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Em setembro de 1915, alguns poucos dirigentes da II Internacional se reuniram na Conferência de Zimmerwald (Suíça) para tentar chegar a uma posição comum contra a I Guerra Mundial. Entre eles estavam Lenin e Trotsky. Recentemente, dois dirigentes de partidos da LIT-QI (André Freire do PSTU do Brasil e Alicia Sagra do PSTU da Argentina) publicaram artigos sobre este fato histórico no Blog Convergência, com suas visões sobre seu significado. Acreditamos que será de interesse de nossos leitores conhecer ambos os materiais.

Zimmerwald e a luta pela reconstrução do Marxismo Revolucionário
André Freire
Há exatos cem anos, em setembro de 1915, acontecia um importante encontro internacional, que acabou se transformando em um primeiro passo fundamental para a reconstrução do Marxismo Revolucionário. Totalmente abalados e divididos, os marxistas se encontravam em uma encruzilhada, diante traição da Internacional Socialista (II Internacional) e a maioria das direções de seus partidos, especialmente o SPD Alemão, o mais importante e com mais tradição deles, que acabaram apoiando as burguesias de seus respectivos países na I Guerra Mundial. Inclusive, seus deputados nacionais votando a favor, nos parlamentos, da ampliação dos Orçamentos de Guerra (os chamados “créditos de guerra”).
Para se contrapor a política de captulação da maioria da direção internacional, se realizou, entre os dias 5 e 8 de setembro de 1915, a chamada “Conferência Socialista Internacional”, na cidade de Zimmerwald, na Suíça. As discussões na “Conferência de Zimmerwald”, como ficou historicamente conhecida, foram importantes para a afirmação de que as idéias marxistas revolucionárias não tinham morrido, junto com a enorme traição ao proletariado representado pela política da II Internacional na I Guerra Mundial.
Sem dúvida, essa reconstrução de uma internacional revolucionária era uma tarefa de grande magnitude, mas que ficou nas mãos de poucas organizações, agrupamentos e dirigentes marxistas, que naquele momento representavam um setor extremamente minoritário no interior da “poderosa” Internacional Socialista. É impossível, porém, entender à fundo os fatos mais importantes da luta de classes que se seguiram a realização da “Conferência de Zimmerwald” e o papel de enorme relevância que seus participantes jogaram neles, especialmente no desfecho da I Guerra, na Revolução de Outubro de 1917 na Rússia, na derrota da Revolução Alemã na passagem da primeira para a segunda década do século XX e na construção da III Internacional (a Internacional Comunista – “Comintern”).
Daqui há dois anos vamos comemorar o primeiro centenário da Revolução Bolchevique de outubro de 1917. É justo incorporar nessa comemoração histórica, o relevante papel que o Partido Bolchevique jogou – quando ainda era uma organização minoritária (embora, já muito importante) no interior da própria Rússia – na luta contra a traição da social-democracia e nos passos decisivos dentro do movimento dos “Zimmerwaldianos” para a construção da III Internacional, uma superação da já falida II Internacional, desde o ponto de vista da luta revolucionária.
Organizando o encontro
O Partido Socialista Italiano, depois de ter expulsado um ano antes o próprio Mussolini do partido, optou pela neutralidade na guerra, e junto com os socialistas suíços, foram os principais organizadores da “Conferência de Zimmerwald”.
Os dados não são totalmente precisos, mas nela compareceram algo entre 36 e 42 delegados(*1), representando partidos e/ou grupos minoritários no interior dos partidos, de pelos menos 19 países, entre os principais estavam: Itália, Suíça, Alemanha, França, Holanda, Suécia, Romênia, Bulgária, Polônia e Noruega; da Rússia, compareceram três organizações – os Bolcheviques, os Mencheviques e a ala esquerda dos Socialistas-Revolucionários; e os representantes ingleses, do Partido Trabalhista Independente e do Partido Socialista Britânico, não puderem sair do seu país. O Grupo Espartaquista alemão, onde militavam Rosa de Luxemburgo e Karl Liebknecht, não esteve presente.
Ao final dos trabalhos, foi aprovado um Manifesto, elaborado por Leon Trotsky, que condenava a política da II Internacional na I Guerra Mundial, apesar de importantes polêmicas sobre seu conteúdo. Foi constituído também uma Comissão Socialista Internacional (ISK), que representou, na prática, um novo agrupamento internacional. Ou, nas palavras de Lênin “… um novo Birô Socialista Internacional, contra a vontade do velho Birô e sobre a base de um manifesto que condena abertamente a sua tática”.
A ISK representou um passo no sentido da reorganização, à escala internacional, das forças que reivindicavam o marxismo e se opunham a traição a II Internacional. Embora não tenha adotado a estratégia de ruptura com a Internacional Socialista, além da aprovação do seu Manifesto, deu passos também organizativos, como publicações de declarações, boletins e circulares, que informavam ao movimento operário e aos militantes das organizações que nela participavam sobre suas reuniões e iniciativas.
Polêmicas principais
Embora houve um ponto em comum entre seus participantes – a condenação da política da maioria da direção da II Internacional na Guerra – a Conferência de Zimmerwald foi marcada por fortes polêmicas desde o seu início.
Se estabeleceu, nos principais debates, dois agrupamentos. Um majoritário, com posições mais moderadas em relação ao programa a ser adotado pela Conferência; e uma ala esquerda, que expressava de forma mais contundente as posições do marxismo revolucionário. À frente da chamada “esquerda de Zimmerwald” se encontra o Partido Bolchevique russo.
A principal polêmica acabou se concentrando na definição do Manifesto Final da Conferência. Uma proposta majoritária unificou os setores mais moderados e centristas, e contou com 19 votos, contra a proposta apresentada pelos Bolcheviques e alguns aliados internacionais (os Internacionalistas), que contou com 12 votos.
Após intensas discussões, o Manifesto Final acabou incorporando algumas idéias defendidas pelos Bolcheviques, em especial, sobre a definição do caráter imperialista da I Guerra Mundial e a condenação veemente da política “social-chauvinista” (nacionalista) da direção da II Internacional na Guerra.
Porém, mesmo levando em consideração os avanços no conteúdo do Manifesto Final, ainda se mantiveram polêmicas importantes. Entre elas, a negativa da maioria em incorporar no manifesto uma condenação política dos setores pacifistas e centristas que vacilavam a romper por completo com a política majoritária na II Internacional. E, principalmente, a hesitação absoluta da maioria dos presentes em apontar a necessidade urgente de romper com a Internacional social-democrata, dando os primeiros passos para a construção da III Internacional. Política, que era, já naquela altura, a principal preocupação estratégica dos Bolcheviques.
Os Bolcheviques fizeram um balanço positivo da sua atuação na Conferência de Zimmerwald, apesar dos limites programáticos apontados no seu manifesto. Para Lênin, o manifesto significou “um primeiro passo” importante na luta contra o social-chauvinismo da II Internacional e de afirmação de uma alternativa, que se concretizou na montagem da ISK, que na prática aparecia com uma alternativa diante da bancarrota para o projeto revolucionário da direção do antigo Birô Socialista (direção da II Internacional). Em relação ao balanço da atuação dos Bolcheviques em Zimmerwald, Lênin afirmava:
Devia nosso Comitê Central ter assinado um manifesto que possui inconseqüências e timidez? Cremos que sim. Do nosso desacordo – do desacordo não só do Comitê Central, senão de toda a ala esquerda, internacional, marxista-revolucionária da Conferência – falamos francamente tanto na resolução especial, como no projeto especial de manifesto e na declaração especial com motivo de votação em prol de um manifesto de negociação. Não ocultamos nada de nossa opinião, palavras de ordens e táticas. Na Conferência distribuímos a edição alemã do folheto <O Socialismo e a guerra>. Temos divulgado, divulgamos e divulgaremos nossas opiniões não menos do que se divulgará o Manifesto. É um fato que este Manifesto dá um passo adiante até a luta autêntica contra o oportunismo, até o rompimento com ele e a separação dele. Seria sectarismo negar-se a dar esse passo adiante junto com a minoria dos alemães, franceses, suecos, noruegueses e suíços quando conservamos a plena liberdade e a plena possibilidade de criticar a inconseqüência e conseguir mais. Seria uma má tática militar negar-se a marchar junto com um crescente movimento internacional de protesto contra o social-chauvinismo pelo fato de que este movimento seja lento. De que dê unicamente um passo adiante … Em Setembro de 1915 nos unimos estreitamente no grupo da esquerda internacional, expomos nossa tática, conseguimos que toda uma série de idéias fundamentais nossas fossem reconhecidas em um manifesto comum, participamos da formação da ISK (Comissão Socialista Internacional), quer dizer, de fato, na organização de um novo Birô Socialista Internacional, contra a vontade do velho Birô e sobre a base de um manifesto que condena abertamente a sua tática”. (LÊNIN, 1985 [27], pp 39-45).
Lênin valorizou especialmente o fato de os Bolcheviques não esconderem as suas importantes diferenças com o conteúdo do manifesto de Zimmerwald para se manter participando dos seus fóruns. Ao contrário, eles fizeram as polêmicas durante a Conferência, conseguiram incorporar várias de suas teses no próprio manifesto comum e fizeram ainda uma declaração pública , ao final, deixando explícito o que para eles eram os limites daquele documento. Agora, como afirmou Lênin, seria um erro sectário romper precipitadamente com Zimmerwald, pois a participação dos Bolcheviques nessa Conferência significou um passo adiante para a reconstrução o marxismo revolucionário ao nível internacional.
A divulgação do manifesto comum não significou que as polêmicas tenham se encerrado, ao contrário, na verdade, elas se aprofundaram no interior do grupo Zimmerwaldiano e no interior de seus fóruns, principalmente na ISK.
As polêmicas cresceram no final do ano de 1915 e no começo do ano de 1916. As divergências eram consequência do prolongamento da Guerra e da política traidora da II Internacional, que deixava mais evidente os limites programáticos do primeiro manifesto e, especialmente sobre a necessidade de uma ruptura contundente com os setores social-chauvinistas, e também com os pacifistas e centristas, rumo a construção da III Internacional. A intensificação das polêmicas precipitaram a convocação da II Conferência Socialista Internacional, que acabou acontecendo entre os dias 24 e 30 de abril de 1916, na cidade suíça de Kiental.
Rumo à Terceira
O Comitê Central dos Bolcheviques escreveram uma proposta prévia para a Conferência de Kiental, criticando duramente a postura vacilante da maioria do grupo Zimmerwaldiano e reafirmando a necessidade da ruptura completa, política e organizativa, com a II Internacional. Inclusive, a proposta dos Bolcheviques apontava que essa ruptura já estava se dando naturalmente e na prática em vários partidos nacionais. Portanto, era necessário passar imediatamente ao trabalho prático de construção da III Internacional, como afirmava o documento Bolchevique:
Na realidade, a ruptura existe já em todo o mundo; se cristalizou duas políticas da classe operária a respeito da guerra, absolutamente irreconciliáveis. Não devemos fechar os olhos diante deste fato; isso só levaria confusão as massas operárias, obscurecer sua consciência, dificultaria a luta revolucionária de massas com a qual todos os de Zimmerwald simpatizam oficialmente … Os social-chauvinistas e Kautskistas de todos os países são os que se dedicam a reconstruir o fracassado Birô Socialista Internacional. A tarefa dos socialistas é explicar as massas a inevitabilidade de uma ruptura com quem aplica a política da burguesia sob a bandeira do socialismo. (LÊNIN, 1916).
Apesar do recrudescimento da I Guerra Mundial e do papel cada vez mais nefasto da política social-chauvinista da direção da social-democracia, mais uma vez a maioria do grupo Zimmerwaldiano hesita, e não adota as propostas dos Bolcheviques. Principalmente, se nega a apontar a necessidade de uma III Internacional.
Os Bolcheviques fazem um duro balanço da postura vacilante da maioria da segunda Conferência, mas optam por continuar atuando no seu interior, para batalhar pela construção de uma nova organização internacional revolucionária, diante do fracasso evidente da II Internacional.
No entanto, a manutenção dos Bolcheviques na ISK, na prática, foi acompanhada de uma intensificação da luta política, teórica e programática contra a maioria do grupo de Zimmerwald. Afinal, embora o Manifesto de Kiental condenasse mais uma vez a política da II Internacional na Guerra, a maioria de seus grupos e dirigentes já tinham consolidado uma postura pacifista e já ensaiavam os primeiros movimentos que buscariam no futuro uma recomposição política com a velha direção da II Internacional. Neste momento, a conclusão dos Bolcheviques era a seguinte:
Estamos profundamente convencidos de que agora se colocou em evidência, e de forma definitiva, que a maioria de Zimmerwald, ou a direita de Zimmerwald, deu uma virada completa não até a luta contra o social-chauvinismo, senão até a sua total subordinação a ele, até a fusão com ele, sobre a base de uma plataforma de frases meramente pacifistas. Consideramos, pois, que é nosso dever declarar abertamente que, nestas circunstâncias, manter ilusões a respeito da unidade de Zimmerwald e da luta zimmerwaldista pela III Internacional causaria maior dano ao movimento operário. Declaramos, não como ameaça nem como ultimato, senão como notificação pública de nossa decisão, que, ao menos que se modifique esta situação, nós não seguiremos sendo membros do grupo zimmerwaldiano”. (LÊNIN, 1985 [30], página 449).
O retrocesso político da maioria do grupo Zimmerwaldiano até posições pacifistas fica mais explícito ainda nos acordos que eles começaram a concretizar, em vários partidos nacionais, com a velha direção social-democrata, isolando os agrupamentos internacionalistas que se organizavam na esquerda de Zimmerwald.
A intensificação da polarização dos debates no interior do grupo Zimmerwaldiano se combina com a reabertura do processo revolucionário na Rússia. Em fevereiro de 1917, uma revolução derruba finalmente o Czar russo, os Soviets voltam a se organizar e instala-se um governo provisório, de maioria Liberal (Kadetes) mas já com o apoio – e posterior presença no seu interior – de elementos Mencheviques e Socialistas-Revolucionários.
Os Bolcheviques concluem que é necessário aproveitar, inclusive, a abertura política na Rússia, com a queda do Czarismo, para trabalhar abertamente pela construção da III Internacional, rompendo definitivamente com a direita e o centro de Zimmerwald, permanecendo na ISK somente por algum tempo, para deixar nítida suas posições. Afirmavam:
Não podemos tolerar por mais tempo a charca zimmerwaldiana. Não podemos permitir por culpa dos Kautskyanos de Zimmerwald sigamos aliados a medidas com a Internacional chauvinista dos Plekanov e dos Scheidemann. Temos que romper imediatamente com essa Internacional, continuando em Zimmerwald somente com fins de informação … Não esperar, senão proceder imediatamente a fundação da III Internacional: tal é a missão de nosso partido”. (LÊNIN, 1985 [31], pp 178-190).
Ainda foi realizada uma terceira Conferência Socialista Internacional, em setembro de 1917, em Estocolmo (Suécia), mas já sem o apoio e a presença do partido Bolchevique. Este foi o último encontro internacional convocado em nome do Grupo Zimmerwaldiano.
As tarefas práticas do processo revolucionário russo e os debates com aliados internacionais que resistiam ainda em concordar explicitamente com a fundação da III Internacional, em especial com os Espartaquistas alemães (grupo político de Rosa de Luxemburgo e Karl Liebknecht), acabaram por postergar ainda por dois anos a sua criação oficial. O extraordinário impulso da conquista do poder pelos Bolcheviques na Revolução de Outubro de 1917 na Rússia, primeiro Estado Operário da História, permitiram uma situação favorável para a construção de uma nova internacional revolucionária. A III Internacional é fundada então em março de 1919.
O impacto da Revolução Russa no movimento operário internacional e o ascenso revolucionário que sacudiu parte importante da Europa no final da I Guerra Mundial abriram as condições para que a III Internacional se transformasse, em curto espaço de tempo, em um verdadeiro partido mundial da Revolução, com fortes partidos nacionais, que conquistaram grande influência política e número de militantes nos principais países europeus.
Para isso, em primeiro lugar, a inflexibilidade programática e de princípio pela construção de uma verdadeira Internacional Revolucionária, aliada a flexibilidade tática de saber lutar por esta proposta implacavelmente no interior do grupo Zimmerwaldiano e da ISK, foi um importante processo de acúmulo de forças, pelos Bolcheviques e os Internacionalistas, para a construção da III Internacional.
A força política e programática e a dimensão que a “Comitern” adquiriu já no início da década de 20 do século passado não podem ser compreendidas sem um rigoroso estudo da irreconciliável luta política e teórica que os Bolcheviques fizeram no interior da social-democracia e do grupo de Zimmerwald, quando ainda eram uma organização minoritária no interior do marxismo, pela ruptura e superação da II Internacional, frente a sua traição na I Guerra Mundial, e a urgente construção da III Internacional.
Essa é a importância de recordarmos e comemorarmos o centenário da Conferência de Zimmerwald, pois, nos dias de hoje, a defesa do marxismo revolucionário também nos exige a mesma firmeza ideológica e de princípios, aliada a flexibilidade nas táticas políticas, que os Bolcheviques tiveram diante da enorme traição da social-democracia na I Guerra Mundial e nos passos que foram necessários adotar para lutar, em melhores condições, para a construção da III Internacional.
Nota:
(*1) – TAU GOLIN, no seu texto “Introdução aos anais do partido mundial da revolução”,  fala em 42 delegados; já PIERRE BROUÉ, no seu livro “História da Internacional Comunista”, fala em 36 delegados, vindos de 19 países diferentes;
Bibliografia:
BROUÉ, Pierre, “História da Internacional Comunista“, Sundermann, São Paulo, 2007.
GOLLIN, Tau, “Introdução aos anais do Partido Mundial da Revolução, publicado em “III Internacional Comunista“, Brasil Debates, São Paulo, 1988.
LÊNIN, Vladimir, “O Primeiro Passo”, Editora Progresso, Tomo 27, Obras Completas, Moscou, 1985.
LÊNIN, Vladimir, “Proposta do Comitê Central do POSDR a Segunda Conferência Socialista”, Boletim número 3 da Comissão Socialista Internacional, 29 de fevereiro de 1916.
LÊNIN, Vladimir, “O Primeiro Passo”, Editora Progresso, Tomo 27, Obras Completas, Moscou, 1985.
LÊNIN, Vladimir, “Rascunho do projeto de teses para uma mensagem a Comissão Socialista Internacional e a todos os partidos socialistas”, Editora Progresso, Tomo 30, Obras Completas, Moscou, 1985.
LÊNIN, Vladimir, “As tarefas do proletariado em nossa revolução”, Editora Progresso, Tomo 31, Obras Completas, Moscou, 1985.
Aos 100 anos da Conferência de Zimmerwald, que lições tirar?
Alicia Sagra
Em setembro deste ano, quando se completam 100 anos da Conferência de Zimmerwald, foi publicada uma grande quantidade de artigos e ensaios referindo-se a este acontecimento. Como não podia ser diferente, na maioria deles, explícita ou implicitamente, toma-se a política de Lenin diante dessa Conferência como um exemplo a ser seguido para responder à situação atual.
Alertando que as analogias históricas devem ser muito cuidadosas, já que é necessário contemplar os diferentes contextos da luta de classes que estão sendo comparados, nós estamos de acordo em que a política leninista diante de Zimmerwald e do centrismo é um guia fundamental para responder à situação atual: Syriza, governo de Cristina Kirchner, de Dilma etc. O problema que vemos, pelos diferentes trabalhos publicados,  é que existe uma grande confusão sobre o que foi Zimmerwald e sobre qual foi a política dos bolcheviques naquele período.
O que foi a Conferência de Zimmerwald?
Não foi uma frente única operária, nem um bloco permanente entre revolucionários e centristas, e muito menos uma frente única revolucionária. Foi um encontro dos pouquíssimos dirigentes da Segunda Internacional que estavam contra a guerra imperialista. Trotsky, que cumpriu um papel fundamental na Conferência, descreve-a da seguinte maneira:
Em janeiro de 1915, apresentou-se em Paris o deputado italiano Morgari, secretário da fração socialista do Parlamento e eclético simplista, com a intenção de convocar os socialistas franceses e ingleses para uma conferência internacional (…) A organização da conferência ficou a cargo de Grimm, dirigente socialista de Berna, que naquele momento se esforçava o quanto podia para superar o nível de limitação de seu partido, e o seu próprio. Tinha escolhido para a reunião um lugar situado a dez quilômetros de Berna, uma aldeiazinha chamada Zimmerwald, no alto das montanhas. Nos acomodamos como pudemos em quatro carros e tomamos o caminho da serra. As pessoas ficavam olhando, com expressões de curiosidade, para esta estranha caravana. Para nós também era engraçado que, cinquenta anos depois da fundação da Primeira Internacional, todos os internacionalistas do mundo pudessem caber em quatro carros. Mas naquela piada não havia o menor ceticismo. O fio da história se rompe com muita frequência. Quando isso ocorre, não há o que fazer senão amarrá-lo novamente. Isso era precisamente o que íamos fazer em Zimmerwald. Os quatro dias de duração da conferência – de 5 a 8 de setembro – foram dias agitadíssimos. Deu muito trabalho fazer com que a ala revolucionária representada por Lenin e a ala pacifista à qual pertenciam a maioria dos delegados chegassem a um manifesto coletivo, esboçado por mim.
O manifesto não dizia tudo o que tinha que dizer. Muito pelo contrário. Mas era, apesar de tudo, um grande passo em frente. Lenin mantinha-se na extrema esquerda. Diante de uma série de pontos, estava sozinho. Eu não me contava formalmente entre a esquerda, ainda que estivesse identificado com ela no fundamental. Lenin temperou em Zimmerwald o aço para os empreendimentos internacionais que haveria de pôr em marcha e pode-se dizer que naquela aldeiazinha da montanha suíça foi onde se colocou a primeira pedra para a internacional revolucionária (…) Liebknecht não compareceu à Zimmerwald. Já era prisioneiro no exército dos Hohenzollers, antes de ir ao presídio. Mas enviou uma carta, na qual passava bruscamente da frente pacifista para a frente revolucionária. Seu nome foi citado muitas vezes na conferência. Aquele nome já era uma consigna na luta que estava rompendo o socialismo mundial (…) A conferência de Zimmerwald deu um grande impulso ao movimento contra a guerra nos diversos países. Na Alemanha, contribuiu para intensificar a ação dos espartaquistas (…) As diferenças de opinião, puramente acidentais, que me haviam separado de Lenin em Zimmerwald se apagaram no transcurso dos meses seguintes (…).” (Paris e Zimmerwald, Minha Vida, Leon Trotsky. Grifos nossos.)
A reunião, o Manifesto que foi acordado depois de “muito trabalho”, assim como a conexão internacional que foi mantida, foram considerados por Lenin como “um passo adiante em direção à luta autêntica contra o oportunismo, à ruptura e à separação dele“, que além do mais ia contra a proposta de Kautsky (a principal figura do centrismo), que defendia que somente com o fim da guerra seria possível reestabelecer as relações internacionais.
Essa “internacional zimmerwaldiana”, como foi denominada por Lenin, teve uma vida muito curta. Mas nunca foi um bloco dos revolucionários com os centristas. Pelo contrário, durante a Conferência, Lenin desenvolveu um violento combate contra os centristas, apesar de estar em uma evidente minoria (8 de 38 delegados). Ele sabia que a sua proposta não podia ganhar a Conferência, mas queria ganhar para ela os melhores quadros da Segunda Internacional. É por isso que Trotsky afirma que “Lenin temperou em Zimmerwald o aço para os empreendimentos internacionais que haveria de pôr em marcha”. E, segundo sua própria afirmação, ele mesmo foi ganho, nos meses seguintes, para a maior parte das propostas leninistas.
Coerente com essa política, Lenin exigiu que, junto com o Manifesto comum, também fosse publicada a resolução apresentada por Radek em nome da “esquerda zimmerwaldiana”, que propunha:
Rejeição aos créditos de guerra, saída dos ministros socialistas dos governos burgueses, necessidade de desmascarar o caráter imperialista da guerra na tribuna do parlamento, nas colunas de imprensa legal e, se for necessário, ilegal, organização de manifestações contra os governos, propaganda nas trincheiras em favor da solidariedade internacional, proteção das greves econômicas tratando de transformá-las em greves políticas, em guerra civil, e não em paz social.
Não há possibilidade de ganhar a classe operária com posições centristas
Essa era a posição de Lenin e assim a apresenta em seu texto O socialismo e a guerra, de agosto de 1915, cuja versão em alemão foi distribuída na Conferência de Zimmerwald. Nesse texto, ele faz uma análise crítica das reuniões internacionais que precederam Zimmerwald:
No curso de um ano de guerra presenciamos várias tentativas de reestabelecimento das relações internacionais (…) Referimo-nos às conferências de Lugano e de Copenhague, à Conferência Internacional de Mulheres e à Conferência Internacional da Juventude. Essas reuniões foram movidas pelos melhores desejos, mas não viram em absoluto o perigo assinalado. Não traçaram a linha de combate dos internacionalistas. Não mostraram ao proletariado o perigo ao qual era exposto pelo método social-chauvinista de ‘reconstrução’ da Internacional. No melhor dos casos, limitaram-se a repetir as velhas resoluções, sem indicar aos operários que, se não lutam contra os social-chauvinistas, a causa do socialismo é uma causa desesperada. No melhor dos casos, não fizeram mais que marcar passo sem sair do lugar.
No mesmo texto, Lenin explica por que os centristas são mais nefastos que os social-patriotas:
Estamos convencidos de que o autor do artigo editorial da revista Die Internationale tinha toda a razão ao afirmar que o ‘centro’ kautskista causa mais dano ao marxismo que o social-chauvinismo descarado. Aqueles que encobrem agora as divergências e pregam aos operários, sob uma aparência de marxismo, o mesmo que prega o kautskismo, adormecem os operários e são mais nocivos que os Sudekum e os Heine, que apresentam o problema da frente e obrigam os operários a analisá-lo.
E finaliza, no momento em que os revolucionários viviam uma situação de profundo isolamento do movimento de massas, com uma definição taxativa sobre qual é a única forma de ganhar a simpatia da classe operária:
As conferências em torno dos denominados programas de ‘ação’ se limitavam até agora a proclamar mais ou menos integralmente um programa de pacifismo somente. O marxismo não é pacifismo. É indispensável lutar pelo fim mais rápido da guerra. Mas a reivindicação da ‘paz’ somente adquire um sentido proletário quando se faz o chamado à luta revolucionária. Sem uma série de revoluções, a pretendida paz democrática não é mais que uma utopia pequeno-burguesa. O único programa verdadeiro de ação seria um programa marxista que dê às massas uma resposta completa e clara sobre o que passou, que explique o que é o imperialismo e como se deve lutar contra ele, que declare abertamente que o oportunismo levou a Segunda Internacional à bancarrota e que chame abertamente a fundação de uma Internacional marxista sem os oportunistas e contra eles. Somente um programa assim, que demonstre que temos fé em nós mesmos e no marxismo, e que declaramos uma guerra de vida ou morte ao oportunismo, poderá nos assegurar, cedo ou tarde, a simpatia das massas proletárias de verdade.
Sua posição inflexível contra o centrismo kautskista faz ele ser muito duro com aqueles que considera que capitulam a este. É o caso de Martov, Rakovsky e também de Trotsky, que Lenin questiona não só por não haver rompido totalmente com suas expectativas conciliadoras e  não assumir o “derrotismo revolucionário”, mas, além disso, por levantar a proposta de “Estados Unidos Republicanos da Europa“. Lenin considera que esta proposta, além de ser reacionária por propor a unidade de países imperialistas, é uma capitulação a Kautsky.
Desde o primeiro momento: delimitação categórica com os centristas, nenhum bloco com eles
Em janeiro de 1917, Lenin escreve Zimmerwald na encruzilhada, em que diz: Desmascarar tudo o que é acessório, absurdo, hipócrita no pacifismo burguês, ou ‘parafrasear’ o seu pacifismo ‘socialista’? Lutar contra os Jouhaux e os Renaudel, contra os Legien e os David como ‘mercenários’ dos governos, ou unir-se a eles sobre a base de declamações pacifistas e vazias de molde francês ou alemão? Esta é a linha divisória segundo a qual se produz a separação entre a direita de Zimmerwald, que se rebelou sempre e com todas as suas forças contra uma cisão com os social-chauvinistas, e a sua esquerda, que já em Zimmerwald teve, não em vão, a preocupação de marcar abertamente um limite com a direita, de intervir, na conferência e depois dela, na imprensa, com uma plataforma distinta.
Esta delimitação categórica com os centristas, desde o primeiro momento, é reafirmada no projeto de plataforma do partido proletário, escrito por Lenin em 10 de abril de 1917 (As tarefas dos proletários em nossa revolução). No ponto 17, com o subtítulo Bancarrota da Internacional Zimmerwaldiana. Necessidade de criar a Terceira Internacional, afirma-se: A Internacional Zimmerwaldiana adotou desde o primeiro momento uma atitude vacilante, ‘kautskiana’, ‘centrista’, o que obrigou a Esquerda de Zimmerwald a se separar imediatamente dela, a tornar-se independente e lançar um manifesto próprio (manifesto publicado na Suíça em russo, alemão e francês).
Trotsky confirma e reivindica a atitude de Lenin diante do centrismo
Em 1929, respondendo a um crítica de ser muito duro com o centrismo e muito suave com a direita, Trotsky diz: Mas os centristas, assim como a direita, estão à nossa direita. Ao combater o centrismo, empreendemos um duplo combate contra a direita, porque o centrismo não é senão uma forma modificada, disfarçada, mas enganadora do oportunismo“. (Diplomacia ou política revolucionária?, Carta a um camarada tchecoslovaco, 1 de julho de 1929)
De forma autocrítica, acrescenta no mesmo texto: O próprio Lenin foi acusado de se esquecer da direita e de ajudá-la ao combater os centristas de esquerda. Eu mesmo fiz isso mais de uma vez. Este, e não a revolução permanente, foi o erro fundamental do ‘trotskismo histórico’. Para chegar de verdade ao bolchevismo, não com um passaporte stalinista, é necessário compreender plenamente o significado e a atitude intransigente de Lenin em relação ao centrismo; sem isso não é possível chegar à revolução proletária (…) Cresceremos rápida ou lentamente? Não sei. Não depende unicamente de nós. Mas cresceremos inexoravelmente… com uma política correta (…).
Esta reafirmação autocrítica que Trotsky faz da política leninista corrobora o que manifestamos no início deste artigo: política leninista em relação à Zimmerwald e ao centrismo são um guia para responder aos desafios atuais. Como disse Trotsky, podemos crescer mais rápido ou mais devagar, mas não poderemos chegar à revolução proletária se não assumirmos a atitude intransigente de Lenin em relação ao centrismo.