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Fascismo: de direita ou de esquerda? Esse debate vem se proliferando no Brasil. Pensando bem, não existe debate algum, apenas grupos que de um lado a outro bradam e vociferam como loucos em uma autêntica conversa de surdos. Este modo de encarar a questão tem sua razão de ser, como tudo, alias. De um lado, se acentua o termo “nacional-socialismo” encrustado no nome do Partido Nazista, sua bandeira vermelha, a militância de Mussolini no Partido Socialista Italiano etc. Do outro lado do front, o enquadramento do fascismo como um movimento de ultra-direita é tomado como algo historicamente inquestionável.

Por: Gustavo Machado, editor do blog Teoria e Revolução

Somente ignorantes pensariam o contrário. Como demonstraria o nacionalismo exacerbado das organizações fascistas e seu anticomunismo radical. O circo está armado. Vejamos um exemplo desse debate entre surdos.

Em artigo publicado pela BBC Brasil a historiadora Denise Rollemberg diz que tudo se trata de uma grande confusão. Segundo ela, “Não era que o nazismo fosse à esquerda, […] O que o nazismo falava é que eles queriam fazer um tipo de socialismo, mas que fosse nacionalista, para a Alemanha. Sem a perspectiva de unir revoluções no mundo inteiro, que o marxismo tinha”. O curioso é que o argumento usado por Rollemberg é idêntico ao daqueles que dizem ser o fascismo [nazismo] de esquerda. Segundo eles, o nazismo não seria uma variante do marxismo, mas se encontraria dentro do espectro da esquerda. Os marxistas seriam os socialistas internacionalistas, enquanto o fascismo representaria uma vertente socialista nacionalista. O esclarecimento de Denise, portanto, antes de esclarecer, apenas remete ao âmago mesmo de toda confusão.

Outro aspecto que turva o esclarecimento da questão é que a definição do fascismo como sendo um movimento de extrema-direita ou alguma variante análoga se encontra em todos manuais, livros didáticos, bem como nas referências ao fascismo comumente presentes nos artigos publicados na grande mídia. A tal ponto que se tornou um lugar comum. A ruptura com todo lugar comum gera estranheza, perplexidade, perturbação.

Apesar dessa aparente obviedade o tema é, entre nós, muito mal conhecido e toscamente estudado. E os intelectuais ditos “de esquerda” não são nem de longe uma exceção. Basta acompanhar os abundantes ensaios que saíram recentemente sobre o tema. Citam, abundantemente, obras escritas por autores com finalidade aberta de combate ao fascismo, ou obras sociológicas que visam a conceituação do termo. No entanto, em todos esses ensaios, não se vê uma referência que aborde com maior fôlego a história mesma dos movimentos e países envolvidos, nenhuma menção das fontes primárias, nenhuma biografia de seus principais agentes. Em se tratando de uma polêmica, é igualmente fundamental conhecer a genealogia mesma do debate, a fundamentação dos pontos de vista que se contesta. Tudo isto está de todo ausente nos artigos sobre o tema publicados pela esquerda brasileira. Seria a questão tão evidente que nem sequer mereceria alguma atenção? Não acreditamos. Vejamos.

Mentindo com beleza
É, sem dúvida, um grande erro analisar um fenômeno político unilateralmente pelos discursos de seus agentes. Sobretudo no caso do fascismo que, como mostra Modris Eksteins, baseava seus discursos mais em motivos estéticos e subjetivos do que racionais e objetivos. Na expressão desse autor, tratava-se de “mentir com beleza”. “A política se tomaria ‘verdadeiro’ teatro, em oposição à pose solene da era democrática” (EKSTEINS, 1992, p.395) ou, na expressão de Walter Benjamin, o fascismo foi a “estetização da política” (BENJAMIN, 1985). E de fato, foi assim.

Feita esta ponderação, cabe observar que os adeptos dogmáticos da tese o “fascismo foi de extrema-direita”, tese esta tomada como algo autoevidente e trivial, ficariam perplexos se consultassem os discursos de Mussolini, Hitler, Goebbels e outros tantos. Ali existe uma crítica voraz ao comunismo e … ao capitalismo, termo este identificado pelos partidos fascistas com o sistema e regimes políticos europeus da época. Se, por um lado, parecem conservadores radicais ao defenderem a supremacia nacional pretérita, as glórias da raça, de seus personagens, suas cidades históricas e assim por diante; por outro, parecem revolucionários, pois seus discursos estão orientados para o futuro. Um futuro que não é reedição do passado glorioso, mas a realização de um “novo tipo de ser humano”, “um novo sistema social” e “uma nova ordem internacional”. Em não poucas vezes é no vocabulário dos movimentos revolucionários socialistas da época e, até mesmo, em seus referenciais teóricos que o fascismo vai buscar a fundamentação e a forma de seus discursos.

Para citar alguns exemplos, um dos principais dirigentes e ideólogo do fascismo francês, Pierre Drieu La Rochelle, dizia em um dos seus ensaios (1934) que o verdadeiro socialismo é o fascismo. Entre suas influências, menciona Georges Sorel, Saint-Simon, Charles Fourier e Proudhon. Sorel, alias, considerados por muitos um socialista romântico ou um marxista heterodoxo foi referência de grande parte dos ideólogos do fascismo italiano, inclusive Mussolini que, como se sabe, foi membro por muitos anos do Partido Socialista. Não sem razão, o tom e terminologia de seus discursos irá manter, para sempre, reminiscências de sua fase socialista. E o que é pior. Não se trata de um caso isolado. Os primeiros Fascios são fundados a partir de um grupo que ficou conhecido como Sindicalistas Revolucionários. Este grupo surgiu em reação a tendência reformista no interior do Partido Socialista Italiano, e, depois, se consolidaram organizativamente em apoio a entrada da Itália na Primeira Guerra Mundial. Para se ter uma ideia desse processo, e da terminologia empregada, citamos um pequeno trecho do Manifesto Inaugural do Fascio Rivoluzionario d’Azione Internazionalista, organização criada pelos Sindicalistas Revolucionários e embrião do futuro Partido Nacional Fascista:

“acreditamos que não é possível ultrapassar os limites das revoluções nacionais sem passar primeiro pela fase da própria revolução nacional. […] Se cada povo não viver no interior do quadro das suas fronteiras nacionais, formadas pela língua e pela raça, se a questão nacional não estiver resolvida, não poderá existir o clima histórico necessário ao desenvolvimento normal de um movimento de classe” (STERNHELL, 1994, p. 205)

Mas não é sustentável a tese de que o fascismo foi uma dissidência do partido socialista. O fascismo italiano reuniu influências e grupos diversos, tendo como um dos principais ideólogos o nacionalista de direita Enrico Corradini. Ele fundou, em 1910, a Associação Nacionalista Italiana (ANI) que se unificará oficialmente com o Partido de Mussolini em 1923, após alguns anos de atuação em comum. O que nos interessa, todavia, no presente contexto é a especificidade da concepção nacionalista de Corradini e penetramos, assim, no âmago de toda confusão. Ao contrário de outros líderes nacionalistas, Corradini atribuía um papel progressista as classes subalternas e procurou fazer com que a ideologia nacionalista penetrasse nas massas trabalhadoras. Cunhou, assim, a noção de nações proletárias, dominadas na arena internacional, como seria o caso da Itália, contraposta as nações dominantes ou as nações burguesas. Tratava-se de substituir a luta de classes entre patrões e trabalhadores pela luta entre as nações pela dominação imperialista mundial. Eis o primeiro grande ideólogo do fascismo.

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Para colocar mais ingredientes na sopa, o fascismo recebe ainda a colaboração dos futuristas, intelectuais fascinados com a industrialização. Entusiastas da modernidade do século XX. A formação do Partido Nacional Socialista na Alemanha é ainda mais difusa, ainda que sem qualquer lastro minimamente consistente nos partidos socialistas e comunistas do país. Não retomaremos este processo aqui.

Direita e esquerda: o mundo encantado dos conceitos
O que nos interessa nessa breve descrição é assinalar que a presente questão está distante de se reduzir a trivialidade com que os campos ditos de “esquerda” ou de “direita” apresentam o problema. Não sem razão, longe de ser uma “novidade historiográfica”, este debate é bem antigo.

Suas origens remetem ao debate sobre o conceito de totalitarismo, quase onipresente nas décadas de 50 e 60 do século XX. O termo foi apropriado pelos próprios partidos fascistas no sentido de indicar a presença do Estado em todos os âmbitos da vida social: “Tudo no Estado, nada contra o Estado e nada fora do Estado”, assim dizia Mussolini. Mas em seguida, a noção foi contrabandeada em conceito. Autores como Franz Neumann e Hannat Arendt definem o totalitarismo, conceitualmente, como uma “oposição radical ao estado liberal” (CHASIN, 1977) e, desde modo, reúnem o fascismo e o stalinismo (e suas variantes, supostamente identificadas com “o comunismo”) em um único conceito. Enquanto um conceito artificial criado por liberais de meados do século passado, o totalitarismo se apresentava como o reverso da medalha de face liberal, sob o qual se julgava os regimes políticos do mundo todo.

Esta é a arte das ciências humanas contemporâneas: a fábrica dos conceitos. Os conceitos não mais procuram expressar “formas do ser”, “determinações da existência”, ou seja, aspectos da realidade reunidos segundo critérios objetivos, mas ganham autonomia, caminham com pernas próprias. Agora, no mundo fantástico e encantado das ciências humanas, a realidade é julgada à luz dos conceitos criados pelos experts. Como gostam de sugerir os professores acadêmicos em suas orientações: nesse caso, use tal conceito, naquele outro, o conceito tal. A questão de se o fascismo é “de esquerda” ou “de direita” é apenas a reencarnação da questão do totalitarismo, posta em forma ainda mais tosca e pouco rigorosa. Afinal de contas, que cargas d’água é esquerda e direita?

Historicamente, tais termos sempre possuíram um uso relativo, pragmático. Define-se esquerda, circunstancialmente e localmente, em relação a direita e vice-versa; tendo como referência, costumeiramente, as duas posições dominantes no espectro político de um dado país. Não sem razão, nos Estados Unidos, cujo espectro político é dominado pela contraposição liberais – conservadores, os primeiros são “a esquerda”, os segundos “a direita”, ainda que tais organizações sejam mais heterogêneas internamente que a contraposição liberais versus conservadores faz parecer. Fato é que os termos “esquerda” e “direita” não possuem substância, não possuem uma conceituação objetiva passível de ser determinada em si e por si mesmas, dando margem a todo tipo de trapaças teóricas. Cada autor define esquerda e direita como lhe convém, de forma a atingir os objetivos previamente almejados. A questão, portanto, de se o fascismo é de esquerda ou de direita é, desde o início, uma armadilha.

Mas a polêmica não é um exotismo brasileiro. Ainda em 1974, a defesa do fascismo como uma corrente tipicamente de esquerda é defendida pelo conservador austriaco Erik von Kuehnelt-Leddihn em seu livro Leftism, From de Sade and Marx to Hitler and Marcuse. Mais recentemente, em 2008, a tese foi reerguida por Jonah Goldberg no livro Liberal Fascism: The Secret History of the American Left, From Mussolini to the Politics of Meaning. Este livro chegou a ocupar a primeira posição no ranking de vendas nos Estados Unidos por algumas semanas, considerando apenas obras de não-ficção. Golberg vai mais longe no jogo de conceitos: procura identificar, por meio de analogias e comparações externas de todos os tipos, o parentesco entre Socialismo, Fascismo e … Liberalismo.

Fascismo e relações sociais capitalistas
Os cientistas políticos podem criar os conceitos que lhe apetecerem. Nós não temos a intenção de agregar a esta fábrica um novo produto de nossa própria lavra. O que realmente importa esclarecer quanto a esse tema é o seguinte: o fascismo, em todas as suas variantes (italiana, alemã, espanhola etc.), jamais procurou, nem em discurso nem em ato, criar um programa que traduzisse os interesses objetivos da classe trabalhadora ou mesmo dos demais setores subalternos da sociedade. Antes disso, o que está em questão são os interesses da nação tendo em vista o expansionismo imperialista. Trata-se, portanto, de uma disputa inter-capitalista entre nações.

Desse modo, se o fascismo procurou ganhar as massas populares em torno de seu projeto, não procurou em nenhum sentido expressar os seus interesses particulares em seu programa efetivo. É exatamente essa ausência de correspondência entre o programa e a base que procurou mobilizar para executá-lo, que exigiu um discurso hipócrita, demagogo, performático e subjetivo. Daí também o namoro do fascismo com o irracionalismo. Daí o absoluto descompasso entre discurso e realidade. Daí uma série de expressões paradoxais usadas por historiadores de diversas ideologias para descrever os seus discursos: “mentir com beleza”, “estetização da política”, “estetização da existência”, “religião laica”. Daí a demagogia socialista em seus símbolos e discursos, em um momento histórico que a Revolução Russa arrastava multidões. Daí, também, sua demagogia religiosa.

Um exemplo elucidativo dessa elucubrações verbais fica explícito na própria formulação teórica de Corradini, acima mencionada: nação proletária. Esse termo não tem qualquer conotação no sentido de uma nação para o proletariado ou outros setores explorados. O atributo “proletária” apenas confere a nação uma posição subalterna no sistema internacional de estados, colocando a necessidade de avançar na disputa imperialista internacional. O termo é usado em um sentido claramente metafórico. Por outro lado, a nação é o sujeito absoluto do processo, tomada como um corpo orgânico homogêneo: como um indivíduo coletivo, “a nação acima de todos”.

A consequência da aplicação desse conceito, nação proletária, salta aos olhos: dissolver os interesses específicos do proletariado nos interesses ditos nacionais, a disputa imperialista mundial. Daí a criação do corporativismo sindical, a integração dos sindicatos ao Estado e a destruição completa de sua liberdade. Daí a retórica da “revolução” que nada mais significa do que o militarismo paramilitar na esfera interna e a guerra na esfera externa. Apesar de forte intervencionismo econômico, a propriedade privada não está, de modo algum, em questão. Nos 26 pontos da Falange espanhola podemos ler: “o Estado irá reconhecer a propriedade privada como um meio válido de chegar a fins individuais, familiares e sociais e irá protegê-la contra os abusos da Alta Finança, dos especuladores e usurários”. A “revolução” fascista, portanto, se sustenta em uma economia baseada nas leis do mercado (STERNHELL, 1994, p.7).

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Em síntese, é central para o fascismo a ideia de ordem e harmonia interna obtida pela intervenção política direta, sem que, para isso, seja necessário uma revolução na forma de organização social. É, desse ponto de vista, um movimento absolutamente conservador. O aspecto “revolucionário” do projeto fascista se refere ao domínio externo: fazer avançar pela força a posição da nação no interior do sistema internacional de Estados. Daí a identificação de revolução com a guerra. Daí a necessidade da mais absoluta coesão interna. Ainda nos 26 pontos da Falange podemos ler: “Nós declaramos que o cumprimento histórico da Espanha é o Império. Nós exigimos que a Espanha tenha uma posição proeminente na Europa”. Da mesma forma, no programa do Partido do Partido Nacional Fascista na Itália se lê: “A Itália […] deve preencher sua função de baluarte da civilização latina no Mediterrâneo”. E ainda: “O PNF agirá para disciplinar as lutas de interesse desorganizadas entre as categorias e as classes”, segue o “princípio nacional segundo o qual a nação está acima das classes” (PARIS, 1976, p. 98-9, grifo nosso).

Não foi por acaso que, apesar de sua pomposa retórica, o fascismo nunca conseguiu uma adesão realmente expressiva e consistente na classe operária. Vários estudos (J-P FAYE, 1974; WINCKLER, 1979) dão conta de que a pequena burguesia e os estratos médios da sociedade foram os alvos realmente efetivos da propaganda fascista. Setores com algo a perder e mais vulneráveis as crises estruturais e econômicas do capitalismo.

Outro aspecto elucidador é o financiamento das organizações fascistas. Na Itália, a maior parte dos recursos foram fornecidos pelos capitalistas industriais e pelos grandes proprietários fundiários, sendo o nazismo também financiado por grandes empresas e corporações industriais(SARTI, 1973; LUEBBERT, 1991; MUCHNIK, 2004; GALLEGO, 2001). No entanto, no período prévio a tomada do poder, este financiamento foi expressivo apenas no período de grandes agitações sociais, como na grande greve italiana de 1920. Ou, ainda, após o colapso econômico alemão com a crise de 1929, quando o fantasma do bolchevismo pairava sobre pais sob a base de uma inflação jamais vista. Já após a tomada do poder, tanto na Itália quanto na Alemanha, a associação entre poder econômico nacional e o governo fascista foi imediata, mas circunscrita ao projeto de recuperação e expansão econômica. Apenas em alguns poucos casos houve engajamento político direto entre os grandes capitalistas e o governo. Mas são mais raros ainda o caso de aberta e declarada oposição.

Como se vê, quanto a sua base social, o fascismo foi um movimento que encontrou eco direito nos extratos médios da sociedade. Mas tais setores médios não tiveram influência real nos rumos dos governos fascistas europeus. O fascismo não é, quanto a seu programa, um movimento daclasse média. Ao contrário, expressa os interesses do grande capital sempre que não apareça outra saída viável para estabilizar o sistema.

Nesse sentido, apesar da retórica fascista incluir, em igual medida, tanto o anticomunismo como o anticapitalismo [leia-se liberalismo] sua ações foram em outra direção: dois pesos e duas medidas. Revestido de caráter militarizado, centralizador e paramilitar todas as setas do fascismo foram sempre apontadas para o movimento comunista. Na Itália, por exemplo, antes da chegada ao poder, se generalizam as esquadras fascistas, expedições punitivas que visam destruir o “império socialista”. Ângelo Tasca, em uma obra clássica, descreve minunciosamente essas expedições:

Precipitam-se em direção à Bolsa do Trabalho, do sindicato, da cooperativa, da Casa do Povo; arrombam as portas, jogam nas ruas a mobília, livros, mercadorias e derramam galões de combustível: alguns minutos depois, tudo está pegando fogo. Quem é encontrado no local é espancado selvagemente ou morto. As bandeiras são queimadas ou levadas como troféu. (TASCA, 1969, p.130)

 

Na Espanha, sem ter apoio de massas e incapaz de enfrentar diretamente as organizações anarquistas, socialistas e comunistas, muito mais numerosas e fortes, a Falange descamba para o terrorismo individual. Apesar de ataques contra líderes republicanos de distintas ideologias, são as sedes e ativistas do movimento operário o principal alvo das ações falangistas.

O fascismo e suas alianças
Por último, para que possamos determinar melhor o caminho até aqui esboçado, cabe nos perguntar: sendo o fascismo antiliberal, contrário as premissas conservadoras de defesa das instituições tradicionais e anticomunista; qual dessas oposições se sobressai?

O fascismo não é, certamente, liberal. Caracteriza-se pela supressão de todos os direitos democráticos. Além disso, enquanto uma proposta nacional imperialista opta em ascender internacionalmente pela via militar. Trata-se de regimes políticos opostos para a manutenção mesma forma de organização social, assentada na propriedade privada e no mercado. Não sem razão, a crítica dos fascistas aos liberais sempre se pauta na impotência das democracias europeias, consideradas de uma perspectiva exclusivamente política e militar.

A comparação entre conservadores e fascistas é, sem dúvida, mais difícil. Isto é assim porque o fascismo aparece como negação do conservadorismo na medida que orienta seu discurso para o futuro e se apoia em um movimento de massas com um braço armado não institucional. No entanto, parece conservador em função de seu nacionalismo e do culto a glória e personagens nacionais. O fascismo nega a Razão Ilustrada, o humanismo, o materialismo. Em todos esses aspectos, conservadorismo e fascismo se aproximam. Mas se fundam em concepções bem diferentes: as acepções conservadoras negam a Razão Ilustrada e o humanismo em benefício de uma razão metafísica e universal, centrada na noção suprema de Deus. Enquanto o fascismo é antiuniversalista e irracionalista.

Ilustramos acima o método por meio do qual conceitos como fascismo são comumente analisados. Isto é: comparando, externamente, alguns de seus aspectos com os de outros movimentos e concepções. Aqui se revela a limitação do tratamento puramente conceitual do problema. Do método que apenas justapõem conceitos, abstraindo do processo histórico e seu conteúdo social. Ele abre margem, como se vê, para aproximar ou afastar o fascismo do que se queira, baseado em uma ênfase arbitrária do analista. Seguindo, por outro lado, o processo social e histórico, a confusão aparente se dissipa.

Como vimos em nossa análise, a retórica socialista se transmutou em pura demagogia oportunista, se afastando completamente deste quanto a forma de organização social almejada, tanto interna quanto externamente. A substituição, inclusive, do termo internacional por nacional não é, de modo algum, a alternância de um atributo dentre outros. O caráter internacional do socialismo de base marxista perpassa transversalmente todo o seu programa, concepção e fundamentação. Daí um agente social que se caracteriza pela posição que ocupa na forma de organização social: o proletariado, que, enquanto tal, é universal, independente de qualquer particularidade nacional.

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O apoio do grande capital às organizações fascistas apenas no momento de absoluta instabilidade econômica e ameaça comunista imediata desnudam que o fascismo é, em seu significado histórico, a última cartada das classes dominantes nacionais. O fascismo é, para o grande capital, a forma política de manutenção das relações sociais capitalistas nacionais quando todas as demais alternativas fracassaram. Trata-se da última cartada diante do colapso das instituições oficiais (fundamento do conservadorismo) e do fracasso da democracia burguesa (fundamento dos liberais). Tudo isto associado a existência de um movimento revolucionário com alguma possibilidade de vitória. Inclusive a meta de elevar a nação na hierarquia imperialista mundial não se difere das propostas conservadoras e liberais. Nesse domínio o fascismo apenas substitui a via legal, econômica e institucional pela via do combate externo direto.

Tanto é assim que, do ponto de vista nacional, os partidos fascistas sempre se aliaram, direta ou indiretamente, com alternativas conservadoras ou, ainda, liberal-conservadoras. Ainda que Stálin, cujos métodos em muito se assemelharam ao dos fascistas, inescrupulosamente tenha assinado o Pacto Molotov-Ribbentrop em 1939, bem como buscado alianças em política externacom Hitler em todos os anos desde 1933, como demonstra a documentação mais recente (MARIE, 2011), esses fatos, em si mesmos absolutamente condenáveis, foram produto de sua míope caracterização da política externa. Ele subestimou o nazismo até sua chegada ao poder e, em seguida, passou a temê-los e, no fundo, venerá-los. É verdade que existe uma interpretação já antiga (TOPITSCH, 1987), e atualmente retomada por alguns autores (MAGENHEIMER, 1998), de que o nazismo foi fomentado conscientemente por Stálin, bem como a Segunda Guerra Mundial. Esta hipótese, insustentável, pode ser o centro de um longo debate interpretativo que não vamos adentrar nesse curto artigo (1).

Seja como for, é fato histórico que em 29 de outubro de 1922 Mussolini acendeu ao poder a convite do rei Vítor Emanuel III que o encarregou, depois da encenação de sua “marcha sobre Roma”, de formar o novo governo e, nos anos seguintes, o apoiou plenamente. Na Alemanha, em 1932, foi o conservador Hindenburg que convidou Hitler para a chancelaria, abrindo caminho para o poder nazista. Além disso, o processo se inicia com uma coalização entre nazistas e conservadores que garantiu aos nazistas mais de 50% dos ministérios. O caso mais contundente, certamente, foi o da Falange espanhola. Foi em coalização com a Falange, uma força claramente de segundo nível no conflito espanhol, que o general Franco, católico e conservador, assumiu o poder e governou a Espanha por décadas, além de ter contado com apoio militar direto do nazismo durante guerra civil espanhola.

Não sem razão, a relação entre conservadores e o fascismo foi sempre, no frigir dos ovos, ambígua. Por exemplo, o filósofo italiano Benedetto Croce avalizou o primeiro gabinete fascista que, em sua acepção, seria a primeira solução conservadora séria no sentido de por fim a desordem e a possível atuação de massas que dela se segue. Posteriormente, revisou sua posição em função da instrumentalização da produção cultural. No entanto, a lista de intelectuais conservadores ou liberal-conservadores que aderiram ao fascismo ou ao nazismo é extensa (SÁNCHEZ, 1995; ALBERTONI, 1992). Após a consolidação dos respectivos partidos, de outra parte, o apoio de intelectuais comunistas ou socialistas ao fascismo é um episódio dos mais raros.

Este é, em seus traços mais gerais, o conteúdo histórico e conceitual do fascismo, que não deixou de ter, evidentemente, variantes de todos os tipos em conformidade com a especificidades nacionais. Compreendido isto, pouco importa o rótulo predileto que lhe seja imputado.

Notas

(1) A biografia de Jean Jacques-Marie sobre Stalin, levando em conta toda documentação recente oriunda da abertura dos arquivos em Moscou após o colapso da URSS, expõem com clareza a relação de Stálin com Hitler e os nazistas, bem como sua atuação na Segunda Guerra Mundial.

Bibliografia

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