Apenas alguns dias depois da posse de Castillo, Feliciana Huamán foi assassinada pelo seu esposo em Villa María del Triunfo e enterrada sob sua cama. Karim Crystal Robles, uma adolescente de 14 anos, desaparecia em pleno Miraflores (Lima), enquanto outra mulher morria em um albergue de San Juan de Lurigancho, em razão de um aborto clandestino.

Por: Lilla R., de Trabalhadores Socialistas de Cusco

A dura e violenta realidade que milhares de mulheres peruanas enfrentamos diariamente é ilustrada em notícias terríveis como estas.

Segundo dados da defensoria do povo, só em 2020 desapareceram 5.500 mulheres, das quais 1686 eram adultas e 3.825 menores de idade. Todo dia são feitas mais de 15 denúncias de desaparecidas. Estes desaparecimentos estão relacionados a formas de violência, tráfico de pessoas e feminicídios.

Um discurso conservador, machista e perigoso.

Lamentavelmente Pedro Castillo, para muitos uma figura representativa como camponês, professor e trabalhador, parece “fazer de conta que não vê”.

Mesmo antes de sua posse, Castillo mostrou pouco interesse em relação a estes fatos, atribuindo as 138 mortes por feminicídio ocorridos durante a quarentena de 2020 à ociosidade. E agora, com Guido Bellido como primeiro ministro, tão conservador e machista quanto, evidencia uma tendência a minimizar e normalizar a violência contra as mulheres. Atitude absolutamente contrária à assumida por Marx, Engels ou Lenin, e tantos dirigentes comunistas, homens e mulheres, diante da mesma questão.

O problema também é a falta de trabalho

Mas não é só a violência física, a taxa de desemprego disparou, deixando sem trabalho 3,5 milhões de mulheres. Hoje, 70% dos trabalhadores informais são mulheres. E de cada 100 jovens entre 18 e 29 anos que “nem estudam nem trabalham” (“NEM-NEM”), 65 são mulheres. Destas, 30 são indígenas ou afrodescendentes (Alcázar, 2019). Problema diante do qual Castillo não faz nada.

É por isso que, diferente do que algumas companheiras “de esquerda” propõem, não podemos ter ilusões neste governo.

Por que temos que lutar?

Frente à crise política, econômica e sanitária, e a falta de resposta ante a violência machista, as mulheres da classe trabalhadora, as estudantes e camponesas, não podemos esperar mais: devemos nos mobilizar e organizar para exigir que o governo declare em emergência o setor de mulheres, como divulgou que fará com o setor da educação, para adotar medidas radicais frente à situação descrita.

O orçamento deve ser aumentado para o ministério da mulher. Enquanto que em 2021 o tema “reativação econômica” recebeu 10,224 bilhões de soles por parte do Estado, o tema “redução da violência contra a mulher” só obteve 690 milhões de soles… 14.8 vezes menos!

Os feminicídios não serão detidos, nem os desaparecimentos, nem os estupros, se o setor não for financiado para que medidas eficazes possam ser executadas que permitam prender, julgar e condenar os feminicidas e estupradores, assim como desarmar as redes de tráfico da qual fazem parte instituições do estado como a própria polícia.

É necessário conquistar a legalização do direito ao aborto, livre e gratuito, para evitar mais mortes nas mãos do mercado do aborto clandestino. Direito que deve ser complementado com uma política de educação sexual científica, laica e integral desde a escola, e garantindo acesso a métodos anticonceptivos para a juventude.

Mas também é necessário que se tomem medidas para acabar com a pobreza na qual vivemos milhões de mulheres no país. O governo deve garantir trabalho e salários iguais à da cesta básica para as mulheres, particularmente para as que encabeçam os 645.032 lares que são chefiados por mulheres.

Diante de nossas necessidades como mulheres da classe trabalhadora, mães, jovens e estudantes, nosso maior desafio neste momento é nos organizarmos para, junto aos nossos companheiros, trabalhadores e pobres também, enfrentarmos a patronal e conquistarmos um país e uma sociedade diferentes, sem exploração e sem violência.

O que significa a presença de mulheres em postos do governo?

Ter mulheres em espaços institucionais, embora seja simbólico e, nesse sentido, tenha uma determinada importância, não é garantia de solução frente à violência, o desemprego e a exploração do trabalho.

Ainda assim, Castillo começa mal. Com apenas duas mulheres no gabinete, mostra um retrocesso em relação a outros governos. Entretanto, devemos ser nítidas: as instituições do estado não estão desligadas dos interesses da patronal, sejam encabeçadas por homens ou por mulheres.

Dessa forma o papel de Anahí Durand será neste sentido. Enquanto declara que lutará contra o patriarcado, aceita um primeiro ministro claramente machista e homofóbico. A partir do governo, parece que ela, tal como Verónica Mendoza e JP, enquanto fazem acordos com o PL, esqueceram o caráter de classe do estado e que a luta contra o patriarcado começa questionando as bases da exploração e opressão da mulher. O que significa lutar por trabalho e contra a suspensão perfeita de trabalhos, a favor das mulheres do país afetadas durante 2020, além da luta contra a violência machista.

Tradução: Lilian Enck