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Há muito debate sobre o significado do conceito de juventude. Cada área do conhecimento humano dá uma definição com seu recorte metodológico e com as suas delimitações. Assim temos definições meramente psicológicas, antropológicas/culturais, biológicas ou sociológicas, etc.

Por: Júlio Anselmo

Apesar disso, um fato inequívoco do qual podemos partir é que se trata de um conceito construído historicamente e guarda relações profundas com as próprias condições econômicas e sociais. Apesar de a juventude ser uma faixa etária na vida de qualquer pessoa, a relação que a sociedade estabelece com seus jovens é construída historicamente e a partir das condições econômicas e sociais existentes. Na verdade, a própria noção de juventude se altera ao longo da história e das distintas formações socioeconômicas.

Por exemplo, houve épocas, como na Idade Média, em que a juventude sequer existia enquanto esta categoria delimitada da vida de um ser humano. Os que tinham a faixa etária que hoje denominamos de jovens eram considerados “velhos em miniatura”.

Isto não se dá por acaso. Como afirma Marx:

(…) uma relação historicamente criada com a natureza e dos indivíduos uns com os outros que a cada geração é transmitida pela sua predecessora, uma massa de forças produtivas, capitais e circunstâncias que, por um lado, é de fato modificada pela nova geração, mas que por outro lado também lhe prescreve as suas próprias condições de vida e lhe dá um determinado desenvolvimento, um carácter especial -, mostra, portanto, que as circunstâncias fazem os homens tanto como os homens fazem as circunstâncias.

O nível do desenvolvimento das forças produtivas, portanto, guarda profunda relação com a própria noção de juventude. Já que em um modo de produção em que não havia o altíssimo nível de produto excedente, quando a economia humana se rebatia pelo problema da escassez mais ou menos permanente, em que as crises econômicas eram inevitavelmente crises ligadas à subprodução, não havia possibilidade para a divisão etária no sentido de existir uma idade preparatória para a vida adulta como a noção que concebemos hoje. Por exemplo, a participação na produção de toda a família na Idade Média era uma necessidade imperiosa pelo nível das forças produtivas até então. Óbvio que possivelmente há exceções em sociedades de classes onde poderia até existir algum nível de faixa etária preparatória para as classes proprietárias ou elite, mas mesmo nesse caso não tinha o mesmo significado dado atualmente.

É possível falar de uma definição psicológica da juventude apenas no mesmo sentido em que falamos de uma definição psicológica do ser humano em geral. Ou seja, é óbvio que o jovem por ser jovem tem características e necessidades distintas do adulto ou idoso. E se relaciona psicologicamente com o mundo à sua volta de forma diferente, específica, dotado de algumas características comuns no geral. Mas o conteúdo desta diferença não o define ou determina por si só, e é também construído socialmente.

Também há aqueles teóricos que partem dos aspectos biológicos e reduzem o conceito de juventude a isso, através do estudo do mero funcionamento fisiológico, neurológico, alteração hormonal, sexual, etc., próprio de cada idade. Esse tipo de raciocínio é similar a um materialismo vulgar. Quem negar este aspecto biológico e material do desenvolvimento do ser humano estará negando a própria realidade. Entretanto, o problema é isolar este aspecto e tratá-lo como a totalidade do que é ser jovem. Quando definimos juventude como uma etapa da vida, uma faixa etária inerente a todos os seres humanos, nos apoiamos justamente neste aspecto biológico, mas o próprio recorte etário é construído também socialmente.

É evidente que dizer que a juventude é construída socialmente não quer dizer que ser jovem independe dessas condições biológicas e psicológicas. Este tipo de interpretação leva a idealismos do tipo de que o jovem é um “estilo de vida” ou um conjunto de características independentemente da idade.

Vale mencionar que é possível considerar jovem e velho como termos relativos, que mudam em relação ao referencial, como afirma Bourdieu. Ou seja, alguém sempre será jovem em relação a alguém. Entretanto, tal argumentação só é possível desconsiderando os elementos biológicos, psicológicos e a faixa etária. E tratando a definição do jovem apenas como referencial de comparação entre idades. Então, só assim o conceito de juventude seria mesmo apenas uma palavra, como defende Bourdieu.

Mas para nós juventude não é apenas uma palavra. Ela nos ajuda a compreender a realidade se considerarmos que juventude é uma faixa etária inerente à vida de todo ser humano, com determinações biológicas e psicológicas, mas que o seu significado e a sua construção se dão em base às condições econômicas, sociais e históricas. Justamente por isso, o próximo passo é buscarmos compreender a juventude pela perspectiva da sua relação com as classes sociais.

Juventude e classe social

A juventude é uma faixa etária peculiar, intermediária entre a infância e a idade adulta. A concepção moderna do termo foi ganhando a conotação de idade transitória em que há uma preparação para o mundo “adulto”. Este sentido foi sendo desenvolvido não à toa, ao longo do século XX, em base a mudanças materiais importantes no capitalismo e, por exemplo, ao mesmo tempo que se desenvolvia a noção de idade escolar. Ou seja, aqui a noção de juventude tem a ver com a massificação do ensino, e o crescimento, ainda que minimamente, do acesso à universidade.

Esta característica da juventude como fase preparatória é comumente idealizada. Ou seja, aqui estamos tratando das questões referentes à relação do indivíduo jovem com o mundo adulto. Assim, dizem que é na juventude que o próprio indivíduo começa a se definir e a planejar o que quer ser. Entretanto, jovens de diferentes classes sociais têm uma preparação completamente distinta, podemos até dizer oposta.

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Esse tipo de abordagem, generalizante abstraindo as contradições, ignora a relação da juventude com os múltiplos fatores econômico e sociais que os determinam, sendo o mais relevante as classes sociais. Há diferenças entre a juventude masculina e feminina, entre a juventude do Hip Hop e a Indie, enfim, há uma diversidade de recortes que podemos distinguir. Entretanto, sem entender a base social, de classe, ficamos míopes para compreender a complexidade do setor que denominamos como juventude.

Marx, na Ideologia Alemã, nos dá a chave para entender esta importância:

Os indivíduos partiram sempre de si, mas, naturalmente, de si no quadro das suas condições e relações históricas dadas, não do indivíduo ‘puro’ no sentido dos ideólogos. Mas no curso do desenvolvimento histórico, e precisamente pela autonomização das relações sociais, que é inevitável no quadro da divisão do trabalho, sobressai uma diferença entre a vida de todos os indivíduos enquanto ela é pessoal e na medida em que ela está subordinada a um ramo qualquer de trabalho e às condições respectivas. (Isto não deve ser entendido como se, por exemplo, quem vive de rendimentos, o capitalista, etc., deixassem de ser pessoas; mas a sua personalidade está condicionada e determinada por relações de classe muito bem definidas, e a diferença só se torna patente no antagonismo face a uma outra classe, e para eles mesmos apenas quando ficam arruinados.)

Então, falar de juventude em abstrato se refere apenas a uma faixa etária inerente a todo ser humano e não há nenhum conteúdo político ou social determinado. Juventude, portanto, não é uma classe social, mas um setor da sociedade onde se expressam as distintas classes. Referir-se à “juventude em geral” parte como pressuposto de um nível de abstração e idealização gigantesco sobre qual classe social da juventude se está realmente falando.

Pelo fato da definição das classes sociais ser fundamental para a compreensão da realidade, esta precisão tem uma importância decisiva. E pela observação empírica podemos atestar o altíssimo grau de heterogeneidade conflitante e contraditória entre a juventude. É tão verdade que a juventude reflete as diferenças, que a mesma é dilacerada pelos conflitos de classe, não havendo uma identificação nem nas necessidades ou interesses mais elementares. Por exemplo, ao se comparar a vida e a localização social, assim como as necessidades, de um estudante universitário burguês e um trabalhador jovem operário, torna bem concreto tudo que estamos afirmando.

Mas há também dificuldades na determinação de classe do jovem se utilizamos a definição marxista que é o papel que cumpre na produção social. Lenin e Krupskaia, no início do século XX, definem jovem proletário como todo aquele que vive da venda de sua força de trabalho. Entretanto, o próprio Trotsky ressalta, em outro momento, a importância da origem social do jovem. Então aqui devemos cruzar dois elementos: a origem social do jovem e a atividade econômica que desenvolve. Assim, temos um panorama mais fiel para a definição da classe social na juventude sob perspectiva marxista.

Há, portanto, uma infinidade de nuances que mudam e muito para precisarmos uma definição sobre juventude. Levando em conta que partimos do corte de classe, poderíamos dizer que a juventude passa por: jovens que apenas estudam, que estudam e trabalham, ou só trabalham, e aqueles que nem estudam nem trabalham. Entrelaçamos a atividade com a origem de classe: jovem burguês, proletário ou pequeno-burguês. Mas para uma definição mais precisa ainda devemos incorporar em nossa análise a diferença entre os setores oprimidos na juventude (negros, LGBTs e mulheres), sob a ótica também do corte de classe, por exemplo, que fica evidentemente exposto quando analisamos jovens LGBTs burgueses e jovens LGBTs proletários e as diferenças que esta definição de classe os coloca. Suscitamos estes aspectos pois estes são os pontos fundamentais no tocante à inserção do jovem no capitalismo, pois está ligada ao tema da exploração e opressão. Como afirmamos acima, poderíamos suscitar outras diferenças como as culturais, mas todas as demais são mais bem compreendidas a partir deste enquadramento.

Bourdieu, como é próprio de sua filosofia, transforma o relativo em relativismo. E diante das distintas particularidades na juventude nega a totalidade. Para ele, portanto, não há juventude, mas sim “juventudes”, que são um aglomerado de particularidades que podemos agrupar ou desagrupar a nosso bel-prazer. A principal diferença em relação a isso é que não recortamos a juventude a nosso bel-prazer, mas partimos das classes sociais justamente por ser um elemento fundamental para a compreensão da realidade social. E é o único caminho para nos dar uma compreensão mais justa sobre como os revolucionários e socialistas atuam sobre este setor tão complexo. Isso não nega o caráter relativo de várias determinações, apenas é um esforço teórico de localizar cada determinação no seu papel e a implicação de uma à outra, como trataremos abaixo.

As características da juventude

Existem características que popularmente são tomadas como próprias da juventude. Por exemplo, rebeldia, propensão à explosão, pulsão, anseio por transformação, inconformismo e serem mais suscetíveis a ideias inovadoras, etc. Há quem atribua tais características aos elementos psicológicos ou até neurológicos, como a explosão hormonal, a descoberta sexual, ou mesmo o desenvolvimento de áreas encefálicas.

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Na verdade, acrescentamos mais um aspecto. Desde que nascemos, apreendemos o mundo onde vivemos, não só o natural, mas também o social. E as milhares de gerações anteriores à nossa construíram a sociedade em que vivemos. A juventude assimila as conquistas e as derrotas da geração anterior. E a juventude projeta sua vida.

Vários pensadores inferem que é por esta característica de projetar a vida, ou seja, de sonhar, junto com o fato de assimilar o mundo da geração anterior e, portanto, partir de outro patamar, que os jovens esculpem aquelas características difundidas como propriamente suas. É correto se fizermos esta análise partindo das diferenças no tocante às classes sociais e das circunstâncias históricas, econômicas e sociais.

Cada jovem passa pela juventude de acordo com suas possibilidades dadas por sua classe social. A juventude burguesa tem tempo e recursos para projetar e se preparar da melhor maneira possível para a vida. Os jovens da pequena-burguesia fazem projetos com todas as oscilações características. Os jovens proletários também projetam uma vida para si com as características das necessidades de sua classe. Mas aqui há uma diferença: muitos dos jovens proletários sequer têm condições de projetar alguma coisa e lutam pela subsistência, não têm nenhuma perspectiva a não ser se tornar um trabalhador o mais rápido possível. Sendo assim, a própria assimilação do mundo das gerações anteriores é mediada pelo corte de classes.

O próprio direito ou noção de juventude é negado ao conjunto de jovens proletários. Por exemplo, basta citarmos os que desde a mais tenra idade têm responsabilidades da vida adulta ou vivem em situações degradantes de exploração infantil, etc. Para o jovem proletário, o próprio direito a juventude, enquanto fase preparatória e intermediária, é negado ou no mínimo relativizado.

O fato de muitos dos jovens de origem proletária serem obrigados a compor parte do exército industrial de reserva, sendo marginalizados pelo capitalismo, lhes sendo relegado a face cruel do trabalho infantil, aliciamento ao crime ou mesmo mendicância, só prova que a brutalidade da sociedade capitalista condena uma parcela da juventude a não ter uma conquista civilizatória assegurada, que é o direito à juventude.

Embora o conjunto dos jovens proletários ou os que chegam ao ponto de serem marginalizados tenham seu direito à juventude atacado, pois a fase preparatória entra em choque com o brutal nível de exploração e busca pela subsistência, eles, em algum nível, também se identificam como jovens. Esta é a contradição a ser exposta: são jovens que não têm direito de ser jovens. Interessante notar que, apesar disso, conseguem criar um vínculo de identidade, por exemplo, através da cultura, como funk ou hip hop, e até mesmo enquanto grupo social com características comuns do jeito de falar a percepção do mundo.

Aqui uma ressalva. Não quer dizer que o trabalho retire da juventude o direito a ser jovem. O problema é o trabalho destinado ao jovem no capitalismo que cumpre esse papel, pelo nível de exploração, pela alienação, pelas necessidades materiais, por não contribuir para a formação do indivíduo. A juventude deve ter direito ao trabalho, mas com direitos sociais assegurados, ligados a suas necessidades educacionais, que ajude a sua formação como ser humano e não que dilacere seu corpo e sua mente. O ponto é que isso só é possível sob o socialismo. Por isso se faz tão importante a luta por condições dignas de trabalho pra a juventude no capitalismo.

Por isso, Marx afirmava o seguinte:

Em uma sociedade racional, qualquer criança deve ser um trabalhador produtivo a partir dos nove anos, da mesma forma que um adulto em posse de todos os seus meios não pode escapar da lei da natureza, segundo a qual aquele que quer comer tem de trabalhar, não só com o seu cérebro, mas também com suas mãos. Porém, por agora, vamos nos ocupar somente das crianças e dos jovens da classe operária. (…)

Seria ótimo que as escolas elementares iniciassem a instrução das crianças antes dos nove anos. Porém, por agora, só nos preocupamos com antídotos absolutamente indispensáveis para resistir aos efeitos de um sistema social que degrada o operário até o ponto de transformá-lo em um simples instrumento de acumulação de capital e que fatalmente converte os pais em mercadores de escravos de seus próprios filhos. Os direitos das crianças, e dos adultos terão de ser defendidos, já que não podem fazê-los eles próprios. Daí o dever da sociedade de combater em seu nome.

Se a burguesia e a aristocracia descuidam-se dos deveres com os seus descendentes, isto é problema deles. A criança que desfruta os privilégios dessas classes está condenada a sofrer seus próprios prejuízos.

O caso da classe operária é completamente diferente. O trabalhador individual não atua livremente. Muitas vezes é demasiadamente ignorante para compreender o verdadeiro interesse de seu filho nas condições normais do desenvolvimento humano. No entanto, o setor mais culto da classe operária compreende que o futuro de sua classe e, portanto, da humanidade, depende da formação da classe operária que há de vir. Compreende, antes de tudo, que as crianças e os adolescentes terão de ser preservados dos efeitos destrutivos do atual sistema. Isto só será possível mediante a transformação da razão social em força social e, nas atuais circunstâncias, só podemos fazê-lo através das leis gerais impostas pelo poder do Estado. Impondo tais leis, a classe operária não tornará mais forte o poder governamental. Ao contrário, fará do poder dirigido contra elas, seu agente. O proletariado conseguirá então, com uma medida geral, o que tentaria em vão com muitos esforços de caráter individual.

Partindo disto, afirmamos que a sociedade não pode permitir que pais e patrões empreguem, no trabalho, crianças a adolescentes, a menos que se combine este trabalho produtivo com a educação.

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Por fim, não negamos os elementos característicos do jovem tratados pela neurologia, psicologia ou os elementos naturais como um todo. E compreendemos o aspecto sociológico da inserção do jovem na sociedade. E é verdade que uma parte da juventude sob determinadas circunstâncias históricas e sociais expressam tais características que lhes são atribuídas comumente. Mas em tempos distintos ou sobre outras circunstâncias históricas e sociais é possível exprimir exatamente o contrário e ser o elo conservador da sociedade. Aqui pesa mais as circunstâncias concretas e a definição de qual setor da juventude falamos do que uma característica permanente e inata da juventude.

Ou seja, a juventude não é revolucionária, nem reacionária por natureza. Não tem como transferir mecanicamente para a política ou para uma caracterização do papel da juventude na sociedade as características enunciadas como próprias. Ou seja, é equivocado substituir a análise concreta das relações sociais, econômicas, culturais e políticas em que estão inseridos os jovens em determinada circunstância para uma definição idealista, utilizando-se de parâmetros como comportamento dos jovens, estilo de vida, pulsão por isso ou aquilo.

Luta geracional e luta de classes

Bourdieu, tomando como base sua definição de juventude e na tentativa de interpretar o fenômeno vivo e dialético das sucessões de gerações, afirma que há interesses próprios de cada geração e que estas estão em luta e em choque. Para ele, há uma luta de jovens contra velhos e vice-versa. E para isso ele define, arbitrariamente e idealmente, o que seriam esses jovens e velhos em luta, deixando ainda no ar o conceito de geração, que talvez seja ainda mais complexo que o de juventude.

Não há uma luta de jovens contra velhos, no sentido que unifique os jovens de todas as classes contra os velhos de todas as classes. Há sim uma luta de classes encarniçada da qual os jovens devem tomar parte, e tomam cada um defendendo seus interesses de classe. Existem jovens burgueses, pequeno-burgueses e proletários que lutam com suas classes entre si e se “enfrentam”, a partir da sua classe social, também com o “mundo adulto”.

O central da concepção de Bourdieu é que, norteado pela sua filosofia, coloca o conflito entre gerações acima do conflito de classes, em que pese identifique a heterogeneidade da juventude, inclusive no que tange às classes sociais. Mas o autor toma como ponto de partida o conflito geracional e não se baseia na luta de classes como ponto fundante de qualquer conflito.

É evidente que para o jovem se colocar no mundo há uma luta geracional, há conflitos, etc. Mas isso é limitado e equivocado para a compreensão da realidade se não tomar como base a luta de classes. Os conflitos geracionais só podem ser compreendidos neste contexto.

Esta soma de forças de produção, capitais e formas de intercâmbio social, que todos os indivíduos e todas as gerações vêm encontrar como algo de dado, é o fundamento real daquilo que os filósofos se têm representado como ‘substância’ e ‘essência do Homem’, daquilo que têm apoteotizado e combatido — um fundamento real que de modo nenhum é afetado nos seus efeitos e influências sobre o desenvolvimento dos homens pelo facto de estes filósofos se rebelarem contra ele como ‘Consciência de Si’ e o ‘Único’. Estas condições de vida que as diferentes gerações já encontram vigentes é que decidem, também, se o abalo revolucionário periodicamente recorrente na história será suficientemente forte ou não para deitar abaixo a base de todo o existente, e quando estes elementos materiais de um revolucionamento total — ou seja, por um lado, as forças produtivas existentes, por outro, a formação de uma massa revolucionária que faz a revolução não apenas contra estas ou aquelas condições da sociedade anterior, mas contra a própria ‘produção da vida’ vigente até agora, contra a ‘atividade total’ em que se baseava — não estão presentes, então é completamente indiferente para o desenvolvimento prático que a ideia desta transformação profunda já tenha sido expressa centenas de vezes — como o prova a história do comunismo.

No próximo artigo, iremos expor à luz dessa compreensão qual a relação entre o partido revolucionário e o movimento de juventude, o papel deste na luta revolucionária e sua relação com a classe operária, segundo Lenin, Krupskaia e as elaborações dos quatro primeiros congressos da Terceira Internacional.

Referências bibliográficas

MARX, Karl. Instruções aos delegados do Conselho Central Provisório, AIT, 1868. In: MARX, K.; ENGELS, F. Textos sobre educação e ensino. 2. ed.

ENGELS, Friedrich; MARX, Karl. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo. 2007.

Publicado originalmente no site Teoria e Revolução