Novembro foi um mês de muitos acontecimentos na Europa Oriental, onde as contradições entre a UE por um lado, e a Rússia por outro, vêm se agravando sob diversas formas. As expressões mais claras disso foram a crise energética ao redor do aumento dos preços do gás da Rússia para a Europa, assim como a crise na fronteira Belarus-Polônia, onde milhares de imigrantes do Oriente Médio se encontram a caminho dos países da UE.

Por: POI-Rússia

Numerosos vídeos e fotografias de lá recordam confrontos militares, com imigrantes tentando a todo custo atravessar a fronteira com a UE, e as forças de segurança polacas travando contra eles uma verdadeira batalha.

Evidentemente, não é segredo que o confronto na fronteira entre a Polônia e a Belarus se insere em um conflito mais amplo entre a Rússia e a União Europeia (juntamente com os EUA), que assume formas tão esdrúxulas como a crise migratória. Putin salvou o seu “companheiro” Lukashenko da revolução e do ressentimento popular do povo bielorrusso no ano passado, e continua a dar apoio em troca de que a Belarus se mantenha na esfera de interesses da Rússia, como agora no caso do reconhecimento por Lukashenko da Crimeia como russa de fato. E enquanto a União Europeia não reconhecer Lukashenko como presidente eleito e seguir lhe impondo sanções, o ditador bielorrusso só pode contar com a ajuda de Putin, vendendo o seu país aos capitais russos e envolvendo-se nos jogos geopolíticos da Rússia.

E para Putin é sobretudo importante salvar o seu regime policial no país, baseado na FSB (polícia política), e preservar o domínio dos capitais russos e sua influência nos países da CEI. Até 2020, o ponto mais doloroso para o regime de Putin e para a preservação da “grandiosidade” da Rússia era a Ucrânia. Ganhar a guerra contra a Ucrânia, manter a Crimeia conquistada, e desta forma trazer de volta o maior país da CEI (depois da própria Rússia) à sua esfera de interesses foi e continua a ser a principal tarefa de Putin.  A revolução na Belarus em 2020 criou uma nova ameaça ao regime de Putin, porque um levante democrático de massas contra Lukashenko poderia se tornar um exemplo para os próprios cidadãos da Rússia, bem como enfraquecer a ligação da Belarus com a Rússia. Da mesma forma como na guerra de Karabakh no Cáucaso (quando a Turquia interveio na esfera de interesse da Rússia) e na revolução no Quirguizistão contra as autoridades corruptas, que vendem os recursos do seu país e deixam o povo sem nada (razão pela qual os quirguizes deixam seu país em massa).

Os políticos europeus e americanos, que defendem os interesses de seus bancos e corporações, não estão dispostos a aceitar todos os movimentos que Putin realiza para preservar o seu regime e a “grandiosidade” da Rússia. Estes políticos se apresentaram durante anos como supostos defensores da democracia e da liberdade. Mas a verdade é que sempre se mostraram dispostos a negociar com qualquer ditador, desde que possam realizar seus negócios. Assim também, há anos que a líder da União Europeia, a Sra. Merkel, conduz um “diálogo” com Putin, utilizando o chicote das “sanções” e a cenoura dos “acordos do gás”. O mais importante sempre foi e continua a ser o mesmo – garantir que Putin de sua parte assegure o bom andamento dos negócios. O Presidente russo, para sua infelicidade, em 2014 fraquejou e não conseguiu refrear a revolução ucraniana. Ao invés disso, como uma criança caprichosa, anexou a Crimeia e fez desta “conquista” um motivo de orgulho ante os cidadãos russos. Putin quer uma única coisa da UE e dos EUA – que reconheçam seu direito à Crimeia, à sua esfera de influência, que reconheçam o direito da Rússia a impor a ordem e o controle nos países da CEI, e que a UE e os EUA conduzam os seus negócios nestes países exclusivamente através da sua mediação. Mas ao mesmo tempo, a própria Rússia permanece profundamente submissa aos capitais da UE e dos EUA, todo o país está na pobreza enquanto repassa quantias colossais de dinheiro aos bancos ocidentais. As corporações russas estão todas endividadas, a tecnologia é toda europeia e americana. Apesar de toda a propaganda, os cidadãos russos vivem na pobreza e na miséria. Estradas, escolas, moradias, hospitais, idosos – tudo isso revela a profunda crise e estagnação em que vivemos há anos, sem nenhuma luz à vista. Nenhum desfile militar e nenhum míssil pode esconder isto.

As contradições da Rússia com a UE e os EUA se resumem a saber se Putin pode pacificar as revoluções e o descontentamento na Ucrânia, Belarus, Armênia, Quirguizistão… Se ele tem força para extinguir os protestos na esfera de interesses russos, e assim garantir a ordem. Enquanto houver uma guerra na Ucrânia e o povo ucraniano resistir ao ataque russo e não reconhecer a Crimeia como russa – Putin se enfraquece em suas relações com os seus “parceiros ocidentais”. Enquanto a resistência bielorrussa contra Lukashenko continuar, clandestinamente, enfraquecida, implacavelmente reprimida, mas incansável – Putin se enfraquece. Enquanto o povo do Quirguizistão interferir diretamente nos assuntos de seu próprio país – Putin se enfraquece. Enquanto o descontentamento crescer dentro da própria Rússia – Putin se enfraquece.

E em que ele é forte? Na repressão contra os dissidentes dentro da Rússia. Na repressão contra os Tártaros da Crimeia. Na supressão da consciência nacional dos numerosos povos não-russos da Rússia. No reforço das suas bases militares no Cáucaso e na Ásia (supostamente contra a OTAN, para cujos bancos flui o capital russo e para onde é garantido o fornecimento ininterrupto de gás). Ao incentivar o ditador tadjique contra a revolução quirguiz. Em exercícios militares ostensivos no Mar Negro contra a Ucrânia. Ao localizar tropas junto às fronteiras com a Ucrânia.

Hoje, Putin utiliza Lukashenko para exercer pressão sobre a União Europeia. E Lukashenko utiliza os imigrantes do Oriente Médio com este fim. Como sempre, os trabalhadores comuns pagam o preço dos jogos políticos dos donos do mundo. Lukashenko, como lhe convém, engana sórdida e descaradamente os imigrantes, que fogem das condições de vida insuportáveis em seus países. Os imigrantes são apenas carne para o inescrupuloso sátrapa de Putin. Estas manobras de Lukashenko e Putin não podem causar senão repugnância entre os trabalhadores.

Ao mesmo tempo, condenamos a política de longa data da União Europeia em relação aos imigrantes. A OTAN e a UE habilmente vestem máscaras democráticas para ocultar os seus crimes. A vida terrível no Iraque, da qual os imigrantes fogem, é o resultado da invasão militar dos EUA e dos seus aliados europeus desde 2002. A guerra na Síria, de onde vem outro fluxo de refugiados, é também o resultado das políticas corruptas dos diplomatas europeus em relação ao ditador Assad (e, claro, resultado do papel sangrento jogado pela Rússia). Os refugiados da África são o resultado das políticas coloniais dos países europeus. A UE é, portanto, a principal culpada pelo fato de que os imigrantes se veem forçados a abandonar os seus países. Nos unimos de todo o coração à exigência de numerosos cidadãos europeus de abrir as fronteiras a todos!

Então Putin e Lukashenko terão menos possibilidades de defender o seu domínio. E defendemos também o fim da vergonhosa política de perseguição aos imigrantes dentro da própria Rússia. Abaixo a FMS, o serviço de controle de imigrantes da Rússia! Abaixo o sistema das autorizações de trabalho para os imigrantes! Pelo fim dos registros e autorizações de moradia! Somos todos uma só classe trabalhadora! Não devemos esquecer que os próprios cidadãos da Rússia foram transformados em imigrantes dentro de seu próprio país, sendo exigidos deles os registros e as autorizações de residência! Abaixo toda esta perversão burocrática contra os trabalhadores! Somos todos uma só classe trabalhadora! Não há diferença se imigrantes ou nativos!

O site “Belarusian partisans” publicou a história de um bielorrusso obrigado a deixar seu país devido à repressão, e que cedeu sua casa de campo próxima à fronteira aos imigrantes. Um digno exemplo de solidariedade!