Parece uma pergunta antiquada ou utópica, mas há não muitos anos esta era uma pergunta muito presente nas ruas e empresas em Portugal.

Por: Joana Salay

“O trabalho não é uma mercadoria, é um direito. Queremos trabalhar para viver, e não viver para trabalhar. Para o capitalista, o operário é uma máquina. Os capitalistas só se interessam pelos operários quando estes dão lucro (…) Contra a exploração, direito ao trabalho!”.

Era o que dizia um cartaz à porta da Fábrica de Lanifícios Sousa Abreu, em autogestão a partir de setembro de 1974 para que o patrão não fechasse a fábrica e levasse embora as máquinas. Foram centenas de empresas que estiveram em autogestão ou controle operário, uma vez que os patrões tendiam a fugir do país devido ao processo revolucionário, ou não garantiam as condições de vida para os trabalhadores devido à crise económica.

A revolução era forte e os trabalhadores encontravam-se perante situações antes impensáveis. Era preciso questionar, revolucionar também as ideias que estavam impregnadas na cabeça de todos: os patrões são necessários para a economia do país e a propriedade privada dos meios de produção é inviolável. Mas, afinal, quem precisa de patrões? As empresas nacionalizadas empregavam 8% da população economicamente ativa.

Esforço para desviar o processo

O processo revolucionário era tão intenso que foram precisas diversas medidas do Estado para conseguir controlar o ímpeto da revolução e conter o avanço do controlo operário. Desde limitar as ações do controlo operário, até desviar o processo para as nacionalizações institucionalizadas e controladas pelo Estado.

Contribuíram para isso os dois principais partidos operários da época: PS e PCP. Ao ponto de o PCP se colocar contra a centralização nacional das Comissões de Trabalhadores que brotavam pelo país e que era condição fundamental para garantir da manutenção do controlo operário. Era inegável que, com a força do movimento operário e o duplo poder que se desenvolvia, era possível ir além do questionamento do regime e questionar as amarras capitalistas que travavam o desenvolvimento do país, condição necessária para sustentar os avanços do controlo operário, pois dentro do capitalismo também a autogestão é limitada se não for parte de uma mudança das relações gerais de propriedade. No entanto, PCP e PS conseguiram derrotar a última revolução europeia e, 10 anos depois, a maior parte das empresas estariam novamente no setor privado.

A necessidade da gestão operária hoje

A forte crise sanitária e social que vivemos faz-nos questionar ainda mais o sistema capitalista, que, por existir para garantir o lucro e não as necessidades sociais, impede que sejam implementadas medidas mínimas que permitiriam controlar com muito mais eficácia a pandemia e, principalmente, a crise social que vivemos.

O que aconteceria se os trabalhadores da Groundforce, que fizeram uma forte mobilização pela garantia do pagamento dos salários, decidissem que seriam eles a controlar a empresa, para garantir o seu funcionamento normal e os direitos de quem trabalha? Ganharíamos nós, população portuguesa, porque teríamos o funcionamento de uma empresa importante para Portugal; e ganhariam os trabalhadores, pois teriam a garantia do pagamento dos salários e da manutenção dos seus empregos. Perderiam apenas Alfredo Casimiro e os acionistas da Groundforce, mas, afinal, quem precisa de patrões?

Como dissemos, para sustentar essa conquista seria preciso ir além e questionar o capitalismo como um todo, mas a Groundforce é um bom exemplo de como apenas no capitalismo faz sentido colocar os interesses privados de uns poucos à frente da vida e da garantia do sustento de milhões. Em tempos de crise, como foi na revolução do 25 de Abril, é preciso questionar as ideias que nos parecem mais elementares.

Já dizia o poeta alemão Bertold Brecht “Em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar.”

Fonte: os Dados e citações deste artigo foram retirados do Livro “História do Povo na Revolução Portuguesa 1974-75”, de Raquel Varela.