No dia 8 de março, enquanto no mundo todo centenas de milhares de mulheres e homens se pronunciavam nas ruas contra os feminicídios e a violência, cada vez mais criminosa, deste sistema contra as mulheres, a poucos quilômetros da Cidade da Guatemala, no “Hogar seguro Virgen de La Asunción” [Lar Seguro Virgem da Assunção] em San José Pinula, 19 mulheres jovens e adolescentes morriam carbonizadas pelo fogo e mais 21, que foram levadas para hospitais, não conseguiram sobreviver às profundas lesões.

Por: Rosa Cecilia Lemus

“Não foi o fogo, foi o feminicídio do Estado” é o título do comunicado da Red de Sanadoras Ancestrales, uma rede feminista da comunidade, que denuncia: “Meninas provenientes de famílias pobres, algumas também indígenas de vários departamentos[1] em nível nacional, com histórias de violência sexual, abortos forçados, gravidez por violência sexual, tráfico de pessoas, fugindo do recrutamento forçado das gangues, ou cooptadas pelo crime organizado diante da falta de oportunidades para uma vida digna. Estas jovens, acrescentamos, vítimas de violência machista há muitos anos, foram assassinadas por responsabilidade política e material de um Estado capitalista e seu governo que, como tantos outros no mundo, estão interessados apenas ​​em defender os privilégios de empresários e ricos.

Que hipocrisia abominável! O presidente do país, Jimmy Morales, um ex-comediante de TV, decretou três dias de luto nacional e destituiu o diretor do centro para esconder sua culpa, como se isso pudesse reparar as vidas destas mulheres, a dor e o sofrimento de suas famílias e o perigo que correm os jovens reclusos nestes “centros assistenciais”, verdadeiras prisões do crime e terror. A sua responsabilidade é enorme, porque as denúncias das jovens já existiam há muito tempo, e ele sabia que neste, e supomos que nos outros “abrigos seguros” também, os jovens eram vítimas de abuso sexual, de maus-tratos e de castigos desumanos. Justamente no dia 7 de março, cinquenta jovens tinham conseguido fugir, porque suas denúncias e protestos não foram ouvidos. Foram recapturadas e amontoadas em um quarto sem alimentos, de acordo com relatos de parentes, e vítimas de um incêndio que começou no setor onde elas estavam.

Guatemala é o segundo país do mundo, depois de El Salvador, onde se registra o maior número de homicídios de jovens com menos de 20 anos, de acordo com a UNICEF. Esta é a história que vivem quase todos os países atrasados ​​e mais pobres, porque este sistema capitalista-imperialista não oferece alternativas de uma vida digna para a juventude. As burguesias, em sua ânsia de lucro e enriquecimento, se associam com quadrilhas de traficantes e corrompem todas as instituições, pois todos recebem sua parte, sujeitando grandes setores da juventude das famílias trabalhadoras e dos setores mais pobres a cair nas mãos dessas gangues ou, no caso das mulheres, em redes de prostituição para sobreviver. Como disse Trotsky, “onde existem privilégios, existem marginalizados”.

Diante destas tragédias causadas pelo sistema capitalista, os governos não fazem nada além de encarcerar em prisões e “abrigos seguros” esta miséria que alimentam e reproduzem a todo o momento. Oitocentos jovens confinados no “abrigo seguro”, vítimas de estupro, assédio sexual, tráfico de pessoas e alguns de abandono, viviam em um lugar que possuía capacidade para apenas 400 pessoas. De que política de direitos humanos falam? De quais políticas de proteção à infância e juventude? De qual respeito à mulher? De acordo com estatísticas de organismos mundiais encarregados de “cuidar” do tema, sete mulheres são assassinadas por dia no México, país que também é atravessado pelo tráfico de drogas e pela corrupção, e, na Argentina, apenas em 2016 a cifra de feminicídio aumentou para 296. O Brasil também está dentro dos países que encabeçam o número de homicídios de jovens, nos quais estão os homicídios de mulheres negras e jovens negros dos bairros mais pobres das grandes cidades.

É por isso que devemos rechaçar os discursos demagógicos e até mesmo cínicos que a ONU, passando pelo misógino Presidente Trump até os governos de cada país, fizeram no oito de março. Exigimos ações, não palavras. Exigimos dos governos orçamento para verdadeiros abrigos, para as vítimas de violência de todos os tipos, para os imigrantes e para os setores mais vulneráveis. Exigimos que a dívida aos bancos não seja paga, exigimos saúde e educação públicas e gratuitas, exigimos creches, queremos salário igual para trabalho igual, trabalho para todos, punição para os corruptos, para os estupradores, para os assassinos do povo trabalhador. Denunciamos a Igreja e os setores mais reacionários que, por seu machismo ancestral, forçam meninas estupradas a serem mães prematuras de bebês prematuros. Exigimos a separação da Igreja e o Estado, exigimos o direito ao livre aborto, ao mesmo tempo em que defendemos o livre direito e proteção à maternidade.

Este fato, qualificado pelos familiares como um verdadeiro massacre, não pode ficar impune. É preciso que todas as organizações feministas, os sindicatos de trabalhadores e organizações políticas nos pronunciemos de forma categórica. Precisamos fazer chegar aos familiares nosso apoio incondicional e exigir a punição para todos os envolvidos neste massacre, que a instituição seja fechada e que os e as jovens sejam transferidos para instituições com instalações e condições dignas, que sejam atendidos por profissionais e que as famílias possam exercer um verdadeiro controle. É necessário fazer uma campanha mundial, fazer protestos nas embaixadas da Guatemala em todos os países e apoiar a exigência, já levantada por diversas organizações, da destituição do governo. Um governo que permite tal atrocidade não pode continuar. A luta mundial contra este flagelo está crescendo a cada dia, e nós temos que continuar desenvolvendo-a, cada vez com mais força, porque a cada dia cresce o feminicídio e aparecem mais mulheres assassinadas.

Outros fatos mostram a barbárie do sistema capitalista e o colapso completo da classe dominante, ou não estamos testemunhando os “honrados governantes” envolvidos até os ossos em escândalos de corrupção de todos os tipos? Esta realidade assustadora confirma a necessidade de a classe operária, os trabalhadores assalariados e os setores mais pobres e oprimidos se organizar para fazer uma revolução que nos permita construir um novo sistema, uma nova sociedade onde a humanidade possa viver em condições humanas. Uma sociedade socialista em que a grande riqueza produzida não fique nas mãos de poucos, mas que seja expropriada e colocada a serviço de uma vida digna para a grande maioria da população, hoje explorada, esmagada e oprimida.

Nota:

[1] Divisão administrativa. A Guatemala se divide em 22 departamentos [nota da tradução].

Tradução: Lena Souza