Uma onda de protestos sacode o Sudão desde o último dia 19 de dezembro. Os protestos começaram em Atbara, um entroncamento ferroviário no norte do país, logo após a visita do presidente Omar Al-Bashir ao ditador sírio Bashar al-Assad.

Por: Fábio Bosco, de São Paulo, 31/12/2018

Em 24 horas os protestos se espalharam por Omdurman, Port Sudan, Al-Qadarif, Umm Ruwaba, Al-Tartar até chegar à capital Cartum. O pano de fundo deste levante é a crise econômica e a desvalorização cambial que levou ao empobrecimento da população. O preço do pão triplicou e há escassez de combustíveis. A inflação chegou a 70% por ano.

Sindicatos engrossam o movimento

No dia 24 de dezembro o sindicato dos médicos decretou greve por tempo indeterminado afetando 40 hospitais e centros médicos. No dia 27 foi a vez do sindicato dos jornalistas decretar greve por três dias. Por fim o sindicato dos advogados decretou um dia de greve para o dia 31 quando foi realizada a segunda marcha ao palácio presidencial convocada por uma coalizão de sindicatos e associações civis, e apoiadas por partidos e líderes de oposição.

O dia 31 de dezembro é a véspera do aniversário da independência nacional. Neste dia centenas de manifestantes marcharam em direção ao palácio presidencial e foram recebidos com gás lacrimogênio e tiros de bala ainda no centro da capital Cartum. Os manifestantes gritavam “Liberdade, paz e justiça” e “a revolução é um direito do povo”. Dezenas foram presos. A presidente do sindicato dos médicos, Sara Abdelgalil, relatou desde Londres que quatro manifestantes estão gravemente feridos. A agência de notícias Reuters noticiou que vários advogados em greve em frente aos tribunais em Cartum e na cidade de Wad Madani foram presos.

O conhecido líder rebelde da região de Darfur, Abdel Wahid al-Nur, convocou seus apoiadores a participarem dos protestos. Partidos burgueses de oposição como o Umma (Comunidade) e a União Democrática, majoritários entre a população muçulmana do ramo sufi, defenderam a saída do presidente Omar Al-Bashir. Já o Partido Islâmico, que integra a base de apoio ao governo Bashir, pediu uma investigação sobre as mortes ocorridas.

Bashir responde com repressão e promessas

A repressão é brutal. Segundo a anistia internacional, já são 37 mortos e 200 feridos. Além disso foram presos jornalistas, ativistas e dirigentes de partidos políticos de oposição como Omar el-Digeir do Partido do Congresso e Siddiq Youssef do Partido Comunista. Várias escolas estão fechadas. Foi declarado estado de emergência em várias regiões do país. O acesso à internet também está cortado.

O governo prometeu reformas para garantir uma vida digna para os cidadãos. Ele afirmou que entende a insatisfação mas acusou o Estado de Israel e os partidos de esquerda pela instabilidade no país. No dia 31 de dezembro o presidente Bashir voltou a prometer reformas para melhorar a vida da população mas no dia anterior, em palestra para oficiais da polícia, ele defendeu a repressão.

Apoio Internacional

Os governos do Egito, do Qatar e da Turquia anunciaram seu apoio ao ditador Bashir. O ministro de relações exteriores do Egito, em reunião com o ditador no dia 27, afirmou que o Cairo está sempre pronto para prover apoio ao Sudão em acordo com as políticas do governo sudanês.

O vice-presidente do partido governista turco justiça e desenvolvimento Cevdet Yilmaz também expressou o apoio ao governo de Bashir após reunião com o embaixador do Sudão no dia 26: “Apoiamos o governo legítimo do Sudão. A Turquia enfrentou muitas vezes manobras similares”.

Já o emir Tamim bin Hamad bin Khalifa Al-Thani do Qatar também se comprometeu em prover toda a ajuda possível para possibilitar ao governo sudanês a superação do que ele descreveu como a atual provação.

“Sem nós, os houthis tomariam toda a Arábia Saudita, inclusive Meca”

As relações com a Arábia Saudita e os Emirados Árabes também vão bem. O governo saudita “contratou” 14 mil soldados sudaneses para combater os rebeldes houthis no Iêmen. Segundo denúncia do New York Times em 28/12/2018, entre 20% e 40% destes soldados são menores de idade e tem entre 14 e 17 anos. Muitos deles são das famílias de refugiados de Darfur que não encontram outra forma de sobreviver e recebem dez mil dólares para entregar seus filhos para se tornarem soldados no Iêmen. Esses soldados, que recebem soldo mensal de cerca de US$ 500 e mais extras por combate, jogam um papel decisivo no esforço de guerra saudita.

Um soldado sudanês, Mohamed Suleiman al-Fadil, afirmou que “sem nós (os soldados sudaneses), os houthis tomariam toda a Arabia Saudita, inclusive Meca”. Outros países aliados dos sauditas enviaram contingentes bem menores. O Paquistão enviou mil soldados e a Eritréia 400. A Jordânia enviou aviões e conselheiros militares.

Hafiz Ismail Mohamed, um consultor econômico sudanês crítico do governo, afirma que “As pessoas estão desesperadas. Elas estão lutando no Iemên porque sabem que no Sudão elas não tem futuro”. E completou “Estamos exportando soldados para lutar como se eles fossem uma commodity que trocamos por moeda estrangeira”. Outros fatos vêm ao encontro dessa análise. Um painel da ONU relata que soldados sudaneses foram contratados para lutar na Líbia ao lado do General Khalifa Hifter.

Normalização com a Síria e Israel

Às vésperas do levante em seu país, Omar El-Bashir foi visitar o ditador sírio Bashar el-Assad, o responsável pela morte de cerca de 500 mil sírios e pela destruição de cidades e vilas. Para quem executou um processo de limpeza étnica em Darfur, ele deve ter se sentido em casa. Bashir foi o primeiro mandatário árabe a ir à Síria, mas não está só. Outros países árabes se preparam para reabrir suas embaixadas em Damasco e o ditador sírio deve voltar a participar das reuniões da Liga Árabe.

Mas a grande jogada está por vir. A imprensa israelense – Israeli Public Broadcasting Corporation – citando fontes em Jerusalém afirmou que “equipes israelenses estão trabalhando em construir relações com esta república africana”. Desde sua visita à Omã em outubro, há especulações que o próximo país árabe a ser visitado pelo primeiro-ministro sionista Binyamin Netanyahu é o Sudão. Os sinais de aproximação já ocorrem há alguns anos.

Após o governo sudanês romper relações diplomáticas com o Irã em 2015, o diário israelense Haaretz afirmou que o governo sionista conclamou os Estados Unidos e outros países a melhorar as relações com o Sudão.

Em janeiro de 2016 o ministro de relações exteriores do Sudão, Ibrahim Ghandour, se comprometeu a normalizar as relações com o Estado de Israel se o governo americano suspendesse as sanções econômicas. Em 2017 as sanções foram suspensas parcialmente pelo governo Obama em janeiro e depois completamente pelo presidente Trump em outubro ainda que o Sudão ainda conste na lista feita pelo governo americano de países que apoiam o terrorismo.

Em 20 de Agosto de 2017 o ministro de investimento Mubarak al-Fadil al-Mahdi defendeu a normalização afirmando ao canal 24 da TV sudanesa que “os palestinos, eles mesmos, normalizaram as relações com Israel e até mesmo o Hamas está conversando com Israel”.

O próprio Netanyahu, quanto à ampliação de relações diplomáticas, afirmou que o Estado de Israel quer “chegar ao coração da África”, em conferência de imprensa em Tel Aviv por ocasião da visita do presidente do Chade, Idriss Deby, em novembro passado, a primeira visita após 46 anos de rompimento diplomático com o país africano.

Todos esses sinais acontecem ao mesmo tempo em que autoridades sudanesas negam qualquer relação com o Estado sionista. Abdel-Saki Abbas, um dirigente do Partido Nacional do Congresso, o mesmo do presidente Bashir, afirmou que Netanyahu “não pode visitar o Sudão e que o que foi anunciado por uma rádio israelense não tem qualquer base”.

Um regime brutal

O presidente Bashir está no poder desde junho de 1989. Ele assumiu o poder em um golpe militar em uma situação de crise semelhante à atual: economia frágil, escassez de alimentos, violência e guerra civil. No entanto seu governo não trouxe mudança. Apesar de ter grandes áreas de terras agriculturáveis, há escassez de alimentos.

Ele também continuou a guerra. Desde 1983 rebeldes do sul do país lutam por independência. Após dois milhões de mortos, o Sudão do Sul arrancou sua independência em janeiro de 2011 e a paz em 2015.

Em 2003 Bashir impulsionou um processo de limpeza étnica em Darfur, no sudoeste do país, contra a população negra não-arabizada, armando milícias locais rivais denominadas de Janjaweed. Foram ao redor de 300 mil mortos, um milhão de refugiados e milhares de estupros. Em 2008 a Corte Internacional de Justiça de Haia indiciou Bashir por genocídio e crimes contra a humanidade em Darfur e emitiu pedido internacional de prisão contra ele.

Em 2013 Bashir reprimiu violentamente protestos na capital Cartum. 200 manifestantes foram mortos em um único dia.

Ventos da segunda onda das revoluções árabes?

Bandeiras da revolução síria foram vistas nas mãos dos manifestantes sudaneses. Frente à visita do presidente Bashir a Damasco, estes ativistas pareciam dizer a todo o mundo árabe “não em nosso nome”.

As revoluções do mundo árabe começaram na Tunísia em dezembro de 2010 e depois se espalharam. Hoje as mobilizações voltaram na Tunísia, tanto na forma de protestos nas ruas como na forma de greves gerais.

As difíceis condições de sobrevivência às quais estão submetidos os povos de toda a região podem estar chegando ao ponto da eclosão de lutas e protestos.

Ao mesmo tempo a terrível repressão e a falta de uma organização revolucionária que possa dirigir eventual processo de retomada revolucionária são obstáculos importantes.

Mas, como em todo o mundo, a luta de classes dará a palavra final.

 

Todo apoio aos protestos no Sudão!

– Abaixo a repressão! Abaixo a ditadura!

– Pelo cancelamento do aumento do preço do pão e demais produtos básicos!

– Unidade entre as lutas dos trabalhadores e da população das regiões oprimidas!

– Pela solidariedade mútua entre as lutas em todo o mundo árabe e África!

– Por um governo das trabalhadoras e trabalhadores rumo a um Sudão livre e socialista, parte de uma Federação de Repúblicas Socialistas!