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Desde quinta-feira 28 de dezembro, os iranianos mais uma vez tomaram as ruas. Milhares, talvez mais, protestaram em manifestações de massa, expressando um descontentamento geral e exigindo mudanças econômicas, sociais e políticas. Estes são os maiores protestos desde o levante de 2009, conhecido como o Movimento Verde, quando milhões se levantaram contra a reeleição fraudulenta de Mahmoud Ahmadinejad.

Por: La Voz de los Trabajadores – East Bay / Oakland

Sempre que ocorre uma resistência popular no Irã, as potências globais e regionais rapidamente se esforçam para explorar a situação através de um “apoio” retórico, com o objetivo de alcançar seus próprios interesses. Esta é uma triste realidade que cada iraniano conhece bem, embora esta movimentação geopolítica não impeça – e provavelmente nunca irá impedir – que o povo exija tudo que lhe é devido a eles.

As raízes dos protestos: políticas neoliberais

Os protestos começaram na cidade de Mashhad, segunda maior cidade do país, onde os manifestantes gritavam palavras de ordem explicitamente econômicas. Enfrentando canhões de água e gás lacrimogêneo, eles posicionaram-se contra o aumento do custo de vida  e a má gestão do orçamento pelo governo, a corrupção, e os preços elevados[1]. Nas cidades vizinhas menores, os manifestantes gritavam “Abaixo os preços elevados”, “Fora [o presidente] Rouhani” e “Abaixo o ditador”.

Dias antes, o presidente Rouhani tinha apresentado um orçamento de austeridade que acabava com o subsídio aos pobres e elevava os preços dos combustíveis em 50%, entre outras medidas[2]. Embora a convocação para os protestos fosse feita através das redes sociais, não está claro onde essa convocação foi originada, mesmo entre muitos daqueles que participaram dos primeiros protestos em Mashhad.

Alguns acreditam que os protestos foram originalmente convocados pelos conservadores à direita do presidente centrista Rouhani, como uma forma de enfraquecê-lo. Porém, eles rapidamente se espalharam além de seu controle e explodiram em manifestações antigovernamentais gerais dirigidas contra todos os setores políticos. O corte do orçamento foi a gota d’água e levou o povo a tomar as ruas para expressar sua frustração econômica geral.

Os jovens também participaram ativamente destes protestos, não mais capazes de enfrentar um futuro precário, enquanto a taxa de desemprego dos jovens permanece acima de 30%[3]. Embora a expansão do ensino superior tenha sido bastante bem-sucedida sob a República Islâmica, a existência de tantos jovens graduados choca-se com a limitada oferta de trabalho e exacerba uma bolha de desemprego juvenil.

Os protestos logo se espalharam para outras cidades, como Kermanshah, onde a população local foi devastada por um terremoto recente, em que a ajuda do governo mostrou-se incompetente e corrupta.[4]

Uma diferença fundamental entre os protestos da atualidade e a revolta de 2009 é que eles têm se espalhado pelas cidades mais pobres da periferia, em vez da relativamente mais bem cuidada Teerã[5]. Embora as exigências sejam por vezes contraditórias, uma das palavras de ordem mais utilizadas em diferentes cidades é “emprego, pão, liberdade”. Alguns têm demonstrado descontentamento com todos os setores do governo, cantando “reformistas e conservadores, a história acabou” (eslaahtalab, osoulgara, dige tamoome maajera).[6]

De fato, enquanto os conservadores tentaram restringir os problemas econômicos do país apenas ao último orçamento de austeridade do presidente Rouhani, na realidade, a maioria das principais facções da cena política iraniana, de reformistas a conservadores, apoiou de alguma forma a política econômica neoliberal. Em 2006, o líder supremo Ali Khamenei pediu uma privatização “jihad”, anunciando que 80% do setor público deveria ser privatizado.[7]

Várias facções do Estado também apoiaram a liberalização das importações e a desregulamentação do trabalho[8]. Um dos efeitos mais visíveis do neoliberalismo no Irã é a generalizada desregulamentação trabalhista. Uma lei trabalhista de 1990, que ofereceu algumas formas de previdência social e aposentadoria para os trabalhadores, foi desfigurada no início de 2000, para isentar as empresas que empregam menos de dez trabalhadores[9]. Greves dos trabalhadores têm ocorrido com frequência na última década, incluindo os últimos meses, de operários industriais, funcionários públicos e trabalhadores de estatais, trabalhadores de cana, motoristas de ônibus e professores, entre outros[10]. Estes trabalhadores lutam contra meses de salários atrasados e demissões.

Organizações independentes de trabalhadores têm apoiado os protestos, denunciando a “pobreza e miséria de milhões de pessoas, o desemprego de milhões de trabalhadores e jovens, os espancamentos de vendedores ambulantes e os assassinatos de koolbars curdos [carregadores que transportam mercadorias em suas costas entre a fronteira do Irã com o Iraque], a imposição de salários várias vezes abaixo do nível de pobreza, e a prisão e tortura em resposta a todas as reivindicações de justiça social e liberdade”.[11]

O crescimento das mobilizações e as contradições dos protestos

Com o crescimento das mobilizações, palavras de ordem diversificadas e às vezes contraditórias aumentam. Alguns denunciam as prioridades equivocadas do orçamento do governo, exigindo que o governo priorize a melhoria das condições de vida dos iranianos, em vez de gastar dinheiro com a intervenção na Síria. No entanto, outros cantam palavras de ordem mais nacionalistas como “Nem o Líbano, nem Gaza, minha vida apenas para o Irã”. Porém, há outros manifestantes que denunciam a falta de solidariedade internacionalista de tal slogan e rebatem com “Seja em Gaza, seja no Irã, fora com os opressores”.[12]

O fosso entre ricos e pobres continua a aumentar de forma altamente visível, fazendo com que a revolução iraniana seja alimentada, em parte, por reivindicações por justiça econômica e igualdade. Como Amir Arian argumenta, “os iranianos veem fotos dos membros das famílias das autoridades bebendo e indo às praias ao redor do mundo, enquanto suas filhas são presas por um lenço de cabeça caído e seus filhos são presos por comprar álcool. O duplo padrão tem cultivado uma enorme sentimento de  humilhação pública”.[13]

Diante de uma combinação inaceitável de desemprego entre os jovens, de políticas neoliberais, de controle social, e da obrigação de seguir normas conservadoras, os jovens iranianos saem às ruas para exigir um futuro melhor. Nos primeiros dias do levante de 2009, contra a reeleição contestada do presidente conservador Mahmoud Ahmadinejad, ocorreu uma participação interclassista por reivindicações centradas em liberdades políticas. No entanto, os protestos atuais reorientaram os debates sobre a resistência popular iraniana em uma direção que reconhece de forma mais explícita a participação da classe trabalhadora.

Um estudo recente realizado pelo sociólogo Kevan Harris, que conduziu anos de trabalho de campo no Irã e teve acesso a estatísticas e arquivos importantes, contesta uma percepção bastante comum, de que os iranianos mais pobres estão aliados aos elementos mais à direita na cena política iraniana devido à associação desses elementos com determinadas organizações de assistência que fornecem uma ajuda financeira modesta. Este estudo, realizado através de uma amostra aleatória de milhares de iranianos, descobriu que, ao contrário, “indivíduos ligados a programas assistenciais, atualmente ou anteriormente associados com políticos ou facções … conservadores, não votam de forma diferente, em média, do que as pessoas ligadas a programas assistenciais associados à tecnocracia ou a políticos ou facções moderados[14]. Novamente, isso comprovaria a posição de que as pessoas estão decepcionadas com muitas facções, muitas vezes opostas, seja ela reformista, centrista ou conservadora/linha-dura.

Esses protestos são importantes demonstrações de descontentamento popular com o status quo. É verdade que suas demandas são contraditórias, por vezes, e que eles sofrem de uma falta de liderança que poderia oferecer alternativas. Também é verdade que o imperialismo norte-americano, como sempre, vai tentar tirar proveito dos eventos da maneira que puder. De fato, em muitas famílias, membros da família estão divididos sobre como participar, com alguns indo às ruas para fazer exigências importantes, enquanto outros têm receio, tanto dos setores políticos nacionais quanto da intervenção estrangeira.[15]

Os iranianos sabem bem que o imperialismo norte-americano é parte do problema, pois as sanções econômicas apertaram o cerco a seu acesso a medicamentos vitais e ao combustível, aumentando as dificuldades econômicas. No entanto, eles também sabem que o governo iraniano aplica uma política de arrocho e administra mal o orçamento, que os patrões passam meses sem pagar os salários dos trabalhadores, que os jovens esperam por um futuro precário de insegurança.

Mesmo se os protestos, mais uma vez, não resultarem em uma mudança imediata, a participação central da classe operária e de setores marginalizados nesses eventos, com todas as forças contra eles, mudou bruscamente a história da resistência popular iraniana, uma história que continuará a ter desdobramentos por muitos anos pela frente.

Notas:

[1] “Protestors Shout ‘Death to High Prices’ as Demonstrations Break Out in Three Iranian Cities”,  https://www.iranhumanrights.org/2017/12/protestors-shout-death-to-high-prices-as-demonstrations-break-out-in-three-iranian-cities/

[2] Trita Parsi, https://www.democracynow.org/2018/1/3/trumps_vow_to_support_iran_opposition

[3] Narges Bajoghli, “Behind the Protests in Iran”, https://jacobinmag.com/2018/01/iran-protests-hasan-rouhani-green-movement

[4] Mina Khanlarzadeh, “Iran’s Streets Again”, https://zcomm.org/zblogs/irans-streets-again/

[5] Kiana Karimi, “Small-town Iran Rises Up”, https://www.lrb.co.uk/blog/2018/01/03/kiana-karimi/small-town-iran-rises-up/

[6] Khanlarzadeh, “Iran’s Streets Again.”

[7] Kevan Harris, The Rise of the Subcontractor State: Politics of Pseudo-Privatization in the Islamic Republic of Iran, International Journal of Middle East Studies, 2013, 46.

[8] Ahmadinejad’s Import Mania,  http://iranlaborreport.com/?p=197

[9] Kevan Harris, A Social Revolution: Politics and the Welfare State in Iran, 148-149.

[10] “Spike in Labor Protests in Iran is Changing the Political Milieu”, https://en.radiozamaneh.com/articles/spike-in-labor-protests-in-iran-is-changing-the-political-milieu/, também: Khanlarzadeh,  https://zcomm.org/zblogs/irans-streets-again/

[11] Khanlarzadeh, “Iran’s Streets Again”, https://zcomm.org/zblogs/irans-streets-again/

[12] https://twitter.com/MohamGhaznavian/status/947486349355048960/video/1

[13] Amir Arian, “Why Iranians Are Protesting”, https://www.nytimes.com/2018/01/02/opinion/iran-protests-inequality.html

[14] Kevan Harris, “Unpacking the Welfare-Politics Nexus in the Islamic Republic of Iran”, https://pomeps.org/2017/12/21/unpacking-the-welfare-politics-nexus-in-the-islamic-republic-of-iran/

[15] Narges Bajoghli, “Behind the Protests in Iran”, https://jacobinmag.com/2018/01/iran-protests-hasan-rouhani-green-movement

Tradução: Marcos Margarido