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Na manhã desta sexta-feira (4), a delegação internacional deu início ao segundo dia do 4º Congresso Nacional da CSP-Conlutas.

Por CSP-Conlutas

Os membros da Secretaria Executiva Nacional da Central, Herbert Claros e Silvia Letícia, foram os mediadores da mesa de saudação da delegação.

Antes da apresentação ao plenário, dos cerca de 40 ativistas vindos de 15 países, Herbert anunciou a exibição de uma mensagem em vídeo, enviada por um metalúrgico e ativista de base da GM de Detroit, EUA, Sean Crawford.

A fala do militante de base da UAW (Sindicato do Setor Automobilístico, em português) animou os presentes, com informes da greve dos metalúrgicos da GM, especialmente sobre a luta na região de Flint, Michigan, iniciando a mesa em tom de estreitamento e fortalecimento da luta internacionalista e socialista entre todas as categorias.

“As leis que eles criam, os políticos que eles pagam, tudo isso é baseado na preservação da classe dos poderosos. Então temos que usar a mesma estratégia, não importa o idioma que você fale ou de onde você é, temos que nos enxergar enquanto irmãos e irmãs da classe trabalhadora”, disse Sean no registro.

Em seguida, os coordenadores da mesa pediram a presença de todos os ativistas internacionais no palco.

Tivemos representações de Argentina, Chile, Colômbia, Peru, Uruguai, México, Espanha, França, Itália, Palestina, Síria, Namíbia, Costa do Marfim, Sudão e Hong Kong. Muitos deles do setor de educação, servidores públicos em geral, de correios, petroleiros, metroviários, ferroviários, além de militantes de movimentos sociais.

OPRESSÃO E RESISTÊNCIA – De representantes da França, do Sudão, da Palestina, de Hong Kong e da Argentina, foram compartilhadas experiências de lutas que tiveram forte dimensão no período mais recente, e que se dão em meio a forte repressão e criminalização por parte do Estado.

PALESTINA – Shahen Shahen, sindicalista do PETU (Sindicato dos Eletricistas Palestinos), abriu as falas, com informes sobre a luta palestina contra a ocupação israelense e “o crescente ataque ao direito de retorno dos palestinos, que muito se assemelha à expulsão de povos originários e do povo negro no Brasil”, comparou.

“Temos que enfrentar o mesmo inimigo. Como sabem, Bolsonaro tem ótimas relações e nunca perde oportunidade de flertar com o Estado de Israel e seu discurso. Se utilizou disso até mesmo com a tragédia de Brumadinho e o pedido fraudulento de ajuda humanitária”, concluiu.

SUDÃO – O professor sudanês Abdulaziz Mukhtar, da Universidade da Cidade do Cabo, África do Sul, falou sobre as mobilizações no país desde a queda do regime de Omar al-Bashir, em 11 de Abril, quando o Conselho Militar se manteve no governo contra a vontade da população e dos movimentos organizados, que exigiam transição política democrática sob orientação dos civis.

Nesse período, os militares atacaram de maneira criminosa a população, em grave violação de direitos humanos, e tiveram o controle dos meios de comunicação e além de cortar o sistema de internet local.

Abdulaziz já foi um preso político no Sudão e sua família sofreu com a perseguição na época em Darfur. O ativista iniciou sua militância no Sudão atuando no movimento estudantil, e traz em seu repertório a experiência de muitos conflitos de seu país de origem.

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“Tivemos levantes em 1956, sob o regime do general Ibrahim Abud, que teve sua derrubada via revolução popular em 1964, e sob o regime do General Jaafar Nimeiry, em 1985”, disse ele, para enfatizar com isso que a instabilidade política sempre se mostrou presente na história do Sudão e de seus regimes totalitários.

“Nos tornamos exemplo de luta social. Se nós sudaneses conseguimos isso após 30 anos de governo autoritário, os brasileiros também podem fazer sua revolução”, destacou em sua intervenção. “Esse é só o começo de muitas ações de colaboração e solidariedade entre nós”, concluiu o ativista.

FRANÇA – Em nome da Rede Sindical Internacional de Solidariedade e Lutas, Nara Cladera, da central francesa Solidaires, compartilhou sobre a experiência de acompanhar e apoiar a luta dos Coletes Amarelos, protagonistas de forte onda de protestos iniciada em 2018.

“Esse movimento não nasceu em Paris e é uma expressão da pobreza dos territórios mais rurais, fora do cenário parisiense. Essa luta é organizada pelo conjunto da classe operária, e o mais interessante é que o movimento permitiu uma politização acelerada na sociedade francesa”, avaliou Nara.

A ativista destaca que a resposta ao movimento foi uma repressão nunca vista antes na França. “Quando falo de repressão, quero que recebam com respeito, pois sei que aqui há companheiros que são de países com histórico de ditaduras militares, temos aqui uma pessoa da Palestina, e sabemos que a repressão existe além da França”, ponderou.

Segundo Nara, em 4 meses de mobilização, conforme dados do Ministério Interior, 8645 mil pessoas foram presas em decorrência de participação em protestos. Para realizar melhor a situação, ela explica que seria como se “35 mil militantes da população brasileira tivesse sido presos nesse mesmo período”.

Do total de ativistas presos na França, 2 mil foram condenados e 40% desse grupo foram presos. Quase totalidade dos ativistas não possuía qualquer antecedente criminal.

Segundo dados da polícia, foram disparados mais de 13 mil tiros de armas menos letais (bala de borracha), além de terem lançado cerca de 10 mil granadas de gás lacrimogêneo com TNT e poder explosivo. “O número de feridos, que perderam mão, olhos, dedo do pé foi enorme. Todos feridos na parte superior do corpo. Ou seja, as forças de repressão tinham intenção consciente de ferir manifestantes”, denunciou a ativista.

A criminalização na França tem avançado como nunca, justificada pelo governo sobretudo como maneira de defesa desde atos terroristas no país. “Vivemos no chamado ‘estado de defesa’ permanente na França, e a repressão ganhou força ainda em 2016, em meio a protestos contra a chamada ‘lei do trabalho’. A partir disso, para decretar prisão, não é mais necessário um juiz, e o Ministério Público ganha poder de decisão”, explicou.

Fato é que essa luta que vem desde 2018 inspirou a população e os trabalhadores de modo geral, e em 5 de dezembro as centrais e movimentos na França realizarão uma nova greve geral, que contará com o apoio dos Coletes Amarelos, dessa vez contra a Reforma da Previdência do governo de Macron.

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“A luta é o denominador comum da classe operária. Tivemos nesse período uma série de retirada de direitos. Os direitos que perdemos hoje, foram ganhos a partir das lutas e barricadas de ontem. E essas lutas atuais nos garantirão recuperar o que foi perdido e conquistar para além das urgências de hoje. A luta continua”, fechou sua intervenção, ovacionada pelo plenário.

HONG KONG – Nathan Leung Lai Pong, trabalhador terceirizado da Equipe de Serviço a Visitantes do HSBC em Hong Kong, trouxe ao painel um importante relato sobre a luta na China contra o governo Carrie Lam, figura conhecidamente submissa aos interesses de Pequim.

“Em 5 de setembro fui demitido pelo HSBC, por ter participado do processo da greve geral contra o governo de Hong Kong e por estar ativo na campanha pela construção de sindicato para bancários em HK”, relatou.

Segundo o ativista, são 260 mil trabalhadores bancários desta região que ocupa o ranking como centro financeiro da Ásia, e apenas 5% da força de trabalho está sindicalizada.

“Nesses quatro meses de movimento de massas histórico, duas milhões de pessoas foram às ruas protestar. Isso representa 1/4 da população de Hong Kong”, ressaltou.

A indignação popular se dá pelos abusos do governo ditatorial. Nathan destacou em sua fala que Hong Kong não é democracia. “Não se enganem com qualquer ideia de que a China tem algo a ver com esquerda ou socialismo. Se trata apenas de uma ditadura capitalista”.

Os super-ricos também dominam o país. Segundo o ativista, somente os EUA fica à frente da China na lista de países com mais bilionários. E sob o governo de Carrie Lam, desde 2012, o número de bilionários no país dobrou.

As greves operárias são brutalmente reprimidas e os sindicatos são ilegais ou controlados pelo governo.  Há muitos ativistas presos, há outros, de movimentos estudantis de esquerda, que apoiaram as pautas dos trabalhadores e foram reprimidos. Em muitos dos casos, sequestrados e torturados”, denunciou.

São mais de 1500 presos na China por participarem das ações contra o governo. As empresas fazem espionagem e acompanhamento invasivo de redes sociais dos trabalhadores, e chegam a oferecer recompensa para que funcionários denunciem quem se mobiliza.

ARGENTINA – Angelica Laguna, deputada que faz parte da FIT (Frente de Esquerda e dos Trabalhadores – Unidade), apontou algumas explicações para a atual crise mundial pela que atravessamos e o reflexo de resistência. Para ela, “o imperialismo não pôde aplicar o tanto que precisava de exploração e em contrapartida a classe trabalhadora no mundo luta contra esses ataques”, disse, resgatando algumas importantes lutas representadas anteriormente na mesa, como as dos povos palestino e de Hong Kong, por exemplo.

O povo argentino tem estado nas ruas há muito tempo, contra as condições de vida, os impostos, a inflação, os cortes na saúde e educação, a reforma previdenciária e outros ataques do governo.

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“Macri não esteve sozinha nesses processos. Ele teve a companhia de com peronistas que não se mobilizaram contra os ataques. E os Kischneristas seguirão o modelo pagando as dívidas ao FMI”, Ela cita a FIT, frente de esquerda, tem sido uma ferramenta de luta.

Citando a FIT, Angelica concluiu sua fala propondo que seja feito um esforço para impulsionar as candidaturas da Frente Única que, inclusive, tem como candidato o preso político, o ativista e petroleiro argentino Daniel Ruiz, e que a movimentação por unidade se dê também no Brasil, em lutas contra o capitalismo e tudo o que ele envolve, como o patriarcado, o machismo, a violência e exploração.

O advogado de Daniel Ruiz, Mario Nicolas Vilarreal, trouxe uma breve descrição jurídica da situação do ativista preso, acusado de “impedir o funcionamento do Congresso” quando, em 2018, participou de ato contra a reforma da Previdência de Macri em frente ao Congresso Nacional.

“No nosso país, qualquer pessoa com menos de oito anos de pena pode permanecer em liberdade. Daniel, que não tem antecedente criminal, submetido a uma pena máxima de 6 anos, segue preso há mais de um ano em detenção comum”, disse o advogado.

Em 18 de outubro, o julgamento de Daniel terá início, mas todo o processo pode durar até seis meses. Desde a detenção arbitrária, a Justiça vem negando pedidos de prisão domiciliar ou julgamento em juizado simples.

Daniel é de família operária, pobre, de origem indígena. Sua família, que vive a dois mil quilômetros de distância, não consegue manter os custos para sua defesa jurídica. Mario conta que somente para contratar os serviços de um perito de bala, para que prove que os materiais apreendidos com ele eram caseiros, custam mais de três mil dólares. O Sindicato, que deveria prestar assistência ao ativista, nunca colaborou financeiramente.

“Somente a solidariedade nacional e internacional permitirá que Daniel saia da prisão. Queremos que o governo de Macri saiba que existe apoio ao ativista fora do país”, concluiu.

Os coordenadores finalizaram a mesa agradecendo aos presentes e aos militantes internacionais não deixando de fazer saudações aos trabalhadores em luta na Venezuela. Além disso, foi citado o recente levante no Equador, após deflagração da greve no setor dos transportes contra o preço dos combustíveis. O governo equatoriano declarou estado de exceção. Foi deliberada a publicação de uma moção de repúdio da CSP-Conlutas e em apoio aos trabalhadores e trabalhadoras em luta no Equador.