A Revolução Síria depois dos atentados de Paris e da nova ofensiva do imperialismo e da Rússia

Primeira Parte da Entrevista com Joseph Daher, membro da Corrente de Esquerda Revolucionária da Síria.

Florence Oppen: Já faz mais de quatro anos que começou a Revolução Síria, em março do 2011. Vimos como o regime de Assad intensificou sua ofensiva contra os rebeldes e o povo sírio no final de 2014, utilizando bombas-barril nas zonas rebeldes e causando a morte de mais de 20.000 pessoas. Além disso, no final de setembro de 2014, a Rússia começou a intervir militarmente; e, no final de outubro de 2015, vimos como se organizou a Conferência de Viena, liderada pelos EUA e pelas potências europeias (além da China, Arábia Saudita e Rússia), para reunir os dois campos em confronto e encontrar uma “transição para a paz”. Este processo de “desvio” da revolução para um “governo de transição”, tal como se planejou na Conferência de Viena, foi freado ou, ao contrário, foi acelerado pelos atentados de Paris?

Joseph Daher: O projeto do governo de transição foi acelerado pelos atentados de Paris, mas esta opção é bem mais antiga, e tem sido, quase sempre, a opção preferida pelas diferentes potências imperialistas. Desde o início do levantamento do povo sírio, o objetivo dos EUA e das potências ocidentais nunca foi o de ajudar os revolucionários sírios ou derrotar o regime de Assad. Pelo contrário, os EUA têm tentado chegar a um acordo com o regime de Assad (ou com setores deste) e com a oposição ligada ao Ocidente e às monarquias do Golfo. Essas últimas não são nada representativas do movimento popular e são completamente corruptas. A solução de um governo de transição é o que se conhece como a “solução iemenita”: manter o regime tal como está, fazendo algumas mudanças superficiais.

Neste contexto, cabe recordar as diretrizes aprovadas pelos membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, em 30 de junho de 2012, entre as quais seria possível (não fica excluído) um governo de transição presidido por Assad.[1] O único critério para a conformação desse governo de transição era o “consentimento” da delegação de oposição à presença ou não de Assad em tal governo, da mesma forma que os delegados representando o regime de Assad poderiam vetar qualquer pessoa proposta pelos delegados da oposição[2].

Além disso, a ausência ou a falta de toda organização e assistência militar decisiva dos EUA e demais países ocidentais aos revolucionários sírios é outra prova da falta de vontade de apoiar qualquer mudança radical na Síria.

F.O.: Qual tem sido o impacto da intervenção militar da Rússia e seu papel no processo revolucionário sírio? Você considera que a Rússia procura unicamente eliminar o Estado Islâmico (EI)?

J.D.: A intervenção militar da Rússia atingiu um nível superior em 30 de setembro de 2015, quando sua aviação militar iniciou os primeiros bombardeios na Síria. No final do verão de 2015, a Rússia já tinha aumentado consideravelmente seu envolvimento ao lado do regime de Assad, em particular proporcionando formação e apoio logístico ao exército sírio. Em 17 de setembro, o exército de Assad começou a utilizar novos tipos de armas aéreas e terrestres enviadas pela Rússia. Fotos tiradas por satélites, em meados do mês, mostravam mais duas instalações militares russas perto da cidade síria de Latakia[3].

A Rússia tem tido um papel fundamental na sobrevivência do regime de Assad: é seu principal provedor de armamento e, a partir de janeiro de 2014, não tem feito outra coisa senão aumentar o envio de material militar (munições, peças de armamento, veículos blindados, drones, bombas teleguiadas, etc.).

A propaganda em torno da “guerra contra o terrorismo” lançada pelo Estado russo é uma maneira de apoiar política e militarmente o regime de Assad e esmagar toda forma de oposição na Síria. Putin quer que os diferentes atores internacionais considerem Assad como a principal força que pode ajudar na luta contra o “terrorismo”.

Os objetivos dos bombardeios russos são claros: salvar e consolidar a potência militar e política de Assad. O presidente russo Vladimir Putin disse, em 28 de setembro, antes do início das operações, que “não há outra opção para pôr um fim ao conflito sírio que não seja reforçar as instituições do atual governo legítimo da Síria em seu combate contra o terrorismo.[4] Em outros termos, Putin propõe esmagar todas as formas de oposição ao regime de Assad, tanto as democráticas como as reacionárias, no contexto da “luta contra o terrorismo”.

Todos os regimes autoritários utilizaram esse tipo de propaganda para reprimir os movimentos populares ou os grupos de oposição que enfrentam seu poder: Assad, contra o movimento popular desde o início da revolução; o ditador Al Sisi no Egito, para reprimir a Irmandade Muçulmana, mas também a esquerda progressista e os movimentos democráticos (o partido Socialistas Revolucionários, o Movimento 6 de abril, etc.); Erdogan na Turquia, para enfrentar o PKK e os diferentes movimentos de esquerda; ou, ainda, para dar um último exemplo, a repressão das monarquias do Bahrein e da Arábia Saudita contra os manifestantes e as mobilizações populares.

Cabe recordar que, segundo o Centro de Documentação de Violações (VDC) na Síria, desde o início das operações militares russas, em 30 de setembro, 80% a 90% dos bombardeios, que causaram a morte de mais de 520 civis e o deslocamento de 100 mil, não foram nas zonas controladas pelo Estado Islâmico[5]. Os bombardeios da aviação militar russa destruíram uma dezena de hospitais, uma fábrica de pão, centros de água potável, mercados populares, etc.

Está claro que, depois dos atentados de Paris, Moscou tenta atingir mais os jihadistas, mas continua bombardeando grupos do ELS (Exército Livre da Síria) e civis. Em 28 de novembro, por exemplo, a aviação russa bombardeou, na província de Idlib, um centro médico que abrigava uma padaria que fabricava 130.000 kg de pão ao mês e um centro de água potável que abastecia 50.000 pessoas. Vários bairros populares de Alepo e região e de Idlib foram bombardeados também.

F.O.: E como você analisa a intervenção militar francesa na Síria hoje, depois dos atentados?

J.D.: A França intensificou seus bombardeios após os atentados de 13 de novembro. Agora mobilizou 3.500 unidades militares e deslocou, para o leste do Mediterrâneo, seu porta-aviões Charles de Gaulle, que desde o dia 23 triplica a capacidade de ação do governo francês.[6]

Antes dos atentados, a França já tinha bombardeado, em setembro de 2015, assentamentos do Estado Islâmico na Síria, perto da cidade de Deir Ezzor. As autoridades francesas tinham justificado esses bombardeios porque eram “santuários do Daesh onde se formavam os que atacam a França”, acrescentando que “estamos atuando em legítima defesa”.[7]

Desde 27 de setembro, a França realizou mais quatro séries de bombardeios na Síria na denominada Operação Chammal contra o Estado Islâmico. Esta operação estava em curso desde 2014, na operação conjunta liderada pelos EUA, a partir de setembro de 2014, com objetivos no Iraque (a pedido do governo de Bagdá) e na Síria, onde, até o momento, tem recusado a colaboração com o regime de Assad. A operação Chammal agrupa em torno de 60 países, incluindo os EUA, Reino Unido, França, países vizinhos à Síria e Turquia. Desde o início, excluiu a intervenção militar direta em território sírio, mas tem enviado forças especiais e tropas iraquianas e curdas. Além disso, só uma dúzia de seus membros interveio nos bombardeios, que já somam algo em torno de 8.300 desde 2014, 80% a cargo dos EUA.[8]

Desde os atentados, a França pediu aos demais governos ocidentais para se unir na “guerra contra o EI”. O Reino Unido uniu-se à campanha, depois de um voto do parlamento britânico a favor dos bombardeios na Síria, em 2 de dezembro de 2015. Horas depois da votação, a aviação britânica já tinha começado a bombardear as instalações petroleiras do EI. Dias depois, o parlamento alemão, o Bundestag, votou a favor do projeto de Angela Merkel e, no dia 4, autorizou o deslocamento de um máximo de 1.200 soldados alemães (o que representa a maior missão da Bundeswehr, as forças armadas alemãs, no exterior), seis aviões Tornado para missões de reconhecimento na Síria e mais uma fragata de apoio ao porta-aviões francês Charles de Gaulle.

Portanto, são seis países (EUA, França, Reino Unido, Canadá, Austrália e Jordânia) os que estão intervindo hoje no Iraque e na Síria. A Dinamarca e os Países Baixos só intervêm no Iraque. E outros quatro Estados (Turquia, Arábia Saudita, Bahrein e Emirados Árabes Unidos) só efetuam bombardeios na Síria[9]. No que se refere ao “reforço” norte-americano, o porta-aviões Harry Truman se dirige ao Mediterrâneo, e Washington já tem 3.500 soldados no Iraque, que vão se somar às forças especiais (em torno de 200 homens no Iraque, e um reforço, ainda não quantificado, que será deslocado para a Síria).

Além de tudo isso, a França tem pedido mais colaboração à Rússia, que declarou, depois dos atentados de Paris, que isso mostrava que a Rússia tinha uma política externa acertada. De fato, em 26 de novembro de 2015, os governos francês e russo anunciaram a decisão de “coordenar” seus bombardeios na Síria contra o Daesh (Estado Islâmico), particularmente para atingir o transporte de produtos de petróleo. O contrabando de petróleo representa uma das principais fontes de financiamento do Daesh, com um rendimento estimado de 1,5 milhão de dólares ao dia[10]. França e Rússia acordaram também trocar informação para que os bombardeios não afetem aqueles que “lutam contra o Daesh”, leia-se os grupos do Exército Livre da Síria que combatem o regime e o EI.

F.O.: Hoje, a LIT-QI e outras organizações da esquerda revolucionária que apoiam a revolução temos uma polêmica intensa com um setor da esquerda mundial que parece estar convencido de que já não há nada a defender no processo revolucionário sírio, dada a realidade da intervenção imperialista (EUA) ao lado dos rebeldes. Esta posição afirma que, desgraçadamente, já não há nada que defender no processo revolucionário sírio porque os rebeldes são financiados e controlados pelo imperialismo norte-americano ou pelos islamitas radicais. Então: que papel o imperialismo norte-americano quer desempenhar na região e qual é a realidade de sua intervenção?

J.D.: Em primeiro lugar, é necessário esclarecer que não há assistência militar consequente apoiando os revolucionários sírios, seja dos EUA, seja dos outros países ocidentais. Aliás, o Wall Street Journal publicou um artigo, em janeiro de 2015, em que um informante da CIA dizia: “Alguns carregamentos de armas eram tão pequenos que os comandantes tinham que racionar as munições. Um dos comandantes de maior confiança e preferido dos EUA recebia um total de 16 balas por mês por combatente. Pediu-se aos rebeldes que entregassem seus lança-mísseis antitanque para obter novos, mas não obteriam projéteis para os tanques que capturassem. E quando, no verão passado, pediram mais munição para enfrentar os grupos ligados à Al Qaeda, os EUA disseram não.” [11]

O plano de Barack Obama, que foi aprovado pelo Congresso norte-americano com um orçamento de US$ 500 milhões para armar e equipar entre 5.000 e 10.000 rebeldes, mas que nunca foi posto em ação, não procurava derrubar o regime de Assad, como fica claro na própria resolução: “O Secretário de Defesa está autorizado a proporcionar assistência, formação, equipamento e abastecimento, em coordenação com o Secretário de Estado, a elementos da oposição síria e a outros grupos sírios selecionados de maneira apropriada com os seguintes objetivos: 1) Defender o povo sírio contra os ataques do Estado Islâmico e assegurar os territórios controlados pela oposição síria; 2) Proteger os EUA, seus amigos e aliados e o povo sírio contra as ameaças dos terroristas na Síria; 3) Promover as condições para uma solução negociada para o conflito sírio.[12]

Esse programa foi um fracasso e agora foi cancelado. Mas, antes de seu fim, a chefe política do Pentágono, Christine Wormuth, tinha reconhecido que “o programa era bem menor do que esperávamos[13] e que tinha entre 100 e 200 combatentes no curso de formação, informando ainda que recebiam uma formação desastrosa. Um general norte-americano chegou a declarar, diante do Congresso dos EUA, que só conseguiu formar com sucesso “quatro ou cinco” soldados da oposição[14].

O chefe do Estado Maior do grupo rebelde sírio treinado pelos EUA, a divisão 30, demitiu-se de seu posto e retirou-se do programa em 19 de setembro de 2015. Entre outras coisas, falou da “ausência de um número suficiente de recrutamentos” e da “falta de seriedade na hora de pôr em marcha o projeto que a divisão 30 estabelecera”.[15]

Outro obstáculo que os EUA encontraram e continuam encontrando na Síria é conseguir formar grupos armados fiéis a seus interesses, por causa da realidade local. Isso se deve ao acordo da grande maioria dos grupos de oposição sírios a não cooperar com Washington caso não lhes garantisse o poder, não respeitasse sua independência e autonomia, e se essa cooperação não implicasse o objetivo claro de derrotar Assad.

Depois do fracasso na tentativa de formar batalhões do Exército Livre da Síria (ELS), os EUA mudaram sua estratégia, no outono de 2015, e decidiram agora apoiar política e militarmente as Forças Democráticas Sírias (FDS) para derrotar o Daesh (Estado Islâmico)[16]. As FDS foram criadas, em outubro de 2015, para dar cobertura jurídica e política ao apoio militar dos EUA ao PKK na Síria. As FDS estão dominadas pelas YPG (o braço armado do partido PYD, Partido da União Democrática, seção síria do PKK, Partido dos Trabalhadores do Curdistão)[17], já que os demais grupos que participam (grupos curdos, sírios e alguns ligados à ALS, como o exército revolucionário Jaysh al-Thuwar) têm papel auxiliar. Os EUA têm a esperança de que outros grupos do ELS irão se unir às FDS. Entretanto, a política do PYD e, em particular, sua atitude de não enfrentar o regime de Assad, seu apoio à intervenção militar russa, além dos abusos contra civis árabes em algumas regiões, impedem, por enquanto, que se forje um laço de confiança entre essas forças e os grupos revolucionários populares sírios.

Por outro lado, os países da região, como Turquia, Arábia Saudita ou Catar, têm financiado vários grupos, em sua maioria movimentos islâmicos fundamentalistas que se opõem aos objetivos da revolução e que antepõem seus próprios interesses políticos[18]. O Catar, por exemplo, selou um apoio fundamental com o grupo Jabhat al-Nusra, enquanto a Turquia apoia, de maneira direta ou passiva, vários movimentos fundamentalistas (como a coalizão Jaysh al-Fatah, dirigida por Jabhat al-Nusra e Ahrar al-Sham) e do Estado Islâmico.[19] Esse apoio é nítido quando a Turquia permite total liberdade de movimento a tais grupos em ambos os lados da fronteira no norte da Síria contra os grupos democráticos do ELS e, em particular, os que enfrentaram qualquer forma de autonomia das regiões curdas sob o controle do PKK. E, finalmente, as redes privadas das monarquias do Golfo têm atuado e financiado, com o consentimento das classes dirigentes de seus respectivos países, vários movimentos fundamentalistas islâmicos com a intenção de transformar uma revolução popular numa guerra confessional.

F.O.: Então, parece-lhe que hoje continuam existindo ativistas, correntes ou grupos no processo revolucionário sírio que a esquerda (e também os povos e os trabalhadores do mundo inteiro) deveria apoiar?

J.D.: Primeiro, temos que recordar que a revolução síria faz parte de um processo revolucionário que ocorreu em toda a região, parte integral de suas dinâmicas. Toda tentativa de separar a revolução síria desse processo tem que ser combatida. Os revolucionários na Síria combatem pela liberdade e pela dignidade como os demais ativistas nos outros países da região. Nesse combate, enfrentam-se com regimes autoritários e grupos islamitas e jihadistas que se opõem a seus objetivos.

As aspirações e resistências do povo sírio estão sendo completamente ignoradas e inclusive atacadas no campo de batalha por forças que as ultrapassam. Existem muitíssimos indivíduos e pequenos grupos que formam comitês populares locais de coordenação, ainda que muito debilitados pelas sucessivas repressões do regime e dos grupos fundamentalistas.

Ainda existem enclaves de esperança e resistência, compostos por grupos e movimentos democráticos diversos que se opõem a todas as formas de contrarrevolução: o regime de Assad e os grupos fundamentalistas islâmicos. São eles os que mantêm ainda vivos os sonhos do início da revolução e seus objetivos: a democracia, a justiça social, a igualdade e a oposição ao projeto de um Estado confessional. Estão em Alepo e arredores, em Idlib e arredores ou nas zonas rurais que rodeiam Damasco. Há muitos exemplos em meu blog.[20]

F.O.: Pode nos dar alguns desses exemplos?

J.D.: Por exemplo, na pequena cidade de Burkmal, a leste da cidade de Deir Ezzor ocupada pelo EI, os atos de resistência popular dos habitantes contra os membros do Daesh só aumentaram em novembro e dezembro de 2015. Ocorreram muitas manifestações e no alto de uma escola foi hasteada a bandeira da revolução síria, injuriada pelos jihadistas; enquanto um comando armado, ligado a grupos da revolução, assassinou quatro dos comandantes do EI na cidade. Na cidade de Minjeb, na zona rural de Alepo, ocorreram várias manifestações contra o EI, que reprime a população local, especialmente manifestações contra as penas de morte infligidas por “apostasia” (renúncia ou abandono da crença religiosa). Nesse contexto, em várias ocasiões, membros do EI (um deles um juiz dos tribunais religiosos impostos pelo EI) foram assassinados. Na cidade de Raqqa e na província de Deir Ezzor, um comando do ELS chamado “Mortalha Branca” leva a cabo ataques de guerrilha dirigidos às unidades militares do EI.[21]

Posso dar-lhes exemplos de resistência que vêm se repetindo desde o verão passado, quando várias manifestações foram organizadas nas zonas rurais ao redor de Alepo, Damas e outros lugares, além de Idlib. Em Idlib, no final do mês de junho, houve um protesto, depois das orações da sexta-feira, para exigir que a gestão da administração municipal fosse devolvida à população local e que o bairro militar da coalizão Jaysh al-Fatah (dominada por Jabhat al-Nusra e Ahrar) se realocasse fora da cidade.[22] Ou, em Duma, perto de Damasco, em julho, houve vários protestos depois do sequestro de um membro do conselho local.[23] Em agosto e setembro, na pequena cidade de Al Atarib, nos arredores de Alepo, que está ocupada por Jabhat al-Nusra (Al-Qaeda), houve várias manifestações contra suas práticas autoritárias.[24] E, em 7 de agosto do 2015, por exemplo, milhares de pessoas desfilaram na cidade de Saqba (zona rural de Damasco) em nome dos objetivos da revolução síria. Uma semana mais tarde, um grupo de mulheres manifestou-se pela libertação de presos políticos detidos pela organização Exército do Islã, ligada à Arábia Saudita.[25] Estão protestando há meses.

Em 25 de setembro, curdos, árabes, assírios e turcomanos manifestaram-se contra os crimes do EI e de Assad no bairro de Sheikh Maqsoud em Alepo.[26] Em 6 de outubro, os revolucionários de Alepo organizaram uma manifestação contra a Jabhat al-Nusra e exigiram que a organização deixasse a cidade.[27] Em 18 de outubro, organizou-se, em Duma, uma campanha de solidariedade dos revolucionários com o povo palestino e a Intifada.[28] Em 10 de novembro, nos bairros de Alepo, houve atos de desobediência civil organizados por militantes que protestavam contra o desaparecimento de revolucionários nas mãos da Jabhat al-Nusra.[29]

Como os revolucionários sírios escreviam: “Os inimigos são vários… a revolução é uma… e continua.” O movimento popular sírio não disse, ainda, sua última palavra.

F.O.: A crise dos refugiados sacudiu duramente a Europa. Como podemos ajudar verdadeiramente os refugiados sírios? Que limites você vê no discurso puramente “humanitário” que se tornou hegemônico?

J.D.: Podemos ajudar verdadeiramente os refugiados sírios de inúmeras formas. A primeira é lutar contra nossas próprias burguesias. Não podemos esquecer o papel dos Estados ocidentais imperialistas na situação atual. As políticas racistas e pró-segurança da União Europeia (UE) em matéria de imigração são igualmente responsáveis pelos dramas cotidianos dos refugiados no caminho, por terra e mar, para a Europa. A política do fechamento das fronteiras obriga centenas de milhares de pessoas que fogem da guerra e da miséria a utilizar meios ilegais e perigosos para tentar alcançar os países europeus. É preciso observar que os poucos refugiados que chegam à Europa (a grande maioria fica em países que não são da UE) têm que enfrentar a violência da polícia, o “Campo da Selva” em Calais,[30] França, a construção, pelo governo húngaro, de um muro de quatro metros de altura ao longo de seus 175 km de fronteira com a Sérvia, as operações navais da agência Frontex no mar Egeu e no Mediterrâneo. Todas essas políticas repressivas têm acabado em tragédias, com milhares de pessoas afogadas.

É preciso lutar contra a “Europa fortaleza” e brigar pela abertura das fronteiras. E, do mesmo modo, é preciso lutar para melhorar as condições de vida dos refugiados(as) (direito à moradia, ao trabalho etc.), assim como é preciso lutar, de maneira geral, pelas condições de vida das classes populares.

Também temos que enfrentar a propaganda racista e islamofóbica, especialmente a que vem da extrema direita europeia, que não para de caracterizar os refugiados sírios e de outras origens como “terroristas em potencial”. É o caso do líder do Partido pela Independência do Reino Unido (UKIP), que advertiu que aqueles que fogem são provavelmente extremistas do Estado Islâmico e de outros grupos jihadistas que “representam uma ameaça direta à nossa civilização”.[31] Esses dirigentes políticos não são muito diferentes do ditador Assad, que, em setembro do 2015, escreveu em seu twitter: “O terrorismo não vai ficar aqui, será exportado por meio da imigração ilegal para a Europa.[32] Quando a extrema direita não chama os refugiados de terroristas, acusa-os de ameaçar as “raízes cristãs” da Europa, como declarou o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, diante da chegada massiva de imigrantes.[33] Finalmente, Marine Le Pen, chefe do movimento fascista francês, a Frente Nacional, que lembra e reproduz toda essa propaganda racista, tem exigido, depois dos atentados, “a suspensão imediata do acolhimento de imigrantes” e o restabelecimento das fronteiras nacionais, o que equivale, na prática, ao fechamento completo das fronteiras.[34]

Entretanto, temos de apontar que, apesar de sua difícil situação, um grande número de refugiados se organizou para protestar e resistir aos ataques da polícia e das políticas de segurança dos Estados da UE, como foi o caso das perseguições na estação ferroviária de Budapeste, nos campos de refugiados de Calais e da Grécia ou na fronteira húngara.

Temos que nos organizar para lutar, junto aos imigrantes ilegais e aos refugiados, para impor a abertura das fronteiras, a livre circulação e a acolhida digna das pessoas que fogem da guerra, da opressão ou da miséria social. Temos que pôr um fim aos campos, às políticas racistas e, sobretudo, questionar o sistema capitalista, que é a origem dessas catástrofes.

Mas, como disse no início, não basta enfrentar a extrema direita, é preciso condenar a política imperialista e as guerras provocadas pelos Estados ocidentais na região, que são as responsáveis pelos problemas políticos e econômicos que causam a fuga de imigrantes e refugiados. E isso implica condenar também a colaboração dos Estados ocidentais com as ditaduras da região. A solução não está na colaboração com regimes autoritários como o de Assad. A solução é, certamente, opor-se ao EI e a outras forças reacionárias e jihadistas (convém recordar que Assad contribuiu com seu desenvolvimento no início do levantamento popular na Síria, pois matava e reprimia as forças democráticas e progressistas), mas o importante é se opor igualmente e sobretudo ao regime bárbaro, autoritário e criminoso de Assad. Pois é esse regime a causa da catástrofe atual na Síria e do exílio de milhões de sírios e sírias. Tanto o EI como Assad são duas forças bárbaras que se alimentam reciprocamente e ambas devem ser derrotadas para que se possa construir uma sociedade democrática e laica na Síria, e também em outros lugares.

Por isso, é fundamental apoiar os movimentos populares, democráticos e sociais que se opõem a essas duas forças contrarrevolucionárias e às diferentes formas de imperialismo (EUA e Rússia) e subimperialismos regionais (Irã, Arábia Saudita, Catar e Turquia) que enfrentam os interesses dos povos em luta. Esses ativistas ainda existem na Síria, e lutam diariamente contra Assad e as forças islâmicas fundamentalistas, apesar das dificuldades. Se olharmos, por exemplo, o que está se passando no Iraque, de onde surgiu o Estado Islâmico, vemos que, nas últimas semanas de novembro, surgiu um movimento popular que questiona o regime de Bagdá, apoiado pelo Irã. Era possível ouvir nas manifestações os chamados para construir um Estado laico e não confessional, e contra a divisão da população em sunitas e xiitas, pela igualdade e pelos direitos das mulheres, e uma denúncia clara dos partidos com uma política confessional. Os manifestantes acusavam o regime iraquiano confessional de ser, por sua política, responsável pelo desenvolvimento do EI, já que erguiam cartazes onde se lia “o parlamento e o Estado Islâmico (Daesh) são duas caras de uma mesma moeda”, ou “Daesh nasceu das entranhas da vossa corrupção.” [35] Somente neste contexto de análise política da situação conseguiremos sair do pesadelo das ditaduras e dos fundamentalismos de todo tipo e, principalmente, conseguiremos permitir que milhões de pessoas tenham uma vida livre e digna.

Leia a segunda parte da entrevista aqui.

Notas:

[1] http://www.un.org/press/en/2015/sc12171.doc.htm

[2] A resolução do Conselho de Segurança da ONU afirma que seu objetivo é “the establishment of an inclusive transitional governing body with full executive powers, which shall be formed on the basis of mutual consent while ensuring continuity of governmental institutions”.  Isto é, ambas as partes (o regime sanguinário de Assad e os setores convidados da oposição) têm igual poder de decisão para chegar a um acordo com o “consentimento” de ambos. [Nota editorial]

[3] https://syriafreedomforever.wordpress.com/2015/10/04/understanding-russians-military-expansion-in-syria-or-consolidating-the-assad-regime/

[4] https://www.rt.com/news/316633-putin-interview-syrian-conflict/

[5] https://www.vdc-sy.info/index.php/en/

[6] http://www.europe1.fr/international/le-porte-avions-charles-de-gaulle-en-route-pour-la-syrie-2622493

[7] http://www.itele.fr/monde/video/la-france-a-realise-ses-premieres-frappes-en-syrie-138334

[8]Environ 8300 raids aériens ont été conduits en un an, dont plus de 80 % ont été assurés par les États-Unis.” http://www.lapresse.ca/international/dossiers/le-groupe-etat-islamique/201512/02/01-4927297-la-grande-bretagne-lance-ses-premieres-frappes-en-syrie.php

[9] Entretanto, as três monarquias árabes estão menos ativas na Síria desde sua intervenção no Iêmen a favor das tropas do presidente Hadi, aliado da Arábia Saudita, dominada por redes militares dirigidas pelo antigo ditador Ali Abdullah Al-Saleh e a rebelião Houti, apoiada pelo Irã.

[10] http://www.lefigaro.fr/economie/le-scan-eco/dessous-chiffres/2015/11/19/29006-20151119ARTFIG00006-petrole-taxes-donations-trafics-d-humains-comment-daech-se-finance.php

[11]Those [rebels] who made the cut, earning the label ‘trusted commanders’, signed written agreements, submitted payroll information about their fighters and detailed their battlefield strategy. Only then did they get help, and it was far less than they were counting on. Some weapons shipments were so small that commanders had to ration ammunition. One of the U.S.’s favorite trusted commanders got the equivalent of 16 bullets a month per fighter. Rebel leaders were told they had to hand over old antitank missile launchers to get new ones—and couldn’t get shells for captured tanks. When they appealed last summer for ammo to battle fighters linked to al Qaeda, the U.S. said no. All sides now agree that the U.S.’s effort to aid moderate fighters battling the Assad regime has gone badly.” http://www.wsj.com/articles/covert-cia-mission-to-arm-syrian-rebels-goes-awry-1422329582

[12]The Secretary of Defense is authorized, in coordination with the Secretary of State, to provide assistance, including training, equipment, supplies, stipends, construction of  training and associated facilities, and sustainment, to appropriately  vetted elements of the Syrian opposition and other appropriately vetted  Syrian groups and individuals, through December 31, 2016, for the  following purposes: (1) Defending the Syrian people from attacks by the Islamic State of Iraq and the Levant (ISIL), and securing territory controlled by the Syrian opposition. (2) Protecting the United States, its friends and allies, and the Syrian people from the threats posed by terrorists in Syria. (3) Promoting the conditions for a negotiated settlement to end the conflict in Syria.” US Congress Bill H.R.3979, which became Public Law on December 19th 2014.  https://www.congress.gov/bill/113th-congress/house-bill/3979/text

[13]The program is much smaller than we hoped.” http://www.theguardian.com/us-news/2015/sep/16/us-military-syrian-isis-fighters

[14] http://www.theguardian.com/us-news/2015/sep/16/us-military-syrian-isis-fighters. Em outubro de 2015, inclusive o senador republicano Lindsey Graham pôs em dúvida a estratégia norte-americana na Síria numa audiência com o Secretário de Defesa, Ashton Carter, e o Estado Maior Inter-exército, Joseph Dunford. Depois de ter perguntado sobre as possibilidades de derrotar o presidente sírio Bashar al Assad, concluiu: “No melhor dos casos, isto é uma estratégia espantosa.

[15] http://www.businessinsider.com/division-30-syrian-rebel-chief-of-staff-quits-2015-9

[16] Dans sa charte de fondation, le FDS appelle à combattre “Daech, ses organisations soeurs et le régime criminel Baathiste”. Dans son appel http://syriadirect.org/news/15-opposition-groups-in-idlib-aleppo-join-sdf-forces/.

[17] Sobre o PKK e o contexto político em torno da luta do povo curdo, veja o artigo de Alejandro Iturbe: “Sobre a luta do povo curdo”, de 15 de dezembro de 2015: http://litci.org/es/mundo/medio-oriente/iran/sobre-la-lucha-del-pueblo-kurdo/ [Nota editorial]

[18] A Arábia Saudita começou a apoiar também alguns grupos do ELS a partir de 2013.

[19] http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/middleeast/qatar/11110931/How-Qatar-is-funding-the-rise-of-Islamist-extremists.html

http://www.independent.co.uk/news/world/middle-east/syria-crisis-turkey-and-saudi-arabia-shock-western-countries-by-supporting-anti-assad-jihadists-10242747.html

[20] https://syriafreedomforever.wordpress.com/

[21] https://syriafreedomforever.wordpress.com/2015/12/10/the-syrian-peoplemartyr-of-the-rivalries-and-agreement-of-imperialist-powers/

[22] https://syriafreedomforever.wordpress.com/2015/06/26/demonstration-in-the-city-of-idlib-demanding-the-handing-over-of-the-citys-administration-to-its-people-مظاهرة-في-مدينة-ا/

[23] https://syriafreedomforever.wordpress.com/2015/07/25/وقفة-احتجاجة-لمجلس-دوما-المحلي-تنديدا/

[24] https://syriafreedomforever.wordpress.com/2015/09/05/demonstration-in-the-city-of-al-atarib-against-jabhat-al-nusra-مظاهرة-في-مدينة-الأتارب-ض/

مظاهرة في مدينة الأتارب، ريف حلب الغربي، ضد جبهة النصرة – Demonstration in the city of Al-Atarib, West Rural Aleppo, against Jabhat al-Nusra

[25] https://syriafreedomforever.wordpress.com/2015/06/28/مسرابا-ريف-دمشق-مظاهرة-نسائية-طالبت-ب/

[26] https://syriafreedomforever.wordpress.com/2015/09/25/kurds%E2%80%AC-%E2%80%AA%E2%80%8Earabs%E2%80%AC-%E2%80%AA%E2%80%8Eassyrians%E2%80%AC-%E2%80%AAturkmen%E2%80%AC-march-against-isis-and-assad-crimes-in-neighbourhood-sheikh-maqsoud-%E2%80%AAale/

[27] https://syriafreedomforever.wordpress.com/2015/10/06/مظاهرة-ضد-جبهة-النصرة-في-حلب-demonstration-against-jabhat-al-nusra-in-aleppo-6102/

[28] https://syriafreedomforever.wordpress.com/2015/10/18/حملة-من-نشطاء-في-%E2%80%ABدوما%E2%80%AB-تضامناً-مع-الش/

[29] https://syriafreedomforever.wordpress.com/2015/11/19/عصيان-مدني-في-حلب-احتجاجاً-على-حالات-ال/

[30] O “Campo da Selva” em Calais é o apelido dado a um acampamento improvisado de imigrantes perto de Calais, no norte da França, onde os imigrantes, a maioria refugiados e requerentes de asilo, instalam-se enquanto se preparam para cruzar para o Reino Unido, escondidos em ferry boat, nos automóveis, nos trens ou nos caminhões de mercadorias. O acampamento encontra-se num antigo aterro de lixo, hoje ocupado por mais de 6.000 pessoas (a população que era de algumas centenas em 2012 explodiu no verão de 2015) vindas do Iraque, Síria e Irã, sem condições sanitárias e com o supermercado mais próximo a 2 km.

http://www.theguardian.com/world/2015/nov/03/refugees-horror-calais-jungle-refugee-camp-feel-like-dying-slowly

[31] http://www.huffingtonpost.co.uk/2015/04/29/nigel-farage-islamic-state-immigration-general-election-2015_n_7168312.html

[32] https://twitter.com/presidency_sy/status/346700451087015937. “President al-Assad: Terrorism will not stop here, it will export itself through illegal immigration into Europe.”

[33] http://www.lefigaro.fr/flash-actu/2015/09/03/97001-20150903FILWWW00063-les-refugies-menacent-les-racines-chretiennes-de-l-europe-orban.php

[34] http://www.leparisien.fr/flash-actualite-politique/attentats-marine-le-pen-demande-l-arret-immediat-de-tout-accueil-de-migrants-16-11-2015-5281805.php

[35] https://syriafreedomforever.wordpress.com/2015/08/18/iraq-winds-of-hope/

Slogans chanted by protesters on Tahrir square in Baghdad – شعارات في التحرير في مدينة بغداد

Tradução: Suely Corvacho