Discurso tem tom defensivo e mentiras em série, e mostra intenção de aprofundar política genocida e de destruição do meio ambiente

Por: PSTU Brasil

Em discurso de abertura na 75ª Assembleia da ONU na manhã desta terça-feira, 22, o presidente Jair Bolsonaro fez aquilo que mais sabe: mentiu. Omitindo as quase 140 mil mortes pela COVID-19 no país, Bolsonaro desfilou um conjunto de absurdos a fim de pintar o quadro de um Brasil paralelo na cabeça dos representantes mundiais, e, de quebra, puxar o saco do seu chefe, Donald Trump, que falaria logo depois.

“Desde o princípio, alertei, em meu país, que tínhamos dois problemas para resolver: o vírus e o desemprego, e que ambos deveriam ser tratados simultaneamente e com a mesma responsabilidade“, afirmou logo no início do discurso. Mentira que ofende não só as vítimas da pandemia e seus familiares, como milhões de trabalhadores que perderam seus empregos e renda nos últimos meses.

Desde o início, Bolsonaro tratou de minimizar a gravidade da COVID-19, sabotando as parcas medidas de isolamento social adotadas nos estados e instando o povo a sair às ruas. Cada discurso proferido tratando a crise como uma “gripezinha”, e cada aglomeração provocada intencionalmente como provocação, eram seguidos pela redução dos índices de isolamento nas regiões. Bolsonaro não só se omitiu no combate à pandemia, como fez de tudo o que esteve ao seu alcance para combater qualquer medida contra o novo coronavírus. Pensando apenas em seu projeto de reeleição, combateu como pode qualquer medida de isolamento, às custas de dezenas de milhares de mortes. Isso não tem outro nome que não genocídio.

Se em relação à pandemia Bolsonaro se alinhou aos mais obscurantistas líderes mundiais, figurando como um verdadeiro pária internacional, no plano econômico protegeu os lucros dos grandes empresários e banqueiros. Baixou medida provisória reduzindo salários e não adotou qualquer medida em defesa dos empregos, gerando a perda de quase 10 milhões de postos de trabalho nesse período e reduzindo a renda média dos trabalhadores em cerca de 10%.

Como se isso não bastasse, Bolsonaro disse ainda em seu discurso que “concedeu auxílio emergencial em parcelas que somam aproximadamente 1000 dólares“, dando a entender que esse era o valor dos R$ 600 do auxílio, que seu governo queria inicialmente que fossem de R$ 200. E nenhuma palavra em relação ao corte do benefício pela metade e o seu fim a partir do próximo ano.

Outro absurdo foi dizer que “assistiu a mais de 200 mil famílias indígenas com produtos alimentícios e prevenção à COVID“, sem contar que o que fez foi entupir povos originários com a cloroquina que mofava nos depósitos do Exército, e que a população indígena foi uma das mais afetadas pela pandemia.

Índio incendiário

Falando em povos indígenas, e atacando uma suposta “campanha de desinformação” sobre a Amazônia e o Pantanal, Bolsonaro culpou o “caboclo e o índio” que, segundo ele, “queimam seus roçados” em áreas que já teriam sido desmatadas. Seria o que, na cabeça de Bolsonaro, estariam provocando os incêndios florestais. Isso mesmo com investigações da própria Polícia Federal mostrando que as queimadas têm relação direta com a ação de grileiros e latifundiários em áreas de floresta para a transformação em pasto e área de cultivo.

Segundo o presidente mitômano, “focos criminosos são combatidos com rigor e determinação”. Essa nem o ministro Ricardo Salles deve ter contido um riso cínico pensando na sua boiada. Se teve algo que esse governo fez na gestão ambiental foi justamente perseguir cientistas, pesquisadores e servidores da área comprometidos com a fiscalização ambiental, desmontando órgãos como o INPE e o Ibama e deixando o caminho livre para a ação de madeireiros, mineradoras e latifundiários.

Direitos Humanos para Trump ver

Lendo o discurso com certa dificuldade em seu teleprompter, Bolsonaro disse que “o Brasil tem os princípios da paz, cooperação e prevalência dos direitos humanos“, restando explicar se esses princípios são compartilhados pelos seus ídolos, como o torturador Brilhante Ustra.

Fez ainda um apelo ao combate à “cristofobia”, sem explicar o que exatamente seria isso e, como não poderia deixar de ser, terminou com um elogio a Trump pelos “esforços para retomar o caminho da tão desejada solução do conflito israelense-palestino”. Aliás, foi a única vez que o termo “palestino” apareceu no discurso. Reafirma, assim, seu alinhamento automático e subordinado não só a Trump, como a Israel.

Discurso defensivo mas que aponta mais ataques

Foi um evidente discurso defensivo frente aos principais fatos que tornaram Bolsonaro uma espécie de pária internacional: o negacionismo mais radical em relação à pandemia, e a destruição do meio ambiente. Ambos os fatos que colocaram o país nas manchetes dos principais jornais do mundo. Mas foi um indicativo também que ele não pretende mudar nada em relação a isso.

Ao mesmo tempo em que tenta passar uma imagem idílica do país e de seu governo ao mundo, escondendo as centenas de milhares de mortos, o desemprego em massa e a miséria para debaixo do tapete, indica também que vai continuar e aprofundar essa mesma política genocida, de destruição do meio ambiente e de semi-escravidão que nos trouxe à situação de hoje.