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Há dez meses as forças militares da ditadura síria e seus aliados russos e iranianos iniciaram uma ofensiva covarde e criminosa para retomar o controle da província de Idlib, no norte do país.

Por: Hasan al-Barazili

Sob alegação de que o regime turco não cumpriu o acordo de Sochi quanto à livre circulação de duas rodovias, a M4 que cruza o país de leste a oeste, e a M5 de norte a sul, e também quanto a presença de forças “terroristas” na região, a força aérea russa e síria bombardeia dia e noite as vilas e cidades de Idlib e de áreas contíguas à Idlib nas províncias de Aleppo e Homs. Esta ação covarde é seguida do avanço de forças terrestres ligadas ao regime sírio.

Esta ofensiva militar já matou mais de mil civis e provocou a fuga de 900 mil pessoas segundo a ONU em direção à fronteira com a Turquia, que não lhes dá passagem já que a Turquia hoje conta com 3,6 milhões de refugiados sírios. Além disso, as forças terrestres pró-iranianas e pró-regime saqueiam as propriedades e vandalizam os cemitérios a fim de humilhar e desmoralizar a população síria em Idlib que odeia a tríade Assad-Rússia-Irã.

Nos últimos dias houve choques militares entre forças terrestres de Assad/Irã e o exército turco e milícias aliadas. O presidente turco Erdogan ameaça enviar tropas até o final de fevereiro se Assad não retroceder suas tropas para a linha de postos de controle turcos negociados em Sochi em 2018. Além disso, está armando milícias rebeldes ligadas à Ancara e já pediu ajuda militar dos Estados Unidos.

Astana e as agendas russa, iraniana e turca

Os acordos fechados em Astana (atual Nursultan) no Cazaquistão entre os regimes russo, iraniano e turco visaram atender aos interesses particulares de cada um deles. Nunca tiveram objetivos humanitários ou de apoio à revolução síria.

A Rússia e o Irã tinham o objetivo de derrotar as forças rebeldes e retomar o controle sobre todo o território sírio, disputando entre si as riquezas do país e os contratos de reconstrução.

A Turquia queria ampliar sua influência no país e impedir qualquer fortalecimento das forças curdas.

Em maio de 2017, os três regimes definiram quatro zonas de redução de conflitos, todas sob controle dos rebeldes:

  1. a) Idlib e áreas contíguas nas províncias de Latakia, Alepo e Hama;
  2. b) Homs (Rastan and Talbiseh);
  3. c) Ghouta oriental;
  4. d) Deraa e Quneitra.

Para russos e iranianos se tratava de concentrar os esforços militares e tomar essas áreas sob controle dos rebeldes, uma a uma.

Para o regime turco, trata-se de barganhar a queda de cada zona por seus interesses estratégicos.

Já fora assim no final de 2016 quando a Turquia retirou milícias aliadas do Exército Livre da Síria (ELS) da cidade de Alepo, facilitando a tomada de toda a cidade de Alepo pelas forças do regime sírio e aliados russos e iranianos, para executar a operação “Escudo de Alepo” (Euphrates Shield) na qual forças curdas e do Daesh foram desalojadas da margem ocidental do rio Eufrates entre Al-Bab e Jarablus, próximo à fronteira turca,.

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Em 20 de janeiro de 2018 as tropas turcas tomaram a província de Afrin, sob controle de forças curdas, na operação denominada Ramo de Oliveira (Olive Branch), em troca do avanço do regime sírio sobre o sul da província de Idlib e as demais zonas de redução de conflitos.

Em 9 de outubro de 2019, após anúncio de retirada de forças americanas, as tropas turcas realizaram a operação Paz da Primavera (Spring Peace) na qual tomaram uma faixa fronteiriça de 300 km de extensão por 30 km de largura entre Ras al-Ayn e Tel Abyad, faixa na qual Erdogan promete alocar 1 milhão de refugiados sírios em 10 cidades ao custo de US$ 26 bilhões, separando as áreas curdas na Síria e na Turquia.

Agora o conflito localizado em Idlib prepara um novo escambo que está em negociação. Apesar de que uma escalada no conflito entre forças turcas e suas milícias aliadas contra as forças do regime sírio e milícias aliadas pró-iranianas não está descartada, os acordos econômicos e políticos que hoje ligam a Turquia e a Rússia empurram para algum tipo de acordo que pode conceder Idlib ao controle do regime em troca de uma maior faixa fronteiriça sob influência turca onde os refugiados seriam alocados.

O comércio bilateral russo-turco alcança US$ 25 bilhões por ano. A Rússia se tornou a principal exportadora de petróleo e gás para a Turquia. Recentemente foi inaugurado um gasoduto sob o mar negro para levar gás russo para a Europa via Turquia. Além disso, a Turquia adquiriu sistema de defesa antiaéreo S-400 russo. Não há sinais que Moscou ou Ancara queiram colocar em risco essas relações econômicas e políticas ainda que o apoio ao regime de Assad e o controle sobre todo o território nacional sírio seja prioritário para Putin.

Síria, um país ocupado e destruído

Para a maioria dos analistas burgueses, Idlib é a última batalha de uma guerra cujo vencedor é Bashar al-Assad e seus patrocinadores iranianos e russos.

Mas as contradições da tal “vitória” já saltam aos olhos e elas devem ser aproveitadas pelos trabalhadores sírios para retomar sua luta contra a ditadura.

A primeira é a ocupação do país. O regime de Assad não se sustenta sem a presença maciça de forças militares russas e iranianas e esta presença transforma o regime de Assad em um fantoche. Nenhuma decisão importante é tomada sem o aval dos ocupantes, que por sua vez disputam as riquezas do país e o controle da administração. Essa disputa implica inclusive nos acordos entre Putin e Netaniahu para que forças israelenses possam atacar regularmente o país sem qualquer ação preventiva ou retaliação russa. Para Putin, a agressão israelense é problema do Irã e a Rússia não vai interferir.

Esta ocupação gera conflitos com a população não só porque drena recursos econômicos escassos como também promove mudanças demográficas via transferência de população e via esforços de conversão religiosa ao xiismo.

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A segunda contradição é a situação da economia. O Produto Nacional Bruto baixou de R$ 60 bilhões em 2010 para R$ 15 bilhões em 2016. Hoje deve ser menor. A cotação da moeda nacional, a lira síria, era 47/USD em 2010. Hoje passou de 1000/USD. Em março de 2019, a ONU calculava que 83% da população vivesse abaixo do nível da pobreza. A carne e os vegetais tiveram um aumento de 50% em 2019 enquanto vários outros produtos dobraram de preço. O governo implantou um cartão para racionamento de arroz, açúcar, chá e gasolina a preço subsidiado.

O país tem vastas áreas literalmente destruídas. Sua reconstrução é improvável, pois as potências ocupantes Rússia e Irã não querem investir recursos, mas sim retirá-los, e grupos econômicos internacionais não sentem qualquer segurança nesse regime de ocupação.

As empresas sofrem com falta de água e energia, a perda de mão de obra devido ao exílio, morte, prisão, alistamento militar. Além disso, há sanções internacionais e o favorecimento para poucos empresários ligados ao regime. Para piorar, o debacle da economia libanesa acabou por derrubar ainda mais a economia síria.

A reconstrução passa pelo fim da ocupação estrangeira e do regime fantoche

A reconstrução do país passa pela expulsão de todas as forças estrangeiras, russas, americanas, iranianas e turcas, e pela reapropriação do território nacional pelo povo sírio.

Isso só pode ser feito através da derrubada do regime fantoche de Assad, e pela prisão de todos os criminosos responsáveis pela destruição da Síria e pela morte de meio milhão de pessoas.

Essa não é uma tarefa fácil. Ao contrário, o povo trabalhador sírio vai ter que aprender dos erros e limitações ocorridos em nove anos de revolução.

O primeiro passo é unir as forças da resistência síria dentro e fora do país. A experiência com o Conselho Nacional Sírio (SNC) depois denominado Coalisão Nacional da Oposição Síria foi muito ruim. Ao invés de coordenar o apoio às forças da revolução e promover a solidariedade internacional com a mesma, o SNC se limitava a pedir intervenção das potências europeias e dos Estados Unidos quando o interesse do imperialismo nunca foi derrubar a ditadura, mas sim reformar o regime incluindo setores pró-imperialistas.

É necessário construir uma nova coordenação nacional que seja democrática e inclusiva, que contemple os esforços por mudança dentro e fora do país, que denuncie a situação de opressão e pobreza em todo o país, que divulgue os protestos em Daraa, que organize a solidariedade internacional à Idlib, que coordene os esforços internacionais para libertar os presos políticos e para levar a julgamento o regime sírio pelos crimes contra a humanidade, que defenda os milhões de refugiados e os organize.

Os grupos autoritários que estiveram na oposição à Assad devem ser reavaliados. Fruto da ação do regime de libertar salafistas e do financiamento dos países do golfo e da Turquia, formaram-se dezenas de milícias salafistas que procuravam mudar o caráter democrático da revolução síria para um conflito religioso e sectário. Para citar alguns: o HTS que é a principal força armada em Idlib, o Jeish al-Islam que foi hegemônico em Ghouta oriental, e o Ahrar al-Sham. Em vários momentos esses grupos violaram os princípios de democracia e solidariedade da revolução assassinando lutadores para garantir seu domínio. Raed Fares e os quatro de Douma são exemplos. Essa posição é inaceitável e tem que ser combatida.

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A questão curda também deve ser objeto de discussão. A população curda sempre foi oprimida dentro da Síria e nos demais países. O regime Assad sempre foi e é um inimigo dos curdos. No entanto o PYD cometeu um erro estratégico ao não apoiar a revolução síria. Seu “pacto” de não-agressão com o regime de Assad vai cobrar seu preço agora. Sequer houve um debate democrático em Rojava e dissidentes como Meshaal Temmo foram eliminados, o que deve ser objeto de investigação. Ao mesmo tempo, as forças da revolução têm que garantir o direito democrático de autodeterminação ao povo curdo, ou seja, em uma Síria democrática o povo curdo deve ter o direito de discutir e decidir o seu destino.

A questão palestina também deve ser debatida. O regime sírio sempre manteve os palestinos e os campos de refugiados sobre vigilância e controle total. Assad tem até hoje uma violenta polícia política exclusiva para reprimir os palestinos. Nunca permitiu aos palestinos se organizarem para levar adiante a luta pela libertação da palestina. E abandonou a luta pelas colinas de Golã. As forças da revolução síria têm que anunciar seu compromisso pela libertação da Palestina, do rio ao mar. A derrubada de cada regime árabe autoritário é um passo nessa perspectiva.

Por fim a questão do partido revolucionário. O povo trabalhador sírio e sua juventude luta heroicamente há nove anos por liberdade e justiça social. Organizaram conselhos locais, redes de comunicação, autodefesa em um processo riquíssimo de auto-organização. Mas esteve ausente um partido revolucionário que lutasse por centralizar esses órgãos da revolução espalhados em todo o país para derrubar Assad, sem qualquer ilusão no imperialismo e nos regimes árabes – todos eles inimigos da revolução. Um partido revolucionário que construísse um elo com a classe trabalhadora nos países árabes, muitos dos quais também passando por revoluções como o Líbano e o Iraque hoje, e com os trabalhadores e trabalhadoras em todo o mundo.