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Esta é a primeira parte de um estudo/reportagem realizado por May Assir sobre a revolução síria, a migração e o exílio de milhões de sírios que se viram obrigados a deixar seu país. Além disso, analisa o caráter do regime de Bashar al-Assad antes da revolução.

O material está dividido em três partes. A primeira trata da revolução e da migração. A segunda abordará as condições com as quais se encontram os refugiados nos países para onde emigram. A terceira e última parte analisa o caráter do regime de Bashar al-Assad. O trabalho se baseia em entrevistas feitas com ativistas revolucionários e atualmente refugiados na Europa.

A crise síria se converteu na maior emergência humanitária de nossa época, segundo o Alto Comissariado da ONU para refugiados. O sofrimento dos que decidem se exilar não acaba na fronteira, mas adquire outras formas. A causa do êxodo dos refugiados sírios é uma revolução que segue, atualmente, brutalmente reprimida em que viver e continuar lutando se torna um sonho irrealizável.

Por: May Assir

Do sonho ao pesadelo

Ao som de uma palavra de ordem, a mais cantada na Primavera Árabe, as manifestações e reivindicações não paravam de crescer, derrubando Ben Ali, Mubarak… chegando às televisões, rádios e redes sociais de todo o mundo: inclusive aos ouvidos de uns meninos de Daraa, Síria.

A frase ‘O povo quer a queda do regime’ se transformou em um refrão no mundo árabe.” (Entrevistado #1)

Eles, como uma travessura própria da infância, pintaram na fachada de um colégio essa frase. Pintá-la não foi um ato de resistência, eram meninos que ainda não temiam nada, porque não haviam adquirido a consciência das consequências que isso acarretaria: eram muito jovens para haver assimilado o trauma coletivo.

A resposta do regime de Bashar foi prendê-los durante duas semanas e torturá-los. Diante desse nível de repressão, começaram as manifestações em Daraa, com as famílias dos garotos na vanguarda, pedindo sua liberdade e que o regime se desculpasse. Al-Assad não só não se desculpou como também disse que se tratava de uma conspiração “externa”. Isso não fez mais que ampliar a raiva das manifestações, que começaram a se estender como um rastilho de pólvora por todo o país.

Lembro-me de uma vez em que estava dizendo para minha mãe no carro:’Parece que vão se rebelar na Síria (…) Tomara que se levantem de uma forma organizada, de uma maneira razoável.’ Ela me respondeu: ‘Não vai ser razoável, vão se levantar pelas ruas e vão nos bombardear com os aviões’.” (Entrevistada #2)

O excelente sabor da vitória na Tunísia e no Egito, combinado com a pressão do “efeito dominó” das mobilizações em diferentes cidades do país, produziu uma luta interna em milhões de sírios. A oportunidade de derrubar o regime havia chegado, muitos saíam para as ruas mesmo conscientes do risco ao qual se expunham, mas dúvidas sobre a duração das mobilizações, a utilidade dos protestos ou sobre a capacidade do povo diante de um já conhecido aparato repressivo estatal atormentou a consciência de muitos:

No início, quando começou a revolução, acreditava que era algo ruim, pensei que iria acabar em 2 ou 3 dias, mas às vezes gente valente dá tudo de si, essa gente valente que inicia revoluções.” (Entrevistado #1)

Os primeiros que saíram às ruas puseram em risco suas vidas desde a primeira manifestação, mas muitíssimos outros não saíram até que atestaram que Bashar era igual a seu pai, utilizando a mesma brutalidade com a qual Hama foi arrasada, em 1982, dessa vez contra protestos pacíficos que pediam liberdade.

Vi como começaram a atacar os manifestantes, eletrocutando-os com pistolas elétricas, e vi a brutalidade e violência que o regime exerceu contra os manifestantes pacíficos, assim comecei a pensar de maneira diferente. (…) Vi isso com os meus olhos (…) Depois disso as coisas mudaram para mim. Logo comecei a procurar como participar.” (Entrevistado #1)

A confiança social aumentou à medida que passavam os dias. Manifestações em Daraa, Homs, Damasco, Hasake e Salamiyeh foram iludindo milhões de pessoas de que os dias do regime estavam contados.

Acreditávamos que iria ser como na Tunísia, um mês, dois meses no máximo, e depois o regime mudaria.” (Entrevistado #12)

O número de manifestantes continuou crescendo e cada vez mais mulheres se somavam. Elas, que durante a ditadura haviam tido menos direito de falar, foram em muitos casos as primeiras contagiadas pela onda de protestos. Uma das jovens entrevistadas é da cidade de Homs, durante um tempo batizada como “a capital da revolução”, e assim descreve sua primeira manifestação:

Estava em minha janela, e comecei a escutar vozes ao longe. Pensei: ‘Com certeza é uma manifestação’. É sério, é uma sensação incrível, você sente que está em outro mundo quando dizem ‘o povo quer a queda do regime’ (…) Como é bonito! De repente, após ouvir as vozes, (…) já estava lá embaixo; era a primeira vez. Sem me dar conta, me vi na rua com as pessoas. Como havia descido? Como estava entre eles?” (Entrevistada #2)

Os refugiados palestinos nascidos na Síria, que já tinham experiência em combater o sionismo e o costume de empreender lutas pela liberdade, também participaram do ascenso. [1]

Mais da metade dos doze entrevistados são palestinos, dos quais cinco participaram ativamente na revolução. Um estudante universitário sírio-palestino que participou da organização dos primeiros protestos em Damasco explica dessa maneira suas primeiras experiências no levante popular:

Eu participei, mas não da primeira manifestação, porque era muito perigoso para um palestino. A primeira pergunta que os serviços de inteligência vão fazer a você é: ‘Você que é palestino, filho da puta, o que faz aqui? Estamos te dando asilo.’ Mas depois da primeira manifestação não pude reprimir a vontade de ir (…) O regime de Assad para mim é mais inimigo do que Israel (…), matou mais lutadores palestinos (…). [As manifestações] É outro sentimento, ter a liberdade em um país ditatorial. Você está no tempo, lugar e hora para dizer o que sente. Me lembro de bater palmas e depois de uma as mãos doerem, e a garganta, mas mesmo assim continuar. Estou completamente livre.” (Entrevistado #12)

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Mas se pagou um preço por essa liberdade. À medida que aumentavam os protestos, o regime ordenava uma maior repressão [2], provocando uma contradição emocional permanente que é palpável quando os entrevistados recordam os protestos com nostalgia, tristeza e dor:

Finalmente o povo despertou, mas desgraçadamente quando as forças da ordem se enfrentaram com as pessoas, que não tinham nada, começaram a golpeá-las, disparar contra elas e as pessoas começaram a morrer. O povo se tornava mais ativista e você nota que está feliz, mas triste ao mesmo tempo. E os jovens começaram a trabalhar nos âmbitos pacíficos, culturais, revolucionários, artísticos e musicais. Surgiram canções e as pessoas começaram a desenhar e a distribuir panfletos nas ruas. Houve muito ativismo bonito, havia uma interação preciosa.” (Entrevistada #4)

A entrevistada completa a imagem das manifestações mostrando toda a renovação artística, cultural, política e emocional que inspirou uma revolução na qual os ativistas se expressavam da melhor maneira que podiam para resistir, dando uma grande profundidade a suas vidas cotidianas.

A esperança aumentava não só pela própria mobilização como também pelas vitórias que a pressão coletiva conseguia: anúncios de demissões por parte do regime [3], a revogação do estado de emergência [4], o indulto geral aos detidos pelos protestos [5] e, sobretudo, o surgimento de numerosas organizações populares como os Comitês Locais [6], nos quais os ativistas se organizavam para discutir como gerir as cidades libertadas [7], ou a União dos Estudantes Livres Sírios [8]. Esses organismos estavam sustentados e construídos por uma revolução social que defendia a possibilidade de que todos os que lutavam pudessem participar do poder em seu país. Mas, em seguida, como a entrevistada disse:

Aqui foi quando começaram a prender os jovens.” (Entrevistada #4)

Após um ano de manifestações pacíficas já havia três mil mortos segundo a ONU [9], as detenções arbitrárias se tornaram cada vez mais recorrentes [10], a tortura espreitava e a morte estava em cada esquina. Dos doze entrevistados, nove mencionam a brutalidade nas prisões do regime, cinco foram detidos e uma foi ameaçada pelos serviços de inteligência. Todos foram testemunhas da ferocidade do regime:

Os soldados passaram com tanques. Isso eu vi. Um helicóptero que estava em cima de nosso prédio e fazia ‘tatatatata’, disparando balas.” (Entrevistado #8)

Nossa casa foi bombardeada mais de uma vez e o carro também, e uma vez todo o edifício esteve a ponto de pegar fogo.” (Entrevistada #2)

Que pena pelos que se foram. Eu conheço três amigos de minha filha mais velha, e um de minha filha mais nova (…) morreram sob tortura (…) Sabe o que fizeram? Estavam distribuindo ajuda e comida às pessoas (…) ou davam medicamentos às mulheres e crianças. Isso não é um crime. Não eram os inimigos.” (Entrevistada #3)

Horrível (…) estive na prisão 3 meses. A verdade é que eu não fiz nada. (…) Eles me culparam como se eu tivesse feito fotografias e as tivesse enviado para a BBC, a Arabiya, e a verdade é que eu não fiz nada.” (Entrevistado #10)

Diante desse nível de barbárie, começou a se formar o Exército Livre da Síria (ELS), composto tanto por ex-soldados do regime, que ao se verem “caçando manifestantes” [11] se tornaram rapidamente desertores, como por civis, que viam a necessidade de pegar em armas para, em um primeiro momento, proteger as manifestações. Como um dos entrevistados conta:

Me uni ao Exército Livre da Síria para proteger os protestos. (…) Depois atacávamos as posições do regime. (…) Minha experiência foi a mesma que tive protestando, mas com menos paixão, porque era uma via que eu não queria utilizar para conseguir minha liberdade. Mas tinha que fazê-lo. (…) Acreditava que se continuasse lutando o regime cairia e teríamos nossa liberdade, nossa dignidade, nossa justiça para toda a Síria. De onde sejam, da religião que sejam, tenham as ideias que sejam. Por isso lutava, e era por isso que o meu grupo lutava.” (Entrevistado #12)

Houve grandes avanços estratégicos como cidades libertadas e batalhas ganhas, mas o incondicional apoio da comunidade internacional (alguns por manter um silêncio cúmplice e outros por financiar os massacres) ao regime, a entrada de novos inimigos da liberdade do povo sírio (Frente Al Nusra, Hezbollah, Estado Islâmico, etc. [12]) e o questionável financiamento de alguns comandantes do ELS não fez mais que atrapalhar a luta dos ativistas que tomaram as armas com convicções e ideias genuinamente revolucionárias.

Meu pai às vezes me ensinava sobre a revolução, e sempre me dizia: ‘Não há revolução sem teoria revolucionária [13]’. E as pessoas não tinham nenhuma teoria. Se não nem a Al-Nusra nem o ISIS teriam vindo, e nenhum governo poderia pôr suas mãos na nossa revolução (…) Senti que todo o Exército Livre da Síria estava sendo vendido a governos com agendas políticas (…) Seu principal objetivo era libertar cidades, porém nosso objetivo não é libertar cidades, é derrubar o regime.” (Entrevistado #12)

O caos reinante, um regime que ainda se agarra ao poder do país mesmo que não reste nenhum sírio vivo, todos os poderes internacionais intervindo militarmente [14] (direta ou indiretamente), uma oposição dividida e debilitada, mais de 215 mil mortos [15], cidades e bairros inteiros sitiados, tortura e detenções. Diante dessa situação, o exílio foi e é a única forma de sobreviver para milhões de sírios.

Despedida

Perguntei a um dos entrevistados, de 14 anos, palestino-sírio de Yarmouk com certo tom de expectativa: “Quando te diziam ‘Vamos para a Europa?’…” E então ele rapidamente me interrompeu:

Não nos diziam: ‘Vamos para a Europa!’ [imitando meu tom esperançoso]. Nos diziam: ‘Vamos embora do país’, claro, tudo muito triste, porque vai deixar sua casa, o carro, o trabalho, o dinheiro, os amigos… Tudo para trás (…) Todos chorávamos (…) Íamos em um táxi, olhando para trás.” (Entrevistado #8)

Foi o primeiro refugiado que entrevistei pessoalmente, um menino que tinha entre onze e doze anos quando saiu da Síria e que soube deixar claro para mim que se exilar não é o mesmo que viajar. É ver-se obrigado a buscar asilo, fora de onde tinha uma vida construída e “olhar para trás” para vê-la como nunca mais voltará a ser. Não é esperançoso. A partir desse instante, soube que ao perguntar sobre a viagem eu teria que tomá-la com o peso que o assunto implicava: não são 3.977.211 viagens, são 3.977.211 tragédias [16]. É esse o número de refugiados externos sírios registrados pela ACNUR (Agência da ONU para refugiados), a maior crise humanitária desde a II Guerra Mundial [17]. Além disso, ainda há 6,5 milhões de deslocados internos na Síria tentando sobreviver. Sua mãe, uma das entrevistadas, explicou as razões do exílio:

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Meu filho estava destruído, psicologicamente. Saí por causa dele, eu não queria sair. Pessoalmente, se fosse por mim não teria saído, teria ficado lá até agora. No máximo estaria numa prisão, ou detida, ou não teria nada, não sei (…) Mas saí basicamente pelo meu filho.” (Entrevistada #3)

As crianças representam 52% da população refugiada síria (2,2 milhões).

Já não podíamos viver, e não podia ir ao colégio.” (Entrevistado #5)

Os efeitos físicos e psicológicos das experiências horríveis marcam os pequenos por toda a vida após terem vivido “a guerra contra as crianças” do regime: segundo um informe da ONG Save The Children (Salve as crianças), mais de dez mil crianças já são mártires [18]. Há denúncias de que muitos são utilizados como escudos humanos e que outros são perseguidos pelo exército de Bashar porque são possíveis “futuros rebeldes” [19].

Outros que foram brutalmente reprimidos foram os palestinos. A UNRWA (a agência da ONU para refugiados palestinos) estima que 95% dos 480 mil refugiados palestinos que ainda estão na Síria vivem em permanente necessidade de ajuda humanitária. Assim me respondeu um dos entrevistados ao ser perguntado sobre as razões de seu exílio, um jovem palestino sírio do acampamento de Yarmouk, refugiado pela terceira vez:

Eu estou contra a ideia de que, se você sabe que vai morrer, vai até a morte. Porque quando morrem um montão de seus amigos, quando você é preso pelos serviços de inteligência duas vezes, quando já não pode seguir com seu ativismo, porque (as forças do regime) conhecem suas intenções e a qualquer momento podem matá-lo (…) É o perigo por você, por sua família, e sua gente. É o mais importante.” (Entrevistado #11)

Yarmouk, o maior acampamento de refugiados da Síria, está cercado há dois anos pelo regime. Além da recente entrada de milicianos do Estado Islâmico, a única coisa que entra no acampamento são as bombas de barris atiradas pelos aviões de Bashar. O mesmo jovem explicou, em outra entrevista, que dentro do acampamento 200 pessoas já morreram de fome e que ainda há mais de 18 mil civis encurralados no acampamento. [20]

Diante de um panorama tão devastador, todos se viram obrigados a dizer adeus…

Fui de Damasco para Latakia para ver minha família (…) fiquei lá três dias para lhes dizer adeus.” (Entrevistado #6)

…E começar sua viagem o mais rápido possível. A repressão de uma ditadura ou de milícias islâmicas em guerra contra um povo que busca a liberdade sempre ameaça milhões de vidas, mas quando essa vida, além disso, está sob perseguição política não há muito tempo para pensar:

Não pensei. Fui obrigado a me exilar (…) Quando me soltaram da prisão, a pessoa que me soltou disse: ‘você deveria ir embora porque tem outro processo’ (…) Fui colocado em liberdade condicional. Continuava tendo audiências no tribunal. Não compareci, e me condenaram a oito anos enquanto estava no Líbano (…) Minha família me levou a Beirute, me deixaram, e voltaram no mesmo dia.” (Entrevistado #1)

A Odisseia

Alguns entrevistados receberam convites de conhecidos no Estado Espanhol e vieram de avião sem muitas dificuldades. Um teve que contar com contatos na polícia de fronteira para sair do país. Outro cursou literatura espanhola para pedir um visto de estudante. E outro teve que pagar uma grande soma de dinheiro para não ter que apresentar a documentação para sair do país. Mas o entrevistado #12 chegou ao velho continente por terra, mar e com risco de morte.

“Enquanto as tábuas estiverem presas pelos pregos, continuarei aqui e sofrerei os males que seja preciso padecer, mas depois que as ondas desmancharem a balsa começarei a nadar, pois não penso em nada mais útil.” (Homero. A Odisseia.)

Percorreu cerca de 5.000km e somente com 100 euros no bolso. Esta foi sua rota, a de um jovem que hoje tem 24 anos e que deixou para trás a Síria em 2014:

Fui à fronteira de carro, saí do carro, cruzei o outro lado da fronteira, o lado turco, e peguei outro carro, de maneira legal, com meu passaporte (…) Encontrar um trabalho na Turquia é bastante difícil.” (Entrevistado #12)

Segundo a ACNUR, a Turquia refugia mais de 1,7 milhão de sírios. Mas os sírios não são reconhecidos como refugiados neste país, e sim como “convidados”. Ao não conceder-lhes o status de refugiados, incrementa a vulnerabilidade destes e a imprevisibilidade da sua estadia no país.

cruzei a Grécia de barco, e caminhei até a Macedônia

Os países europeus financiaram três quartos dos custos das medidas antimigração na Grécia”, segundo um artigo do Periodismo Humano [21]. Um informe [22] da ONG Human Rights Watch denuncia o tratamento abusivo da polícia grega, a detenção por meio de perfis étnicos, as revistas invasivas e os abusos físicos. Além disso, há as péssimas condições dos centros de internamento. É inegável que a Grécia, mergulhada na crise econômica mais profunda da UE, não é das primeiras opções para se construir uma nova vida:

Lá fui sequestrado por traficantes de pessoas. Queriam dinheiro para me contrabandear. Só tinha 100 euros e eles queriam 450 (…) Me mantiveram dois dias em um quarto de uma casa e estavam armados. No terceiro dia, chamei alguns e lhes disse: ‘ninguém vai me mandar dinheiro e eu não tenho dinheiro. Ou vocês me levam para a Sérvia ou os ataco, mato quem eu puder matar e que me matem também, e que se danem todos’.” (Entrevistado #12)

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François Crepeau [23], relator especial da ONU que se ocupa dos direitos dos imigrantes, constata que a “Europa está criando todo um mercado para os traficantes de seres humanos”. O desinteresse dos países europeus para traçar uma estratégia de realocação dos refugiados e a vontade de fazer negócios (os preços oscilam entre umas centenas e milhares de euros para chegar à Europa, as economias de uma vida para muitos [24]) dos traficantes de pessoas se ajustam às poucas oportunidades que os exilados têm para sobreviver. Só lhes resta uma opção: pagar, ainda que viver seja apena um dos possíveis desfechos além de naufragar ou morrer assassinado.

Aceitaram (o dinheiro que eu levava). Me levaram para a Sérvia e me deixaram no caminho. (…) passei dezesseis horas na neve.” (Entrevistado #12)

As condições climáticas são outra ameaça mortal para os refugiados sírios, em muitos casos desprovidos de indumentária adequada para aguentar a neve ou a chuva, cobertos somente pelo fino tecido da tenda de campanha de algum acampamento de refugiados na Turquia, Líbano ou Jordânia [25].

Chegamos a um terminal rodoviário e pegamos um ônibus para a Bulgária. Depois andamos até a Hungria, onde fomos detidos e nos levaram à prisão (…) Nos chamavam um por um para tirar a impressão digital. Quando me chamaram, eu estava dormindo, assim o homem começou a gritar meu nome (…) Despertei depois que me chamaram dez vezes e ele estava enfurecido; me agarrou pelo pescoço e me arrastou para me tirar da cela (…) Eu o peguei com as duas mãos, joguei-o no chão e chutei sua cabeça.” (Entrevistado #12)

A Hungria é hoje um dos três países (além da Grécia e de Malta) que mais detêm os que procuram asilo por entrada irregular, segundo um informe da ACNUR [26]. Os refugiados permanecem presos de 4 a 5 meses em celas, sendo tratados como criminosos e sofrendo abuso físico e verbal.

Pela manhã, veio um grupo da ONU a essa prisão húngara para falar com os prisioneiros, (…) para nos perguntar se sofríamos abusos (…) A polícia sabia que esse grupo viria, por isso me liberaram antes que eu pudesse conhecê-los.” (Entrevistado #12)

Após ser libertado, o jovem foi recolhido por um amigo num carro e levado até a Alemanha, onde hoje continua buscando asilo.

Notas:

[1] (18/07/2012) Palestinians join Syria revolt: activists, FSA. Consultado em 10 de maio de 2015 em http://www.dailystar.com.lb/News/Middle-East/2012/Jul-18/181033-palestinians-join-syria-revolt-activists- fsa.ashx

[2] (25/04/2011) Syria’s crackdown on protesters becomes dramatically more brutal. Consultado em 10 de maio de 2015 em http://www.theguardian.com/world/2011/apr/25/syria-crackdown-protesters-brutal

[3] (29/03/2011) Asad acepta la caída de su Gobierno para frenar las protestas e impulsar sus reformas. Consultado em 10 de maio de 2015 em http://www.rtve.es/noticias/20110329/regimen-sirio-saca-callecientos-miles-partidarios-entre-rumores-cambio-gobierno/420489.shtml

[4] (21/04/2011) El Asad firma la derogación del estado de emergencia en Siria. Consultado em 29 de março de 2015 em http://internacional.elpais.com/internacional/2011/04/21/actualidad/1303336806_850215.html

[5] (15/02/2012) Siria anuncia un indulto general para los detenidos por las protestas. Consultado em 10 de maio de 2015 em http://www.rtve.es/noticias/20120115/siria-anuncia-indulto-general-para-detenidosprotestas/489638.shtml

[6] Entrevista com Ignacio Gutiérrez de Terán. (11/09/2012) Las diversas lógicas y estrategias de la revolución siria y de la intervención exterior. Consultado em 8 de maio de 2015 em http://www.pensamientocritico.org/igngut1012.htm

[7] (26/08/2013). Two and a Half Years Later: Inside ‘Liberated’ Syria. Consultado em 10 de maio em http://www.huffingtonpost.com/reem-salahi/two-and-a-half-years-late_b_3810796.html

[8] (26/06/2012). The student movement in Syria and its role in the revolution. Consultado em 10 de maio em https://syriafreedomforever.wordpress.com/2012/06/26/the-student-movement-in-syria-and-its-role-in-therevolution/

[9] (14/10/2011). Syria uprising: UN says protest death toll hits 3,000. Consultado em 8 de maio de 2015 em http://www.bbc.com/news/world-middle-east-15304741

[10] (31/08/2011). Dozens ‘tortured and killed in Syria detention centres’. Consultado em 8 de maio de 2015 em http://www.bbc.com/news/world-middle-east-14726294

[11] (13/11/2011). Cara a cara con el Ejército Libre de Siria. Consultado em 1 de abril de 2015 em http://periodismohumano.com/en-conflicto/cara-a-cara-con-el-ejercito-libre-de-siria.html

[12] (30/02/2015) ¿Por qué es tan difícil lograr la paz en Siria? Consultado em 10 de maio de 2015 em http://www.bbc.co.uk/mundo/noticias/2015/01/150130_siria_guerra_civil_paz_m_aguirre

[13] Conhecida citação de Lenin.

[14] (18/02/2014) Syria crisis: Where key countries stand. Consultado em 11 de maio de 2015 em http://www.bbc.com/news/world-middle-east-23849587

[15] Sobre o número de mortos: http://www.iamsyria.org/daily-death-toll.html. Consultado em 17 de maio de 2015.

[16] UNHCR. (07/05/2015) Syria Regional Refugee Response. Consultado em 11 de maio de 2015 em http://data.unhcr.org/syrianrefugees/regional.php

[17] European Commission. (07/04/2015) Syria Crisis: Echo Factsheet. Consultado em 11 de maio de 2015 em http://ec.europa.eu/echo/files/aid/countries/factsheets/syria_en.pdf

[18] Save the Children. (2014) A Devastating Toll: The impact of three years of war on the health of Syria’s children. Consultado em 11 de maio de 2015 em http://www.savethechildren.org/atf/cf/%7B9def2ebe-10ae-432c-9bd0df9g1d2eba74a%7D/SAVE_THE_CHILDREN_A_DEVASTATING_TOLL.PDF

[19] (20/10/2012) Syrian refugee families flee Assad’s war on children. Consultado em 11 de maio de 2015 em http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/middleeast/syria/9622440/Syrian-refugee-families-flee- Assads-war-on-children.html

[20] (05/04/2015) Quedan 18.000 civiles atrapados en el campo de Yarmuk, unos 3.500 de ellos son niños. Consultado em 11 de maio de 2015 em http://www.eldiario.es/desalambre/Quedan-civiles-atrapados-Yarmuk-ninos_0_374112887.html

[21] (23/02/2015) Grecia: segundo infierno para inmigrantes y refugiados. Consultado em 11 de maio de 2015 em http://periodismohumano.com/migracion/grecia-segundo-infierno-para-inmigrantes-yrefugiados.html

[22] Human Rights Watch. (2013) Unwelcome Guests: Greek Police Abuses of Migrants in Athens Consultado em 11 de maio de 2015 em http://www.hrw.org/sites/default/files/reports/greece0613_ForUpload.pdf

[23] (22/04/2015) Europa crea un mercado para los traficantes de personas. Consultado em 11 de maio de 2015 em http://www.lavanguardia.com/internacional/20150422/54430776353/europa-mercado-traficantes- seres-humanos-personas.html

[24] UNHCR-ACNUR. (12/03/2015) Siria: se agrava la situación de los refugiados mientras el conflicto entra en su 5º año. Consultado em 11 de maio de 2015 em http://www.acnur.org/t3/noticias/noticia/siria-se-agrava-la-situacion-de-los-refugiados-mientras-el-conflicto-entra-en-su-5o-ano/

[25] (15/02/2015) 7 Million Syrian Children Face Sub-Zero Temperatures without Clothing Heat: Report. Consultado em 11 de maio de 2015 em http://www.huffingtonpost.com/2015/01/15/syria-children- winter_n_6472092.html

[26] UNHCR. (24/04/2012) Asylum-seekers treated like criminals in Hungary. Consultado em 11 de maio de 2015 em http://www.unhcr-centraleurope.org/en/news/2012/asylum-seekers-treated-like-criminals-inhungary.html

Tradução: Valéria Lezziane