No dia 25 de janeiro de 1987, falecia Nahuel Moreno, fundador da corrente que deu origem ao PSTU argentino e figura imprescindível para quase toda a esquerda argentina, dividida entre seguidores e detratores do seu pensamento. Para nós que o consideramos nosso mestre, esta data não é só uma homenagem a ele, mas também uma demonstração da atualidade de suas ideias: a luta incansável para construir, a partir da classe operária, um partido internacional da revolução socialista, que guie as massas trabalhadoras à vitória mundial sobre o imperialismo e seus agentes para construir o socialismo.

Por: PSTU – Argentina

Quem foi Nahuel Moreno?

Nahuel Moreno, como era conhecido Hugo Miguel Bressano Capacete, nasceu em 24 de abril de 1924 na América, Partido de Rivadavia (Província de Buenos Aires), e teve uma participação ativa no movimento trotskista internacional e na esquerda argentina, fundando diferentes organizações e partidos de esquerda em seu país: Grupo Operário Marxista (GOM), Partido Operário Revolucionário (POR), Movimento de Agrupamentos Operários (MAO), Palavra Operária, Partido Revolucionário dos Trabalhadores (PRT, e depois PRT-La Verdad), Partido Socialista dos Trabalhadores (PST), Movimento ao Socialismo (MAS). Também participou da fundação de diferentes partidos em outros países da América do Sul.

Internacionalmente, manteve relações com diferentes dirigentes e partidos trotskistas de todo o mundo, e sempre participou das lutas políticas entre as diferentes frações do trotskismo, desde o Segundo Congresso da IV Internacional, em 1948, até a sua ruptura com esta direção, em 1979; depois na formação da Quarta Internacional – Comitê internacional (QI-CI); e, finalmente, da fundação da Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional (LIT-QI), em 1982, com o objetivo permanente de regenerar e reconstruir a IV Internacional fundada por Leon Trotsky.

O trotskismo tem que estar com a classe operária

O trotskismo argentino do início dos anos 1940 encontrava-se à margem da realidade, concentrado em conversas nos cafés. Decidido a romper com essa situação, Moreno levou seu grupo – alguns jovens ativistas aproximados com a ajuda de um operário boliviano – a se ligar às lutas operárias, concentrando sua ação política na região industrial de Avellaneda daqueles anos, onde se estabeleceu.

Ali, foi construindo sua organização, participando das lutas cotidianas dos trabalhadores e levando-lhes as propostas do programa da revolução socialista. Dessa forma, surgiu um dos pontos fundamentais do pensamento de Nahuel Moreno: a necessidade de estar junto à classe operária, de construir-se neste meio.

Assim, Moreno e seus seguidores estiveram sempre junto ao movimento operário, em suas vitórias e suas derrotas, sem deixar-se impressionar pelos “modismos políticos” de turno, como a guerrilha, que fascinou milhares de lutadores depois do triunfo da revolução cubana para terminar levando-os à derrota e à morte. Mas sem ceder também à ideologia política das massas operárias (como o peronismo); pelo contrário, sempre fez o maior esforço para divulgar entre elas o programa da revolução socialista.

O trotskismo e seu programa não têm razão de ser fora da classe operária. Nosso objetivo é que sejam os trabalhadores que tomem o poder da patronal, impondo suas organizações democráticas, para construir o socialismo em todo o mundo. E, para isso, é necessário que tenham uma direção política surgida de suas próprias fileiras, constituída por seus melhores lutadores.

O que Moreno entendeu é que, além disso, este caminho não admite “atalhos”: para que os trabalhadores façam a revolução, precisam de uma direção gestada em suas fileiras, isto é, um partido revolucionário formado por operários, forjado nas lutas diárias.

As tentativas de substituir a ação política dos trabalhadores e do povo, seja por grupos armados ou figuras eleitorais, terminaram na derrota, ou na adaptação ao capitalismo. O caminho que seguimos, o que nos legou Moreno, é o único que pode levar os trabalhadores ao poder, por mais longo e difícil que seja.

A Internacional

Sendo a corrente mais revolucionária de todo o espectro político em nível mundial, o trotskismo foi duramente perseguido tanto pelas ditaduras nazifascistas dos anos 1930 como pela máfia stalinista que usurpou o poder na União Soviética, e quase foi extinto ao fim da Segunda Guerra Mundial.

Nesse contexto, um grupo de jovens dirigentes deu-se a tarefa de reconstruir o trotskismo e a IV Internacional, de manter viva a teoria, a prática e a tradição revolucionária de Marx, Lenin e Trotsky. Nahuel Moreno se uniu a eles a partir do já fundado GOM, depois de participar do II Congresso da IV Internacional em 1948.

Conectar-se com o resto do trotskismo permitiu-lhe ter uma melhor visão da realidade mundial, da qual decorrem as realidades nacionais. Mas, principalmente, permitiu-lhe ver que, além de solidarizar-se e ligar-se com as lutas em outros países, ser internacionalista é unir os esforços militantes de diferentes países para construir uma direção internacional que oriente e construa partidos revolucionários em cada país, como era o objetivo de Trotsky ao fundar a IV Internacional.

Adotando esta visão do internacionalismo como um pilar de seu pensamento, Moreno ajudou na construção de partidos no Peru, Brasil, Colômbia, Espanha, Portugal. Participou e coordenou agrupamentos internacionais no interior da IV para combater as políticas errôneas da direção. E inclusive impulsionou uma brigada de combatentes internacionais para lutar junto às massas na revolução nicaraguense: a Brigada Simón Bolívar. Após a vitória, os brigadistas foram recebidos como heróis em Manágua, mas, depois de estimular a criação de uma grande quantidade de sindicatos, a Brigada foi expulsa da Nicarágua pelo sandinismo.

A direção do SU (Secretariado Unificado) negou-se a denunciar a expulsão e a tortura dos brigadistas pelo governo do Panamá. Isso, somado à proibição de construir partidos trotskistas na Nicarágua e em Cuba, motivou a saída da corrente de Moreno do Secretariado Unificado – IV Internacional, o que o levou, depois de uma tentativa frustrada de agrupamento internacional, a fundar a LIT-QI, com o objetivo de reconstruir a IV Internacional.

Atualmente, nós que somos parte da LIT-QI seguimos com este mesmo objetivo, o de reconstruir a IV Internacional, a direção política que os trabalhadores do mundo necessitam para acabar com o capitalismo imperialista e impor o socialismo.

Um defensor da teoria marxista

O outro pilar fundamental do pensamento de Nahuel Moreno era a teoria marxista: o método de análise científica da realidade forjado por Marx e Engels, e enriquecido por Lenin, Trotsky e outros revolucionários.

Ele ensinou que, para fazer política revolucionária, era preciso atuar como um médico sério, que só indica um tratamento após realizar as análises necessárias e traçar um diagnóstico cuidadoso. Por isso, sempre foi crítico com os dirigentes que elaboravam teorias em base a intuições e golpes de vista, que invariavelmente se adaptavam às pressões, aos modismos políticos da ocasião.

Nós, da LIT-QI, seguimos sempre este conselho de Moreno. E, embora não seja fácil, a luta cotidiana das massas nos permite resistir à enxurrada de charlatões, já que suas propostas não estão à altura da necessidade suprema dos explorados e oprimidos de todo o mundo: acabar com o imperialismo e construir um mundo socialista.

Tradução: Rosangela Botelho