Em 8 de julho, ocorreu a visita oficial do Presidente López Obrador a Washington. Donald Trump o recebeu dizendo que ele é “um homem fabuloso”, o proclamou “seu amigo” e até o definiu como “o melhor presidente que o México já teve”. Existem muitas diferenças nas circunstâncias políticas entre esta reunião de AMLO (Andrés Manuel López Obrador) com Trump e aquela que, em agosto de 2016, quando o desacreditado Enrique Peña Nieto recebeu Donald Trump no México. Longos e intensos quatro anos se passaram e, de fato, muitas coisas mudaram. No entanto, há algo que permaneceu inalterado e até foi reforçado: a submissão colonial do México.

Por: CST – México

Neste texto, destacaremos este aspecto: que significado tem para a soberania do México e de seus trabalhadores, nos dois lados da fronteira, o agora celebrado Acordo de Livre Comércio, o T-MEC. A retórica de ambos os presidentes não deve esconder os danos e prejuízos que se mantêm e as grandes ameaças à soberania do México e à vida dos explorados, impostas pelo T-MEC. Isso é ainda mais necessário porque os meios de comunicação de massa e os analistas pagos só realçam, em suas análises, os aspectos mais conjunturais, como a conveniência política da visita dos dois presidentes ou o uso eleitoral que Trump fez dessa visita, em um momento de grande crise econômica e política do império e as possíveis reações futuras adversas do Partido Democrata em relação ao México e … um longo etc.

O T-MEC é o TLCAN “repaginado”

O novo T-MEC é uma versão revisada e ampliada do antigo TLCAN (NAFTA na sigla em inglês), que entrou em vigor em 1º de dezembro de 1994 e, por mais de 26 anos, significou um salto na colonização econômica, desmantelamento e privatização das principais indústrias produtivas e na pilhagem dos recursos naturais e energéticos do México. Por outro lado, arruinou milhões de camponeses e produtores urbanos que, privados de meios de subsistência, migraram com ou sem documentos para engrossar o proletariado mais explorado dos Estados Unidos. Até o próprio AMLO acaba de reconhecer que, sob o TLCAN, os salários do México caíram muito abaixo dos da China. Mas os que tiveram grandes benefícios com o TLCAN foram as corporações multinacionais e a oligarquia a elas associadas. Hoje esses oligarcas formam um grupo de grandes magnatas capitalistas, que estão entre as maiores fortunas do mundo quando nosso país tem 70% da população vivendo abaixo do nível de pobreza.

O T-MEC é uma das instituições fundamentais do estado semicolonial mexicano. É impossível definir o regime político do México sem tomar essa instituição imperialista como referência. Até as leis mexicanas foram reformadas para serem aceitas pelos Estados Unidos, de acordo com as cláusulas do T-MEC. Um tratado que não é só de natureza comercial, uma vez que regula, restringe e estabelece controles e inspeções no México pelos Estados Unidos. E dentro desse quadro de dominação imperialista, não podemos ignorar outra instituição em vigor desde 2008: a Iniciativa Mérida * [1], que rege as instituições de segurança, policiais, migratórias e de comunicação e transporte, colocando-as sob o controle da DEA -Departamento de Investigações sobre Narcóticos.

Não é por acaso que, diante da investida e da chantagem de Trump em 2018, tanto o então presidente Peña Nieto quanto o eleito López Obrador, que se aproximam, se apressaram em aceitar suas novas e mais severas condições. Ambos se mostraram fiéis representantes de corporações multinacionais e oligarcas, os defensores mais fanáticos da assinatura, aceitando a chantagem que Trump impôs para endossar o T-MEC. E, é claro, não é por acaso que eles agora se juntaram à seleta comitiva presidencial * [2] para jantar e brindar com Donald Trump na Casa Branca.

Vale a pena refletir aqui sobre esses fatos:

Como é possível que aqueles como Slim Helú, Salinas Pliego, que se enriqueceram à custa do saqueio do país e que no passado mereceram por parte de AMLO o apelido de “máfia do poder”, hoje sejam, por mágica do T-MEC, benfeitores do povo pobre?

Oligarcas mexicanos comemoram o T-MEC de Trump

O magnata presidente ianque Donald Trump, apoiado pelos maiores capitalistas mexicanos, agora mostra orgulhosamente sua nova “criatura”, o T-MEC. É possível que também seja para o benefício dos 130 milhões de mexicanos em nosso território atual e dos 35 Milhões de mexicanos que vivem do outro lado do Rio Bravo?

AMLO reiterou que, com seu governo, tudo mudou e o poder já não é mais dos ricos … Que “agora o poder econômico foi separado do poder político”. Essa “separação” é estranha, já que tem como chefe de seu gabinete Alfonso Romo Garza, um milionário capitalista, e um Conselho Assessor Empresarial composto pelos maiores oligarcas.

Os imigrantes mexicanos e da América Central: humilhados e explorados, perseguidos, presos e amontoados

As remessas de milhões de imigrantes mexicanos nos EUA – que em 2019 totalizaram US $ 36 bilhões anualmente e este ano parecem estar crescendo – são hoje a principal fonte de renda em dólares para o México.

Sua situação crítica e suas reivindicações foram expressas – muito melhor do que poderíamos fazer – em uma carta aberta de dezenas de organizações defensoras de imigrantes mexicanos e centro-americanos para López Obrador: “que disse querer “agradecer ao presidente Trump por seu gesto de apoio e de solidariedade” pela venda de ventiladores ao México no contexto da pandemia. Este é um argumento ofensivo aos milhares de imigrantes mexicanos que morreram e estão morrendo de COVID-19 nos EUA devido à falta de assistência médica e ao cinismo do governo do país que tem o maior número de mortes por vírus no mundo.”…

“Neste país, a taxa de mortalidade por COVID-19 na comunidade latina é o dobro da dos brancos, porque nós temos que continuar trabalhando em empregos “essenciais” para o país, ou essenciais para a sobrevivência familiar, muitas vezes sem sequer ter a proteção mínima e sem acesso à assistência médica “…” Também citou como exemplo da amizade com Trump o fato de não ter seguido adiante com sua ameaça de impor tarifas sobre as importações mexicanas, o que foi reconhecido mundialmente como uma chantagem econômica que nunca deveria servir como exemplo de boas relações diplomáticas. O acordo resultante da negociação deixou milhares de imigrantes mexicanos e centro-americanos vivendo em péssimas condições e agora expostos ao coronavírus, além de negar-lhes o direito ao reagrupamento familiar, asilo, proteção internacional e ao devido processo … “Atualmente , a comunidade de imigrantes mexicanos nos EUA enfrenta uma intensificação das políticas de separação familiar, detenção, deportação sumária, exclusão e criminalização, exemplificada nos últimos dias pela reafirmação de Trump de deportar os Dreamers diante da decisão da corte, e sua insistência em construir o muro na fronteira. “… E finalizaram exigindo:

“Acabar com o acordo ‘Fique no México’, que viola os acordos internacionais de proteção e coloca em risco a vida de milhares de solicitantes de asilo e refugiados.

Que o Governo do México cumpra de forma irrestrita a ordem de suspensão do Tribunal Distrital do Poder Judiciário da Federação para libertar todos os migrantes vulneráveis ​​em detenção e que se denuncie os maus tratos e violações dos direitos da administração de Donald Trump sobre os migrantes.

Que toda a colaboração entre o México e os Estados Unidos fique suspensa até assegurar o acesso à saúde e o reconhecimento dos direitos de todos os trabalhadores migrantes e suas famílias e a interromper todas as formas de criminalização e discriminação sobre este setor.

Que o México pare de colaborar nos processos de deportação com os Estados Unidos; Suspender imediatamente as deportações para o México, especialmente no contexto atual da pandemia que aumenta o risco de vulnerabilidade que as pessoas enfrentam “…

A discriminação contra os imigrantes faz parte do racismo histórico da burguesia americana, que inclui o genocídio sistemático que sofre a comunidades afro-americana. A repressão e brutalidade policial não afetam somente os negros, mas se estendem a todos que rejeitam o racismo e defendem a vida dos negros. Como o caso de Erek Slater, líder sindical dos motoristas de ônibus de Chicago, retaliado por recusar a transportar detidos nos protestos contra o racismo.

Discursos da Casa Branca se chocam com a realidade de milhões de ambos os lados da fronteira

O discurso de Trump foi curto, pomposo e inconsistente. Mas a do presidente mexicano foi extenso e muito “substancial”. Por respeito a nossos leitores, não vamos antecipar a que “substância” estamos nos referindo. Melhor, sugerimos que você leia alguns fragmentos textuais do discurso do Presidente Andrés Manuel López Obrador:

“Eu celebro esta reunião com o presidente Trump … ter alcançado esse acordo representa uma grande conquista em benefício das três nações e de nossos povos … Como se sabe, a América do Norte é uma das regiões econômicas mais importantes do planeta … os volumes de importações que realizam nossos países do resto do mundo podem ser produzidos na América do Norte com custos mais baixos de transporte … e com o uso de mão-de-obra da região …

O México tem algo extremamente valioso para efetivar e aprimorar a integração econômica e comercial da região, me refiro a sua jovem, criativa e responsável força de trabalhobons trabalhadores que se destacam por sua imaginação, talento e sua mística de trabalho … durante a Segunda Guerra Mundial, o México ajudou a satisfazer a necessidade de matérias-primas dos Estados Unidos e os apoiou com o mão de obra dos trabalhadores migrantes que eram conhecidos como “braçais”, desde então até hoje … as circunstâncias econômicas de ambas as nações que têm migração de mexicanos e mexicanas para os Estados Unidos formou aqui uma comunidade de cerca de 38 milhões de pessoas, incluindo filhos de pais mexicanos, é uma comunidade de pessoas boas e trabalhadoras que vieram ganhar a vida de maneira honrada e isso contribuiu muito para o desenvolvimento desta grande nação ”…

“Como nos melhores momentos de nossas relações políticas, durante meu mandato como Presidente do México, em vez de queixas em relação a minha pessoa e ao que considero mais importante para o meu país, recebemos de você compreensão e respeito” … “Agora que decidi vir a esta reunião com você presidente Trump, no meu país, houve um bom debate sobre a conveniência desta viagem … quis estar aqui para agradecer ao povo dos Estados Unidos a seu governo e a você presidente Trump por ser cada vez mais respeitoso com nossos compatriotas mexicanos, ao senhor Presidente Trump agradeço por sua compreensão e a ajuda que nos deu … o aprecio, é que o senhor nunca tentou nos impor nada que viole ou vulnere nossa soberania … o senhor não tentou nos tratar como uma colônia, pelo contrário, honrou nosso status de nação independente. É por isso que estou aqui para expressar ao povo dos Estados Unidos que seu presidente se comportou em relação a nós com gentileza e respeito ”…

Em resumo: AMLO oferece à venda a força de trabalho qualificada e barata dos mexicanos. Em outras palavras, que a força de trabalho mexicana substitua a da China, como fonte de exploração. E sem custos de transporte por estar no “quintal” dos EUA. Ele também agradece ao patrono imperialista por continuar nos explorando e saqueando, porque “Não pretendia nos tratar como uma colônia, mas … honrou nossa condição de nação independente … nunca tentou violar a soberania mexicana”! … ”

Nada novo. Ajustou-se à “visão” que grandes empresas vendem ao público em massa, ajustou-se aos interesses do grande capital multinacional. As “pesquisas” que dão a aprovação majoritária à entrada em vigor do T-MEC também respondem a essa visão. Conhecemos a capacidade de López Obrador de distorcer a realidade em seus discursos e, em especial, em suas cotidianas coletivas matinais. É por isso que, por enquanto, consegue que seu discurso rastejante pronunciado junto a Trump, seja tolerado entre o povo que votou nele.

A realidade sob o império do T-MEC … revela a falsidade dos discursos oficiais

Após as cerimônias públicas e protocolares, presidentes e capitalistas, reunidos em um grupo seleto, jantaram e brindaram juntos. Enquanto esses semelhantes prestavam elogios e empatia mútua, os filhos de imigrantes detidos não conseguiam se reunir com os pais. Enquanto capatazes políticos e chefes de magnatas jantavam na Casa Branca, a dor do cativeiro consumia as almas dos detidos em campos de concentração de imigrantes. Ao mesmo tempo em que AMLO e Trump ergueram suas taças, milhares de famílias lamentaram suas mortes por coronavírus nos dois lados da fronteira * [3].

Nos EUA há alguns anos, o movimento sindical da indústria exige um salário mínimo de US $ 15 por hora. Para os milhões de trabalhadores precarizados, incluindo imigrantes sem documentos, o salário por hora é de cerca de US $ 8 a 10. Mas no México, o salário mínimo das indústrias de maquiladoras, incluindo as da área de fronteira após as lutas pelo aumento de 20%, a partir do ano de 2019, é de US $ 10 … por dia! Trabalhadores baratos: essa é a oferta de AMLO para atrair exploradores estrangeiros com seus “investimentos de capital”.

Por outro lado, a pandemia escancarou as brutais condições de trabalho impostas pelas empresas multinacionais de maquiladoras estabelecidas no México, que estão tirando a vida de muitos trabalhadores. As cadeias de produção imperialistas nos setores automotivo, eletrônico, aeroespacial e militar não querem saber sobre direitos sindicais, legais ou humanos. Os governadores, prefeitos, legisladores e juízes desses estados são funcionários de suas câmaras empresariais, juntamente com os traidores do sindicato da CTM, que atuam como policiais dentro das fábricas em troca de uma fatia suculenta da exploração de seus “representados”.

A seção trabalhista do T-MEC é demagogia colonial e não democracia sindical

Denunciamos como farsa a “seção trabalhista” do tratado, que hoje é apresentada por AMLO como uma “grande conquista” em relação ao TLCAN. Segundo sua mensagem, através do T-MEC “os salários serão aumentados e os sindicatos serão democratizados”. É escandaloso que ele deboche dos trabalhadores que confiaram nele. As empresas americanas que promoveram o T-MEC e sua “seção” são as mesmas que mantêm os salários miseráveis ​​e até se recusaram a pagá-los integralmente durante a quarentena, até mesmo demitindo milhares de pessoas que exigiam que a lei da Emergência Nacional de Saúde fosse observada. E são esses mesmos capitalistas, aqueles que privilegiam os contratos de proteção com os pelegos dos sindicatos burocráticos, demitem milhares e perseguem os líderes que promovem a organização sindical independente. Em outras palavras, não há nada a agradecer a Trump (nem houve nada que agradecer a Obama, nem a Bush), a não ser repudiar e resistir a essa exploração, pilhagem e essa humilhação.

A resistência já começou

Ao contrário do discurso capacho e cúmplice de AMLO, o movimento operário na fronteira rechaça esse regime injusto e colonial. É o Movimento dos Trabalhadores 20/32, que desde janeiro de 2019 surgiu na cidade de Matamoros com uma onda de greves que causou pânico nas empresas maquiladoras e seus agentes políticos e sindicais. E que conseguiu apresentar uma alternativa política independente de classe frente a todos esses partidos do regime e fundar um novo Sindicato independente com registro a escala nacional. E começou a irradiar lentamente para outros centros na fronteira norte.

Os inimigos da classe trabalhadora lançaram uma furiosa contraofensiva judicial e policial para acabar com esse movimento. A prisão da advogada Susana Prieto Terrazas, por três semanas, e a atual perseguição contra ela, têm esse objetivo. Isso mostra como aqueles que jantaram com Trump na Casa Branca planejam manter a oferta dessa: jovem, criativa e responsável força de trabalho … bons operários que se destacam por sua imaginação, talento e mística de trabalho”. Esses fatos expõem a hipocrisia da “seção trabalhista” do T-MEC.

Por esse motivo, é necessário ampliar a solidariedade em nível nacional e internacional com os perseguidos da América do Norte e do mundo, pela completa liberdade da advogada Prieto Terrazas, pela reintegração de Erek Slater em seu posto de trabalho, pela solidariedade com a Frente Única dos Povos da Laguna em defesa da vida e da água, que enfrenta a multinacional Chemours Dupont, que constrói uma fábrica de cianeto de sódio e também o apoio aos irmãos indígenas perseguidos em Chiapas, Oaxaca e Guerrero por enfrentar concessões a empresas de mineração dos EUA. Em resumo: coordenar de maneira unificada as lutas de todos aqueles que resistem na América do Norte, contra a exploração, os saques de nossos recursos, desapropriação territorial e destruição do meio ambiente pelos megaprojetos dessas mesmas empresas transnacionais que hoje celebram com AMLO e Trump o novo T-MEC.

Notas:

[1] A Iniciativa Mérida (às vezes chamada de Plano Mérida ou Plano México) é um tratado internacional de Segurança , estabelecido pelos Estados Unidos com o México e os países centro-americanos, com o suposto objetivo de “combater o narcotráfico e o crime organizado”. O acordo foi aceito pelo Congresso dos Estados Unidos e ativado pelo ex-presidente George Bush em 30 de junho de 2008.

[2] O Ministério das Relações Exteriores informou a lista oficial de membros do Conselho Assessor Empresarial do Presidente: Carlos Slim Helú, proprietário do Grupo Carso e o homem mais rico do México; Patricia Armendáriz Guerra, da Financiera Sustentable; e Carlos Bremer Gutiérrez, do Grupo Financiero Value; Ricardo Salinas Pliego, dono da TV Azteca, do Grupo Salinas, o segundo homem mais rico do país; Carlos Hank González, presidente do Grupo Financiero Banorte; Bernardo Gómez, codiretor executivo do Grupo Televisa; além de Olegario Vásquez Aldir, dono do Grupo Empresarial Ángeles. Os outros empresários são Francisco González Sánchez, do Grupo Multimedios; Daniel Chávez Morán, promotor imobiliário e fundador do Grupo Vidanta; e Miguel Rincón, CEO da Bio Pappel; e Marcos Shabot Zonana, de Arquitetura e Construção. Representando seus interesses, nas reuniões com Trump, Alfonso Romo Garza, chefe do gabinete presidencial, um empresário do agronegócio, associado ao ex-Monsanto, hoje Bayern.

[3] Contribuições da Corriente Obrera, de Los Angeles, CA, EUA.

Tradução: Alex Leme