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Entre os refugiados na Alemanha, só 32% apontam o ISIS (Estado Islâmico) como um dos motivos para se exilar, segundo estudo de três ONGs e do Centro de Investigação Sociológica de Berlim.

Por: Laura Alzola Kirschgens (http://ctxt.es/)

Viktor e Sami regressarão a Aleppo assim que pararem de cair bombas do céu. Dizem que, para eles, não importa quem governe, desde que haja paz. “O ISIS dá medo, mas as bombas, as bombas são o pior”, insistem. Ambos fugiram pela Turquia e pelos Bálcãs, por países de cujos nomes não se lembram. “Já faz tempo, mas ainda tenho as pernas azuladas de tanto andar, está vendo?” Conheceram-se em agosto nas tendas de atendimento médico, em frente da estação de trens de Munique. Com o celular nas mãos geladas, capturam o Wi-Fi da Apple Store do centro de Hamburgo para conversar um pouco com suas preocupadas mães e lhes dizer que estão bem, que faz frio, que ainda não receberam documentos de identidade. Têm 19 e 20 anos. As bombas mataram três colegas de escola de Sami. Ambos querem se reunir aqui com suas famílias, com seus irmãos pequenos que estão a caminho. Querem estar a salvo.

A extrema direita alemã, minoritária, mas ruidosa, demonstra nestes dias nas ruas e nas praças sua falta de empatia, humildade e senso de justiça para com os refugiados sírios. No entanto, a maioria dos alemães compreende as causas daqueles que têm empreendido a fuga e buscam proteção em seu país, entre outras coisas, porque compreendem que, para abandonar tudo e correr o risco de morrer afogado, congelado, de fome, preso ou maltratado, o desespero tem que ser maior do que é possível imaginar na Europa atual. Sobreviver, viver. Esse é o desejo que move a maioria dos refugiados, como Viktor e Sami, que trocaram tudo o que conheciam pela Alemanha.

O êxodo sírio, flagrante e midiático como nenhum outro, tem posto a política europeia contra a parede. Agora que metade da população do país está exilada, pondo em risco a estabilidade do oásis europeu, a complexidade do conflito já não serve como desculpa para não discuti-lo. O debate sobre as causas e possíveis soluções desta situação produz manchetes há meses; no entanto, as vítimas não tiveram voz nos últimos quatro anos, desde o começo da guerra até setembro, quando, pela primeira vez, algo foi perguntado aos protagonistas, às próprias vítimas.

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Em 7 de outubro passado, três organizações não governamentais e um centro de investigação sociológica apresentaram no Parlamento alemão os resultados do primeiro estudo realizado com refugiados sírios nos centros e lares de acolhimento do país germânico. Concretamente, entre 24 de setembro e 2 de outubro de 2015, dezoito pessoas de nacionalidade síria entrevistaram 889 refugiados da mesma origem em cinco cidades alemãs: Berlim, Hannover, Bremen, Leipzig e Eisenhüttenstadt. A iniciativa dos grupos Adopt a Revolution, The Syria Campaign e Planet Syria contou com a colaboração do Centro de Investigação Sociológica de Berlim.

Para o estudo, os entrevistados foram abordados quando entravam ou saíam dos centros e lares de acolhimento, lugares frequentados por todos aqueles que chegam à Alemanha em busca de asilo, independentemente de suas opiniões políticas ou características sociais. Além disso, com o fim de assegurar a confiança e o anonimato dos entrevistados, e de não excluir do estudo pessoas analfabetas, utilizou-se uma combinação de entrevistas face a face e de questionários para autocompletar. As perguntas foram traduzidas para o árabe.

Só o fato de que as razões para a fuga fossem perguntadas aos afetados e as respostas tenham sido tratadas com o respeito e o rigor que merecem já é notícia. Mas os resultados apresentados pela pesquisa têm valor bem maior do que o meramente simbólico, já que expõem abertamente as contradições entre a percepção da crise síria no exterior e a avaliação de suas vítimas diretas. A pesquisa apresenta, em última instância, resultados surpreendentes.

Questionados em formato de múltipla escolha a respeito de suas razões para abandonar o país, 92% dos sírios participantes afirmaram ter fugido da violência. Desses, mais de dois terços, 70%, apontam como principal ameaça a violência organizada do regime de Bashar al-Assad. O que chama a atenção é que somente um terço, 32%, indicou o ISIS como uma de suas motivações para partir.

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A segunda razão de peso para fugir em busca de asilo é ter-se visto em perigo de ser preso ou sequestrado. Este medo foi citado por 86% dos entrevistados. Desse grupo, 77% afirmaram ver-se em perigo de ser preso pelo regime de Assad, enquanto 42% temiam um sequestro pelo ISIS.

Por outro lado, os resultados do estudo confirmam que praticamente a totalidade de refugiados sírios deseja voltar para casa, para o país que conhecem e sentem como seu. Assim, só 8% afirmaram pretender ficar na Europa. No entanto, 52% asseguraram que regressariam somente se Bashar al-Assad abandonasse o poder.

Enquanto na opinião pública alemã prevalece em primeiro plano a indiscutível brutalidade do ISIS, de fato, é a violência do regime de Assad que obriga a maioria dos sírios a fugir”, afirmou Elías Peribo, cofundador da associação sírio-germânica Adopt a Revolution, na coletiva de imprensa para apresentação dos resultados. Nas palavras de Peribo, “A batalha contra o terrorismo do ISIS não resolverá o problema, segundo os resultados da pesquisa, e essa é uma mensagem que a diplomacia alemã deveria ter em mente”.

Com um barril de petróleo, cilindros de gás ou uma caixa d’água, cheios de explosivos de grande potência e sucata para melhorar a fragmentação e causar o maior dano possível, consegue-se aterrorizar um povo inteiro. 73% dos sírios entrevistados afirmam que estas “bombas de barril”, explosivos não dirigidos/guiados lançados a partir de helicópteros e de fabricação barata e produção local, eram “uma ameaça para sua segurança pessoal”.

A organização Human Rights Watch destaca que, apesar das pressões internacionais, o regime de Assad “persiste no lançamento de um grande número de bombas de barril altamente explosivas sobre a população civil, contrariando a resolução 2139 aprovada em 22 de fevereiro de 2014 pelo Conselho de Segurança da ONU”.

Em seu relatório de 2014/15, a Anistia Internacional denuncia que tanto as forças governamentais como os grupos armados não estatais cometem com impunidade grande número de crimes de guerra e abusos flagrantes contra os direitos humanos. As forças do governo lançam ataques deliberados contra civis, “bombardeando indiscriminadamente zonas residenciais e instalações médicas civis com artilharia, morteiros, bombas de barril, agentes químicos, e cometendo homicídios ilegítimos contra civis”. Acrescentam que o regime leva a cabo ataques com bombas de barril ou outras munições com cloro, apesar de estarem proibidas pelo direito internacional.

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E quais poderiam ser as soluções de um conflito que vai entrar em seu quinto ano, exacerbado pela violência do ISIS e de um ditador aferrado ao poder, bem como por uma das piores crises de refugiados do século? Interrogados acerca das possíveis soluções para o conflito e o fim do êxodo, 58% dos sírios entrevistados na Alemanha afirmaram que uma zona de exclusão aérea ajudaria ou incentivaria os sírios a não abandonar seu país, enquanto só 24% dos pesquisados elegeram o aumento da ajuda humanitária como uma medida efetiva.

A maioria acha que Bashar al-Assad é o responsável pela situação atual. Para 79% dos entrevistados, a decisão de Assad de usar a força militar contra os manifestantes pacíficos que pediam liberdade e dignidade em 2011 é o que desencadeou e a principal causa da violência atual.

Heiko Giebler, mentor científico da pesquisa e membro do Centro de Investigação Sociológica de Berlim, considera os resultados como válidos e enfatiza que “o que chama a atenção não são tanto as porcentagens, mas as tendências claras que elas mostram”. Foi confirmada a percepção pública de que a maioria dos refugiados que chegam à Alemanha são jovens entre 16 e 25 anos. Confirmou-se também a necessidade de perguntar com mais frequência aos próprios afetados.

Fonte: http://ctxt.es/es/20151028/Politica/2704/Siria-refugiados-encuesta-Alemania-Bashar-al-Assad-Europa-Oriente-Medio-Europa-contra-s%C3%AD-misma.htm

Tradução: Suely Corvacho