Após nove meses de emergência sanitária, as medidas parciais, insuficientes e incongruentes para controlar a pandemia, continuam sendo a tônica habitual. Os números de mortos/as são intoleráveis, a transmissão do vírus continua sendo muito alta e a situação é de alto risco na maior parte do território. É por isso que a maioria dos epidemiologistas dão como certo que teremos que enfrentar uma terceira onda, sem ter superado a segunda.

Por: Juan Parodi

Esta situação se repete em toda a Europa. Em vários países, os números de contágios e mortes são alarmantes e piores que na primeira onda. Mais de 400.000 mortos/as em todo o continente, onde uma pessoa morre a cada 17 segundos por Covid 19. É o preço a pagar pela hipócrita “nova normalidade” imposta pelas burguesias de todos os países. A OMS advertiu os governos europeus sobre novos surtos se não melhorarem seus sistemas sanitários.

Entretanto, os últimos dados do INE apontam que o excesso de mortes supera, em muito, as cifras oficiais, tanta na primeira como na segunda onda; e a avaliação independente e imparcial da gestão da pandemia que duas dezenas de respeitados cientistas espanhóis vem exigindo desde agosto, continua atrasada e não tem nem data de início.

Salvar vidas e «o Natal »? Quem é responsável?

Um após o outro, os diferentes governos autônomos aprovaram planos especiais com novas normas de mobilidade e capacidade, em uma progressiva desaceleração diante do Natal, que agora se propõe a endurecer, se a situação não melhorar, o que demonstra que os governos continuam “atrás” do vírus. O “grande dilema” para chegar a um acordo, foi decidir a hora do toque de recolher ou com quantos familiares e “amigos próximos” podemos nos sentar à mesa.

Novamente, as ordens e contraordens e a falta de concretização das medidas, não só geram muitas dúvidas, como deixam seu cumprimento para a decisão e vontade de cada um/a. Uma calculada ambiguidade com a qual os governos lavam as mãos: “As administrações ditam as normas. Se houver uma terceira onda, a responsabilidade será somente sua”. Com medidas parciais e insuficientes são eles que incentivam que aconteçam as aglomerações.

É hipócrita e injusto pedir a mesma responsabilidade aos que vivem em apartamentos pequenos em bairros lotados, suportam transportes públicos abarrotados para irem trabalhar, em lugares onde o distanciamento social é uma ficção, a aqueles que têm segundas residências aonde ir, dinheiro para reservar locais privados ou fazer um teste da Covid quando quiserem.

E, sobretudo, onde esteve a responsabilidade dos governos quando entre janeiro e maio quase 14.000 pessoas faleceram em residências sem serem transferidas para um hospital e 2.500 morreram em suas casas; muitas sem assistência médica pelo colapso hospitalar? Onde está agora quando meses depois a Atendimento Básico e os hospitais, continuam sem ter suficientes rastreadores nem pessoal da saúde necessário? Ou quando continuam sem reforçar os transportes públicos nem asseguram moradias dignas para nos proteger do vírus?

Uma saúde que continua precarizada e submetida à grande pressão

Para acalmar os ânimos anunciam que “há uma luz no horizonte” porque logo chegarão as vacinas. Uma campanha que recairá sobre o Atendimento Básico, encarregado dos testes PCR ou de antígenos e dos rastreios, e que continua em colapso. Falta pessoal de enfermaria para tantas tarefas. E nos hospitais, continuam as longas listas de espera para intervenções cirúrgicas e muitos/as doentes crônicos não podem ser atendidos/as como deveriam. Nossa saúde, gravemente afetada por esta pandemia, ainda padece das consequências dos graves cortes a partir de 2010.

Para piorar, governos como o da Comunidade de Madri realizam transferências de pessoal para o controvertido hospital Isabel Zendal, à custa de reduzir as equipes de outros hospitais, já por si só muito reduzidas. Em meio a esta crise, há dinheiro para levantar edifícios, mas não para contratar mais pessoal médico ou abrir UTIs que se mantém fechadas, como as do hospital Infanta Sofia de Madri. A saúde continua sendo um negócio para construtoras e outras empresas amigas.

À essa altura, fica evidente que apesar da demagogia de seus discursos, a campanha para salvar vidas e por sua vez salvar o Natal, não é outra coisa que a enésima tentativa de salvar os benefícios dos capitalistas. A causa dos contágios e as mortes se manterem, não está na conduta individual irresponsável de alguns/as, mas na impossibilidade dos governos burgueses de derrotar a pandemia, o que é consequência do sistema capitalista. Ao aprovarem estas medidas os governos atuam “com as mãos atadas”, porque se encontram absolutamente condicionados pelo seu caráter de classe e pelos interesses que defendem.

Tradução: Lilian Enck