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Dois acontecimentos carregados de significado marcaram os 70 anos da Nakba – a catástrofe palestina com a criação do Estado de Israel em 15 de maio de 1948 mediante limpeza étnica: a Grande Marcha do Retorno e a transferência da Embaixada dos Estados Unidos de Tel Aviv para Jerusalém, capital histórica da Palestina. A ação americana ocorreu no último dia 14, enquanto o exército sionista matava cerca de 60 palestinos, incluindo a bebê de oito meses Leila al-Ghandour, durante os protestos na faixa de Gaza.

Por Soraya Misleh

A Grande Marcha do Retorno, que se iniciou em 30 de março – Dia da Terra para os palestinos –, representa sua resistência heroica e simboliza a demanda fundamental de retorno dos milhões de refugiados as suas terras. Já ao primeiro dia, Israel assassinou mais de 30, utilizando inclusive franco-atiradores contra palestinos que tinham como armas apenas estilingues e pedras. Mas não conseguiu intimidar a resistência. Os protestos seguiram até 15 de maio. O saldo da repressão violenta foi de 116 mortos e aproximadamente 12 mil feridos.

Esse quadro tem contribuído para expor a verdadeira face de Israel perante um mundo que – salvo ocasionalmente – insiste em cegar. O ataque sionista à flotilha palestina “Barco da Liberdade” que partiu de Gaza rumo ao Chipre em 29 de maio – a qual incluía pessoas que precisam de cuidados médicos – é uma peça a mais nessa engrenagem que desmascara o caráter colonial e genocida do Estado de Israel.

A indignação internacional com mais sangue derramado palestino é apimentada pela afronta do imperialismo, cujo gesto representa o reconhecimento de Jerusalém como “capital de Israel”. Até o momento, dois outros países seguiram os Estados Unidos, abrindo suas embaixadas no local: Guatemala e Paraguai, não sem enfrentar o repúdio mundial. Expressões de solidariedade, que marcaram a semana em que se completaram os 70 anos da Nakba palestina, crescem, dos Estados Unidos e Europa à África, Oriente Médio e América Latina. Judeus antissionistas se somam aos protestos.

Sintomático é o cancelamento de shows por artistas como os cantores brasileiros Gilberto Gil – após três anos de recusa em atender ao movimento de BDS (boicote, desinvestimento e sanções) a Israel –, Linn da Quebrada e a colombiana Shakira. Antes disso, o dramaturgo português Tiago Rodrigues cancelou sua participação no Festival Israel em Jerusalém, ao qual tinha confirmado presença.

Sintomática ainda é a mudança para tom ao menos mais crítico da mídia burguesa – que vinha realizando especiais sobre o que chamava falsamente de “70 anos da independência do Estado de Israel”. Quando se iniciou a Grande Marcha do Retorno, adotou a retórica israelense de “resposta”, “confronto” e “ambos os lados”, chegando a culpar as vítimas pela resistência e luta pelo direito legítimo de retorno, por se recusarem a sucumbir a um estado cuja gênese é colonial e racista. Após condenação mundial, a mídia corporativa se viu obrigada a amenizar sua posição e mascarar sua defesa de Israel.

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Ainda sintomática é a tentativa dos “sionistas de esquerda” de entrarem com mais força nos possíveis espaços de solidariedade, como uma voz que dizem ser alternativa a um governo fascista israelense – do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, que seria de “direita” e, nessa lógica, a saída seria a injusta e combalida “proposta de dois estados” – em que os primeiros a ser rifados são os milhões de refugiados palestinos em campos nos países árabes e no mundo. Além dos 1,5 milhão que vivem sob o jugo de Israel, com 50 leis racistas contra eles, em território palestino ocupado em 1948.

Os “sionistas de esquerda”

Esses são os mais perigosos. Confundem a solidariedade sob a fala mansa e palavras como “coexistência”, “paz” e “diálogo”, ao mesmo tempo em que tentam minar campanhas centrais como a de BDS – responsável pela queda de 46% nos investimentos externos em Israel nos últimos anos. Não passam de uma ramificação – mais ardilosa – do mesmo projeto colonial.

Em resenha sobre a publicação “Falsos profetas da paz”, de Tikva Honig-Parnass, o Ijan (Rede Internacional de Judeus Antissionistas) escreve: “Como esse livro mostra, desde antes da fundação do Estado de Israel, a esquerda sionista falou demasiadas vezes a língua do universalismo, enquanto ajudava a criar e manter sistemas jurídicos, governos e o aparato militar que permitiram a colonização de terras palestinas.” Em seu livro “História da Palestina moderna”, o historiador israelense Ilan Pappe destaca:

“Na gíria israelense local e no discurso político utilizado pelos meios de comunicação e pela comunidade acadêmica, o ‘campo da paz’ em Israel é a ‘esquerda’. Noutras partes do mundo, tal significaria necessariamente uma plataforma social-democrática ou socialista, ou pelo menos uma preocupação acentuada com os grupos social e economicamente desfavorecidos numa dada sociedade. O campo da paz em Israel tem se concentrado inteiramente nas manobras diplomáticas desde a guerra de 1973, um jogo que tem pouca relevância para um número crescente de grupos.” O deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) está entre os que fazem coro e se colocam como porta-vozes dessa esquizofrenia chamada “sionismo de esquerda” (leia mais em https://goo.gl/Ru3atp) – alguém hoje em sã consciência levaria a sério uma ala “nazista de esquerda” ou defenderia um debate com um africâner moderado em pleno boicote ao apartheid na África do Sul nos anos 1990? O sionismo foi hábil em criar essa confusão, após anos de chantagem em classificar como antissemitas os apoiadores da causa palestina. É mister pôr fim a essa e todas as suas representações, a serviço de justificar seu projeto e intimidar os que se opõem.

“Não são suíços”

Elemento que contribui ao declínio do sionismo são as falas de suas lideranças e representantes no momento. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu afirmou que medidas “não letais” não funcionam para Gaza – ao tentar responsabilizar as vítimas pela decisão de atirar nos palestinos desarmados para que não furassem o bloqueio que os impede até de receber medicamentos, alimentos e reconstruir suas casas destruídas em bombardeios anteriores.

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Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo no dia 15 de maio, o cônsul de Israel em São Paulo, Dori Goren, refletiu essa posição desumanizante. Declarou: “Não há outra opção. A alternativa é deixar que eles passem. Não podemos correr este risco. O Oriente Médio é um lugar muito violento. Não estamos lidando com suíços. É um lugar cruel onde a única língua que vale é a força.” Em outra resposta, foi surpreendente: “Imagine que Israel seja um lutador de sumô diante de um menino de cinco anos que começa a espetá-lo com uma agulha. O lutador pede várias vezes para a criança parar de perturbá-lo, mas ele continua. Até que uma hora ele perde a paciência e bate no garoto, quebrando vários dentes dele. Então, vem a mãe e faz um escândalo, perguntando se os jornalistas filmaram a agressão. Isso é o que está acontecendo em Gaza.”

Em reunião do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), a embaixadora americana Nikki Haley apoiou a repressão violenta e achou pouco: “Nenhum país agiria com mais moderação.” Posteriormente viu sua palestra na Universidade de Houston, no Texas, interrompida por manifestantes que repudiaram seu apoio aos massacres em Gaza. “Nikki Haley, o sangue está em suas mãos! Você é cúmplice do terrorismo e colonização”, bradava, enfurecido, um deles.

Instabilidade

Não é novidade o aval dos Estados Unidos ao projeto colonial sionista. Essa aliança se reflete em auxílio bilionário à garantia de armas e desenvolvimento de tecnologias militares a Israel. Em 2016, antes de deixar o governo, Barack Obama anunciou o maior pacote dessa parceria histórica de ajuda militar ao estado sionista, no valor de US$ 38 bilhões para os próximos dez anos.

Apesar de também adotar a retórica da paz e a postura de mediador em “possíveis negociações”, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ousa mais. Ao assumir desde seu primeiro dia no mandato a cara feia explícita do imperialismo, ele deu passo perigoso ao transferir a embaixada americana para Jerusalém – de encontro até mesmo ao que a ONU recomenda. Na prática, não há mudança na política. Mas o simbolismo da medida é um elemento adicional na instabilidade que se acentua na Palestina e região.

“Cobaias humanas”

Neste momento de mais uma derrota política de Israel – entre outras estão durante a invasão de Israel ao Líbano em 2006 e o massacre em Gaza em 2014 –, a solidariedade internacional precisa aprofundar o declínio do sionismo. Cumpre papel importante nesse sentido o engajamento à campanha de BDS, ao que deve ser associada a denúncia de que a ocupação e a limpeza étnica cotidianas enfrentadas pelos palestinos dão lucro. Mais uma vez, durante a Grande Marcha do Retorno, Israel testou novas tecnologias militares e armas à exportação, como denunciou o site de notícias Middle East Monitor. Uma delas é chamada “bala borboleta”, cujo impacto nos órgãos internos atingidos é devastador.

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Na contramão da solidariedade, lamentavelmente durante os governos Lula e Dilma a cumplicidade com a economia que mantém o apartheid e a colonização sionistas se acentuou: o Brasil se tornou um dos cinco maiores importadores de tecnologia militar israelense. Os governos estaduais no país, como do Rio de Janeiro e de São Paulo, seguiram na mesma direção. Fizeram investimentos bilionários por exemplo na aquisição de blindados israelenses e treinamento a serviço das polícias militares que promovem o genocídio pobre e negro nas periferias.

Resistência heroica

Levantes populares seguem a germinar. Alguns exemplos disso foram as manifestações de libaneses e de palestinos que vivem em campo de refugiados pelas ruas de Sidon, no Líbano, no dia 21 de maio. Ao condenarem o novo massacre em Gaza – onde vivem 2 milhões de palestinos em condições subumanas – e a posição dos Estados Unidos, chamaram os árabes a se unirem em luta contra a ocupação e em apoio à resistência palestina. Quase simultaneamente protestos ocorriam em Haifa, cidade ocupada em 1948 – fortemente reprimidos. Antes disso, houve greve geral de trabalhadores na Cisjordânia, território ocupado em 1967. Os palestinos, separados há 70 anos, unem-se em sua luta.

À resistência organizada, contudo, falta uma direção revolucionária palestina que leve à derrota definitiva do projeto sionista, rumo à Palestina livre, do rio ao mar. Se hoje é preciso exigir de praticamente todas as forças políticas locais na resistência que não deem passos para trás e soltem o freio neste momento de declínio do sionismo, por outro lado está colocado também o desafio de derrotar nesse caminho a Autoridade Palestina (AP) como de primeira ordem. Descrente das lideranças tradicionais, boa parte dos palestinos tem consciência disso, diante da traição vivenciada. A AP se tornou – a partir de sua consolidação mediante os desastrosos acordos de Oslo entre Israel e Organização para a Libertação da Palestina (OLP) em 1993 – gerente da ocupação, com cooperação de segurança com Israel. Seu substancial efetivo policial tem servido a sufocar a resistência. Os palestinos provam há 70 anos, contudo, que essa não morre e não morrerá.