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O povo que oprime a outro não pode ser livre.

Karl Marx

A análise e as lições políticas deixadas pela recente crise política no Paraguai, que quase custou a posição do presidente da colorado, Mario Abdo Benítez e seu vice-presidente, e que não está fechada, merece toda a atenção da classe operária e de qualquer ativista com consciência de classe da América Latina, mas especialmente do Brasil. Esse não é um problema exclusivamente paraguaio e quero explicar por quê.

Por: Juan Villamayor

O povo trabalhador, o movimento operário, social e qualquer partido que se diga de esquerda – ou pelo menos democrático – no Brasil, devem se apropriar desta questão com a velocidade e a máxima seriedade exigidas pelo princípio do internacionalismo proletário.

Por que eu quero me dirigir, principalmente, ao povo explorado e oprimido do Brasil? Porque, seguindo uma política histórica de opressão, exploração, desprezo e discriminação cultural-racial [1] imposta sistematicamente por sua classe dominante e por seus sucessivos governos, não só existe entre a classe operária e o ativismo social no Brasil um desconhecimento quase completo sobre o caso da usina hidrelétrica de Itaipu, mas também, o que é mais grave, um profundo desconhecimento sobre a relação histórica entre o Brasil e o Paraguai.

É hora de começarmos a discutir, como irmãs e irmãos de classe, sobre esse relacionamento secular.

Este deve ser o primeiro passo para libertar nossas mentes e jogar no lixo todos os mitos e falsidades disseminadas pela burguesia, pelos governos e pelos principais veículos ideológicos da classe proprietária brasileira.

Só assim será possível construir uma visão internacionalista da luta unificada que temos que encarar contra nossos exploradores comuns.

Só assim será possível a união entre os dois povos, o paraguaio e o brasileiro, e o combate lado-a-lado  contra os parasitas que sugam nossas riquezas dos dois lados da fronteira que os ricos esboçaram para causar divisão entre nós, os pobres.

Uma relação histórica de opressão e exploração nacional

A primeira coisa que devemos ter em mente é que, há 150 anos, o Paraguai foi completamente destruído na chamada Guerra da Tríplice Aliança [1864-1870], que no Brasil é mais conhecida como Guerra do Paraguai.

A Tríplice Aliança contra o Paraguai foi selada através de um pacto secreto entre o então Império do Brasil, governado pelo Imperador Pedro II; a Argentina do liberal Bartolomeu Mitre; e o Uruguai usurpado pelo caudilho Venâncio Flores, fantoche dos dois personagens anteriores.

Esse ignominioso Tratado definia de antemão não apenas a repartição do território paraguaio e qualquer pilhagem entre os aliados, mas a obrigação de levar a guerra às últimas consequências – isto é, não aceitar nenhuma mediação ou negociação de paz separadamente com o país invadido -; e a imposição ao Paraguai de uma dívida impagável, já que, apesar de ter sido arrasado, deveria pagar os custos de uma guerra que quase o apagou do mapa.

Estima-se que apenas o Império brasileiro mobilizou 139 mil soldados durante a guerra, ou seja, 1,52% de sua população total há um século e meio. De fato, desde 1868, aproximadamente 80% das tropas aliadas em solo paraguaio eram brasileiras, compostas em certa medida por negros escravizados, forçados a lutar em solo estrangeiro. Para se ter uma ideia da magnitude desse esforço de guerra, se considerarmos essa proporção hoje, seria como se o presidente Jair Bolsonaro tivesse invadido o Paraguai, que tem pouco menos de sete milhões de habitantes, com 3.169.122 soldados.

O resultado foi um genocídio horrendo: entre 60 e 69% da população total do Paraguai desapareceu durante a Guerra Grande, como a conhecemos. É quase impossível encontrar outro exemplo terrível de mortandade, em termos percentuais, na história moderna. Dos sobreviventes, dois terços eram mulheres, crianças e idosos.

O país perdeu seus avanços industriais e de comunicação, incipientes, mas progressivos, sua agricultura, sua pecuária. O Brasil e a Argentina anexaram aproximadamente 40% de seu território – aproximadamente 150.000 km2, comparável ao atual estado do Ceará. Em suma, as forças produtivas do Paraguai foram aniquiladas por seus supostos “civilizadores”.

Desde então, o Paraguai não só se tornou um dos países mais pobres e desiguais do continente, mas também uma nação explorada e oprimida, não só pelo imperialismo como um todo, mas também por seus agentes históricos no Cone Sul: as burguesias submissas do Brasil e da Argentina.

De ser uma nação que, através de um processo avançado de revolução democrático-burguesa anticolonial que começou em 1811, nacionalizou quase 90% da terra e 80% do comércio interior e exterior, após o holocausto da guerra que terminou em 1870, tornou-se o país com a maior desigualdade de posse da terra no mundo. De acordo com censos oficiais, 2% dos proprietários rurais monopolizam 85% das terras cultiváveis, a maior parte dedicada ao agronegócio da soja e à pecuária. Desses latifundiários, muitos são estrangeiros. Estima-se, por exemplo, que 14% do território paraguaio seja de propriedade de empresários brasileiros, intimamente ligados às multinacionais imperialistas que controlam o agronegócio.

Portanto, os trabalhadores brasileiros têm uma dívida histórica com seus irmãos de classe paraguaios. Não por ter cometido o genocídio ou por ter dilacerado o pequeno país vizinho, já que quem cometeu esse crime foi a burguesia brasileira, na época escravista, financiada em parte por banqueiros britânicos e aliada às classes dominantes de Buenos Aires e Montevidéu. Não. A dívida histórica que a classe trabalhadora brasileira tem, pode e deve ser resolvida, conhecendo, debatendo e lutando lado a lado com os trabalhadores paraguaios. Combatendo diariamente a opressão e a discriminação cultural-racial que a burguesia de seu próprio país exerce de diversas maneiras sobre o Paraguai.

Em suma, deve-se entender o seguinte: a burguesia brasileira e seus sucessivos governos agiram e agem como uma submetrópole ou, se preferir, como uma semicolônia privilegiada, tanto no Paraguai como em toda a região.

O Paraguai é, então, uma semicolônia que é considerada o “quintal” de outra semicolônia mais forte.

Isso significa que o Estado burguês brasileiro, além de explorar e oprimir sua própria classe trabalhadora atua como mandatário – como capanga – dos interesses imperialistas na América do Sul.

O Brasil não passa de uma plataforma que serve a penetração de produtos e capitais estrangeiros no Cone Sul. Além disso, em troca de chicotear seu próprio povo e outros povos mais pobres – como do Paraguai ou da Bolívia, para citar dois dos casos mais avassaladores -, os burgueses brasileiros coletam algumas migalhas que caem do banquete das nações imperialistas. Não é abominável um papel como este? A classe trabalhadora brasileira deveria aceitar isso?

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O caso de Itaipu

A crise atual e o caso de Itaipu não podem ser entendidos sem considerar esse contexto histórico de hostilidade permanente e opressão nacional do Brasil com relação ao Paraguai. Pode-se dizer, sem medo de cair em exagero, que a pilhagem dos recursos paraguaios através de Itaipu é o instrumento que incorpora essa relação de opressão – a exploração nacional na atualidade.

Itaipu é provavelmente o exemplo que melhor revela o papel desastroso que a burguesia brasileira, sócia menor do imperialismo, desempenha na região. Esse papel patético de ser um lacaio dos imperialistas mas, ao mesmo tempo, comportar-se como uma fera com os países mais pobres da América do Sul.

Mas vamos fazer uma breve revisão histórica para entender melhor este caso.

  1. O projeto de Itaipu nasceu de uma invasão militar brasileira em 1965

Desde 1955, o Brasil estudou o potencial hidrelétrico da área dos Saltos do Guairá – também conhecida como Sete Quedas -, com o objetivo de realizar um importante desenvolvimento industrial, ainda que completamente controlado pelo capital imperialista.

Em 1962, o governo brasileiro já possuía sólidos estudos técnicos nesse sentido. Em 1964, como sabemos, ocorre um golpe reacionário e se estabelece uma ditadura militar no Brasil. Desde 1954, no Paraguai, também governava uma férrea ditadura militar, a do general Alfredo Stroessner, um personagem macabro, absolutamente servil aos EUA e ao seu gendarme regional, o Brasil.

Nesse contexto, em junho de 1965, o ditador brasileiro Castelo Branco invadiu Puerto Renato e toda a zona de 20 quilômetros que, segundo a diplomacia brasileira, estava “em disputa” com o Paraguai desde o fim da Guerra da Tríplice Aliança. A ditadura de Stroessner, covarde, não fez nada diante dessa invasão do exército brasileiro no território paraguaio.

Para legalizar a invasão militar brasileira, o Tratado de Foz de Iguaçu foi assinado com a mediação norte-americana em 22 de junho de 1966. Por esse protocolo, as duas ditaduras concordaram em construir uma futura represa hidrelétrica na área e aproveitar seu potencial energético. Desta forma, os Saltos do Guairá, ocupados por tropas brasileiras, passariam a ser considerados uma espécie de comunidade de bens entre os dois países, uma vez que a construção de Itaipu pressupunha a inundação de toda a área. De fato, as tropas brasileiras só se retiraram em 1982, quando o território estava submerso.

Nessa ocasião, vale a pena mencionar uma anedota sombria. O chanceler da ditadura brasileira, general Juraci Magalhães, disse ao colega paraguaio Raúl Sapena Pastor: “Meu querido amigo, como sabe, um tratado pode ser modificado em virtude de outro tratado ou pelo resultado de uma guerra. O Brasil não está disposto a aceitar um novo tratado, o que resta saber é se o Paraguai está disposto a promover outra guerra ”[2].

Já em 1966, ficou nítido quem ficaria com a parte do leão quando finalizasse um tratado definitivo.

Este foi o contexto. O que hoje é a hidrelétrica de Itaipu nasceu de uma invasão militar brasileira e de uma renúncia de território paraguaio pela ditadura de Stroessner.

A pior parte é que no Artigo 18 do Tratado de Itaipu, de 1973, esta situação não foi apenas legalizada, mas o poder de invasão militar pelos Estados signatários foi estabelecido.

Seria ridículo, se considerarmos a enorme assimetria entre o Brasil e o Paraguai em todas as áreas, que em alguma circunstância essa cláusula poderia favorecer os paraguaios. O oposto. Em diversas ocasiões, o Brasil realizou exercícios militares e simulou a tomada da hidrelétrica; sendo a mais conhecida delas o de 2009.

  1. O Tratado de 1973 e a transferência de energia do Paraguai para o Brasil

O Tratado de Foz de Iguaçu expressava que a energia produzida pela futura usina hidrelétrica pertenceria a cada país em partes iguais e, no caso de um deles não poder consumir toda a sua parte, deveria oferecê-la “preferencialmente” ao seu parceiro, por um preço justo.

O Tratado de Itaipu, assinado em 26 de abril de 1973 entre as ditaduras militares sanguinárias e corruptas do general Médici e Stroessner, anulou as frases vazias do acordo de 1966 e impôs o chamado “direito de aquisição”, isto é, a transferência compulsória da energia não utilizada por um dos países para o seu contraparte, não a um preço justo ou de mercado, mas a um preço fixo e prefixado.

O problema é que entre 1984 – ano em que Itaipu entrou em operação – e 2017, o Brasil utilizou 93% do total de energia produzida pela empresa e o Paraguai apenas 7%. De acordo com o Artigo 13 do Tratado de 1973, o Paraguai está obrigado a ceder os 43% restantes de sua participação ao Brasil, por um preço estabelecido pela própria Itaipu e não pelo mercado.

Em outras palavras, o Paraguai não pode vender ou exportar sua própria energia para terceiros países – como Argentina, Uruguai ou Chile, que manifestaram interesse em algum momento -, mas está obrigado a transferi-la para o Brasil, por meio da empresa Eletrobras.

Em troca dessa transferência, o Brasil “compensa” o Paraguai com um valor fixo, que é até mesmo abaixo do preço de custo, que atualmente é 44 dólares MWh [megawatt hora] [3]. Esse valor sofreu alguns ajustes nessas quase cinco décadas, mas dados mais atuais indicam que a quantia que o Paraguai recebe do Brasil como compensação é de 9,4 dólares por megawatt hora de energia produzida, quando o preço de mercado é de cerca de 120 dólares. !

Em outras palavras, o Paraguai cede uma riqueza por 7,8% de seu preço real. É como se uma pessoa vendesse um celular que custa R$ 1.000 por 78 reais. Quem pensaria em fazer algo assim? Não é necessário ser especialista em nada para entender a enorme injustiça cometida contra os direitos soberanos do Paraguai de usar seus próprios recursos energéticos.

Há um fato que é ainda pior: entre 1984 e 2017, o Paraguai recebeu uma média de 2,8 dólares por megawatt hora transferida para o Brasil. Insistimos: $ 2,8 por algo que vale pelo menos $ 120. Como denominar algo assim com outra palavra que não seja pilhagem descarada? A burguesia brasileira não está agindo como um vulgar ladrão dos países mais fracos?

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Esse saque, legalizado pelo Anexo C do Tratado de 1973, faz com que o Paraguai receba uma “compensação” miserável de US $ 350 milhões por ano, quando, se pudesse dispor livremente de sua energia e negociá-la a preço de mercado, poderia receber aproximadamente 3 bilhões de dólares.

Esse esquema de pilhagem e corrupção beneficiou, principalmente, a indústria do ABCD paulista, algumas empresas contratadas ligadas às ditaduras militares de ambos os países, bancos brasileiros e imperialistas, bem como um punhado de empresários e autoridades paraguaias – muitos deles militares ou civis ligados a Stroessner – conhecidos como os “barões de Itaipu”, que encheram seus bolsos como sócios menores de pilhagem brasileira. Mas esta impressionante história de roubo e opressão não termina aqui.

  1. A dívida da Itaipu é injusta e impagável

O orçamento inicial da obra foi de 3,5 bilhões de dólares. Mas – em um ciclo infernal de corrupção, superfaturamento, juros e juros crescendo apor cima dos juros – o custo final da Itaipu chegou a 26,9 bilhões de dólares.

Esse custo, superfaturado, tornou-se dívida. Uma dívida que, em grande medida, os paraguaios pagam aos brasileiros através de nossas contas de luz, que incorporam o pagamento dessa dívida ilegítima e que, para completar, já foram pagas várias vezes.

Uma vez que as contas de Itaipu não podem ser auditadas, uma vez que a entidade está protegida com a armadura de uma suposta “binacionalidade”, ou seja, é um “supra Estado” que legalmente não está sujeito aos governos ou parlamentos de qualquer dos dois países, não se sabe a quanto se soma esta dívida [4]. A “binacionalidade”, que na verdade não existe e não poderia existir, nunca passou de um dispositivo jurídico para legalizar a invasão militar de 1965 e esconder as enormes assimetrias entre os países.

No caso da dívida de Itaipu, alguns estudos estimam em torno de 80 bilhões de dólares. Também se supõe que 55% das receitas recebidas pela usina hidrelétrica são usadas para pagar essa dívida [5]. Para se ter uma ideia, com esse valor estratosférico, três represas como a Itaipu poderiam ser construídas.

Vale a pena insistir: algo que ia custar 3,5 bilhões foi transformado em uma dívida de aproximadamente 80 bilhões, e continua crescendo! Uma dívida que pagam os consumidores de eletricidade de ambos os países, através de nossas contas de energia elétrica.

Mas no caso do Paraguai é pior. Porque, embora o Brasil use 93% da energia produzida e o Paraguai apenas 7%, cada um paga a metade da dívida. É como se na fila de um supermercado houvesse uma pessoa com um carrinho cheio de , atrás houvesse outra pessoa que só comprasse um chocolate e, quando chegasse na hora de pagar, a primeiro propusesse à segunda: que tal se pagarmos tudo meio e meio?

Isso não é uma loucura? Na lógica capitalista, não

Mas no caso do Paraguai, o principal credor é a Eletrobras [6], que detém 96% da dívida [7]. Mas, na realidade, os credores são os grandes bancos imperialistas, que foram os que realmente colocaram o dinheiro inicial para a obra e, a partir daí, especularam com a dívida. A Eletrobras atuou apenas como garantidora do primeiro empréstimo, em 1975. O Estado paraguaio, que segundo a imprensa brasileira “só coloca a água”, paga anualmente 2 bilhões de dólares pela dívida de Itaipu, o que sangra a economia do país.

Se resumirmos esta tragédia, podemos afirmar que se o Paraguai pudesse vender livremente sua própria energia – o que significaria renda de quase 3 bilhões de dólares – e, além disso, deixasse de pagar a dívida espúria a bancos brasileiros e imperialistas pela construção da hidrelétrica – o que significa mais 2 bilhões de dólares – é fácil concluir que o Paraguai poderia ter pelo menos 5 bilhões de dólares – o equivalente a aproximadamente 36% do Orçamento Geral da Nação de 2019 -, para seu próprio desenvolvimento econômico, social e cultural, etc.

Trabalhadoras e trabalhadores brasileiros: quando ouvirem o mito de que o Tratado é justo porque “o Paraguai não colocou nada além do que o rio”, repudiem essa mentira. Primeiro, porque afirmar que o Paraguai “só colocou a água”, no caso de uma empresa hidrelétrica, é como dizer que em uma exploração de ouro um país “só coloca o ouro”. Em segundo lugar, porque a dívida gerada pela construção da barragem já foi paga várias vezes por ambos os povos, mas proporcionalmente muito mais pelos contribuintes paraguaios, que usam muito pouco da energia gerada pela usina hidrelétrica, são obrigados a ceder a maior parte do que lhes corresponde, subsidiando assim a indústria paulista e, além disso, pagam metade de uma dívida contraída pela Eletrobrás, que por sua vez engorda grandes banqueiros internacionais.

Não nos enganemos. Vocês, trabalhadoras e trabalhadores brasileiros, também estão sendo roubados pelos executivos de seu país em Itaipu e por seus governos, porque uma energia que a Eletrobras compra por US $ 9,4 ou menos do Paraguai, ou que no máximo custa, US $ 44 por MWh revende, em média, por US $ 206 por megawatt / hora para o consumo residencial no Brasil [8]!

É por isso que nunca devemos esquecer: “O povo que oprime o outro não pode ser livre”.

Portanto, tanto o Tratado de 1973 quanto a dívida fazem parte de um instrumento de pilhagem e dominação colonial do Paraguai por um punhado de burgueses brasileiros e, através desse mecanismo perverso, de empresas e bancos imperialistas.

  1. Uma saída de classe e internacionalista

Dado todo esse contexto, é possível entender melhor a última crise política no Paraguai. O estopim, como se sabe, foi a revelação de um acordo secreto assinado em maio pelo governo do partido colorado  de Marito Abdo Benítez e o de Bolsonaro, dois personagens nefastos que reivindicam as ditaduras militares que assinaram os tratados de 1966 e 1973. Essa ata entreguista estabelecia um preço para a energia nos próximos quatro anos e isso seria muito desfavorável para o Paraguai.

Até 2022, se essa ata fosse aplicada, o Paraguai perderia 350 milhões de dólares. Um prejuízo que mais cedo ou mais tarde seria transferido para os consumidores do país através de aumento de tarifas.

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O escândalo que gerou esse acordo se expressou em mobilizações da juventude e setores da classe trabalhadora paraguaia, como os atos organizados pelo SITRANDE [sindicato dos trabalhadores da ANDE].

A onda de protestos ameaçava crescer ainda mais e isso significava que até mesmo setores da própria imprensa burguesa paraguaia tiveram que reconhecer que havia uma nova tentativa de prejudicar os interesses da “cidadania” paraguaia em Itaipu.

Por causa de toda essa pressão, o presidente Marito, filho do antigo braço direito do ex-ditador Stroessner, esteve prestes a sofrer um processo de impeachment no parlamento.

Foi salvo no último momento, quando Bolsonaro e a embaixada dos EUA intervieram e o acordo secreto teve que ser formalmente anulado.

Ou seja, a luta popular, a pressão de vários setores sociais, conquistou uma importante vitória parcial. Fez não só Marito retroceder, mas também um dos presidentes mais reacionários que o Brasil já teve, Jair Bolsonaro.

Mas não devemos perder de vista o fato de que essa conquista é parcial. Foi uma batalha vencida, mas a guerra pela defesa da soberania energética continua. A crise não se encerrou e o povo trabalhador dos dois países deve estar alerta e mobilizado contra seus governos e operadores locais.

O ano de 2023 será fundamental para a classe trabalhadora do Paraguai e do Brasil. Vão se completar 50 anos do Tratado e este poderá ser revisto, renegociado.

Obviamente, o povo paraguaio não deve confiar em nenhum governo, sindicato empresarial ou diplomacia de seu país, uma vez que sua classe dominante e seus gerentes sempre demonstraram uma posição ultrajante de capitulação aos interesses do Brasil. Também não se pode depositar esperanças em organizações internacionais, como colocam alguns setores, que inocentemente pensam que com uma queixa perante a Corte Internacional de Justiça baseada em Haia, protegida pelos ditames da Convenção de Viena, a burguesia brasileira e os bancos imperialistas vão retroceder. Isso é uma ilusão. Esse caminho institucional, pacífico, é o terreno por excelência do inimigo. É uma via morta, um caminho sem saída para o Paraguai.

A única solução fundamental é anular o Tratado por meio da luta direta nas ruas.

Por meio da mobilização operária e popular, não apenas da classe trabalhadora paraguaia, mas também da poderosa classe operária e dos setores explorados do Brasil, que também são vítimas da corrupção e das barganhas mafiosas de Itaipu.

Não pode haver perspectiva nacionalista para enfrentar essa luta. A luta é única e indivisível.

A classe trabalhadora paraguaia deve entender que seu inimigo é seu próprio governo e a burguesia brasileira, sócia menor do imperialismo, e não “os brasileiros” em geral. Ao mesmo tempo, a classe trabalhadora brasileira, com mais razão, deve entender que  Itaipu não é um problema “paraguaio”, mas uma questão que a afeta diretamente, através da cobrança injusta de eletricidade, e principalmente porque é um Tratado de usurpação de um povo irmão e mais pobres, historicamente ultrajado.

Trabalhadoras e trabalhadores brasileiros! É necessário unir forças com a classe operária e demais setores explorados e oprimidos do Paraguai!

Vamos rejeitar a repugnante opressão nacional que a classe dominante brasileira, além de explorar seu próprio povo, sempre impôs a esse pequeno país e a outros do continente. O Brasil não pode continuar sendo capanga dos EUA e de outros países imperialistas na região, esse papel é nefasto e vergonhoso!

As e os trabalhadores do Paraguai e do Brasil têm os mesmos inimigos: nossa burguesia e governos submissos, sócios menores dos capitais e interesses imperialistas!

Por essa razão, só podemos lutar juntos para acabar com todo esse sistema de exploração e opressão, que não é outro senão o capitalismo semicolonial ao qual estamos sujeitos há décadas.

Este é o desafio que temos pela frente: a conquista de nossa independência política e econômica, que em nossa época histórica recai nas mãos da classe operária e de seus aliados sociais, encarada a partir de uma perspectiva programática revolucionária e socialista. Esta é a única saída de fundo.

Notas:

[1] Do mesmo modo que na Argentina, um amplo setor usa a expressão discriminatória de paraguas ou gurarangos [pessoa mal educada, grosseira, que não fala o espanhol porque tem o guarani como sua língua materna] para se referir aos paraguaios, no Brasil, os do nosso país, em geral somos marcados como muambeiros [pequenos contrabandistas], falsificados (associados ao comércio de mercadorias baratas e de baixa qualidade) etc. Todas estas são expressões xenófobas, encorajadas pela classe dominante, através de seu aparato ideológico, para semear a divisão entre os povos irmãos.

[2] MAGALHÃES, Juraci. Minhas memórias provisórias. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1982, pp. 201-203. O general Juraci também era conhecido por outra frase famosa: “o que é bom para os Estados Unidos e bom para o Brasil”.

[3] Veja: https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,itaipu-gera-disputa-entre-brasil-e-paraguai,70002747280

[4] A entidade, verdadeiramente supranacional, é governada por um pequeno conselho de 12 pessoas de ambos os países. Os principais cargos de gestão, no entanto, sempre corresponderam aos brasileiros.

[5] Entre inúmeras manobras, podemos destacar o impacto do Plano Real 1994 no Brasil, que gerou uma perda para a Itaipu de aproximadamente 4,5 bilhões de dólares, o que se somou à dívida. Por outro lado, destacamos o subsídio no preço da energia de Itaipu dado às empresas brasileiras entre 1985 e 1990, que totalizou cerca de 4,2 bilhões de dólares, e através de um acordo concluído em 1997 entre os então presidentes Fernando Henrique Cardoso e Juan Carlos Wasmosy também se incorporou ao passivo da empresa e, assim, começaram a engrossar a dívida como um todo.

[6] A Eletrobras é 48% privada e está na Bolsa de Nova York, oferecendo como garantia e apresentando como um de seus ativos a usina hidrelétrica “binacional” de Itaipu.

[7] Ver: https://www.abc.com.py/edicion-impresa/economia/2019/08/04/pasivo-dei-itaipu-es-en-su-mayor-parte-corrupto/?fbclid= IwAR1Q4JjJiUY5JjKl9cbOHuIs_1SyPoMFYIFl2nbDIzI1kU65yz0aQ3jWSuU

[8] Veja: https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,itaipu-gera-disputa-entre-brasil-e-paraguai,70002747280

tradução: Lena Souza