Em setembro de 1862, o rei Guilherme I da Prússia, diante de uma séria crise política, nomeou como seu homem forte o conde Otto von Bismarck, para chefiar seu governo. Com ele a reestruturação do exército prussiano, em curso, ganha novo impulso, levada a cabo pelo Marechal Helmuth von Moltke, em base a muitas das ideias de Clausewitz.

Por: Américo Gomes

O exército passou a ser modernizado, com os canhões Krupp (mais fortes, precisos, rápidos e resistentes), utilizando amplamente a rede ferroviária para o transporte de tropas, a conscrição ampla e novos métodos para operar nos campos de batalha.

Com isso a Prússia se lança na guerra contra a Dinamarca, derrotando esta em julho de 1864, e a Prússia conquista de volta dois territórios, para serem administrados junto com a Áustria. Uma nova guerra é desencadeada contra a Áustria, em 1866, onde ganha a Prússia e com isso constitui a Confederação da Alemanha do Norte. Engels considerou este processo como revolucionário.[1]

Na França na década de 1860 houve algumas concessões democráticas, como legalização das greves e alguma liberdade de imprensa e de reunião, mas se mantinha como um Estado policial, onde a polícia política controlava os 170 mil parisienses, com 4 mil policiais e incontáveis infiltrados. O governo de Napoleão III tinha muitos problemas e por isso decidiu ir à guerra contra Alemanha, para ver se recuperava seu desgaste interno. Alegou que os Hohenzollern queriam tomar o trono da Espanha e a França ficaria cercada. A guerra foi declarada em julho de 1870.

Diferente do que pretendia Napoleão III a guerra levou ao desmoronamento do Segundo Império Francês e a constituição da Terceira Republica, com a captura de Napoleão na Batalha de Sedan, e a perda das regiões da Alsácia e Lorraine

A partir daí a guerra de defesa da Alemanha, contra Louis Bonaparte, se transforma em uma guerra de conquista contra o povo francês[2]

Paris operaria, faminta e armada

A população de Paris foi de 1 milhão em 1850 para 2 milhões em 1870, 500 mil eram classificados como indigentes. Novas fábricas chegaram e a população operária cresceu muito. O governo calculava que 70% da população passava fome. A inflação era alta e os salários baixos, os sindicatos ilegais. Muitas operárias mulheres trabalhavam nas fábricas, ganhando metade dos salários dos homens, principalmente na indústria têxtil.

Os parisienses aptos a pegar em armas entraram na Guarda Nacional e foram armados, de modo que os operários formavam agora a sua grande maioria. Eles elegiam seus comandantes de companhia, que elegiam os comandantes de batalhão. Eram 254 batalhões em finais de setembro de 1870 com cerca de 300 mil combatentes.

As tropas republicanas tentaram mais um ataque contra os alemães em 19 de janeiro, com uma força de 100 mil soldados, comandados por Trochu. Avançou sobre as tropas prussianas, mas foram derrotados, com a perda de mais 4 mil soldados. Isso criou uma desmoralização muito grande nas tropas burguesas e a um levante nos bairros operários de Paris, com nova repressão por parte das tropas do governo que atiraram nos manifestantes por ordem de Gustave Chaudey e mataram cinco pessoas.

Finalmente em 26 de janeiro Paris capitulou às tropas germânicas e no dia 28 o governo concordou com o armistício. A França teve que pagar uma grande indenização, além de entregar territórios e o Império Alemão foi proclamado no Palácio de Versalhes.

As fortificações renderam-se, as trincheiras foram desarmadas, as armas da linha e a Guarda Móvel entregues. Mas a Guarda Nacional conservou as suas armas e canhões, e colocou-se apenas em situação de armistício.

A Guarda Nacional havia se reorganizado desde fevereiro quando o Comitê Central passou a ser o seu comando geral, eleito pelo conjunto da tropa, e em março elege o seu Comitê Executivo. Na véspera da entrada dos prussianos em Paris, o Comité Central tomou medidas para o transporte para Montmartre, Belleville e La Vilette dos seus canhões e metralhadoras. De 300 mil Guardas Nacionais apenas 300 responderam ao chamado de desarmamento de Thiers.

A Guarda Nacional era organizada em companhias formadas com gente dos arredores e dos bairros[4], reunindo vizinhos e colegas de trabalho. Cada companhia elegia um delegado que atuaria como “policial político e militar”.[5]

A capitulação e o novo governo

Adolphe Thiers foi eleito em 08 de fevereiro para o novo governo da República, dias depois se estabeleceu em Versalhes, distante da Paris proletária, onde já se encontrava a alta burguesia como os Rothschild, apoiado majoritariamente pelos parlamentares conservadores, mas também por setores da esquerda tradicional.[6]

A Assembleia Nacional da República aprovou leis que prejudicavam os trabalhadores, proibiu os jornais de esquerda e condenou a prisão August Blanqui e Gustave Flourens, este a revelia. Suspendeu o pagamento dos guardas nacionais, deixando milhares de famílias sem rendimentos. Isso porque seu principal objetivo era desarmar a classe operaria na cidade.

A provocação

Thiers necessitava desarmar a classe operaria e para isso desencadeou uma guerra civil, enviando o general Vinoy, com os sergents-de-ville e alguns regimentos de linha numa expedição noturna contra Montmartre, para tomar ali, de surpresa, a artilharia da Guarda Nacional, em 18 de Março.

Mas uma grande mobilização popular os impediu, tendo à frente dirigentes altamente populares[7] como Louise Michel, Emile Duval e  Eugene Varlin, o presidente do Comitê Central da Guarda Nacional era um florista, Edouard Moreau, “um enxame de mulheres e crianças subiu as encostas dos morros[8] O oficial bonapartista, general Lecomte, tinha dado a ordem de fazer fogo contra a população desarmada na Place Pigalle, seus homens se recusaram, e em vez de atirar sobre as mulheres e crianças, atiraram sobre ele e executaram Clément Thomas.

A partir daí os operários tomaram posse de Paris e o Comité Central da Guarda Nacional passou a ser o governo provisório. Tomaram a sede da polícia e o Hotel de Ville.

Em 26 de março foi feita a eleição para a Comuna, composta também por membros da Guarda Nacional. Politicamente a maioria era blanquista. O Comité Central da Guarda Nacional, que até o momento dirigia o governo provisório, demitiu-se a favor dela.

Para garantir seu governo os membros da Comuna pediram empréstimos ao Banco de França e foram prontamente atendidos, mas nunca confiscaram nenhum tostão dos bancos. Tiveram um “sagrado respeito” com o Banco de França. Que “valia mais do que dez mil reféns”.

A Comuna era, assim, o verdadeiro representante de todos os elementos sãos da sociedade francesa e, portanto, o verdadeiro governo nacional, ela era ao mesmo tempo, como governo de operários, como campeã intrépida da emancipação do trabalho, expressivamente internacional.”.[9]

A base da contrarrevolução

A primeira tentativa de Thiers subjugar Paris foi através dos prussianos para ocupá-la, mas Bismarck se recusou, com medo das repercussões deste enfrentamento. A segunda foi em 18 de março e fracassou frente a resistência parisiense.

No entanto, graças a falta de iniciativa de Comuna em atacar, Thiers teve tempo para preparar uma nova ofensiva. Seu primeiro passo foi reconstruir o exército, baseado nos bonapartistas da “Sociedade dos Amigos da Ordem”[10], além de uma horda de bonapartistas, orlenanistas, clérigos e conservadores, que formaram um agrupamento paramilitar destes setores de direita, decididos a destruir a república democrática e social. Mas foi decisivo foi “mendigar” ao governo prussiano, a restituição dos soldados franceses prisioneiros de Sedan e Metz. Com a assinatura do Tratado de Frankfurt Bismark liberou os soldados presos para o Exército de Versalhes. Eles representavam 25% dos 130 mil soldados. [11]

Com isso os combates voltaram a se dar em 30 de março com os versalheses sob o comando do general Gaston Gallifet, nos arredores de Paris, e os comunardos fugindo destes pequenos embates. Em 02 de abril os versalhenses venceram a resistência e tomaram Couerbevoie, ponto chave na defesa de Paris. Os trinta soldados da Guarda Nacional feitos prisioneiros foram fuzilados.

Somente quando receberam esta notícia alguns membros da Comuna como Duval passaram a defender um ataque a Versalhes. Realizaram um ataque em 03 de abril, com 20 mil combatentes, chefiados por Emile Eudes, Gustave Flourens e Duval. Mas foram derrotados, frente ao violento bombardeio que se iniciou logo a saída de Paris. Somente a tropa de Eudes teve algum avanço, e logo teve que recuar. Duval e Flourens foram capturados. Flourens foi retalhado ali mesmo as margens do Sena e o fundidor Duval fuzilado pelas tropas, sem nenhum julgamento. Como resultado os versalhenses lançaram um contra-ataque no dia seguinte capturando várias áreas perto de Paris.

Entre 12 e 15 de abril os versalhenses atacaram e ocuparam vários fortes como Vanves Issys, a comuna perdeu cerca de 3 mil combatentes.

Enquanto isso os prisioneiros parisienses levados para Versalhes eram submetidos a atrocidades, massacrados a sangue-frio.

Com a assinatura final do tratado de paz entre França e Alemanha em 20 de maio o ataque total que era programado para o dia 22 ou 23, se antecipou para o dia 21. As tropas comandadas pelo general Felix Douay entraram na capital pela Ponte de Saint Cloud apoiados pelos “Voluntários do Sena” que entraram em Paris comandados por Arthur Grandeffe.

Os desencontros do comando

Quando realizavam as reuniões da Comissão de Guerra, com os comandantes Jaroslaw Dombrowsky, Walery Wroblewski e Napoleão La Cecilia, ficava nítida a debilidade do comando e a desordem total. Além disso, havia os conflitos entre o Comitê Executivo da Comuna e o CC da Guarda Nacional constantemente, cada um tendo sua diretriz, não só sem coordenação, mas muitas vezes em sentidos opostos[12]. Era constante nas legiões de combate o rumor de uma ruptura entre o CC da Guarda Nacional e o Comitê de Salvação Publica.

Apesar de haver informações centralizadas no Hotel de Ville, havia uma ausência de liderança militar efetiva. Os soldados descreviam um clima de completa improvisação, incoerência e caos, com um cenário de turba, “em que todo mundo comanda e ninguém obedece”.[13]” A Comissão Executiva não sabia comandar, o Comitê Central não queria se subordinar. O Comitê Central reclama da incompetência da Comuna, mas era incapaz de articular uma orientação precisa[14].

Quando decidiam atacar o faziam de maneira desordenada e sem um plano pré-concebido rumando para verdadeiras aventuras, como o ataque de 3 de abril[15]. “A ausência de um planejamento centralizado para a defesa da capital estava mais tristemente aparente[16] A única ordem que os oficiais recebiam é “Defendei-vos”. Não houve plano geral, nem Conselho Geral de defesa e nem fiscalização das ordens dadas. Havia um clima de negligência e indisciplina. A Corte Marcial que tentava dar punições aos relapsos logo era desautorizada pelo Comitê Executivo que cassava suas sentenças alegando que tinha “espirito politic”[17]

No dia 21 de maio, logo da invasão de Paris, a última sessão do Conselho da Comuna não deliberou sobre nada, nem apontou uma Assembleia permanente ou a convocar o Comitê de Salvação Nacional[18]. Enfim nenhuma deliberação de emergência.[19] O Estado Maior negou a entrada dos versalhenses, o delegado civil do comitê de Guerra: Louis Charles Delescluze se recusou a aceitar a notícia e dar o alerta.

Se a mínima visão de conjunto dirigisse tal esforço, se Montmartre e o Pantheon cruzassem os seus fogos, se houvesse alguma explosão habilmente preparada, o Exército Versalhes bem depressa teria dado meia-volta. Mas os federados sem direção, sem conhecimento de guerra, não enxergaram para além de seus bairros, quando não de suas ruas”.[20]

Provocadores

Havia também a ação dos infiltrados e provocadores, muitos deles sobre o comando de Le Mere de Beaufond, ex-oficial da marinha. Seus principais ajudantes eram antigos funcionário públicos e do banco, e ex-militares da Legião como Schoelcher Lasnier. Eles tinham contato na Escola Militar, na Comissão de Guerra e com oficiais nas legiões da Guarda Nacional. Realizavam intrigas estre estes oficiais e faziam circular boatos sobre os enfrentamentos entre a Comuna e o Comitê Central. Tentaram inclusive comprar os comandantes da Comuna[21].

O blanquista Raoul Rigault assumiu a chefatura da polícia, mantendo uma parte do pessoal, substituindo todos os diretores[22]. Libertou os revolucionários que estavam presos, vasculhou os arquivos, que evitou que fossem destruídos, com objetivo de descobrir o nome dos espiões. Realizou um grande arquivo com todos os possíveis infiltrados, fazendo verificações cruzadas, com seus endereços, suas funções e seus hábitos, e organizou a perseguição aos provocadores, enquanto cumpria as resoluções da Comuna no que dizia respeito a melhorar o regime de carcerário e a legalidade das detenções[23]

Cournet, seu substituto, foi mais relapso e deixou vários provocadores versalhenses fugirem[24].

O centro de paris

Inicialmente entraram 50 mil soldados de Versalhes na cidade, mas logo todos os 130 mil ocuparam vários distritos e o depósito de pólvora. Surpreendentemente nenhum fogo de canhão os recebeu demonstrando a falta de coordenação e adequação da defesa militar da Comuna.[25]

Em Trocero fizeram 1,5 mil prisioneiros e acabaram com as ilusões iniciais da Comuna. Seguiram para o Champs-Elysees e tomaram o Palácio da Indústria. A bandeira tricolor foi posta no Arco do Triunfo. Os comunardos simplesmente abandonaram a defesa oeste de Paris. Em 24 horas já tinham ocupado um terço da cidade, executando sumariamente os comunardos.

A coluna dos versalhenses então se dirigiu a Montemartre, passando pelas barricadas organizadas por Jarosław Dombrowski[26]. Deleschuze chamou os parisienses a assumir a luta “A guerra revolucionária[27], mas somente na última hora, ao mesmo tempo em que decretou o alistamento em massa.

O centro de Paris ficou nas mãos das tropas contrarrevolucionarias, com o comando de Ernest Cissey, avançaram para Los Invalides e Escole Militaire, enquanto os comunardos fugiam para salvar a própria vida atravessando o Sena com destino a Tulherias. Os moradores ricos de Paris começaram a voltar.

Os comunardos recuavam para os bairros mais pobres, ao leste, e organizavam a resistência nos “quartiers populaires”.  Neste momento contra os 130 mil soldados de Versalhes, a Comuna tinha somente 20 mil[28].

Os incêndios

Os comunardos passaram a queimar os prédios dos bairros que abandonavam, na última tentativa de resistência. Delescluze e Alfred Edouard Billioray assinaram uma ordem que dizia “Explodam ou incendeiem as casas que possam interferir em seu sistema de defesa. As barricadas não devem estar sujeitas a ataques vindos das casas[29]Rigoult propôs explodir as pontes. A ordem da direção militar era queimar as casas de onde partissem tiros contra as barricadas. Incendiaram o Palácio das Tulherias, símbolo da autoridade governamental; o Palais de Justice , as Cour des Comptes, o Palais de la Légion d’Honneur, e parte do Palais-Royal além de outros edifícios e antigas instituições governamentais.

Oliver Lissagaray afirmava que era melhor queimar as casas que deixá-las ao inimigo e Louise Michell ameaçou “Paris será nossa ou deixará de existir[30]. Para Marx “O governo de Versalhes grita: «Incendiarismo!» e sussurra a deixa a todos os seus agentes até ao mais remoto povoado: dar caça por toda a parte aos seus inimigos como suspeitos de profissionais do incendiarismo. A burguesia do mundo inteiro, que olha complacentemente o massacre em grande escala depois da batalha, fica convulsiva de horror à profanação do tijolo e da argamassa!”[31]

As barricadas

Era difícil fazer barricadas nos bulevares, diferente das ruas estreitas, e o exército de Versalhes as explodia quando podia ou atacava pelos flancos, correndo pelas ruas adjacentes ou entrando em prédios próximos, em casas correndo pelos telhados (ainda mais se estas casas eram habitadas por gente rica), e assim atirando nas barricadas.[32] Um dos erros táticos dos comunardos eram não proteger estes flancos.

“Em lugar de duzentas barricadas estratégicas, solidárias, fáceis de defender, com 7000 ou 8000 homens, foram semeadas centenas, impossíveis de guarnecer. O erro geral foi acreditar que o ataque viria de frente, ao passo que os versalhenses executaram por toda parte movimentos de contorno”.[33]

As mulheres estiveram na linha de frente de defesa das barricadas, Nathalie Lemel foi uma das heroínas na barricada de Place Blanche, com mais 120 comunardas em seu “batalhão de amazonas”[34], ofereceu forte resistência aos invasores, as “Heroínas de Paris”.[35]

Então foi inventada a lenda das petroleiras, que, difundida pela imprensa custou a vida de centenas de infelizes. Correu o rumor que megeras atiravam petróleo em chamas no porão. Toda mulher malvestida carregando uma lata de leite, um frasco, uma garrafa vazia, pode ser acusada de petroleira. Arrastada em farrapos até o muro mais próximo, e morta a tiro de revolver”.[36]

A resistência em montmartre

Em Montmartre, onde a Comuna tinha tido início, era o ponto mais forte para a defesa. Quem comandou a resistência foi o general Napoleão La Cecilia, mas como era corso tinha dificuldade com o francês, talvez por isso reclamasse “Não me obedecem”[37]. As barricadas estavam desorganizadas e os soldados da Guarda Nacional abatidos. Ele encontrou 85 canhões sem uso há dois meses, alguns totalmente inutilizados. As granadas de Montmartre, Belleville e Menilmontant não iam longe.

Os canhões tinham sido tratados de maneira negligente em sua manutenção e demoraram muito a disparar, só o fazendo quando os versalhenses já estavam bem protegidos. “Oitenta e cinco canhões e cerca de 20 metralhadoras jazem aí em sujos, desordem[38], não há parapeitos, blindagens ou plataformas.

O que somente foi compensado pela bravura dos combatentes e seus comandantes como Benoit Malon, Elisabeth Dimitrieff e Louise Michel, que quando não  tinham mais munição e obuses usam pedras e betume, mas recusam a se render.

Os versalhenses, por três posições diferentes e comandados por Chinchant, passaram por Batignolles e avançam para Montmartre. Dombroski foi morto na barricada da rua Myrha.

A fama de Montmartre era tão grande que Mac-Mahon somente atacou quando chegaram suas melhores tropas, estes milhares de soldados levaram horas, s vezes, para tomar barricadas defendidas por uma dezena de atiradores. Os que resistiam praticamente não tinham nem comida nem munição. Os “Voluntários do Sena” fizeram 2 mil prisioneiros nas buscas de casa em casa. Instalaram uma corte marcial onde centenas foram executados. A queda de Montmartre foi o golpe moral na resistência.

Os versalhenses matavam indiscriminadamente ao longo do caminho, homens, mulheres, crianças, médicos que tratavam os feridos e seus soldados que se recusavam a matar mulheres e crianças. Um verdadeiro massacre foi realizado neste bairro.

Avançaram para Bellaville, onde os comunardos ainda resistiam com artilharia e munição. A 11a Legião da Guarda Nacional passa a ser a tropa central para a defesa . Onde a resistência foi tenaz e destemida, neste bairro que tinha uma organização mais eficiente que qualquer outra região, mas ainda com barricadas inadequadas e canhões insuficientes. Mas o elemento fundamental para sua derrota foi o isolamento[39].

O último lugar importante a ser tomado foi a Bastilha. Wroblewski organizou a brava resistência no local, forçado a retirar-se ele recua e cruza o Sena ainda com mil combatentes e alguns canhões[40]. “Nesta batalha de rua, como em campo aberto, as crianças se mostraram grandes como os homens[41].

Em 25 de maio Eugene Varlin substituiu Delescluze como secretário para guerra, mas por pouco tempo. Foi um dos últimos a abandonar o comando recuando até Belleville e foi morto após a tomada deste bastião. Junto com Ranvier “a alma de La Villete e de Belleville”[42], comandam a resistência ao lado do que sobrou do Comitê Central da Guarda Nacional.

Em 28 de Maio, os últimos combatentes da Comuna sucumbiram, nas encostas de Belleville e Montmartre.

O fim da semana sangrenta

O massacre durante toda a semana foi grande e teve seu ponto culminante com centenas de vencidos abatidos à metralhadora. As baixas do exército de Versalhes totalizaram 873 mortos e 6.424 feridos. As vítimas da Comuna nunca foram contadas oficialmente, mas se estima 6 a 7 mil combatentes além de cerca de 17 mil fuzilamentos sem julgamentos, chegando com a um total de 35 mil mortos, somando-se todas as vítimas, o que é possível já que em Belleville foram 2 mil.[43] Também foram feitos cerca de 35.000 prisioneiros levados a ferros, em navios, para a Bretanha, e 4.500 degredados para a Nova Caledônia

O «Muro dos Federados» no Cemitério do Père-Lachaise foi um dos lugares dos fuzilamentos em massa. Os prisioneiros que foram levados para o quartel Lobau em Varsalhes, chamado o “Abate de Versalhes”, também eram sumariamente mortos.

Aos bandos paramilitares foram distribuídas braçadeiras tricolores, para que oficialmente pudessem realizar a matança, muitos deles que não participaram dos combates.[44] O general Gaston Gallifet ficou conhecido como “A estrela do Terror Tricolor” e afirmava preferir ser conhecido como “um grande assassino do que como um pequeno homicida”[45]. Mas o arquiteto de tudo era Thiers que queria que a maior quantidade de combatentes fosse mortos em Paris para que o mínimo chegasse a Versalhes. Foi proclamado presidente da Terceira República em agosto deste ano.

Cerca de 1.500 comunardos chegaram a Bélgica, 2.500 a Suíça e poucos a Inglaterra e Espanha.[46]

Aprender com os erros

A Comuna de Paris foi, e é, reivindicada por todos os que se consideram revolucionários, mas do ponto de vista militar a Comuna sofreu uma derrota, a despeito da magnifica capacidade militar dos operários parisienses. Por isso é muito importante identificar os erros que levaram a isso, inclusive para poder corrigi-los.

Que poderiam ser sintetizados como fruto da indecisão e o espirito conciliador das esferas dirigentes, que levou a sua desagregação[47]

Marx achava que o Comitê Central da Guarda Nacional cedeu prematuramente o lugar dirigente ao Comitê Executivo da Comuna eleita. Pois a primeira tarefa deveria pertencer a um órgão de combate, que deveria coordenar o centro da insurreição e das operações militares e não uma administração autônoma da democracia operária.[48] Pois a Comuna deveria ter tomado imediatamente a ofensiva contra Versalhes, além de não ter expropriado os bancos, um “erro cem vezes pior”.[49] Lassagaray afirma que a Comuna “era uma barricada e não uma administração.[50]

Para Lenin os principais erros da Comuna se concentraram na insuficiência da ofensiva, a insuficiência da consciência e decisão de destruir a máquina burocrática e militar do Estado e o poder da burguesia[51]

Para Trotsky a Comuna de Paris foi uma “experiencia demasiadamente restrita” combinada com a “falta de preparação dos seus militantes, a confusão do programa, a falta de unidade entre os dirigentes, a indecisão dos projetos, a excessiva perturbação na execução e o terrível desastre que daí resultou”.[52]

A Comuna não é uma Assembleia Constituinte (…) é um conselho de guerra, ela só deve ter um fim: a vitória; uma arma: a força; uma lei: a salvação pública”.[53]

Com certeza Lenin e Trotsky utilizaram os ensinamentos e o erros da Comuna de Paris para preparar a tomada do poder na Rússia em 1917.

[1] O papel da violência na historia

[2]Introdução de Friedrich Engels à Edição de 1891, em A Guerra Civil em França, de Marx

[4] Arrondissements

[5] John Merriman, A Comuna de Paris, 1871: origens e massacre

[6] Prosper-Oliver Lissagaray, História da Comuna de 1871.XXIII capitulo

[7] John Merriman, A Comuna de Paris, 1871: Origem e Massacre

[8] John Merriman, A Comuna de Paris, 1871: Origem e Massacre

[9]Marx, A Guerra Civil em França, Capitulo III

[10] John Merriman, A Comuna de Paris, 1871: origens e massacre

[11] Jonh Merriman, A Comuna de Paris, 1871 a origem do massacre

[12] Jonh Merriman, A Comuna de Paris 1871, origens e massacres.

[13] John Merriman, A Comuna de Paris, 1871: origens e massacre

[14] Prosper-Oliver Lissagaray, História da Comuna de 1871.XVII capitluo

[15] Prosper-Oliver Lissagaray, História da Comuna de 1871.XIV capitulo

[16] John Merriman, A Comuna de Paris, 1871: origens e massacre. A morte chega para o arcebispo

[17] Prosper-Oliver Lissagaray, História da Comuna de 1871.XVII capitulo

[18] “Que não da orientação, mas é prodigo em proclamações”, Prosper-Oliver Lissagaray, História da Comuna de 1871.XVII capitulo

[19] Prosper-Oliver Lissagaray, História da Comuna de 1871.XXVI capitulo

[20] Prosper-Oliver Lissagaray, História da Comuna de 1871.XVII capitulo

[21] Prosper-Oliver Lissagaray, História da Comuna de 1871.XXII capitulo

[22] Prosper-Oliver Lissagaray, História da Comuna de 1871.

[23] Frente a ordem de Thiers da polícia abandonar Paris, cerca de 2,5 mil policiais ingressaram nas tropas a caminho de Versalhes. Cerca de 1,5 deles não seguiram o caminho, com uma parte ficando com as tropas revolucionarias, em: John Merriman, A Comuna de Paris, 1871: origens e massacre

[24] Prosper-Oliver Lissagaray, História da Comuna de 1871.XXI capitulo

[25] Jonh Merriman, A Comuna de Paris, 1871 a origem do massacre, A batalha se volta contra os comunards

[26] Jonh Merriman, A Comuna de Paris, 1871 a origem do massacre, começa a Semana Sangrenta

[27] Jonh Merriman, A Comuna de Paris, 1871 a origem do massacre

[28] Jonh Merriman, A Comuna de Paris, 1871 a origem do massacre, começa a Semana Sangrenta

[29] Jonh Merriman, A Comuna de Paris, 1871 a origem do massacre

[30] Jonh Merriman, A Comuna de Paris, 1871 a origem do massacre, começa a Semana Sangrenta

[31] A Guerra Civil em França, capitulo IV

[32] John Merriman, A Comuna de Paris, 1871 a origem do massacre

[33] Prosper-Oliver Lissagaray, História da Comuna de 1871.XVII capitulo

[34] Jonh Merriman, A Comuna de Paris, 1871 a origem do massacre, As cortes marciais em ação

[35] Jonh Merriman, A Comuna de Paris, 1871 a origem do massacre

[36] Prosper-Oliver Lissagaray, História da Comuna de 1871.XIX capitulo

[37] Prosper-Oliver Lissagaray, História da Comuna de 1871.XVIII capitulo

[38]Prosper-Oliver Lissagaray, História da Comuna de 1871.XVII capitulo

[39] Jonh Merriman, A Comuna de Paris, 1871 a origem do massacre, Massacre

[40] “Considerado como Dombrowski o único comandante com qualidades para comandar”, Prosper-Oliver Lissagaray, História da Comuna de 1871.XXX capitulo

[41] Prosper-Oliver Lissagaray, História da Comuna de 1871.XXX capitulo

[42] Prosper-Oliver Lissagaray, História da Comuna de 1871.XXXI capitulo

[43] John Merriman, A Comuna de Paris, 1871 a origem do massacre, Massacre

[44] John Merriman, A Comuna de Paris, 1871 a origem do massacre, Massacre

[45] John Merriman, A Comuna de Paris, 1871 a origem do massacre, Massacre

[46] John Merriman, A Comuna de Paris, 1871 a origem do massacre, Massacre

[47] Trotsky, Comunismo e Terrorismo

[48] Trotsky, Comunismo e Terrorismo

[49] Prosper-Oliver Lissagaray, História da Comuna de 1871.XIV capitulo

[50] Trotsky, Comunismo e Terrorismo

[51] Materiais preparatórios do Livro “O Estado e a Revolução”

[52] Trotsky, Comunismo e Terrorismo

[53] Trotsky, Comunismo e Terrorismo