III Internacional. O mundo inteiro verá que estamos armados organizativa e intelectualmente[8].

Em 4 de março, com a abstenção do delegado alemão, vota-se a favor da fundação da III Internacional.

A realidade confirmou a acertada posição defendida pelos bolcheviques. Dias depois, em 21 de março, tomou-se o poder na Hungria, confirmando a visão de Lenin sobre o processo revolucionário que se vivia na Europa. Antes do segundo congresso (em 1920) aderiram à Internacional o Partido Socialista Italiano, o Partido Operário Norueguês, o Partido Socialista de Esquerda Húngaro.

Quatro congressos que deixaram um grande arsenal programático

O segundo congresso, em 1920, acontece no meio de um enorme crescimento. A partir do grande impacto da revolução russa, partidos de diferentes países rompem com a Segunda e aderem à Terceira.  Em sua maioria fazem-no honestamente, mas também se acercam dirigentes oportunistas que não querem perder suas bases. Isso obriga a separar “o joio do trigo” e o segundo congresso vota as 21 condições para pertencer à Internacional. O centro estava na luta contra o reformismo e na reivindicação do centralismo democrático.

A maioria dos partidos aceita as 21 condições, mas alguns, como o italiano, dividem-se e a maioria sai da Internacional. O grande fato é que, na Alemanha, a maioria do Partido Socialdemocrata Independente adere à Terceira, funde-se com o PCA e dá origem a um grande partido, o Partido Comunista Unificado Alemão.

No terceiro e quarto congresso, a batalha é contra as posições ultraesquerdistas, que se negam a ver que ocorreu um retrocesso na situação da luta de classes, que não está na ordem do dia a luta pelo poder, mas está colocada a luta pela direção da classe operária e se vota a tática da Frente Única Operária.

Em síntese, ao longo desses quatro anos, que vão de 1919 a 1922, novos partidos integram-se à Internacional e vários deles ganham peso de massas. E, nesses quatro anos, realizam-se esses quatro congressos. Eles deixaram resoluções que são uma referência programática e conservam toda sua atualidade: sobre a democracia burguesa e o papel dos revolucionários no parlamento; sobre a questão agrária; sobre os sindicatos; sobre os métodos, a estrutura e a ação dos partidos comunistas; sobre a opressão da mulher; sobre a questão nacional.

Mas essa, que foi a maior conquista organizativa do movimento operário mundial, foi uma experiência frustrada. A combinação da derrota da revolução alemã com o atraso da Rússia e a morte de Lenin deram a base para o triunfo contrarrevolucionário de Stalin, que primeiro degenerou e depois, em 1943, dissolveu a Terceira Internacional, obedecendo à ordem do imperialismo inglês.

Hoje não temos essa ferramenta internacional. É necessário construí-la.

Hoje, o mundo está mais conectado que nunca pela crescente globalização da economia, pelos meios de comunicação, pela internet, pelas redes sociais, mas os trabalhadores não têm nenhuma unidade orgânica. As lutas da classe operária e os povos do mundo são iguais em termo dos seus objetivos: contra a fome e o desemprego, em defesa da educação e da saúde pública, contra as opressões de todo tipo e a repressão. E todas elas enfrentam os mesmos inimigos: os imperialismos norte-americano e europeu, que são os donos do mundo, e os governos nacionais, que são seus agentes.

Entretanto, essas batalhas não são coordenadas, não se protegem nem se ajudam mutuamente. Hoje, não temos essa grande ferramenta internacional, que foi construída no calor da revolução russa.

É fácil imaginar o reforço que teria a luta palestina se existisse uma Internacional de massas para organizar o boicote mundial a Israel. Ou o que poderia ser alcançado se a luta dos professores e estudantes de toda América Latina fosse coordenada. Ou o que significaria para a luta operária contra as consequências da crise capitalista, se essa Internacional paralisasse todas as fábricas das multinacionais de automóveis ou petrolíferas, cada vez que uma delas demitisse trabalhadores em um país.

Não há dúvidas de que a construção da Internacional revolucionária continua sendo uma necessidade de primeira ordem. Os trabalhadores conquistaram-na com a Revolução Russa, mas ela foi perdida pela contrarrevolução stalinista. Trotsky tentou recuperá-la, construindo a Quarta Internacional, mas hoje tampouco existe a Quarta. Sobre este tema dos avanços e retrocessos, triunfos e derrotas, Trotsky tem uma bela frase que indica o caminho a seguir:

A classe operária está perfurando por si própria uma rocha de granito. Às vezes escorrega alguns passos; às vezes o inimigo dinamita os degraus que foram talhados; às vezes estes afundam porque foram feitos com um material pobre. Após cada queda devemos nos levantar; após cada escorregada devemos nos equilibrar novamente; cada passo destruído deve ser substituído por dois novos.

Notas:

[1] A dissolução oficial deu-se em 1876, mas considera-se sua dissolução de fato a resolução do Congresso de Haia de transferir o centro dirigente da I Internacional para os Estados Unidos.

[2] Leon Trotsky, A Guerra e a Internacional.

[3] Citado por Pierre Broué, em A Revolução Alemã.

[4] Lenin, A Posição e as Tarefas da Internacional Socialista, Sotsial-Demokrat n.o 33, 1/11/1914.

[5] Lenin, Socialismo e Guerra.

[6] Leon Trotsky, Paris e Zimmerwald, Minha Vida (grifos nossos).

[7] Conferência de Zimmerwald, Proposta de resolução dos delegados da ala esquerda.

[8] Citado por Pierre Broué, em a História da III Internacional.

Tradução: Rosangela Botelho