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“Homens, mulheres e crianças tomaram as ruas de Trípoli, Bengazi, Misrata e outras cidades no entardecer da quinta-feira para iniciar as celebrações.” Dessa forma a Al Jazeera descreveu as manifestações em todo o país no aniversário da revolução, em 17 de fevereiro de 2012. “Eu não tenho palavras para descrever minha felicidade. Toda Trípoli está em júbilo”, afirmou Naima Misrati, uma moradora de Trípoli, àquele jornal.

No entanto, essa alegria não é compartilhada pelo governo interino nomeado pelo CNT (Conselho Nacional de Transição), nem pelas potências colonialistas. O governo não organizou nenhuma comemoração oficial, sob alegação de respeito aos 15 mil mortos pelas forças de Kadafi durante a revolução. Na verdade, está desprestigiado junto à população, mal pode aparecer em público e não tem o controle do país. O repórter Tony Birtley, da Al Jazeera, relata: “As milícias estão fora de controle e muito bem armadas. Quando encontrei o vice-primeiro-ministro, ele disse: ‘Você tem que entender que nossa segurança ainda está nas mãos deles (as milícias). Nós precisamos deles para a segurança’”.
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O desespero das potências colonialistas é visível. O New York Times afirma que a situação na Líbia é de caos crescente por conta de “um governo cuja autoridade não vai além dos seus escritórios e de milícias fartamente armadas”. O mesmo porta-voz do imperialismo estadunidense relata que só em Misrata, um dos centros da revolução, há cerca de 250 milícias populares, segundo grupos de direitos humanos.

No último dia 2 de março, a ONU (Organização das Nações Unidas) divulgou um relatório no qual critica a fragilidade do governo interino em coibir as ações das milícias revolucionárias, que, na sua avaliação, violam os direitos humanos e o estado de direito. O relatório reconhece que o governo Kadafi cometeu crimes contra a humanidade, mas afirma que as milícias também cometeram abusos: prisões em massa de apoiadores do ditador e execuções extrajudiciais, como a do próprio Kadafi. Além disso, critica a perseguição aos moradores de Tawergha pelas milícias de Misrata. Esse último local resistiu durante meses a um cerco sanguinário de Kadafi organizado a partir da cidade de Tawergha. Curiosamente, tal relatório critica ainda a falta de investigações sobre os bombardeios da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) que mataram pelo menos 60 civis e feriram outros 55, segundo a ONU.

É claro que numa revolução contra um ditador assassino se estabelece uma justiça revolucionária. Mussolini, preso em Milão, foi executado “extrajudicialmente” e seu corpo exposto aos moradores por vários dias. Após a revolução cubana, os imperialistas protestaram contra a execução "extrajudicial" de contrarrevolucionários no paredão. Não é difícil prever o que fará a população síria quando colocar as mãos no ditador assassino Bashar el-Assad.

Armamento e poder

O desespero dos países imperialistas é compreensível. Kadafi já caiu há seis meses, mas a produção de petróleo ainda está em 40% do volume anterior à revolução, e o governo transitório do CNT, que é aliado do imperialismo, não tem o controle sobre centenas de milícias populares que são o poder efetivo nas ruas.

O imperialismo quer o desarmamento imediato das milícias populares para assegurar seus interesses. Mas a história mostra que os interesses da revolução são outros. Já no século XIX, o revolucionário socialista Karl Marx defendia o armamento da população através de milícias como um direito democrático do povo trabalhador, já que o monopólio de armas nas mãos do Estado só interessaria aos burgueses capitalistas.

A posse das armas na verdade determina quem tem o poder. Essa é a lição da revolução no Egito. Desprovidos de armas, os revolucionários egípcios são reprimidos pela polícia do regime e não conseguem estabelecer um novo poder. Na Líbia não é assim.
No dia 13 de fevereiro último, a Associated Press relatou que representantes de 100 milícias da região oeste da Líbia, onde ficam Trípoli e as cidades nas montanhas de Nafusah, formaram uma nova federação para evitar disputas internas às milícias e para pressionar por direitos e reformas. O líder da nova federação, coronel Mokhtar Fernana, denunciou que o governo interino quer sequestrar a revolução, desarmando as milícias revolucionárias e formando um novo exército com kadafistas. Ele afirmou que os milicianos não entregarão armas para um governo corrupto.

Tendências separatistas

Já no dia 6 de março, uma assembléia de 3 mil líderes políticos e milicianos se reuniu na cidade de Benghazi. Eles decidiram proclamar um conselho de governo regional sediado em Benghazi representando a região leste do país com parlamento, polícia e governo próprios. O governo central em Trípoli manteria as atribuições de relações internacionais, exército, exploração de petróleo além do reconhecimento dos símbolos nacionais: a bandeira e o hino.

Ahmed Al-Zubair, o mais antigo preso político sob Kadafi, foi eleito o líder do conselho de governo regional. A parte leste – que abrange toda a área entre Sirte e a fronteira com o Egito – é a antiga divisão administrativa de Cirenaica que funcionou de 1951 até 1963. A constituição de 1951 estabelecia duas capitais: Trípoli como a capital política, e Benghazi como a capital econômica. As jazidas de petróleo, principal riqueza do país, se localizam nesta área.

Os motivos para esta decisão não são poucos: toda a região sempre foi secundarizada pelo regime de Kadafi e, desde o seu fim, as demandas da população trabalhadora não foram atendidas. A gota d'água foi a decisão do governo do CNT de promulgar uma lei eleitoral que dá à região leste do país somente 60 assentos em 200 na futura assembléia constituinte a ser eleita em junho.
Compreendemos a indignação dos habitantes de Cirenaica contra o CNT. No entanto estamos pela unidade do país porque queremos unir os trabalhadores em base à igualdade de direitos e ao controle das riquezas por todos, e não dividir os tripolitanos e os de Cirenaica concentrando as riquezas numa parte do país, relegando a outra à miséria. Este projeto não interessa aos trabalhadores mas sim a interesses burgueses regionais.

A questão é avançar para as medidas socialistas: a nacionalização do petróleo e a utilização de sua renda para atender as reivindicações dos trabalhadores e milicianos em todo o país. E também uma assembléia constituinte livre que una todo o país a partir do atendimento das reivindicações operárias.

Perspectivas

A proposta do governo do CNT e das potências colonialistas é clara: constituir um governo forte ligado ao imperialismo para desarmar a população e retomar integralmente a exportação de petróleo aos países europeus.

Para isso, estão chamando eleições para uma Assembleia Constituinte, em 23 de junho. Nessa, 20 assentos entre 200 serão destinados às mulheres. Esperam que das eleições surja um governo com legitimidade para impor uma ordem capitalista. Ao mesmo tempo, para ganhar tempo, aumentaram os salários dos trabalhadores.

Os revolucionários precisam trilhar um caminho diferente. As milícias estão atomizadas e, às vezes, lutam entre si. É necessário uni-las em uma federação nacional que destitua o governo interino e assuma o poder. Sua missão é julgar e punir os líderes kadafistas, garantir amplas liberdades democráticas para que a população trabalhadora possa governar, com direito de organizar sindicatos livres e partidos políticos, e nacionalizar o petróleo para atender as demandas sociais por emprego, salário, educação, saúde e moradia.

Além disso, um governo revolucionário dos trabalhadores tem que apoiar a extensão da revolução a todos os países árabes e enfrentar Israel e as potências imperialistas.

O principal obstáculo está na ausência de uma organização política revolucionária que lute por constituir esse poder alternativo baseado nas milícias populares armadas contra o governo interino do CNT e o imperialismo.

Muammar Kadafi (1942-2011)

Do nacionalismo árabe …

Em setembro de 1969, o coronel Kadafi afasta o rei Idris e assume o poder. Seguindo o exemplo do egípcio Gamal Adbel Nasser, instaura um regime sem liberdades democráticas, mas que enfrenta os interesses imperialistas.
Seu governo fecha as bases militares estrangeiras em solo líbio e nacionaliza a principal riqueza do país, o petróleo, cujos recursos passa a utilizar para elevar o nível de vida da população.

No plano internacional, Kadafi apoiou lutas e organizações nacionalistas e socialistas em vários países, entre as quais o Congresso Nacional Africano de Nelson Mandela, que liderou a revolução negra contra o apartheid na África do Sul, e o IRA (Exército Republicano Irlandês), que lutava contra a ocupação britânica.

Opunha-se à existência do Estado de Israel. Por conta dessa política, a Líbia foi atacada pela força aérea estadunidense em 1986.

… a lacaio do imperialismo

Em 1999, Kadafi entregou ao imperialismo dois líbios suspeitos de explodir o jato da Pan Am que sobrevoava a cidade de Lockerbie, na Escócia, em 1986. Em 2003 ele aceitou indenizar as famílias com US$ 2,7 bilhões.

Em 2001, Kadafi foi um dos primeiros líderes árabes a condenar os ataques de 11 de setembro em Nova Iorque e o primeiro a exigir a prisão de Bin Laden, dando apoio tácito à invasão do Afeganistão.

Iniciou então uma colaboração com serviços secretos estadunidense e britânico e outros governos ocidentais sobre “terrorismo”, armas nucleares e imigração. Tony Blair, então primeiro-ministro britânico, e Condoleeza Rice, então secretária de Estado dos EUA, visitaram Kadafi em Trípoli. O ditador líbio declarou à Al Jazeera sobre Condoleeza: “Eu a admiro e estou orgulhoso sobre a maneira como ela dá ordens aos líderes árabes.”

Nos últimos anos, patrocinou a campanha eleitoral de Nicolás Sarkozy, chefe do imperialismo francês, e era amigo de Sílvio Berlusconi, então primeiro-ministro italiano.

Abandonou a luta contra Israel e passou a defender um estado único que chamava de "Isratina" (Israel + Palestina).

Na Líbia, promoveu um amplo programa de privatizações, incluindo o petróleo. Seu filho Saif defendia implantar zonas francas para corporações multinacionais, transformar o país num paraíso fiscal livre de impostos para estrangeiros e numa Dubai do norte da África com hotéis de luxo.

Para eliminar qualquer dissidência, promovia execuções públicas televisionadas para toda a população líbia. Bombardeou Benghazi e
outras cidades para coibir um levante liderado por islâmicos. Assassinou 1.200 prisioneiros na prisão de Abu Salim.

No entanto, a revolução democrática iniciada em Benghazi em 15 de fevereiro de 2011 foi o seu fim. A população se revoltou contra a prisão de um advogado. O desemprego era de 30%, o descaso com a população era tanto que até mesmo o lixo se acumulava nas ruas, sem coleta.
 
A revolução se espalhou por todo o país. As potências imperialistas aliadas de Kadafi perceberam que o ditador não teria mais condições de defender seus interesses e em 19 de março iniciaram bombardeios contra a Líbia. O objetivo foi impedir que uma revolução democrática vitoriosa ameaçasse os interesses das multinacionais.

 As milícias revolucionárias entraram em Trípoli em 12 de agosto. Em 20 de outubro, as milícias populares de Misrata encontraram o ditador e o executaram imediatamente aos gritos de "Deus é Grande" e tiros ao ar. Imitando o ditador, seu corpo foi disponibilizado para exibição pública.