O site da LIT-QI passará a publicar uma sessão especial de artigos escritos pelo militante bolchevique David Riazanov. Riazanov foi o idealizador do Instituto Marx-Engels, que se tornou a principal referência da obra de Marx e Engels desde sua fundação, em 1922.

No período em que Riazanov ficou à frente do Instituto, até 1931 (quando foi preso a mando de Stalin), ele teve um trabalho infatigável de busca e recuperação dos escritos dos dois fundadores do marxismo, percorrendo toda a Europa para isso, resgatando, principalmente os textos sob a guarda do Partido Socialdemocrata da Alemanha (PSDA), que se encontravam em péssimo estado de manutenção.

Ao mesmo tempo em que iniciava a coleção mais completa do mundo das obras de Marx e Engels (mas não apenas deles) Riazanov publicava textos sobre os principais documentos que ele descobria, explicando o contexto em que foram escritos e esclarecendo muitas dúvidas geradas pelas publicações feitas pelo PSDA, muitas delas incompletas e até adulteradas, como o prefácio de Engels à edição de 1895 do livro de Marx A Luta de Classes na França de 1848-1852.

Riazanov também polemizou, através destes textos, com Franz Mehring, o principal biógrafo de Marx, que escreveu Karl Marx, A História de sua Vida, publicado no Brasil pela Editora Sundermann, onde ele questiona algumas das reconstruções da vida de Marx feitas por Mehring, principalmente em relação a Bakunin e a Lassalle. Fruto de suas pesquisas, Riazanov escreveu sua própria biografia de Marx e Engels, publicada no Brasil pela Global Editora (edição esgotada) sob o título Marx e Engels e a História do Movimento Operário, mostrando que a principal preocupação de Marx e Engels era a construção de partidos revolucionários na Europa para a vitória da revolução socialista, quando fosse chegada a hora, e não apenas escrever livros sobre filosofia ou economia. Este texto também será publicado, em capítulos, nesta sessão do site da LIT-QI.

Riazanov fundou algumas revistas, ligadas ao Instituto Marx-Engels, para as quais escrevia como, Os Arquivos Marx-Engels e Os Anais do marxismo. O CFM David Riazanov, a quem devemos a tradução dos textos que começamos a publicar, está iniciando um trabalho de tradução destes trabalhos, que serão publicados futuramente aqui.

Esperamos que esta leitura seja prazerosa e instrutiva a todos aqueles que se interessem pelo passado de Marx e Engels e pela obra de Riazanov, um passado que pode iluminar nosso presente pela construção de uma sociedade socialista.

As relações de Marx com Blanqui  

Marx e Engels foram acusados por muito tempo de blanquismo. Bernstein foi ainda mais longe. Em 1898, ele declarou: “Na Alemanha, Marx e Engels, com base na dialética hegeliana radical, desenvolveram uma teoria intimamente relacionada ao blanquismo”. Sem levar em conta sua permanente rejeição ao putschismo, Bernstein também declarou: “Eles (os escritos inspirados por Marx e Engels na época da Liga Comunista – DR) estão totalmente impregnados de um espírito Blanquista-Baboeufista”. [1]

Por: David Riazanov (1928)

A melhor prova dessa afirmação, segundo Bernstein, é fornecida pela atitude que Marx tomou em relação aos acontecimentos da Revolução de Fevereiro [de 1848 na França, ndt]. Enquanto Bernstein considerava o partido de Louis Blanc e da Comissão de Luxemburgo como o “único partido proletário”, Marx, pelo contrário, considerava os blanquistas como tal.

Bernstein apela à circular da Liga Comunista (Mensagem ao Comitê Central da Liga de junho de 1850), mas ele poderia apontar com maior justificação as seguintes frases de Marx em A luta de classes na França – uma passagem que ele passa por cima, como também faz Kautsky, que interpreta a “ditadura do proletariado” como uma mera frase casual proferida por Marx acidentalmente por um deslize da língua, e não, no mínimo, como a própria essência da estratégia revolucionária marxista.

Enquanto os utopistas e socialistas doutrinários (ou seja, o socialismo de Louis Blanc e dos seus amigos – DR) subordinam todo o movimento a um fator interno a ele, colocam as ruminações de um único pedante antes da produção social comum, e acima de tudo evitam a luta de classes revolucionária e suas exigências com pequenos truques ou grandes sentimentalismos … o proletariado está se voltando cada vez mais para o socialismo revolucionário, para aquele comunismo ao qual a própria burguesia deu o nome de blanquismo“.

Qual é o conteúdo deste socialismo?

Este socialismo é a declaração da permanência da revolução, a ditadura de classe do proletariado como etapa necessária para a abolição de todas as diferenças de classe, a abolição de todo o sistema de produção sobre o qual repousam, a abolição de todas as condições sociais que correspondem a essas relações de produção, a destruição de todas as ideias que surgem destas condições sociais.” [2]

Bernstein recorreu a um truque ainda mais desprezível, à medida que utilizou muito pouco outros textos de Engels, como os manuscritos de Naturdialektik [Dialética da Natureza, ndt], que estava em sua posse, uma ação que foi calculada para destruir a última dúvida quanto à influência “profana” exercida sobre Marx e Engels pela dialética hegeliana. Isso aconteceu da seguinte maneira. Entre os papéis legados a ele por seu velho mestre estava oculto por três décadas nada menos que um tesouro, um acordo com os blanquistas, assinado por Marx e Engels com suas próprias mãos, segundo o qual os comunistas alemães, franceses e ingleses deveriam organizar uma “Liga Mundial de Comunistas Revolucionários”.

No primeiro parágrafo deste documento, diz-se:

O objetivo da associação é o fim de todas as classes privilegiadas e a sujeição dessas classes à ditadura do proletariado, mantendo a revolução em permanência até a realização do comunismo, que é a forma final de organização da sociedade humana.” [3]

O acordo foi assinado por Adam e Vidil em nome dos blanquistas, por Willich, Marx e Engels pelos comunistas alemães, e por Harney pelos comunistas ingleses.

Vamos compará-lo com o texto do primeiro artigo dos Estatutos da Liga Comunista.

O objetivo da Liga é o fim da burguesia, o poder do proletariado, a abolição da antiga sociedade burguesa baseada nos antagonismos de classes, e o estabelecimento de uma nova sociedade sem classes nem propriedade privada“. [4]

A diferença é óbvia. O “poder do proletariado” é substituído pela “ditadura do proletariado”, a “revolução” é substituída por uma “revolução permanente” (la révolution en permanence).

A primeira mudança pode ser considerada de natureza editorial, embora tenha resultado das experiências da Revolução de 1848 e, especialmente, dos acontecimentos em Paris entre 24 de fevereiro e os dias de junho; a última resultou em um acréscimo que, como já expus em outro texto, apareceu pela primeira vez depois de 1848-49, embora a expressão apareça nos primeiros trabalhos de Marx sobre as lições da grande Revolução Francesa, particularmente sobre as lições dadas pelos jacobinos que apoiaram a “révolution en permanence.

O acordo reproduzido aqui está escrito no espírito da famosa circular da Liga Comunista. É bem sabido que a Liga não viveu muito tempo, pois já em setembro de 1850 havia se dividido em uma fração de Marx e uma fração de Willich-Schapper. Dos signatários do acordo, Vidil estava do lado de Willich, e Adam, de Marx. A divisão na Liga Comunista também se refletiu em uma divisão nas fileiras dos “socialistas democráticos” franceses, entre os quais um número considerável era conhecido por Louis Blanc, que então se esforçava para chegar a um entendimento com os radicais burgueses. Os blanquistas aliados de Louis Blanc viram-se obrigados, no momento do Banquete dos Iguais (Banquete des égaux), realizado em 1851, no terceiro aniversário de 24 de Fevereiro, a manter em segredo o manifesto [5] recebido por eles do prisioneiro Blanqui, no qual ele faz críticas devastadoras à atitude de Ledru-Rollin, e ainda mais de Louis Blanc. Falaremos desses episódios interessantes da história da emigração em outra hora. Aqui nos limitamos a chamar a atenção do leitor para os numerosos pontos de contato entre a crítica de Marx ao governo provisório de Lamartine, Ledru-Rollin e Louis Blanc, e a de Blanqui.

Apêndice I

A Liga Mundial de Comunistas Revolucionários (Société Universelle des Communistes Révolutionnaires)

(1) O objetivo da Associação é o fim de todas as classes privilegiadas e a sujeição dessas classes à ditadura do proletariado, pela manutenção da revolução em permanência até a realização do comunismo, que deve ser a forma final de organização da comunidade humana.

(2) Para a realização desse objetivo, a Associação unirá todas as seções do Partido Comunista revolucionário, desconsiderando as fronteiras nacionais de acordo com os princípios da fraternidade republicana.

(3) O comitê original da Liga é constituído como um comitê central e estabelecerá comitês onde for necessário para a execução dos trabalhos que estarão em contato com o comitê central.

(4) Nenhum limite é fixado para o número de membros da Liga, mas nenhum membro será admitido sem ser eleito por unanimidade. Em nenhum caso as eleições serão realizadas por escrutínio secreto.

(5) Todos os membros da Liga juram manter o parágrafo um das regras presentes no sentido mais amplo. Qualquer modificação que possa resultar num enfraquecimento dos objetivos expressos neste parágrafo libera os membros da Liga do seu envolvimento.

(6) Todas as decisões da sociedade que obtiverem uma maioria de dois terços dos eleitores devem ser adotadas.

(Assinado) J. Vidil, Adam, August Willich, K. Marx, G. Julian Harney, Fr. Engels.

Notas:

1. Ed. Bernstein, Die Voraussetzungen des Sozialismus, Stuttgart, 1899, pp.28, 29.

2. Karl Marx, Die Klassenkämpfe em Frankreich, Berlim, P. Cantor, 1911, pp.93, 94.

3. Cf. Apêndice I .

4. Archiv fur die Geschichte des Sozialismus und der Arbeiterbewegung, Jahrgang 9 (1920), p.334.

5. A saudação foi enviada por Blanqui, de Belle-Isle a Londres, em resposta a um pedido de uma saudação para o banquete realizado em 25 de fevereiro de 1851 para celebrar o terceiro aniversário da revolução de 1848. Engels contou a história da saudação: “Barthélémy, autointitulando-se blanquista, convenceu Blanqui a enviar uma saudação ao congresso. No entanto, Barthélémy recebeu um ataque magnífico ao Governo Provisório, a Louis Blanc & Cia, entre outros. Barthélémy, chocado, deixou o documento de lado e foi decidido não publicá-lo”. Veja http://www.marxists.org/reference/archive/blanqui/1851/toast.htm.

Originalmente publicado em Unter dem banner der Marxismus. (2º ano, no. 1-2, 4-5)

Tradução: Marcos Margarido