COMPARTILHAR

Prefácio ao Anti-Dühring, Moscou 1928. 

Por: David Riazanov (1928)

Cinquenta anos se passaram desde o aparecimento do Anti-Dühring como um livro. O prefácio à primeira edição foi escrito por Engels, em 11 de junho de 1878. Esta data, no entanto, não é muito precisa. Os artigos contra Dühring foram impressos pela primeira vez no Vorwärts, o órgão central da socialdemocracia alemã. O primeiro artigo apareceu em 3 de janeiro de 1877. A primeira parte do livro, Filosofia, foi publicada em dezenove edições até 13 de maio de 1877. Depois disso, houve uma interrupção. A segunda seção, Economia Política, começou a aparecer em 27 de julho, ocupou nove números e foi concluída em 30 de dezembro de 1877. A terceira seção, Socialismo, apareceu após um intervalo considerável que durou mais de quatro meses. Foi publicada em cinco números, começando em 5 de maio e terminando em 7 de julho de 1878. Assim, o último capítulo foi impresso no Vorwärts um mês depois do que é mostrado no prefácio.

Quando falamos da importância do Anti-Dühring, é necessário ter em conta a posição da socialdemocracia alemã naquele momento. É bem conhecido – especialmente por aqueles que estudaram as disputas em torno do Programa de Gotha – como era inadequada a base teórica marxista da socialdemocracia alemã em 1875. As disputas que ocorreram em torno deste projeto de programa comprometedor são bem conhecidas. Mas isso ainda não dá uma imagem completa do nível marxista extraordinariamente baixo que na época era característico da socialdemocracia alemã. Em um aspecto, Mehring estava certo. Se Marx e Engels estavam insatisfeitos com Liebknecht por causa do acordo feito com os lassalleanos[1] em matéria de programa e tática, era porque eles superestimaram a compreensão do marxismo pelos “eisenachianos”, isto é, nas fileiras do partido que se considerava marxista. Se tomarmos o órgão central da socialdemocracia, mesmo depois da unificação, não encontraremos mais que um socialismo incrivelmente confuso, quase vulgar. Foi uma mistura monstruosa de algumas proposições de Marx, com algumas de Lassalle, e com toda uma série de teses, cuja origem se encontra na literatura burguesa contemporânea. Basta observar como, a partir de 1873, a autoridade de Dühring cresceu cada vez mais.

Os camaradas familiarizados com o Anti-Dühring normalmente têm a impressão de Dühring quase como um cretino absoluto. Mas Dühring não era idiota. Ele era uma grande figura. Ele tinha o que torna muitos desses homens ativos imediatamente atraentes para a juventude, ou seja, as qualidades de um homem com uma educação enciclopédica, que se orientava de forma inusitadamente livre em questões de ciência natural, filosofia, economia política e socialismo. Ele era um homem que podia dar à geração mais jovem, como se dizia popularmente, “um sistema da verdade”. Ele deu um sistema completo de visão do mundo, deu respostas a todas as perguntas problemáticas. Além disso, ele era um homem conhecido da geração mais jovem por seu ódio aos professores e por sua vida pessoal não especialmente feliz, como seria de se esperar de um homem que perdeu a visão aos 28 anos e foi obrigado a adquirir todo o seu conhecimento com a ajuda de outras pessoas, quase por acaso. Ele era um homem que vivia em grande pobreza. Tudo isso gerou simpatia em relação a ele.

O patrocinador de Dühring na socialdemocracia alemã foi Bernstein. Temos, pelo menos, cinco recordações sobre Bernstein nesta interessante fase de sua vida. Em todas elas, ele reconhece ser um discípulo muito zeloso e fervoroso de Dühring. Ele infectou Fritsch, Most, Bebel e Bracke com a “Dühringmania”. Ele escreve que, em 1873, ele nunca perdia uma ocasião de ouvir as palestras de Dühring e sempre levava com ele, em seu entusiasmo, toda uma série de camaradas, incluindo estrangeiros, em sua maioria russos. Ele deu o livro de Dühring a Bebel, então na prisão, e Bebel escreveu da prisão um artigo intitulado Um Novo Comunista, em março de 1874.

Bebel termina seu artigo da seguinte maneira:

Todas as nossas considerações contra a concepção de Dühring não se referem a suas visões fundamentais. Nós as consideramos irrepreensíveis, e o consideramos com total aprovação. E não hesitamos em declarar que, depois de O Capital de Marx, o novo trabalho de Dühring pertence ao melhor que a nova era produziu na esfera econômica. Nós, portanto, recomendamos vivamente o estudo de seu livro“.

Esta foi a resposta de Bebel, que estava insatisfeito com a unificação no congresso de Gotha, com o acordo de Gotha. Pode-se facilmente imaginar como este artigo foi recebido em Londres. Temos provas de que Engels enviou imediatamente um pedido a Berlim sobre quem havia escrito este artigo. Liebknecht apressou-se em reafirmar a Engels (13 de junho de 1874):

É claro, é impossível evitar tolices, mas logo que são reconhecidas elas são, na medida do possível, corrigidas. Você tem alguma base para acreditar que Dühring é um inútil ou um inimigo clandestino? Tudo o que me é conhecido sobre ele me fortalece na crença de que, embora seja confuso, é indubitavelmente honesto e permanece sem reservas de nosso lado. O artigo denunciado por você não era totalmente correto e foi escrito com uma medida ilimitada de entusiasmo. Em todo o caso, as intenções do autor foram certamente boas e o artigo não produziu um efeito ruim“.

Um pouco mais tarde, Bloss declara a Engels, escrevendo da prisão:

Em relação a Dühring você está certo … em sua História Crítica do Socialismo e Economia Política, ele escreveu muita estupidez. Só agora li este livro”.

Depois que Liebknecht e particularmente Bloss tornaram-se mais conhecedores de Dühring, Liebknecht enviou um pedido a Engels, em 1º de fevereiro de 1875, para que ele escrevesse um artigo sobre Dühring. Infelizmente, não há cartas de Engels e Marx no que diz respeito a isso, mas, obviamente, eles fizeram muito barulho. Liebknecht escreve:

Quando é que vai ser possível receber de você algum trabalho sobre Dühring, que na segunda edição de sua História da Economia Política novamente repetiu todos as suas numerosas estupidezes sobre Marx? Eu estava assistindo as palestras deste homem antes do Natal. Megalomania, e ao mesmo tempo um ódio furioso de Marx, isto é tudo. Mas ele se enraizou muito fortemente entre nossa gente, especialmente em Berlim, e, consequentemente, é necessário examiná-lo a fundo. Você provavelmente tem a segunda edição. Se você não tiver, nós lhe enviaremos“.

Em uma segunda carta, não diretamente para Engels ou Marx, mas para a esposa de Engels, Liebknecht acrescenta:

Você deve dizer a Engels que ele precisa lidar a fundo com Dühring, mas é necessário lembrar uma coisa: Dühring está literalmente morrendo de fome“.

Engels não concordou de boa vontade. Resistiu por um longo tempo. A partir de sua correspondência com Marx, sabemos que essa tarefa não o atraía particularmente, tanto mais que nesse momento ele estava no pleno fervor de sua ocupação com as ciências naturais. Foi pouco antes de ele ter comunicado a Marx e a Schorlemmer as teses básicas de sua dialética da natureza. Ele estava prestes a expandi-las em uma obra especial, e ele não queria desviar-se deste trabalho e ocupar-se com uma polêmica contra Dühring, que ele conhecia mais que Liebknecht. Marx e Engels já haviam rompido com Dühring. Engels interessou-se por ele no início dos anos sessenta, quando ele escreveu uma das primeiras críticas a O Capital. Eles já tinham descoberto nessa época que ele era um “docente especial”[2] em economia política e um colaborador do jornal oficial Staatsanzeiger, para o qual Marx tinha se recusado a contribuir, e que Dühring tinha aberto um processo contra o conhecido Conselheiro Wagener, no que diz respeito à autoria de uma certa produção, um relatório escrito para Bismarck, sobre como resolver a questão socialista. Wagener achou que ele fosse um “docente especial” comum e colocou sua própria assinatura no relatório. Dühring abriu uma ação judicial contra ele e ganhou. Marx e Engels estavam cientes de que Dühring era um grande admirador de Carey e List na esfera da economia política, que não era conhecido pelos camaradas mais jovens.

Consequentemente, Engels, que acabava de começar a abordar um assunto mais interessante, não estava disposto a ocupar-se de Dühring. E, a partir da correspondência, é possível ver quanta pressão foi feita por parte de Liebknecht para que Engels finalmente assumisse o trabalho.

Em 1875-76, o culto a Dühring tornou-se cada vez mais forte.

Em vez do lema de luta ‘Lassalle ou Marx’”, escreve Bernstein em sua mais recente autobiografia, “parecia que havia um novo slogan, ‘Dühring ou Marx e Lassalle’. E em tudo isso eu tive boa parte da responsabilidade“.

Foram feitas várias tentativas de utilizar o Vorwärts para promover Dühring. Na verdade, Liebknecht engajava-se em uma luta tenaz, depois de ter permitido este erro por parte de Bebel, a fim de não permitir que o Vorwärts fosse convertido em um órgão que exaltasse Dühring como um pensador em um nível de igualdade com Marx. A questão tornou-se ainda mais complicada quando Most escreveu um grande artigo filosófico sobre Dühring e o enviou a Liebknecht. Em 1876, Most até ultrapassou Bernstein em sua admiração em relação a Dühring; como um trabalhador enérgico e um magnífico agitador, ele ganhou para Dühring grande popularidade entre os operários de Berlim, pois o Berliner Freie Presse, o órgão da Organização de Berlim, sofria muita influência de Most.

Ao receber o artigo de Most, Liebknecht mandou-o propositadamente a Engels, porque ele presumiu que Engels, depois de lê-lo, entenderia que, quer ele gostasse de fazer isso ou não, era necessário iniciar o trabalho sobre Dühring. Engels finalmente concordou em escrever uma série de artigos sobre Dühring e começou a tarefa.

Não vou me deter mais detalhadamente neste ponto, porque a correspondência de Marx e Engels dá toda uma série de indícios da relutância com que Engels se dirigiu, no início, a este assunto. Em todo caso, não pôde enviar o primeiro artigo antes do outono de 1876. Esta foi a primeira seção, sobre Filosofia.

Mas aqui ocorreu um pequeno contratempo: Liebknecht não esperava que Engels enviasse seu artigo tão tarde. Ele esperava-o mais cedo, no início da campanha eleitoral – as eleições ocorreram em janeiro de 1877. É compreensível que Liebknecht e um número de outros camaradas estivessem extremamente ocupados com a campanha eleitoral para prestar atenção em como os artigos de Engels seriam impressos. É claro que Engels estava plenamente justificado em sua insatisfação. Teria sido impossível fazer uso dos artigos de Engels de forma pior do que foi feito pelo Vorwärts durante janeiro de 1877. Os capítulos da seção sobre Filosofia foram impressos com erros abundantes, e foram divididos aleatoriamente, sem qualquer lógica. Recebendo seus artigos nessa forma vergonhosa, Engels estava quase fora de si e trovejava aos editores em suas cartas, vendo em tudo isso quase uma intriga dos partidários de Dühring. Tal pensamento ocorreria, de fato, muito naturalmente, a qualquer pessoa que visse como esta seção do Anti-Dühring foi impressa.

Finalmente, Engels escreveu uma de suas mais duras cartas a Liebknecht. As cartas de Engels a Liebknecht eram sempre escritas em termos muito claros, mas esta era uma carta para lá de clara. Engels acusou Liebknecht de todos os pecados mortais. Mas Liebknecht sempre demonstrou grande paciência em relação ao “velho”. Explicou a Engels que tudo se devia à campanha eleitoral, e finalmente a paz foi feita entre eles, mas isso foi seguido imediatamente por um novo incidente, o famoso Congresso de Gotha de 1877. A última parte da seção sobre Filosofia foi impressa em 13 de maio de 1877 e o Congresso de Gotha ocorreu de 27 a 29 de maio de 1877. Vejamos como a história deste Congresso é dada por dois autores. Em primeiro lugar, ouviremos Mehring:

Quão grandemente o livro de Engels era necessário foi mostrado talvez da forma mais impressionante pela recepção um tanto desfavorável por parte do Partido. Most e os outros estiveram perto de fechar as colunas dos Vorwärts a ele, dando, assim, para o herege Engels um destino semelhante ao já dado para Dühring pela camarilha oficial da universidade. Felizmente, o Congresso de 1877 não deu esse passo. Unicamente com base em considerações de ordem prática, decidiu continuar a publicação dessa polêmica puramente científica em seu jornal, mas apenas em um suplemento teórico do órgão central. Muitas palavras afiadas foram ditas, no entanto. Neisser acusou o conselho editorial do Vorwärts de não fazer esforços suficientes para uma adequada supervisão do trabalho de Engels e Walteich, que já havia criticado Lassalle, observou, em sua maneira arrogante, que o tom de Engels condenava seu gosto literário à ruína e por causa dele a mensagem espiritual fornecida pelo Vorwärts estava se tornando absolutamente intragável“.

Este é o relato de Mehring. Passemos agora à história de Bebel:

Ainda mais desagradável foram os debates provocados por Most sobre o assunto dos artigos de Engels no Vorwärts dirigidos contra Dühring. Este último tinha conseguido que quase todos os líderes do movimento operário de Berlim ficassem do seu lado. Fui também da opinião de que, para fins de agitação, era necessário apoiar e utilizar toda tendência literária que, como as obras de Dühring, criticava duramente a ordem social existente e se declarava a favor do comunismo. Deste ponto de vista, em 1874 eu já tinha escrito da prisão para o Volkstaat dois artigos sob o título Um novo Comunista, no qual eu examinava as obras de Dühring. Elas haviam sido enviadas a mim por Edward Bernstein que, naquela época, juntamente com Most, Fritsch, etc., pertencia aos mais fervorosos admiradores de Dühring. A circunstância de que Dühring entrou rapidamente em conflito com as autoridades da universidade e com o governo – um conflito que terminou com sua demissão da Universidade de Berlim em junho de 1877 – elevou ainda mais seu prestígio aos olhos de seus seguidores. Tudo isso levou Most a apresentar a proposta de que, para o futuro, artigos como os de Engels contra Dühring, que não apresentassem qualquer interesse à grande massa de leitores ou evocassem a insatisfação dos leitores, não deveriam mais ser publicados no órgão central“.

Tanto Bebel quanto Mehring, no entanto, não mostram exatamente o que ocorreu no Congresso. Havia coisas ainda mais desagradáveis. As observações de Neisser já foram dadas por Mehring. Liebknecht indignou-se contra Neisser. Em seguida, Most e seus companheiros apresentaram uma resolução para que o Congresso declarasse que “artigos como os recentes de Engels contra Dühring são totalmente desprovidos de interesse para os leitores do Vorwärts, e devem ser removidos do órgão central“. Liebknecht, é claro, quis protestar, mas foi introduzida imediatamente outra proposta por Kleimich e seus companheiros, que “as discussões sobre a proposta de Most e outras propostas relativas aos artigos de Engels no Vorwärts deveriam ser introduzidas apenas do ponto de vista prático e nunca do ponto de vista do princípio ou da ciência“.

Esta resolução de Kleimich foi aprovada por trinta e sete votos a trinta e seis. Depois disto, Liebknecht declarou que as discussões perderam todo o significado se sobre esta questão era possível falar somente do ponto de vista prático. Então Bebel e seus companheiros introduziram uma resolução, como segue:

Levando em consideração o comprimento (!) dos artigos de Engels contra Dühring e presumindo que, no futuro, eles vão se tornar ainda mais longos, e tendo em conta que a polêmica que está sendo realizada por Engels nas colunas do Vorwärts contra Dühring ou contra os seus adeptos vai dar a este último e seus adeptos o direito de responder com artigos igualmente longos e, desta forma, tomar excessivamente o espaço do Vorwärts, e tendo em conta que a nossa causa não tem nada a ganhar com isso, já que é uma questão de disputa puramente científica, o Congresso resolve que a publicação dos artigos de Engels contra Dühring no caderno central do Vorwärts cessará, e que todos esses artigos deverão ser impressos no suplemento científico: suplemento do Vorwärts ou como um folheto separado. E, do mesmo modo, todos os futuros debates no que diz respeito a este assunto especial deverão ser removidos do caderno central do Vorwärts”.

Esta resolução foi aceita pelo Congresso depois que Most retirou sua resolução e identificou-se com a proposta de Bebel. Assim, neste Congresso, Bebel desempenhou um papel consideravelmente diferente do descrito em suas memórias.

Liebknecht, em uma de suas cartas a Engels, escreve que, infelizmente, ele não teve chance de conversar sobre essas coisas com Bebel, e Bebel cometeu esse erro. De qualquer modo, todo este episódio relativo aos artigos de Dühring e Engels no órgão central, cujo editor principal era Liebknecht, e no qual Bebel tinha grande influência, é muito característico do calibre intelectual do Partido Socialdemocrata alemão desse tempo.

A polícia e as autoridades universitárias vieram novamente à ajuda de Dühring. O congresso terminou em maio de 1877. Engels teve que continuar seus artigos. Justamente nesse período, Dühring atingiu o auge de sua popularidade. O Ministério da Educação levantou a questão sobre a demissão de Dühring da Universidade de Berlim. Este foi um dos grandes eventos na Europa na época, e foi seguido atentamente em nossa própria pátria onde, já antes disso, o povo tinha começado a se interessar por Dühring. Mikhailovsky escreveu um longo artigo em Notas da Pátria com o nome O Escândalo na Universidade de Berlim. O Vorwärts e Liebknecht também foram obrigados a sair em defesa de Dühring, pois era impossível deixá-lo à mercê das autoridades universitárias. Uma série de artigos apareceu no Vorwärts em defesa de Dühring, e desta vez não como o autor de um sistema definido, mas simplesmente como o defensor da liberdade da ciência que era necessária defender contra o Estado policial prussiano. O Vorwärts publicou até mesmo poemas e odes em homenagem a Dühring, bem no intervalo entre a publicação da primeira e segunda seções do Anti-Dühring. Muitos jovens estudantes – Schippel, Emmanuel Wurm, Firek, Manfred Wittich – vieram em defesa de Dühring junto com Fritsch e Most, o último organizando reuniões de trabalhadores, etc. Os outros, por seu lado, organizaram uma série de reuniões de estudantes, onde Dühring foi defendido como um representante da ciência oprimida. Mehring declara em sua História da Socialdemocracia Alemã que este foi o último movimento idealista entre os estudantes alemães.

Dühring, que atraía simpatia como um sábio perseguido pelo Estado, entretanto, expulsou quase todos os seus adeptos por seu caráter insuportável. No momento em que alcançou o seu maior sucesso ao aproximar-se dos trabalhadores de Berlim e dos seus dirigentes, cometeu uma série de atos que tornaram impossível qualquer tipo de trabalho conjunto com ele. Assim, ele quis opor uma academia livre à universidade estatal, e elaborou regulamentos para esta academia, mas de tal tipo que ele desgostou os socialdemocratas de Berlim. Ele opôs-se a que sua academia livre pudesse ser uma universidade operária, que ele se recusou a considerar, pois ele não tinha a intenção, como escreveu, de dar a ninguém a oportunidade de explorá-lo. Bernstein suspeitava que Dühring, como escreve em duas variantes de suas memórias, organizou a campanha contra Engels no Congresso de Gotha junto com Most. E tinha motivos para isso.

O Berliner Freie Presse, no qual Most e seus companheiros participavam, ainda estava defendendo Dühring in toto em outubro de 1878. Mas, no começo de novembro, ocorreu uma ruptura completa. Dühring chegou à conclusão de que Most e seus amigos tinham a intenção de sacrificá-lo para Liebknecht, e que eles não cumpririam suas promessas, à medida que não conseguissem assegurar o fim da publicação dos artigos de Engels nos Vorwärts. Assim escreveu Bernstein. Dühring declarou que os socialdemocratas simplesmente desejavam utilizá-lo para seu partido, e assim arruinar sua carreira científica.

Bernstein, em outra variante de suas memórias, escreve: “Não foi Engels quem matou Dühring, mas Dühring que se matou“.

A mesma ideia é encontrada em uma carta de Liebknecht a Engels. Naturalmente, isso é um exagero. Dühring perdera prestígio pessoal, mas o culto a Dühring ainda não tinha vencido; era ainda necessário lutar contra ele, e isso foi mostrado mais claramente precisamente em 1878. A nova revista O Futuro foi fundada, cujo antecessor era o suplemento científico do Vorwärts. O programa desta revista, que pretendia servir de órgão científico central do partido, constituía uma mistura tão eclética que Engels escreveu a Marx, com plena justificação, que se havia desenvolvido na Alemanha um novo socialismo vulgar, digno de ser igualado ao “verdadeiro socialismo” de 1845. Consequentemente, Engels escreveu os artigos subsequentes contra Dühring, os das seções Economia Política e Socialismo, de uma maneira diferente. Golpeou Dühring, mas também dirigiu seus golpes contra Most, Fritsch, Liebknecht e Bebel. Em algumas passagens, Engels polemiza diretamente com eles, embora não os mencione pelo nome.

Resta dizer algo sobre o significado do Anti-Dühring. Já mencionei as principais causas da popularidade de Dühring. Isso deve sempre ser lembrado. Dühring deu à juventude revolucionária uma filosofia de mundo. Ele lhes deu um sistema de ideias. Deu-lhes um sistema de respostas a perguntas incômodas. O que tinha um marxista naquela época? Havia o Manifesto Comunista. Mas o Manifesto Comunista, sem tudo o que havia precedido, sem todos os dados preparatórios, do qual foi a conclusão, sem o conhecimento histórico apropriado, era menos inteligível que o Programa dos Trabalhadores de Lassalle. Deve-se acrescentar ainda que foi só quando uma nova edição foi publicada em 1872, depois de ficar esgotado por um longo tempo, que atingiu uma circulação realmente grande. O Capital foi bastante lido. Mas, mesmo para Liebknecht, O Capital foi principalmente um livro que lhe deu material para um discurso no Reichstag sobre a legislação da classe trabalhadora, que lhe fornecia material para algum discurso de aniversário [do partido, ndt.], se quisesse mostrar até que ponto os trabalhadores eram explorados pelo capitalismo. Liebknecht estava francamente convencido, em 1874, de que Buckle era o maior de todos os historiadores e criador de uma nova concepção da história do mundo, enquanto Marx era apenas o criador de um novo sistema econômico. Assim como na Rússia, O Capital, em suas partes filosóficas e histórico-materialistas, permaneceu para os leitores de Marx “um capítulo não lido de um livro favorito” – como Plekhanov expressou.

A colaboração literária de Engels com o Volkstaat (Estado Popular), que apareceu sob a direção de Liebknecht, começou em 1873. Ele teve que responder a várias questões práticas. Um certo Mühlberger escreveu um artigo sobre o problema da habitação, que mostrou que o Estado Popular tinha esquecido a diferença entre Proudhon e o marxismo, e Engels usou esta oportunidade para dar uma magnífica exposição da diferença entre Proudhon e o marxismo neste exemplo concreto. Este era o modo alemão mais erudito e mais fundamental – escrever para uma ocasião concreta. Ainda faltava uma descrição de todo o sistema da filosofia mundial. Isto foi determinado pela primeira vez no Anti-Dühring. O próprio Engels diz-nos onde reside a importância do Anti-Dühring:

Ela (a polêmica contra Dühring) deu, por um lado, a oportunidade de desenvolver de forma positiva, nos temas muito variados tratados no livro, as minhas opiniões sobre questões de interesse científico ou prático mais geral… Foi necessário entrar em todas as suas concepções e declarar as minhas em oposição às dele. A crítica negativa tornou-se, graças a isso, positiva. A polêmica foi transformada em uma exposição mais ou menos conectada do método dialético e da filosofia-mundo comunista defendida por Marx e eu e, além disso, sobre uma gama bastante abrangente de assuntos“.

Engels reconhece, assim, que a polêmica contra Dühring o induziu a apresentar um sistema em oposição a outro sistema, uma filosofia mundial em oposição a outra filosofia mundial. E nisso reside o principal significado do Anti-Dühring. Marx e Engels, naturalmente, sabiam – o que só agora eu sei – que na sua pasta de arquivos estava o manuscrito de A ideologia alemã. Eles sabiam que tinham a possibilidade, nos anos quarenta, de colocar, em oposição à filosofia burguesa do “verdadeiro socialismo”, seu sistema de filosofia comunista mundial. Mas só Marx e Engels sabiam disso. Liebknecht, que havia trabalhado e vivido em estreita colaboração com Marx e Engels durante doze anos, não sabia. Os inúmeros leitores não sabiam e, naturalmente, nenhum leitor do Programa de Gotha poderia ter tido qualquer ideia. Pela primeira vez, em 1878, no Anti-Dühring foi exposto um sistema de filosofia comunista que poderia refutar a filosofia pequeno-burguesa em todas as suas diversas variantes – e, para isso, Marx e Engels, naturalmente, basearam-se em seu trabalho anterior.

Agora (e este é um ponto muito interessante), quando lemos os capítulos de A ideologia alemã dedicados a Feuerbach – eles foram publicados nos Arquivos editados pelo Instituto Marx-Engels -, é possível estabelecer até que ponto Marx e Engels tinham mudado seu ponto de vista. Não desde o tempo da Sagrada Família  na época o camarada Stepanov estaria certo -, pois o ponto de vista adotado por Marx e Engels neste trabalho já havia sido “retirado” na Ideologia alemã. Essa foi uma fase ainda mais remota. Essa era uma aproximação ao marxismo, mas não era ainda marxismo.

Em um de seus artigos contra Heinzen, Marx disse:

Onde ele consegue observar a diversidade, ele não vê a unidade, e onde vê a unidade, ele não vê a diversidade. Quando consegue estabelecer várias definições, elas ficam imediatamente petrificadas em suas mãos, e ele considera como o sofisma mais nocivo a definição dessas concepções umas contra as outras, como se pegassem fogo e viessem à vida”.

Entre o ponto de vista da Ideologia Alemã e o que se desenvolveu no primeiro volume de O Capital não há qualquer tipo de “salto”. As concepções básicas que Engels desenvolveu no Anti-Dühring na seção de Filosofia, mesmo nas partes relacionadas às ciências naturais, já tinham sido completamente formuladas em O Capital em uma série de observações, que foram tão distorcidas por Dühring. No Anti-Dühring, Engels desenvolve o método dialético que Marx e ele tinham criado e que tinham empregado desde 1846, desde o tempo da Ideologia alemã.

Quando publiquei Dialética da Natureza de Engels, que eu tinha descoberto, meu prefácio enfatizou que, em comparação com o que Engels havia dito no Anti-Dühring, este não continha nenhuma ideia nova. Eu escrevi “nenhuma ideia nova” intencionalmente. A tentativa insustentável de alguns companheiros de encontrar algumas diferenças entre o Anti-Dühring e Engels da década de oitenta, que tinha “concepções completamente opostas”, surge do entendimento pouco claro de algumas observações no Anti-Dühring e de uma leitura desatenta do prefácio de Engels para a segunda edição do Anti-Dühring.

O que Engels diz neste prefácio? Que ele está lidando com Dühring em um momento em que estava passando por um “processo de reciclagem” no que diz respeito às ciências naturais. Ele usa uma terminologia pouco exata. Não tinha à sua disposição o que necessitava, e esperava poder mais tarde expor sua concepção em uma forma mais cuidadosamente pensada. Ele escreveu isso em 1885. Quem lê cuidadosamente o prefácio da segunda edição sabe que Engels, de maneira consciente, por um sentimento de peculiar tato literário, preocupou-se com qualquer mudança. É preciso ler as cartas de Engels a Marx para compreender quão difícil foi para Engels, por razões puramente humanas, escrever polêmicas contra Dühring. Ele disse que era muito difícil para ele escrever contra uma pessoa cega. Ele teve que lutar consigo mesmo por um longo tempo para superar esse sentimento claramente sentimental. E, portanto, ele disse novamente em seu prefácio que não poderia ter escrito de outra forma do que fez em 1878.

Eu já me referi, na minha introdução à Dialética da Natureza, a que Engels não conhecia a tabela periódica de Mendeleiev quando escreveu o Anti-Dühring. Não se deve esquecer que os artigos da seção de Filosofia foram todos publicados antes de maio de 1877, e que tinham sido enviados para publicação antes do outono de 1876. Engels não teve a oportunidade de estudar a literatura técnica de química, que estava espalhada em várias revistas científicas. Pode-se mencionar, para justificá-lo, que só em 1877 a exposição da lei de Mendeleiev apareceu em um “compêndio” como o livro de química de Roscoe e Schorlemmer. Engels poderia usá-la para a segunda edição, em 1885, quando tinha à sua disposição uma massa de material que confirmou suas concepções básicas, mas deliberadamente não o fez. No prefácio da segunda edição, ele dá a sugestão de um trabalho futuro, mas não muda de opinião. A mesma concepção básica formulada no Anti-Dühring aparece em notas e projetos de artigos escritos depois de 1878, só que melhor explicada. Em relação a isso, qualquer tentativa de provar uma contradição entre Engels em 1878 e em 1882, baseada no desejo de colocar um novo rótulo em uma velha ideia, está condenada ao fracasso absoluto.

Depois do Anti-Dühring, Engels teve a oportunidade de desenvolver mais plenamente alguns dos conceitos formulados brevemente na seção filosófica de sua polêmica contra Dühring. Em seu trabalho especial sobre Feuerbach, ele fez uma exposição detalhada de suas próprias relações e de Marx com a filosofia de Hegel e Feuerbach. Em conexão com isso, Engels também deu uma resposta positiva a um grande número de questões relacionadas à filosofia, à ética e às ciências sociais. Desta forma, o livro de Engels sobre Feuerbach torna-se não apenas um complemento importante, mas também um excelente comentário sobre os capítulos correspondentes do Anti-Dühring. Não menos importante agora, neste contexto, são as partes que publiquei da Ideologia Alemã e Dialética da Natureza.

Deve-se, especialmente, chamar a atenção para a brilhante descrição de Engels, na primeira parte, da origem e desenvolvimento da ideia de igualdade. Marx já havia mostrado em O Capital que a determinação do valor das mercadorias pelo trabalho [contido nelas, ndt] e da livre troca desses produtos do trabalho em função deste valor é o verdadeiro fundamento de toda ideologia política, jurídica e filosófica da burguesia moderna.

O esboço de Engels serviu de estímulo para uma série de obras marxistas – em particular para Lafargue, Kautsky e Plekhanov – nas quais a origem de vários tipos de ideias “eternas” é investigada.

A segunda seção do Anti-Dühring é dedicada aos problemas básicos da teoria econômica marxista e até hoje constitui a introdução de maior autoridade para um estudo de O Capital. Engels dá definições do assunto, o método e as tarefas de economia política. Sobre este ponto eu não concordo com aqueles que consideram a economia política como uma ciência que investiga apenas as mercadorias e as relações mercantis capitalistas, e com quem concebe o direito apenas como o direito dos produtores de mercadorias. Todas essas tentativas constituem um desejo de dar um “começo” e um “fim” para tudo, de definir exatamente, de apontar com precisão quando o desenvolvimento ainda está em andamento, quando uma forma posterior abole a anterior, explica-a e é em si totalmente explicada pelas formas que a antecederam.

A segunda seção contém artigos notáveis dedicados à teoria da força, pela qual as relações mútuas entre os fatores econômicos e políticos da história da sociedade humana são explicadas de uma forma magistral. Além disso, Engels dá uma história concisa da arte da guerra, mostrando o grande significado que o estudo da história da arte da guerra tem para a interpretação materialista da história. A importância completa desses capítulos só será plenamente entendida quando todos os escritos sobre questões militares de Engels forem publicados, mas, em conjunto com o prefácio ao livro de Borkheim (1887) e o artigo A Europa pode se desarmar? (1893), o esboço que Engels deu no Anti-Dühring representa a formulação mais clara de seus pontos de vista, após longos anos de estudo da história e da teoria da guerra.

Ele foi capaz de prever a futura guerra imperialista e de esboçar suas consequências prováveis com uma precisão quase profética. É verdade que a história da arte da guerra esboçada no Anti-Dühring acaba em 1877. A guerra franco-alemã de 1870 foi a última grande guerra examinada por Engels. A este respeito, o esboço de Engels tem necessidade de suplementação considerável.

Pode-se dizer que algumas das afirmações de Engels não são totalmente incontestáveis. Particularmente quando ele escreveu que os armamentos usados na época da Guerra franco-alemã “tinham alcançado tal perfeição que novas melhorias neste sentido não teriam uma influência decisiva“. Até mesmo as armas de fogo foram submetidas a um desenvolvimento considerável desde 1878. Novos ramos da técnica militar apareceram, com base no desenvolvimento de aviões e da indústria química. O submarino trouxe mudanças na esfera da guerra naval. É verdade que as experiências da guerra de 1914-1918 justificam plenamente as conclusões de Engels baseadas em sua análise da questão da concorrência entre blindados e artilharia. Mesmo na forma de couraçados, o cruzador “foi levado a tal perfeição que se tornou tão invulnerável quanto inadequado para uso“.

Mas Engels revelou de forma notável a dialética interna do militarismo. O militarismo, na sua forma imperialista moderna, traz dentro de si todas as sementes de sua própria destruição.

O que a democracia burguesa de 1848 não poderia trazer, apenas por ser burguesa e não proletária, isto é, dar às massas operárias uma vontade consciente, correspondente à sua posição de classe, irá inevitavelmente ser alcançado no socialismo (comunismo). E isso significa a autodestruição do militarismo e com ele de todos os exércitos permanentes.

A terceira seção do Anti-Dühring lida com o socialismo. Nós já vimos como Bebel avaliou os antecessores de Marx e Engels, os socialistas utópicos. Dühring distorceu, em suas obras, não só a história da economia política, mas também a história do socialismo. O livro de Engels deu um novo e poderoso impulso ao estudo do socialismo. Todas as obras posteriores de Kautsky, Bernstein, Plekhanov e Mehring sobre este tema têm o seu ponto de partida, tanto em relação ao tema em si quanto à sua construção geral, na tese fundamental formulada por Engels em sua exposição da história do socialismo.

Mas isso não foi tudo o que Engels conseguiu na terceira seção do Anti-Dühring. Pela primeira vez desde o Manifesto Comunista, com base nas experiências da revolução de 1848, da Primeira Internacional e da Comuna de Paris, as questões fundamentais do programa, estratégia e táticas para o proletariado foram apresentadas de uma forma abrangente. Pela primeira vez foi demonstrado que o tesouro inesgotável de O Capital de Marx continha as respostas para estas perguntas. Engels, pela primeira vez, expôs completamente como o capitalismo gera e prepara todos os elementos materiais e intelectuais da futura ordem da sociedade. Na mesma seção do Anti-Dühring, pela primeira vez, a concepção marxista do papel e da origem do Estado, já sugerida em A Ideologia Alemã, foi desenvolvida em detalhe em oposição não só a Dühring, mas também aos anarquistas, aos lassalleanos e até mesmo aos eisenachianos [isto é, os membros do partido socialdemocrata ligados ao marxismo, ndt], que não tinham sido capazes de libertar-se da influência do culto lassalleano do Estado.

Não é, de forma alguma, um acidente que um trabalho cuidadoso sobre as questões programáticas só comece após o aparecimento do Anti-Dühring. O Programa de Erfurt da socialdemocracia alemã, que em sua essência é, em parte, a obra de Engels, teria sido inconcebível se não houvesse o tremendo trabalho preparatório feito por Engels no Anti-Dühring. O mesmo pode ser dito do programa do grupo Libertação do Trabalho e do primeiro programa do nosso partido. A parte mais importante do livro de Engels, Do socialismo utópico ao científico, que, da mesma forma que o Manifesto Comunista, é até hoje o melhor manual para dominar os fundamentos do marxismo, é tomada da terceira seção do Anti-Dühring.

No livro de Antonio Labriola, Socialism and Philosophy (Socialismo e filosofia), encontramos o seguinte pensamento:

Cada país, infelizmente, tem o seu Dühring. Quem sabe quantos outros ‘antis’ poderiam ter sido escritos pelos Engels de outros países. Na minha opinião, o significado real do Anti-Dühring é que dá aos socialistas de outros países e outras línguas a possibilidade de armar-se com os métodos críticos sem os quais nenhum ‘Anti-‘ pode ser escrito, e que são essenciais para a luta contra todos aqueles que distorcem ou corrompem o socialismo em nome de vários sistemas sociológicos“.

Labriola estava certo. Em cada país onde o marxismo começa a desenvolver-se, deve deixar de ser o produto de uma “criação estrangeira”. O marxismo só pode triunfar em um país se for bem sucedido em explicar, com base em princípios marxistas fundamentais, as realidades concretas do país em questão; se for bem sucedido em mostrar que o método dialético, o materialismo dialético, representa um método abrangente no sentido de que a realidade concreta em questão, sejam quais forem as “qualidades particulares” com as quais se apresenta, encontra a sua explicação em si mesma, pela luta de suas contradições internas; que todas essas “características específicas” resultam do conflito interno de classe, do desenvolvimento da luta de contradições nesse ponto particular – seja ele histórico, econômico ou geográfico.

Em seu panfleto Quem são os amigos do povo?, Lenin novamente enfatiza a mesma ideia, a saber, que o marxismo só pode conduzir o proletariado contra a burguesia do país em questão quando se torna para o proletariado e para a intelectualidade revolucionária uma nova filosofia comunista de mundo em oposição a todas as variedades da filosofia burguesa. O serviço imortal de Engels a este respeito – e estão corretos os que dizem que o Anti-Dühring é, depois e ao lado de O Capital, a obra marxista mais importante – é que, em oposição à filosofia burguesa de mundo, pela primeira vez foi apresentada esta filosofia comunista de mundo. Ele deixou aos marxistas posteriores a tarefa de desenvolver esta filosofia comunista de mundo com base em experiências novas e em desenvolvimento permanente, em âmbito nacional e internacional, para torná-la cada vez mais completa, mais abrangente, sem nunca esquecer que o resultado só pode ser alcançado graças à ajuda de uma arma tão incomparável quanto o método do materialismo dialético.

Notas:

[1] Lassalleanos eram os adeptos de Lasalle, que dirigia um partido socialdemocrata não-marxista. O partido marxista (os eisenachianos) e o de Lassalle fizeram um congresso de unificação em 1875, que aprovou o Programa de Gotha, muito criticado por Marx e Engels.

[2] Em alemão, Privatdozent, um título conferido a pessoas com especialização em determinada área, o que lhes permite ensinar, mas que não têm diploma de professor.

Tradução: Marcos Margarido