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Donald Trump está aumentando sua guerra de ataques econômicos com uma proposta de acordo bilateral entre EUA e México que substitui o Acordo Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA) entre os EUA, México e Canadá. Isso obriga o México a fazer novas concessões, enquanto exige do Canadá, se quiser se juntar, mudanças substanciais em suas relações econômicas – em benefício dos EUA.

Por: Peter Windeler – ISL – Inglaterra

No início deste ano, Trump anunciou que seriam impostas tarifas sobre as importações de aço (25%) e alumínio (10%) a partir de 23 de março. A China acusou os Estados Unidos de lançarem a maior guerra comercial da história, com a imposição de impostos de US$ 50 bilhões sobre estes produtos importados da China. A China retaliou aplicando impostos sobre a soja, algodão, milho, tabaco e automóveis fabricados nos EUA.

Isso significa que o capitalismo foi incapaz de negociar suas regras de comércio entre os países. A Organização Mundial do Comércio (OMC) define as regras do comércio e a mais recente rodada de negociações, a “Rodada de Doha”, não conseguiu chegar a um acordo, apesar de ter levado dezessete anos. O resultado líquido pode ser uma queda geral no crescimento mundial de 1% e uma redução do crescimento dos EUA em 5%.

Mas estes impostos levarão a resultados conflitantes nos EUA, piorando sua posição – alimentando o fogo de futuros conflitos.

Donald Trump não está sozinho na imposição de impostos sobre o aço. George W. Bush tentou as mesmas medidas em 2003 e o equivalente americano de Jeremy Corbyn, Bernie Sanders, um senador de Vermont, que concorreu nas primárias presidenciais do Partido Democrata, disse que apoia as tarifas.

Enquanto Trump diz que “… as guerras comerciais são boas e fáceis de ganhar”, um professor de Princeton argumenta que os EUA declararam guerra ao sistema de comércio.

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Trump prometeu impor tarifas em sua campanha eleitoral presidencial. Isso foi bem-vindo nos estados de Ohio, Pensilvânia e Indiana, produtores de aço. Mas sua postura levou à renúncia de seu principal conselheiro econômico, Gary Cohn.

Até mesmo uma empresa de ponta como a Harley-Davidson está fechando sua fábrica em Kansas City, uma vez que as tarifas comerciais aumentarão o custo de produção nos EUA. Agora, muitas outras grandes empresas estão ameaçando transferir a produção para suas fábricas no exterior.

No Reino Unido, onde a indústria siderúrgica luta pela sobrevivência, os novos impostos podem ser fatais porque 7% da produção (350 mil toneladas) é exportada para os EUA.

Outros países que serão afetados são o resto da UE, Brasil, Japão e Coreia do Sul.

A perspectiva de um aprofundamento da guerra comercial, a desaceleração do crescimento e a emergente crise da dívida em alguns países expõem as principais linhas divisórias do imperialismo pós 2008.

O que Trump está tentando fazer, em conflito com alguns setores poderosos do capitalismo norte-americano, é reestruturar a economia mundial em benefício das grandes empresas dos EUA para aumentar seu monopólio, como aconteceu depois da crise de 2008 – isto é, uma centralização ainda maior do capital financeiro. Mas toda produção, em qualquer parte do mundo, deve seguir a lei da produtividade do trabalho. O aço está sendo produzido fora da América mais eficientemente – essencialmente com maior produtividade do trabalho. O nacionalismo econômico resultará em uma redução da produtividade.

Trotsky, na década de 1930, ao discutir o nacionalismo econômico da Alemanha e da Itália, comparou as tentativas de resolver os problemas do capitalismo através do nacionalismo com a lenda de Procusto, o bandido grego que esticava ou cortava as pernas de seus cativos para fazê-los caber em sua cama.

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As tarifas também levarão à inflação à medida que os custos de produção aumentem, mas não seu valor. A inflação é a expressão da desordem das relações internas do capitalismo.

Trotsky falou dos EUA como o tipo mais perfeito de desenvolvimento capitalista. Tinha um grande mercado interno e superioridade tecnológica e econômica em comparação com seus principais rivais da Europa.

As tendências de monopólio e de controle pelo capital financeiro continuaram no período do pós-guerra. E após a crise econômica de 2008, apesar de toda a conversa sobre regulamentação bancária, os bancos tornaram-se ainda mais poderosos.

“A consolidação do setor bancário após a crise financeira de 2008 … entre 1992 e 2017, o número de bancos comerciais dos Estados Unidos diminuiu de 11.463 para 5.796 ou aproximadamente -49% … há um total de 122 grandes e gigantes bancos que controlam coletivamente 82% de todos os ativos bancários comerciais… os quatro maiores bancos dos EUA detêm cerca de 41% do total de ativos bancários em 2017.”¹

Os EUA ainda têm força econômica e poder militar. E procura resolver problemas econômicos por meios políticos, econômicos ou militares (no período do pós-guerra por guerras locais, regionais ou em nome de outros países).

Os EUA usaram a crise da Coreia do Norte para estabelecer um sistema de mísseis, que pode alcançar toda a China. A lógica capitalista é que a guerra militar ou sua ameaça acompanham a guerra comercial.

Mas mesmo com tal poder concentrado a situação mudou. A vantagem técnica dos EUA foi reduzida, em comparação com a China, o Japão e uma série de nações recém-industrializadas.

Guerra comercial não é solução para os trabalhadores

Os trabalhadores do Reino Unido não devem ficar do lado dos defensores da guerra comercial.

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A crescente instabilidade no mundo, na UE e no Reino Unido significará que a classe dominante combinará a austeridade com o Brexit e os efeitos da guerra comercial, sob o slogan “estamos todos juntos”, para fazer com que os trabalhadores paguem por sua crise.

A única solução real é que as massas do mundo façam com que as multinacionais correspondam às necessidades humanas.

No momento, Trump está tentando agir como Arquimedes e usa os Estados Unidos como o ponto de apoio de sua alavanca para virar o mundo de cabeça para baixo – no entanto, seus esforços serão infrutíferos.

Somente a classe trabalhadora pode se defender, e sua melhor e única defesa duradoura é uma luta de massas pelo socialismo e pela destruição do poder da classe dominante.

Uma revolução vitoriosa dos trabalhadores em um país inspiraria eventos semelhantes em todo o mundo. Muito rapidamente, com cooperação, a produção pode ser organizada para atender às necessidades de todos.

Notas

¹ lavozlit.com/what-is-imperialism-a-marxist-understanding-part-1/

Tradução: Marcos Margarido