Os resultados da segunda eleição presidencial no Peru dão vitória ao professor e dirigente sindical Pedro Castillo 50,125% dos votos válidos, 44 mil votos à frente de Keyko Fujimori, candidata da extrema direita, filha do ex-ditador Alberto Fujimori e atualmente processada como líder de uma organização criminosa de lavagem de dinheiro (seu partido Força Popular). A proclamação do novo presidente, porém, está suspensa devido às manobras que a extrema direita está fazendo para anular a eleição ou impor um golpe e roubar a eleição popular, que prenuncia grandes lutas operárias e populares.

Por: PST – Peru

Pedro Castillo foi a surpresa do primeiro turno em que venceu sem ter sequer aparecido nas pesquisas poucas semanas antes. Lançado pelo Peru Livre, partido regional de esquerda, e praticando um discurso nacionalista e popular, o professor Castillo reunia apoio nas regiões mais remotas e abandonadas, principalmente no sul do país, no contexto de um ano de pandemia que agravou as condições de miséria e atingiu 180 mil mortes por covid-19 em todo o país.

Para o segundo turno, Castillo aliou-se a diferentes partidos da esquerda reformista, moderando suas propostas programáticas. E, além de surgir como a opção popular contra o modelo econômico, tornou-se uma alternativa para setores sociais que não questionam o modelo, mas priorizam o repúdio ao autoritarismo, à corrupção e às posições ultraconservadoras que o fujimorismo agrupa.

A típica “democracia” da extrema direita

A vitória de Castillo é assumida como sua, pelos setores operários e populares não só porque veem a possibilidade de uma mudança que favoreça a economia popular, mas também porque é fruto de uma das eleições mais desiguais, antidemocráticas e classistas dos os últimos tempos. Isto devido à ofensiva ideológica e à guerra suja da ultradireita, onde a Aliança Popular Revolucionária Americana (APRA), o Partido Popular Cristiano (PPC), o embrionário líder fascista López Aliaga, que gritou “morte a Castillo!” em um de seus comícios em favor de Fujimori e o híbrido liberal-cortesão Mario Vargas Llosa, ex-crítico ácido do clã Fujimori por representar, segundo ele, o pior da corrupção e do autoritarismo, e agora como seu aliado escreve os mais satânicos versos contra o  candidato de esquerda.

Como se não bastasse, os donos de todos os canais de televisão fizeram uma cobertura da imprensa escandalosamente tendenciosa por Fujimori, como nas piores ditaduras, carregada de mensagens de terror e desinformação. Poucas vezes a ditadura da burguesia foi tão evidente.

Esta ofensiva ideológica e terrorista atingiu o seu objetivo de unificar a classe burguesa em torno da carta mais feia que o primeiro turno lhes poderia ter dado. Não houve como baixar os 70% de rejeição que Keyko Fujimori tinha em março, que não só defende seu pai, o ex-ditador e nega genocídio, a corrupção e seus outros crimes, mas também fez uso de sua maioria parlamentar de 2016 -2019 para proteger a máfia judiciária de “colarinho branco” à qual estava associada e fez parte do derrotado golpe parlamentar de novembro.

Mas essa ofensiva que colocava a disputa entre democracia e comunismo-terrorismo, prosperidade econômica versus miséria e caos, Peru ou Venezuela, não foi suficiente para assustar as grandes maiorias populares e setores democráticos. De que democracia poderiam falar os herdeiros políticos e econômicos da ditadura? De que prosperidade senão a dos donos do país, enquanto a maioria nacional só conhece o desemprego ou as péssimas condições de trabalho, a fome e a morte?

Mas as eleições não só exibiram de maneira distorcida as profundas contradições de classe que se gestaram no país nas últimas décadas, tornando os ricos mais ricos e os pobres mais pobres, mas também refrescaram a memória sobre as contas não resolvidas desde a colônia e a fundação da república, que este ano celebra o seu bicentenário. Porque nesta campanha foram muitas as expressões de racismo e desprezo do opressor pelas populações que ousam desafiar o patrão e ameaçar o status dos déspotas de sempre.

A ultradireita revida e quer roubar a eleição

Apesar do indiscutível resultado eleitoral, a proclamação oficial do presidente eleito está suspensa devido aos recursos de anulação interpostos pela frente de ultradireita dirigida pelo fujimorismo. Eles não buscam apenas a nulidade dos mais de 200 mil votos que em sua maioria favorecem Castillo, o que pretendem é impor a ideia, sem fundamento, de que essas atas seriam a amostra de uma operação de fraude internacional, e pressionam a entidade eleitoral para que determine essa isso e anule as eleições, enquanto instigam as mobilizações reacionárias em meio a chamados de golpe de estado.

Esta investida golpista não é algo que se possa subestimar em meio a uma crise política que se arrasta há anos com episódios de revelações de megacorrupção, o fechamento do Congresso, a vacância presidencial e a derrubada de um governo usurpador pela rebelião popular. Mas a aventura do golpe não é compartilhada por todos os setores burgueses; há quem prefira a estratégia de conciliação baseada no Acordo Nacional desde 2002.

Vários partidos se distanciaram, reconhecendo a vitória de Castillo e pedindo respeito pelos resultados. Até o empresário de universidades privadas e dono do partido APP com bancada no Congresso, aliado de Fujimori no segundo turno, disse “concordo com uma nova Constituição e espero que Pedro Castillo me convoque”.

A outra carta da burguesia

Há onze anos, exatamente nessa época, empresários da Confederação Nacional das Instituições Empresariais Privadas (Confiep) saíram de uma reunião com o então presidente eleito, Ollanta Humala, dizendo que “as dúvidas que tinham nele foram dissipadas”. Agora, existem razões que apontam para uma cena semelhante. O principal sindicato empresarial disse que vai dialogar com quem vencer, admitindo que nos últimos 30 anos o crescimento económico não tem sido usado para se transformar em desenvolvimento e bem-estar para todos. O magnata da mineração Roque Benavides disse que a idoneidade do Escritório Nacional de Processos Eleitorais ( ONPE) e do Júri Nacional de Eleições (JNE) não deve ser questionada e que falar em fraude é um excesso.

Por outro lado, a equipe do virtual presidente garantiu aos grupos empresariais que não haverá nacionalizações, nem desapropriações, nem controle de preços, e que o salário mínimo não será tocado devido aos maus momentos econômicos que as empresas vivem com a pandemia.

A necessidade de lutar contra o golpe por uma saída operária e popular

Nesse ponto, a perspectiva parece oscilar entre a aventura golpista, por um lado, e uma posição antigolpista, mas baseada na esterilização de um projeto de governo que, ao invés de mudança, já trabalha pela continuidade do modelo.

A vigília popular em defesa da eleição cresce dia a dia. Uma grande luta será necessária para deter e derrotar a ameaça de golpe da ultradireita, mas também para arrancar as mudanças fundamentais pelas quais votou e, que um novo governo em piloto automático dentro do plano neoliberal não fará, como a nacionalização da mineração,  do gás, 10% do PIB para saúde e outros 10% para educação, restituição de direitos trabalhistas, convocação de uma Assembleia Constituinte livre e soberana, etc.