Nos 72 anos da Nakba – a catástrofe palestina com a criação do Estado de Israel em 15 de maio de 1948 –, os regimes árabes continuam em falta com a causa palestina. Entre os 22 países da Liga Árabe, apenas três – Argélia, Tunísia e Kuwait – não estão em processo de normalização com o Estado de Israel. E alguns vão muito além.

Por Fabio Bosco, Brasil

Palestinos presos na Arábia Saudita

A Arábia Saudita é o país mais rico e mais influente da Liga Árabe. Em 4 de abril de 2019 o regime saudita deteve o Dr. Mohammad Saleh al-Khodari e mais 67 integrantes e simpatizantes do partido político Hamas. Em março deste ano um tribunal apresentou a acusação: integrar e financiar uma “organização terrorista”.

O Dr. Mohammad Saleh al-Khodari, um otorrinolaringologista de 81 anos que vive no país há 30 anos, lidera o Conselho Geral do Hamas, órgão responsável pela eleição dos dirigentes do movimento.

Cerca de meio milhão de palestinos vive no reino saudita, onde a população, como em todo o mundo árabe, expressa sua solidariedade à causa palestina. Na contramão, a mídia saudita se esforça para desqualificar os palestinos.

O gesto de solidariedade aos palestinos veio de onde menos se esperava. No final de março, o grupo iemenita Ansar Allah, liderado por Sayyid Abdulmalik Al-Houthi, propôs a troca de prisioneiros: um piloto e quatro oficiais e soldados sauditas seriam libertados em troca dos 68 palestinos presos.

Os Houthis tomaram a capital Sanaa em 2014 e são o governo de fato no norte do país, que concentra as terras mais férteis e a maioria da população. Não houve resposta das autoridades sauditas, que promovem uma forte agressão militar contra os Houthis há cinco anos.

Em 17 de abril, a organização Human Rights Watch emitiu nota expressando preocupação quanto à situação dos presos palestinos e garantia do devido processo legal na Arábia Saudita.

No dia 22 de abril, Mohammad Nazzal, membro do bureau político do Hamas, revelou ao canal por satélite Al-Sharq detalhes da longa relação da organização palestina com as autoridades sauditas. Segundo ele, dois antigos monarcas sauditas, os reis Fahd e Abdullah, doaram respectivamente US$ 1,3 milhão e US$ 2,6 milhões ao Hamas, e o próprio príncipe Mohammad Bin Salman se reuniu com uma delegação do Hamas em 2015. Nazzal afirmou que a relação com as autoridades sauditas é histórica, que as atividades do Hamas dentro do país eram de pleno conhecimento das autoridades e pediu a libertação dos presos[i].

Palestinos impedidos de regressar ao Líbano

No início de maio, a Direção de Segurança Pública do Líbano emitiu circular banindo refugiados palestinos de retornarem ao país, mesmo que portassem documento de viagem libanês.

Cerca de 400 mil refugiados palestinos vivem no Líbano. Eles integram as famílias palestinas que foram expulsas da Palestina pelas milícias sionistas em 1948, durante a Nakba palestina. Eles possuem documentos de viagem libaneses. Impedidos de voltar ao Líbano, eles não têm outro país para se dirigir, já que o Estado de Israel impede seu retorno.

No dia 5 de maio, a organização Euro-Mediterranean Human Rights Monitor condenou a decisão das autoridades libanesas como “racista”[ii].

Vale lembrar que o principal partido que sustenta o governo libanês é o Hezbollah, que conta com o poder necessário para impedir as medidas discriminatórias que existem e outras que são criadas contra os refugiados palestinos.

Palestinos de Gaza impedidos de ingressar no Egito

Os 2 milhões de palestinos que vivem na Faixa de Gaza estão sitiados pelo Estado de Israel e pelo Egito por terra, mar e ar desde 2007.

Regularmente o Estado de Israel promove agressões militares contra a população em Gaza.

Condenado por diversas organizações de direitos humanos, o bloqueio à Gaza faz parte de um projeto consciente por parte do Estado de Israel de tornar o território inabitável, imitando o cerco imposto pelos nazistas à população judia polonesa sitiada no Gueto de Varsóvia.

Quem veio ao socorro dos palestinos de Gaza foi a revolução egípcia de 2011, que abriu a fronteira de Rafah entre Gaza e o Egito. Palestinos menores de idade e maiores de 40 anos podiam ingressar no Egito sem visto. Produtos essenciais para a população em Gaza e combustíveis circulavam pela fronteira, seja pelo posto de controle de Rafah, seja pelos 1.200 túneis. O golpe do general Al-Sissi em 2013 levou ao fechamento da fronteira e à destruição de todos os túneis.

A prioridade do ditador Al-Sissi é a relação econômica, política e diplomática com Israel, o que implica submeter os palestinos de Gaza a humilhações e privações.

Palestinos sob repressão na Síria

Em maio de 2018, o escritor libanês e reconhecido apoiador da causa palestina Elias Khoury publicou um artigo chamado “Palestina e o ramo palestino[iii].

O artigo trata do ramo da polícia política do regime sírio destinada a controlar e reprimir os refugiados palestinos no país.

Chamado de ramo 235 ou ramo palestino, foi criado por Hafez al-Assad, pai do atual ditador Bashar. Situado na estrada que conduz ao aeroporto de Damasco, suas dependências têm três andares. “Em seus corredores centenas de combatentes palestinos desapareceram”, afirma Khoury. Uma de suas especialidades era a tortura, sendo o pioneiro em tortura sexual. As operações dentro desse centro de tortura e prisão foram descritas por Malik Daghistani no artigo “Uivo de um europeu no ramo palestino”, publicado no Al-Gomhoria de 5 de setembro de 2017.

Khoury descreve várias ações do regime sírio contra a resistência palestina, tais como a formação de uma guerrilha liderada por Zuhair Mohsen (conhecido como Zuhair al-Ajami), pioneira em pilhagem durante a guerra civil libanesa, apoio ao criminoso Elie Hobeika que foi um dos protagonistas dos massacres de Sabra e Chatila no país vizinho, tentativa de dividir a principal organização palestina Al-Fatah, participação no cerco ao campo de refugiados palestinos de Tal al-Zaatar, também no Líbano.

“Nada disso é comparável com o maior de todos, o chamado ramo palestino”, afirma Khoury.

A solidariedade necessária

Os palestinos podem contar com a população trabalhadora dos países árabes, mas não podem confiar nos regimes ali instalados. A segunda onda das revoluções na região, iniciada pelas massas sudanesas em 2018 e argelinas em 2019 que foram seguidas pelos libaneses e iraquianos, tem como protagonistas os aliados naturais da resistência palestina. Essa confluência de revoluções, combinada com a solidariedade internacional, poderá derrotar o Estado de Israel e garantir uma Palestina livre do rio ao mar, com o retorno de todos os refugiados, quando os palestinos poderão decidir democraticamente o seu futuro e viver em paz com todos aqueles que aceitarem viver em paz com eles.

[i] https://www.middleeastmonitor.com/20200508-hamas-reveals-the-hidden-aspects-of-its-relations-with-saudi-arabia/

[ii] https://www.middleeastmonitor.com/20200506-lebanons-decision-on-palestinian-expats-racism/

[iii] https://www.litci.org/arab/archives/1315