COMPARTILHAR

Seis jovens palestinos estão nos cárceres da Autoridade Nacional Palestina (ANP) em greve de fome desde 28 de agosto. Exigem liberdade, protestando contra a renovação de sua prisão arbitrária há mais de seis meses sem qualquer acusação formal e as torturas a que vêm sendo submetidos. A alegação, feita apenas verbalmente, é de “atuação política”.

Por: Soraya Misleh

Entre as torturas, privação de sono e de ir ao banheiro, espancamento, serem obrigados a permanecer horas sem se mexer, em uma posição incômoda. Uma prática comum por parte da Autoridade, como ficou demonstrado no caso do brasileiro-palestino Islam Hamed, cuja campanha internacional – impulsionada a partir do Brasil – levou à sua libertação após 101 dias em greve de fome. Essa forma de resistência – adotada nos cárceres israelenses, cujo caso emblemático é de Bilal Kayed, há mais de 70 dias sem ingerir alimentos – tem se popularizado também nas prisões da ANP.

Os jovens estão na chamada detenção administrativa, instituída não só por Israel – que tem mais de 700 nessa situação, dos 7 mil presos políticos palestinos –, como também pela ANP. Centenas já enfrentaram os cárceres da Autoridade, entre ativistas e jornalistas. Postar uma crítica à ANP e denúncia de sua colaboração com Israel em rede social pode ser o suficiente.

Cooperação com Israel

As prisões fazem parte dos malfadados acordos de cooperação de segurança de Israel, um dos resultados dos nefastos Acordos de Oslo, firmados em setembro de 1993 entre a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) e Israel. A coordenação de segurança que selou o destino da ANP como “gerente da ocupação” foi consolidada a partir do Protocolo de Paris, em abril de 1994, no qual se definem as questões relativas à economia da dita Autoridade – em outras palavras, sua dependência total de Israel. Após o início do mais recente levante popular em outubro de 2015, a potência ocupante suspendeu a remessa de taxas e fundos à ANP para pressioná-la a reprimir e controlar o que vem sendo o indício de uma nova Intifada – desta vez também contra as direções colaboracionistas palestinas. Em função disso, o presidente Mahmoud Abbas declarou em entrevista ao Der Spiegel: “Nossas forças de segurança estão trabalhando muito eficientemente para prevenir o terror”. Ele cita a prisão de três jovens homens que estariam planejando ataques a colonos sionistas como prova de sua lealdade. Segundo comentou a jornalista palestina Rita Abu Ghosh, em artigo sobre o tema publicado no site Middle East Eye, “a ANP está em pânico e tem feito de tudo para demonstrar sua legitimidade a Israel e ao mundo”.

Leia também:  Não tocar para o apartheid é a solidariedade que precisamos 

Os seis jovens em greve de fome integram um dos grupos bastante ativos nessa luta: o Al-Harak al-Shabab (Movimento da Juventude), fundado em 2011, na esteira da Primavera Árabe. Além de se colocar ao lado dos revolucionários no mundo árabe, o grupo tem sido heroico em sua atuação contra não apenas Israel, mas contra a liderança palestina. Uma das iniciativas desses jovens, além de realizar protestos e denunciar ao mundo a cooperação de segurança e o papel da ANP, é recolher doações para garantir atendimento aos feridos nas manifestações. Os hospitais na Palestina ocupada são todos privados, e a ANP tem usado a assistência nesses casos como moeda de troca por colaboração.

Pelo que é possível perceber, esses jovens não foram presos por sua própria segurança, pois – se soltos – seriam encarcerados por Israel, como costuma afirmar a ANP. “Essa é uma tática sistemática que serve ao seu mais funcional papel: a cooperação de segurança”, explicita Abu Ghosh. Mais uma vez o caso de Islam Hamed é exemplar. De fato, ele foi preso por Israel poucos meses após sua libertação pela ANP. Diante do discurso, é de se pensar que para a Autoridade esse é um fato positivo. Entre as denúncias que são feitas com relação à cooperação de segurança está a de que a Autoridade também entregaria palestinos que visam ações de resistência a Israel – legítima no cenário de ocupação e apartheid.

Os seis jovens são Basil Al-Araj, 33; Mohammed Harb, 23; Haitham Siyaj, 19; Mohammed al-Salamen, 19; Seif al-Idrissi, 26; e Ali Dar al-Sheikh, 22. Organizações e ativistas palestinos clamam pela urgente solidariedade internacional. Entre as demandas, a realização de protestos, envios de manifestos à Representação da ANP em cada país e adesão à petição por sua liberdade imediata, disponível em http://goo.gl/IvuySF. Pela libertação de todos os presos políticos palestinos, nas mãos da Autoridade ou de Israel!