Andando pelas ruas da “baixada do Glicério”, no centro da capital paulista, próximo à praça da Sé, encontramos um pedacinho do Haití aqui no Brasil. São nossos irmãos haitianos, homens e mulheres, que todos os dias estão chegando, depois de um percurso muito sofrido, que envolve desde a travessia por “coiotes”, passando pela República Dominicana, Equador e Peru, chegando na situação de calamidade vivida nos galpões no Acre, até chegarem ao tão sonhado “sul do país” na esperança de encontrarem trabalho.

 

A vinda dos imigrantes haitianos para o Brasil não é nova. Desde 2011, estima-se que já chegaram ao país mais de 20 mil. O terremoto foi um desencadeador, mas a imigração não se deve a esta “causa natural”. A recolonização do Haití, em curso, promovida pelo imperialismo norte-americano com a parceria e submissão do Brasil, que encabeça a ocupação das tropas da Minustah, está fazendo do Haití um país sem nenhuma perspectiva de desenvolvimento soberano para o seu povo.

 

 
O imperialismo se utilizou do drama do terremoto para colocar em prática de forma acelerada o seu plano de colonização do país, a serviço do capital transnacional. As zonas francas da indústria têxtil implantadas no Haití são verdadeiras cadeias de exploração que exportam produtos manufaturados para os EUA, com um valor da mão de obra tão competitiva quanto a China. Um trabalhador haitiano recebe apenas US$ 5 ao dia, o que equivaleria no Brasil a um salário mínimo de R$300 ao mês. “A divisão internacional do trabalho já decidiu qual o papel do Haiti: fornecer mão de obra barata”. Mais de 80% dos haitianos com curso superior deixam o país, sendo que há dois fluxos migratórios: o que é chamado de cérebros, principalmente para o Canadá, e o outro, de trabalhadores manuais, para as ilhas da circunvizinhança do Haiti, e agora cada vez mais para o Brasil”, afirma Franck Seguy, pesquisador haitiano que desenvolveu uma tese sobre o processo de recolonização de seu país.
 
Enquanto as zonas francas praticam a superexploração, a capital Porto Príncipe, região onde ocorreu o terremoto, continua sem ter água limpa para uma população de 150 mil pessoas que ainda vivem em tendas e abrigos.
O governo brasileiro de Lula e Dilma encabeçam esta vergonha e farsa. É uma farsa a chamada “missão de paz” e de reconstrução, pois nem há reconstrução nas principais áreas onde ocorreu o terremoto e nem o Haití se encontra em guerra. E vergonha pelo papel totalmente submisso ao imperialismo norte-americano, em que o Brasil tenta barganhar o assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, utilizando as tropas para “pacificarem” as zonas de conflito, ou seja, o mesmo papel que as forças de segurança cumprem nas favelas do Rio de Janeiro, o governo Dilma desempenha também no Haití como repressor dos movimentos sociais e do povo pobre e negro, aliás, muitos soldados que hoje estão reprimindo a população nos morros do RJ foram “treinados” no Haití.
 
Mas a realidade dos imigrantes que chegam do Haití em busca de alguma dignidade aqui no Brasil, uma vez que no Haití está sendo negada pelo próprio governo brasileiro, também não é muito diferente. A começar pela emissão dos chamados “vistos humanitários”, que não são oferecidos a todos os que querem migrar para o Brasil, obrigando os haitianos a uma situação de extrema vulnerabilidade ao terem que atravessar as fronteiras sem o visto, ficando a mercê dos chamados coiotes que cobram em torno de US$ 4 mil para trazê-los até o Acre, numa viagem que dura em média 15 dias e onde correm vários riscos de vida.
Durante muito tempo os haitianos ficaram em condições sub-humanas em Brasiléia, na fronteira do Acre com o Peru, tendo havido várias denúncias da crise humanitária que ocorria no galpão, chegando no auge da crise, em março deste ano, há uma ocupação de 2 mil e trezentos haitianos para um espaço onde caberia 300 pessoas. A ocorrência da cheia no Rio Madeira foi a desculpa para que o governo do Acre (Tião Viana do PT) decidisse simplesmente fechar o Galpão em Brasiléia no dia 12 de abril. Esta atitude nenhum pouco humanitária do governo do Acre, longe de resolver qualquer crise, só tem agravado a situação dos haitianos que continuam chegando em Brasiléia, mas que agora estão dormindo, ao invés de ser num galpão superlotado, nas ruas da cidade, até serem transferidos para um novo abrigo em Rio Branco.
 
Foi este fato que deu origem à chegada massiva dos haitianos na capital paulistana. O governo do Acre, simplesmente tentando se livrar do “problema”, resolveu ele mesmo alugar os ônibus que estão trazendo os haitianos para SP. Os trabalhadores haitianos já vinham para SP e também para outros estados, principalmente os do Sul em busca das “ofertas” de trabalho, desde 2011, porém, com o fechamento do abrigo em Brasiléia, este processo foi acelerado. Somete no último mês chegaram em SP cerca de 800 imigrantes vindos do Haití.
 
Em SP, nossos irmãos haitianos também não contam com uma digna recepção por parte dos governantes, pelo contrário, o governo Alckmin do PSDB, famoso por seu perfil repressor à população pobre e negra (vide episódio do Pinheirinho), de imediato, deu uma declaração, através de sua secretária de justiça, que a chegada estava se dando de forma “irresponsável”, já o prefeito Haddad está pleiteando o controle da chegada dos haitianos em SP em um limite de 40 por dia.
A grande questão é que os haitianos necessitam de acolhida digna, seja no Acre, em São Paulo ou em qualquer lugar do país e esta responsabilidade é em primeiro lugar de Dilma que é responsável pela situação de miséria que se encontra o povo haitiano em seu país e que obriga esta população a migrar para o Brasil. O governo Dilma, assim como os outros governos tanto do Acre, quanto de São Paulo, apoiam a ocupação das tropas brasileiras no Haití, assim como colaboram ativamente para o processo de recolonização, causando a miséria e a superexploração dos trabalhadores no Haití. Agora quando chegam ao Brasil, os haitianos continuam sujeitos a todo tipo de humilhação.
 
A realidade dos haitianos que chegam a SP hoje, é que não existe um espaço de acolhida garantido pela prefeitura ou pelo Estado, em que todos os seus direitos sejam garantidos. O primeiro lugar que procuram é a Paróquia Nossa Senhora da Paz, que fica no bairro do Glicério, e que procura garantir os primeiros encaminhamentos, mas que também não dá conta de todas as necessidades dos imigrantes. Na semana passada a prefeitura inaugurou um abrigo perto da paróquia para apenas 120 pessoas, porém sem os equipamentos e profissionais necessários.
 
Os haitianos que chegam a SP vêm com a promessa de conseguirem trabalho no Sul do país e ficam esperando a vinda de empresários que estão em busca de mão de obra barata e qualificada. A maioria está sendo empregada na indústria da construção civil ou em ramos do agronegócio como as fazendas de produtos para exportação ou frigoríficos nos estados de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul. Estes empresários se aproveitam da oferta abundante de mão-de-obra para pagarem salários baixos. Mas o pior é que muitas vezes os trabalhadores haitianos, no desespero de encontrarem emprego, estão sendo aliciados para trabalho escravo.
 
Como se isso não bastasse, muitas vezes os haitianos, homens e mulheres, que na sua grande maioria deixam seus filhos e família no Haití, para tentar ganhar o suficiente para enviar dinheiro para lá, acabam pagando aluguéis caríssimos até chegar ao destino final. Um cubículo na região do bairro do Glicério, com banheiro e cozinha coletivos, está sendo alugado por R$700,00. A superexploração a que os haitianos estão sendo submetidos no Haití através das forças de ocupação chefiados pelo governo brasileiro se repete quando chegam ao Brasil.
 
Outras vezes, por não conseguirem falar a língua, são enganados ou roubados e perdem todas as suas coisas e seus documentos, aumentando ainda mais todo o processo extremamente doloroso da imigração.
 
Em junho deste ano vão completar 10 anos que o Brasil lidera a ocupação militar no Haití. São dez anos que o governo do PT é completamente subserviente ao imperialismo norte-americano e que também se aproveita da ocupação para garantir os negócios dos seus aliados, como é o caso das empresas têxteis do falecido José de Alencar. São dez anos de vergonha e de farsa, maquiados com o discurso demagógico e hipócrita de “missão de paz e humanitária”. Como se isso não bastasse, agora também está nas costas do governo brasileiro, o total descaso com os imigrantes haitianos, perdurando o martírio iniciado no Haití, também no Brasil.

Mais do que nunca é necessário continuarmos denunciando a responsabilidade do governo Dilma por manter a ocupação brasileira no Haití e o papel de liderar as tropas da Minustah, assim como é necessário exigirmos que os imigrantes haitianos tenham as portas abertas no nosso país, não para continuar sendo submetidos à superexploração e a condições desumanas, mas para que tenham seus direitos garantidos e condições dignas para a permanência.