Durante o mês de agosto, as regiões noroeste e sul do Paquistão se viram castigadas por gigantescas inundações, provocadas por fortes e prolongadas chuvas.
As fotos mostram imagens terríveis e as consequências chocam: o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) estima em 15 milhões o número de pessoas afetadas, das quais 2,5 milhões ficaram sem moradia.

Segundo o CICV, “nas zonas mais afetadas, povoados inteiros foram destruídos sem aviso pela água e milhões de pessoas perderam tudo”. Povoados e aldeias foram abandonados, as estradas foram cortadas, e milhares de pessoas sem lar se viram obrigadas a dormir em barracas de lona à beira das estradas. Muitos se deslocaram até Peshawar, a principal cidade da região, e a Muzafarabad, capital da Caxemira paquistanesa.

A situação piora

A situação piora cada vez mais: os meteorologistas preveem novas chuvas fortes e a ajuda necessária para os afetados chega com extrema lentidão.

A falta de água potável faz com que já haja epidemias de gastroenterite e cólera. O ministro da Saúde da província de Jiber Pajtunjua declarou: “estimamos que aproximadamente 100.000 pessoas, na sua maioria crianças, viram-se afetados pelo cólera ou por doenças gástricas”. A ONU (Organização das Nações Unidas) alertou que até 3,5 milhões de crianças poderiam estar em risco de contrair doenças mortais por meio da água contaminada e dos insetos.

Apresenta-se um risco ainda maior: a falta de alimentos para os milhares de refugiados e deslocados começa a provocar fome e desespero. “A situação está se deteriorando a uma rapidez aterrorizadora”, disse Neva Khan, diretor da ONG Oxfam no Paquistão.

As “catástrofes naturais” são mais terríveis sob o capitalismo

Cada vez que se produz uma catástrofe natural de grande magnitude em países pobres, como sucedeu com o terremoto do Haiti, no ano passado, constatamos rapidamente dois fatos.

O primeiro é a absoluta incapacidade dos governos para ajudar séria e rapidamente as vítimas. Esses mesmos governos, que exibem uma eficiência muito maior na hora de garantir melhores condições para os lucros das empresas capitalistas ou reprimir manifestações populares, mostram-se totalmente ineficazes quando é preciso aliviar o sofrimento de seus povos.

"A população necessita desesperadamente água potável, latrinas e artigos de higiene, mas os recursos disponíveis na atualidade só cobrem uma fração do que se requer", declarou o diretor da Oxfam. Um comerciante da zona vizinha a Peshawar disse: “minha família encontrou refúgio em uma escola, mas não recebemos nem água potável, nem comida, nem medicamentos (…) Meu filho está doente de cólera, mas não há médicos”, acrescentou.

O segundo fato é a absoluta mesquinhez da ajuda dos organismos internacionais e dos governos dos países imperialistas. O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, viajou ao Paquistão e descreveu a situação como “desesperante”. Estimou que são necessários 459 milhões de dólares para fazer frente à emergência. Mas até o momento, só foi possível conseguir uma quinta parte do total.

Não é de estranhar, frente à mesquinhez mostrada pela sua própria organização e pelos
governos imperialistas: a ONU se comprometeu a ajudar com “até dez milhões de dólares”. Comparemos com os 700 milhões de dólares anuais, custo médio da manutenção de suas tropas no Haiti.

Enquanto isso, a Comissão da União Européia liberou uma parcela de 30 milhões de euros de ajuda humanitária para o Paquistão. Uma quantidade irrisória frente aos bilhões de euros que os governos dos seus países membros deram para salvar os lucros de bancos e empresas. E ínfima, também, comparada com suas despesas militares que, no caso da Grã-Bretanha e Itália, incluem o custo de sua participação na guerra do Afeganistão, país vizinho do Paquistão.

Resulta dolorosamente claro que, sob o capitalismo, as catástrofes naturais acabam sendo muito mais terríveis porque, para ele, é muito mais importante salvar lucros ou assegurá-los com guerras do que salvar os povos afetados por catástrofes.

Aumenta a crise do governo

A incapacidade de garantir ajuda às vítimas começa a se voltar contra o governo do presidente Asif Ali Zardari, cuja impopularidade aumenta constantemente.
Centenas de homens armados com paus trataram de bloquear uma estrada em Sukkur, província de Sindh, exigindo aos gritos a ajuda do governo. Enquanto na província de Punjab os manifestantes queimaram pneus e gritavam "abaixo o governo". "Nós estamos morrendo de fome aqui. Ninguém se preocupou conosco", disse Hafiz Shabbir.

Este maior enfraquecimento do governo de Zardari agrava sua já prévia fragilidade e a instabilidade política do país, consequência da extensão de fato da guerra do Afeganistão ao território paquistanês (de fato, os analistas do imperialismo já falam da guerra Af-Pak).

Esta extensão do conflito aconteceu porque vários milhões de afegãos, membros da etnia Pashtún, cruzaram a fronteira entre ambos os países, radicando-se no Paquistão, em uma região onde os pashtunes já tinham forte presença. Ali, as forças do talibã encontram refúgio e retaguarda para combater às tropas dos EUA e da OTAN, que bombardearam a região e, inclusive, cruzaram várias vezes a fronteira.

Pode-se dizer que a mesquinhez da ajuda imperialista não faz mais do que agravar o panorama, já por si complicado, de uma região convulsionada pela guerra, e impele mais um pouco a uma explosão social no Paquistão. Mas, como diz a história do escorpião e da rã, “está na sua natureza”.

(*) Alejandro Iturbe é editor da revista da LIT-QI Correio Internacional

Tradução: Helton Ribeiro