Há dois meses de encerrar a inscrição das coligações eleitorais e das candidaturas, está praticamente descartada a coligação do “NÃO”, já que principalmente Ottón Solís [1] não aceitou as propostas da Frente Ampla e Aliança Patriótica. Ao contrário, cada partido está submerso em seu processo de eleição interna e já começaram as disputas não muito amigáveis na escolha de candidatos a deputados.


 


Enquanto isso acontece nas supostas filas do “NÃO”, a oligarquia costarriquense já tem uma candidata muito sólida que é claramente o continuísmo do Arismo [2]. É muito evidente que Laura Chinchilla saia como a candidata favorita nos comícios de 2010.


 


Diante deste panorama, a esquerda socialista deve se perguntar qual é a política para sair fortalecida deste processo, já que por um lado a Frente Ampla (FA) continua fazendo chamados ao PAC (Partido da Ação Cidadã) e a AP (Aliança Patriótica) para conseguir esta coligação, mas diante desta negativa a FA só vê como única possibilidade sair sozinha nestas eleições, descartando a unidade com outros grupos de esquerda como Vanguarda Popular que está inscrita a nível nacional, e o MAS (Movimento ao Socialismo) onde estamos inscritos a nível regional, e as demais forças sindicais e populares que podem apoiar uma coligação eleitoral da esquerda socialista.


 


Nós do MAS queremos fazer esta discussão com total franqueza, já que temos muitas diferenças com a Frente Ampla e a Vanguarda Popular, principalmente com sua permanente estratégia de buscar alianças com “burgueses progressivos”.  Além disso, a Frente Ampla na época do TLC (Tratado de Livre Comércio entre as Américas) foi uma das principais vozes da política do referendo ao invés da preparação da greve geral, o que ao final nos levou a não poder resistir ao enfrentamento da agenda da implementação do mesmo.


 


Entretanto, em que pese estas e outras diferenças consideramos que é correto unificar a esquerda que se reivindica socialista sob uma mesma proposta eleitoral em 2010, onde estejam as organizações populares, sindicais e estudantis.


 


Para que esta proposta possa ter resultados necessita haver um acordo entre a Vanguarda Popular e a Frente Ampla que possuem inscrições nacionais, e a partir do MAS colocamos nossa inscrição regional a disposição de uma coligação com estas características. Entretanto nos parece pertinente discutir três elementos para poder chegar a uma coligação da esquerda socialista, primeiro as razões do fracasso de uma grande coligação poli classista com o pretexto do “NÃO”, segundo a política do arismo e como enfrentá-la, o programa para construir uma coligação de esquerda socialista. Sobre esta base nós do MAS queremos discutir muito fraternalmente com as organizações sindicais, camponesas, estudantis, ambientalistas e com os partidos políticos inscritos como a Vanguarda e a Frente Ampla.


 


Porque fracassou a coligação do “NÃO”?


 


No dia 7 de outubro de 2007 fomos derrotados pelo imperialismo e a oligarquia tica [3] dirigida por Oscar Arias, desta derrota ainda não nos recuperamos, o que demonstra a facilidade com que Oscar Arias vem aprovando todos os projetos de seu interesse um atrás do outro, como as leis da agenda de implementação, a lei de concessão de obra pública, o projeto cidade porto em Limón [4], etc. Entretanto pesa a esta derrota a direção auto proclamada do “NÃO” como os senhores Eugenio Trejos, Albino Vargas, Ottón Solís etc.


 


Não houve nenhuma discussão de balanço do porque das massivas mobilizações passamos para a quase total dispersão nas lutas e a apatia das bases das organizações sindicais e populares. Mas sim que quase sem guardar luto pela derrota começou a discussão eleitoral, e os grupos eleitorais começaram a brigar pelos comitês patrióticos para garantir sua própria inscrição.


 


Nesse processo setores honestos começaram clamar pela unidade para derrotar o arismo, chamaram pela mesma unidade que houve no referendo, embora o referendo tenha sido uma manobra para desviar a luta que vinham travando os sindicatos e as demais organizações populares contra o TLC, apoiados na vitória contra o Combo do ICE [5]. Nessa manobra se substituiu as marchas e bloqueios pelas praças públicas e as plataformas, e sobre essas plataformas foram alçados vários dirigentes auto proclamados como Rolando Araya, Eugenio Trejos, Oscar Campos, Ottón Solís, etc., que, além disso, tinham uma clara intenção eleitoral por trás de sua pose de luta, como foi demonstrado nos últimos meses onde cada um defendeu seus interesses, dentro dos agrupamentos eleitorais.


 


A todas as pessoas honestas que continuam chamando pela unidade do “NÃO” que esquecem que no referendo não existiam listas de deputados, não existia o primeiro lugar por San José ou por Guanacaste e Limón, tampouco existia as dívida política paga pelo Estado. A unidade dos distintos setores burgueses na cúpula do ‘NÃO” foi com o objetivo de ver quem aparecia mais diante dos olhos do eleitorado para conseguir maior força eleitoral.


 


Neste marco nos parece errada a proposta da Frente Ampla de continuar chamando Ottón Solís e o PAC, e a Aliança Patriótica a uma coligação eleitoral. Já que o primeiro não tem nada haver com um programa político de esquerda senão sob uma abstração de derrotar o neoliberalismo, mas Ottón Solís em suas declarações tem demonstrado ter uma política a direita em muitos temas como o aborto, a política de concessão de obra pública, a abertura do INS (Instituto Nacional de Seguros), a renegociação do TLC, etc.


 


O PAC conseguiu se camuflar como um partido progressivo devido à participação em dois processos eleitorais onde o país estava comovido pela luta social como foi em 2002 o Combo do ICE, no qual o PAC (Partido da Ação Cidadã) pode capitalizar graças a crise fúnebre da Força Democrática. E nas eleições de 2006 onde apareceu como o candidato do “NÃO”. Mas logo depois da derrota do referendo essa postura acabou e hoje seu interesse é negociar com a oligarquia para demonstrar que pode ser um governo confiável para eles. Por estas razões é que o PAC não aceita uma coligação eleitoral já que após a derrota onde eles são grandes responsáveis, os setores populares não podem ser úteis como foram em 2002 e 2006. Neste sentido a política da direção da Frente Ampla é oportunista e entregaria a direção da coligação a um setor altamente conservador.


 


Neste caso a Aliança Patriótica, é igualmente perigosa já que também é um partido burguês, onde há personagens como Mariano Figueres, quem certamente apóia seu irmão em seus atos de corrupção pelos que prefere não ingressar no país. Mas também estão Oscar Campos e Rolando Araya, o primeiro votou a favor do COMBO do ICE sendo deputado, e girou contra o  TLC devido aos seus interesses como produtor de arroz, o segundo foi candidato a presidência pelo PLN (Partido da Liberação Nacional) em 2002, com o apoio de todas as facções incluindo o arismo. A AP não é mais que um partido burguês composto por patrões que esta tentando buscar um espaço na assembléia legislativa para poder converter-se em representante de uma burguesia que está vendo seus negócios atacados pelo imperialismo e o arismo.


 


Diante desta situação nem o PAC está interessado em aliar-se com setores a sua esquerda nem a AP está disposta a arriscar os poucos cargos que pode disputar.


 


A força do Arismo


 


Na esteira da convenção o arismo conseguiu reviver o PLN como um partido sólido uma vez que surgiu uma nova tendência interna como a de Johnny Araya, que após a derrota do “NÃO” aceitou a candidatura Laura Chinchilla e está negociando as candidaturas que lhe garantam uma cota de poder. Além disso, é notório que pela quantidade de dinheiro investida nesta convenção a oligarquia tem o Liberación (PNL) como seu partido e estará apoiando Laura em fevereiro de 2010.


 


O governo de Arias tem feito um grande esforço na área assistencial principalmente com o programa Avancemos [6], e a crise não atingiu ainda de maneira profunda o país para produzir uma resposta eleitoral em punição à queda no nível de vida. Além disso, os conflitos principais como Crucitas, Sardinal [7] e orçamento das universidades, foram congelados, provavelmente, até as eleições nacionais. Só mantém em curso o ataque a plataforma de Limón, onde encurralaram o SINTRAJAP (Sindicato dos Trabalhadores da Junta Administrativa Portuária e Desenvolvimento da Vertente Atlântica). Neste panorama o governo de Arias sai fortalecido para conquistar o continuísmo com Laura Chinchilla, já que o PAC ou uma suposta coligação não tem a seu favor uma situação objetiva como a do TLC para poder ganhar dos milhões investidos pela oligarquia e o imperialismo.


 


Entretanto devemos ter claro que diante de uma reeleição do Arismo, o que vem é um forte ataque ao nível de vida da classe trabalhadora e as comunidades do país, os projetos como o da Sardinal e Crucitas serão cada vez mais comuns para saciar o apetite das transnacionais, além do que, o ataque as conquistas trabalhistas retornaram a pauta na Assembléia Legislativa. Por isso é muito importante que as eleições de 2010 sirvam para fortalecer as organizações sindicais e populares tanto política como organizativamente e que sirvam para romper a dispersão que hoje vive o movimento popular.


 


Nossa proposta para a esquerda


 


Desta perspectiva nos parece que a esquerda socialista costarriquense deve construir uma força política eleitoral que discuta um sólido programa, onde se prepare para as lutas que se aproximam e não só fazer um cálculo eleitoral de quantos deputados poderiam ser eleitos. Por isso propomos as organizações populares aglutinadas na Frente Nacional de Luta, na Vanguarda Popular e na Frente Ampla iniciar uma discussão sobre a conformação de um programa para encarar estas eleições onde propomos como base os seguintes pontos:


 



  1. Que a crise seja paga pelos ricos e por uma verdadeira liberdade sindical no Estado e no setor privado;

  2. Contra as privatizações, defendamos a JAPDEVA;

  3. Repúdio ao TLC, não a renegociação;

  4. 8% para a educação pública;

  5. Por uma verdadeira reforma agrária;

  6. Pela defesa do meio ambiente, Não ao projeto de Crucitas e o aqueduto de Sardinal;

  7. Pela defesa das reivindicações das mulheres;

  8. Pela defesa da diversidade sexual com plenos direitos.

 


Sobre a base de uma discussão programática é que se pode chegar a um acordo, onde nossa proposta é que se coloque a disposição das organizações populares às candidaturas, o que permitirá criar uma sólida coligação que fortaleça a resistência popular diante dos ataques do imperialismo.


 


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NT:


[1] Ottón Solis – político e economista, líder do Partido da Ação Cidadã, agrupação política de centro esquerda, principal força de oposição ao Congresso da República;


[2] Arismo – corrente política  do atual presidente Oscar Arias Sanches;


[3] Tico – o nome usado para se referir aos habitantes nativos da Costa Rica. Oligarquia tica – referente à oligarquia local, provavelmente a originária do café;


[4] Projeto cidade do Porto de Limon – projeto de restauração da cidade portuária de Limon através da concessão do porto de Limon;


[5] Combo do ICE – movimento social de oposição ao projeto de lei, que ocorreu nos meses de março e abril de 2000, que pretendia modificar o esquema de gestão da ICE (empresa estatal de eletricidade e telecomunicações);


[6] programa Avancemos – programa de subsídio econômico as famílias pobres para manter os filhos na escola;


[7] Projeto Crucitas – escavação de uma mina de ouro a céu aberto a menos de 10 km do Rio San Juan e da fronteira com a Nicarágua. O projeto explorará cerca de trezentos hectares de bosque primário e secundário, ameaçando de contaminação o meio ambiente devido à utilização de substâncias tóxicas, afora o impacto social; Projeto Sardinal – construção de um novo aqueduto para atender a demanda turística, que é visto como uma ameaça para as comunidades da região.