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Para aquelas que escolheram o esporte, a luta contra o machismo é diária.

Por Gabriela Hipólito, do PSTU-Brasil.

O ano é 1983. Depois de 40 anos proibido, o futebol de mulheres é regulamentado no Brasil.

A proibição, que data de 1941, na verdade estava em gestação décadas anteriores, quando do surgimento do futebol. Sendo um esporte trazido pela Inglaterra e praticado pelas elites como um hobby, não só as mulheres como também os trabalhadores eram coagidos a não praticá-lo. Outra rejeição explícita era a participação das pessoas negras nos clubes. Nos anos 30, no entanto, começa essa regulamentação rumo à profissionalização dos homens no futebol. Na contramão desse processo já durante os anos 20, o futebol de mulheres passa a ser atração de circos e de todo e qualquer espaço que não o caracterize como esporte.

Jogo de futebol feminino em 1941

Proibido na era Vargas e com legislação endurecida a partir da Ditadura Militar, jogar futebol sendo mulher era caso de polícia. Ainda com toda essa repressão as mulheres não pararam de jogar. Fato curioso é que a própria Polícia Militar tinha seu time de futebol entre as mulheres. Outro fator que impedia o avanço da modalidade é a repressão cultural ao esporte, na qual se julgava pejorativamente a participação das mulheres nos ambientes familiares e de trabalho.

Com a pressão internacional para o avanço da modalidade (que também foi impedida por décadas em países como Inglaterra, Alemanha e França) o Brasil regulamenta, mas só passa a ter sua primeira seleção de mulheres em 1988.

De 1991 (primeira) até hoje, o Brasil esteve em todas as edições do Mundial. Mas, ao contrário do futebol dos homens, o reconhecimento à modalidade ainda está longe de ser satisfatório no país. Em tempos de Mundial aberto em rede nacional, ao ver nossa seleção jogando de igual para igual com grandes equipes do mundo, pode parecer que não existe um abismo entre homens e mulheres. Mas ele está aí.

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O abismo da desigualdade
Se os salários são sabidamente incomparáveis entre o futebol para homens e para mulheres, coisas mais básicas, como o próprio uniforme, esse ano apresenta uma versão inédita. Isso mesmo, no país do futebol a seleção das mulheres jogava com sobras de material e design dos homens. Mas esses pequenos “detalhes” são só a ponta de um iceberg de desigualdade.

Seleção foi vice-campeã mundial em 2007

Em 2017, Cristiane, já estrela do time ao lado de Marta e Formiga, decidiu abandonar a seleção brasileira após a primeira técnica mulher ser demitida. Tempo recorde se comparado aos homens, todos com no mínimo um ano de trabalho. O movimento começado por Cristiane levou ao total de 5 jogadoras pra fora da seleção em sinal de protesto. Naquele momento reivindicavam condições de trabalho dignas e mais visibilidade para o futebol feito por elas. O protesto iniciado por Cristiane teve eco. Alguns elementos estruturais foram alterados e melhores condições estabelecidas. No ano passado a jogadora resolveu ceder aos inúmeros pedidos de volta à seleção e justificou a decisão com as mudanças que ela considera insuficiente, mas importantes.

Se a nível nacional a seleção brasileira sempre ouviu que só existe porque “o masculino sustenta” a modalidade, nos estados ainda é tratada como amadora, tendo poucas equipes organizadas e estruturadas. Hoje para todo clube da série A do futebol brasileiro é exigido a criação das equipes de mulheres. Mas essa definição também não garante a profissionalização, ou seja, que as mulheres possam ter o futebol como única profissão. Essa definição, longe de ser um pioneirismo da CBF, na verdade responde às exigências internacionais para os times profissionais dos homens, prevendo punições caso não sejam cumpridas.

Ser mãe e atleta
Se no mercado de trabalho em geral é difícil tomar a decisão de ter um filho, para as mulheres do futebol isso é algo quase impensável. Estamos acostumados a ver os filhos dos jogadores, afinal, pouco se transforma em sua rotina de atleta ao ter um filho. Quando se é mulher, porém, a realidade é bem diferente. Em toda a seleção, a única jogadora que tem um filho é Tamires. Ele nasceu logo no início da sua carreira profissional e ela deixou o esporte por duas vezes, a segunda priorizando o trabalho do marido, também futebolista. Só nos últimos anos é que conseguiu conciliar o futebol com a maternidade, atuando num time dinamarquês e levando com ela toda a família.

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Futebol para superação
Se nas equipes de futebol dos homens vemos muitos casos de superação e saída da pobreza, no futebol feminino essas histórias também acontecem. Apesar da pouca profissionalização, muitas meninas veem no esporte uma carreira e forma de mudar de vida. A maior barreira segue sendo a mesma: o investimento nelas. Marta, após o fim do time de mulheres do Vasco se viu sem clube, até receber o apoio de uma treinadora do interior de Minas Gerais que a convidou para jogar lá, isso no início dos 2000. Ludmila, jovem atacante promissora, utilizou o esporte para driblar a marginalidade à qual foi lançada, pela incapacidade da mãe de criá-la e a morte prematura da irmã por dependência química.

A luta dentro e fora de campo deve seguir como fez Cristiane em 2017 e ir além. Dignidade nas condições de trabalho, combate ao machismo e respeito às profissionais que dedicam completamente suas vidas ao esporte e são vistas como um produto pelos clubes, patrocinadores e federações.

O esporte como atividade emancipadora
Defender a liberdade das mulheres para praticar qualquer atividade esportiva, principalmente aquelas as quais a sociedade recrimina ou até mesmo proíbe é também uma luta por igualdade de direitos. Sabemos que no capitalismo tudo aquilo que pode dar lucro se transforma em produto e é assim também no futebol. Se hoje a modalidade está tendo mais investimentos, principalmente pela luta de todas as mulheres que ousaram jogar bola e serem reconhecidas no passado, as grandes empresas as veem como um investimento promissor e um mercado imenso a ser gerado.

O esporte, o lazer em geral e a cultura são direitos dos seres humanos por excelência. As atividades humanas que desenvolvem corpo, mente e criatividade são aquelas que caracterizam nossa essência. Além disso, a cooperação, o trabalho em equipe e a confraternização que podem e devem ser características do esporte é também uma forma de construir seres mais humanos.

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Numa sociedade igualitária, longe da busca pelos doentios limites do corpo e da competição (que lesiona e mata muitos atletas), deixando de lado as diferenças de sexo e gênero, o esporte pode ser direito de todos, assim como a formação científica e artística de todos.

Para se aprofundar
Livro: Mulheres Impedidas: A proibição do futebol feminino na imprensa de São Paulo, Giovana Capucim e Silva, Editora Multifoco.

Geração Peneiras – curta metragem sobre jovens jogadoras do esporte, 2019