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Há vários dias, aviões e tropas do exército turco cruzaram a fronteira com a Síria, apoiadas por alguns batalhões do ELS (Exército Livre da Síria – Free Syrian Army) e iniciaram um ataque, que a Turquia chama “Campanha Ramo de Oliveira”, à cidade curda de Afrin (localizado em Rojava ou Curdistão sírio). No lado curdo, a defesa está sob o comando da YPG (Unidades de Defesa Popular), que conta com uma força de 8.000 a 10.000 combatentes nesse cantão.

Por: Alejandro Iturbe

As informações sobre a situação militar são contraditórias. A mídia turca informa que suas tropas já controlam várias cidades perto da fronteira, que criaram uma “zona de segurança” e que estão avançando sobre o território curdo (1), enquanto fontes próximas dos curdos dizem que a ofensiva turca está sendo barrada (2).

Independentemente da análise precisa do curso dos confrontos, a nossa posição é absolutamente clara: apoiamos e defendemos o campo militar dos curdos contra o ataque turco.

No entanto, dada a complexa combinação de forças internacionais, regionais e nacionais que intervêm e influenciam o processo (com alianças momentâneas e acordos conjunturais entre eles), parece necessário retomar as análises e caracterizações que fizemos em artigos anteriores já publicados neste site (3) e incorporar novos elementos.

Os curdos

O povo curdo é a maior nacionalidade do Oriente Médio (considerado em seu sentido geográfico mais amplo) sem Estado próprio, já que o Tratado de Lausanne (assinado em 1923 para dividir os domínios do império turco-otomano, derrotado na Primeira Guerra Mundial) negou-lhes esse direito. O povo curdo ficou dividido entre quatro países (Turquia, Irã, Iraque e Síria) nos quais é uma nacionalidade oprimida, e foi duramente reprimida quando lutou para tentar reverter esta situação.

No caso do território sírio, eles são maioria em três regiões (Afrin, Jazira e Kobane) localizadas no norte do país (fronteira com a Turquia, ao norte, e o Iraque, ao leste). Estas regiões totalizam cerca de 15.000 km², onde vivem mais de 2.000.000 de curdos (e populações de outras origens). Os curdos, em sua maioria, são provenientes de migrações da Turquia. Como um exemplo da opressão que sofriam na Síria, até alguns anos atrás eles não tinham direito de serem cidadãos daquele país.

Nesse contexto, nos artigos citados, analisamos a política que os revolucionários deveriam ter em relação à nacionalidade oprimida dos curdos, baseados na posição clássica do marxismo nestes casos:

Como marxistas revolucionários, não estamos a favor da fragmentação dos Estados existentes. Pelo contrário, lutamos pela integração de Estados plurinacionais e federativos, livremente constituídos, cada vez maiores. Mas, se uma nacionalidade oprimida se definir por sua independência, passamos a apoiar e defender incondicionalmente esta decisão. (…) O caso curdo é especial: é evidente que é uma nação oprimida, mas não está em um só país, e sim dividida e oprimida em quatro países. Por isso, a única maneira de exercer sua autodeterminação é romper essa divisão e se reunificar. Assim, como ponto de partida, reconhecemos e defendemos o seu direito de separar os seus territórios históricos dos Estados que integram e constituir o seu próprio Estado independente (e apoiamos plenamente sua luta neste sentido). Acreditamos que, neste caso, não seria uma fragmentação dos Estados atuais, mas uma reunificação de caráter progressista.

As autonomias curdas

Nos últimos anos, o povo curdo conseguiu o controle de duas regiões autônomas: uma no Iraque (à qual eles chamam de Basur) e outra na Síria (denominada Rojava). De fato, são dois Estados ou embriões de Estados independentes. Nos artigos citados, analisamos os processos que os levaram a alcançar esta autonomia, liderados por Massoud Barzani e o PDK (Partido Democrático do Curdistão), em Basur, e pelo PYD (Partido da União Democrática), em Rojava. O PYD é a expressão do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão, fundado na Turquia) em Rojava. Nesses materiais, também analisamos e caracterizamos esses partidos.

Acrescentamos que, embora os processos fossem muito diferentes, “consideramos que a autonomia alcançada no Iraque e em Rojava são um avanço nesta direção e, portanto, devem ser defendidas. Não como o “objetivo final”, mas sim a serviço da luta para conquistar o Estado curdo unificado”.

Concluímos a nossa posição afirmando que “não damos nenhum apoio nem chamamos a confiar nas atuais direções curdas, tanto por seu caráter de classe (burguês ou pequeno-burguês) como pela sua política (como o abandono da luta pelo Estado curdo unificado). Isso significa que, sendo parte do campo da luta do povo curdo, combatemos politicamente suas direções, chamamos a lutar contras suas políticas que vão contra a luta unitária dos curdos (como os acordos com o imperialismo e Putin) e lhes exigimos que apliquem políticas que apontem para esta luta”.

As alianças perigosas do PYD

A caracterização da direção do PYD é muito importante para entender tanto o tipo de Estado em construção em Rojava e sua política de alianças para defender e consolidar esta autonomia (em artigo anterior).

Referimo-nos, por um lado, à trégua, de fato, estabelecida com o regime ditatorial de Bashar al-Assad e, por outro lado, por colocar no centro de sua política a aliança com os EUA, cujos governos fizeram dos curdos da Síria e das YPG seus principais aliados para combater o ISIS na região (política aplicada desde o tempo de Obama e mantida durante o primeiro ano de Trump).

Naquele artigo, assinalamos que: “Outra aliança tática perigosa do PYD/PKK é com o imperialismo norte-americano. Uma colaboração forjada na luta contra o ISIS na defesa de Kobane e que agora se reforçou no cerco a Racqa (o ISIS foi derrotado e a cidade e sua região são controladas pelos curdos, NDR). A principal força desse ataque são as FDS (Forças Democráticas Sírias – baseada na YPG, com participação minoritária de combatentes de outras cidades da Síria) que recebe grandes suprimentos de armas e apoio aéreo do imperialismo”.

Assinalamos também que: “Para nós, é tático e não de princípios que um movimento que luta em um campo militar progressista receba armas do imperialismo. É uma tática válida se servir a essa luta. Isso aconteceu, por exemplo, com as forças que combatiam a invasão japonesa na China na Segunda Guerra Mundial ou na exigência para que os imperialismos “democráticos” (EUA, Inglaterra e França) enviassem armas aos republicanos espanhóis em sua guerra contra os fascistas. O problema começa quando não se diz às massas que é apenas um pequeno episódio em que se coincide temporariamente com nosso principal inimigo, mas que deveremos combatê-lo, seguramente, no futuro. Pior ainda, quando são chamadas a depositar confiança nesse inimigo. Esse é o caminho que o PKK e as organizações sob sua influência estão trilhando”.

Nesse contexto, fazíamos um alerta: “… é novamente uma cegueira estratégica (do PYD/PKK, NdR). O imperialismo pode usar diferentes peões nas táticas regionais pelas quais defende seus interesses. Mas eles são apenas isso (peões), que serão sacrificados assim que não forem mais necessários. Ou tentará destruí-los, como aconteceu com os talibãs no Afeganistão. Os próprios curdos têm uma amarga experiência de confiança no imperialismo, no Tratado de Lausanne (assinado em 1923), que lhes negou o direito a um estado próprio e os condenou a viver oprimidos em quatro países diferentes”. A realidade atual (a atitude do governo dos EUA diante do ataque turco) demonstrou muito rapidamente a correção deste alerta.

Ao mesmo tempo, a política do PYD de estabelecer uma trégua de fato com o regime de Assad isolou os curdos de Rojava daqueles que deveriam ser seus verdadeiros aliados (os setores mais progressistas das forças rebeldes que combatem a ditadura). Pior ainda, quando as YPGs avançaram sobre território não curdo, muitas vezes lutaram contra estas forças e expulsaram violentamente as populações árabes sírias. Isso aconteceu, por exemplo, no ano passado, quando as YPG tentaram aproveitar a batalha pelo controle de Aleppo para estabelecer um corredor que liga as regiões de Afrin e Jazira (essa tentativa foi derrotada por uma invasão anterior do exército turco).

Este gravíssimo erro político-militar do PYD contribuiu para que muitas forças rebeldes considerassem os curdos como “inimigos”, e ajuda a justificar a política equivocada de alguns batalhões do ELS de fazerem parte do reacionário ataque turco contra os curdos.

As razões do ataque turco

O governo turco de Recep Erdogan tem razões muito profundas para realizar este ataque; razões que foram agravadas nos últimos anos.

No atual território turco vivem 16.000.000 de curdos que são maioria em regiões que ocupam cerca de 190.000 km². Por um lado, estes números representam cerca da metade do povo curdo e da superfície do Curdistão histórico. Por outro lado, representam 20% da população total da Turquia e um terço de sua superfície atual. Este peso geográfico e populacional faz com que, para a burguesia turca, seja inaceitável uma separação, inclusive uma autonomia regional curda.

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A opressão contra os curdos tem raízes nos tempos do velho império turco-otomano e continuou quando este foi desmantelado após a Primeira Guerra Mundial e a Turquia ficou reduzida a seu território atual. Ela foi mantida mesmo quando a fração político-militar burguesa encabeçada por Mustafá Kemal Ataturk derrubou a monarquia e fundou a República turca, em 1920, sobre bases laicas. Além da promessa não cumprida de lhes conceder autonomia regional, os curdos continuaram sendo muito oprimidos, discriminados e reprimidos neste país. Embora tenha direitos políticos como cidadãos, o Estado turco não reconhece a existência de uma região curda, mas a considera parte das regiões da Anatólia do Leste e do Sudeste, e não permite o uso do curdo como idioma oficial ou como segundo idioma. Além disso, discrimina-os economicamente: o desemprego nas regiões curdas é cinco vezes a média nacional.

Existe uma burguesia curda que participa das atividades econômicas que lá se desenvolvem. Sua principal expressão política é o Partido Popular Democrático ou pela Paz e a Democracia (HDP), organização legal que tem muitos deputados no parlamento turco.

No entanto, a organização política de maior peso na base é o PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão). Esta organização foi fundada em 1978 com uma ideologia que combinava a influência política e organizativa do maoísmo com o nacionalismo curdo. Seu principal líder é Abdulah Occalam (chamado Apo por seus seguidores). Em 1984, ele iniciou a luta armada contra o Estado turco, foi declarado ilegal e considerado “terrorista”. Occalam está preso desde 1999. E, a partir da prisão, ele continua liderando sua organização, que se espalhou para os outros países onde vivem os curdos (Síria, Iraque e Irã), embora com outros nomes (por exemplo, o PYD de Rojava).

Apo e sua corrente giraram ideologicamente à direita e adotaram uma concepção (que denominam “confederalismo democrático”) pela qual abandonaram a luta por um Estado curdo unificado e agora se limitam a reivindicar autonomias regionais nos países já citados. Mesmo na prisão, ele aceitou a proposta de negociações secretas oferecidas pelo governo de Erdogan e que se realizaram de modo intermitente, mas sem nenhuma aproximação de posições.

O PKK permaneceu como uma organização militarizada que continua proibida e considerada “terrorista”.

Os governos de Erdogan

Recep Erdogan, fundador e líder do AKP (Partido da Justiça e o Desenvolvimento, uma organização burguesa de ideologia islâmica moderada), chegou ao poder no início de 2003, após derrotar os partidos laicos kemalistas. Desde então, depois de várias eleições, ele permanece no poder, seja pelo seu próprio peso ou através de diversas alianças parlamentares. Em 2016, Erdogan enfrentou e derrotou uma tentativa de golpe de Estado, um fato aproveitado por ele para perseguir e encarcerar numerosos opositores políticos e sindicais, dando um giro ainda mais bonapartista em seu regime político.

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Desde o início, Erdogan e o AKP se postularam como um setor islâmico pró-ocidental, um aliado capaz de atuar como um elo entre a Europa (e os EUA) e o mundo árabe muçulmano. Seus governos mantiveram o país como membro da OTAN (que a Turquia integra desde 1952). A aliança militar das “potências ocidentais” tem no país a base aérea de Incirlik (com 5.000 pilotos e técnicos norte-americanos) e várias bases terrestres.

Em termos econômico-políticos, principalmente a partir de 2004, seus governos procuraram acelerar e concretizar a velha aspiração da burguesia turca de integrar a União Europeia. Mas essa aceitação foi adiada pelo receio de alguns de seus países membros. Uma das objeções é a política do AKP sobre os “direitos humanos” e principalmente para com as minorias nacionais (curdos e outros). A UE não quer “comprar” o conflito com os curdos e transformá-lo em um “problema europeu”.

As coisas complicaram-se ainda mais depois de um incidente diplomático com a Holanda em 2017, onde o ministro de Relações Exteriores da Alemanha declarou que “a Turquia está mais longe do que nunca de ser membro da UE” (4).

Em uma tentativa de desbloquear a questão dos curdos, Erdogan autorizou a legalização do HDP, em 2012, e a atuação dentro dele da organização curda PAD (Partido Democrático das Regiões). O HDP conseguiu bons resultados eleitorais (sempre supera a cláusula de barreira de 10%) e é o terceiro partido do parlamento turco, com dezenas de deputados (muitos deles curdos). Mesmo nas eleições em que o AKP não conseguiu maioria parlamentar, apoiou a formação de um novo governo de Erdogan, embora sem nunca integrá-lo diretamente.

Ao mesmo tempo, Erdogan abriu negociações com o PKK: representantes do AKP realizaram reuniões com Occalam na prisão. O objetivo de Erdogan era que o PKK abandonasse as armas e se transformasse em um partido legal, ao estilo do HDP. No entanto, a recusa do governo turco de conceder qualquer autonomia aos curdos impediu uma aproximação e, como vimos, o PKK permaneceu militarizado.

Uma questão adicional importante: a atual burguesia turca é herdeira de uma burguesia que perdeu seu império, mas, em um nível inferior, aspira desempenhar um papel político de “potência regional” como aliada subordinada da Europa e dos Estados Unidos. Por isso, tenta ter política para os países vizinhos (especialmente Iraque e Síria, com os quais tem “fronteiras curdas”). Mediante essa aspiração, mantém uma disputa de influência com o regime dos aiatolás iranianos.

O processo de Rojava acentua todas as contradições

Uma das principais questões a que burguesia turca enfrenta é o “problema curdo” e, neste sentido, a dinâmica da autonomia de Basur e Rojava é muito importante.

A existência de Basur não significou nenhum problema. O governo de Barzani e o PDK tornaram-se sócios econômicos e políticos de Erdogan, pois lhe fornecem quase todo o petróleo que a Turquia necessita, enquanto a burguesia turca investe em Basur. Como reflexo disso, Erdogan recebeu Barzani em Ancara com honras de chefe de Estado. Além disso, Barzani desempenha um papel “pacificador” na burguesia e nos setores médios curdos da Turquia, a quem incentiva a se integrar às “instituições” através do HDP (5).

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Ao contrário, Rojava é um fator profundamente desestabilizador da situação. Objetivamente, o triunfo em Rojava é um fator que incentiva a luta dos curdos na Turquia. A burguesia turca também está particularmente preocupada com o papel de liderança e influência do PKK em ambos os lados da fronteira (uma perigrosa “fronteira curda armada”).

É por isso que a política de Erdogan foi, inicialmente, alentar e apoiar o ISIS em seus ataques aos curdos. Mas a política dos EUA (que depois analisaremos mais profundamente) foi enfrentar o ISIS e armar os curdos de Rojava como sua principal força de apoio nessa tarefa. Isto significou o “alerta vermelho” para Erdogan, cujo governo afirmou que uma parte das armas entregues às YPG acaba nas mãos das milícias do PKK na Turquia.

Mais tarde, Erdogan entendeu que o ISIS estava sendo irremediavelmente derrotado, enquanto as YPG e sua extensão, as FDS, fortaleciam-se. Nesse contexto, tomou duas decisões. A primeira e principal foi intervir militarmente de forma direta contra Rojava. A segunda, subordinada à primeira, foi fazer um acordo conjuntural com a Rússia (com quem havia se confrontado com a violação do espaço aéreo turco por aviões russos em seu trajeto para a Síria) para “autorizar” aquelas operações. Esse acordo com o governo de Putin foi definido no chamado “consenso de Sochi” (6).

Esta não é a primeira incursão turca contra os curdos em território sírio. No final de 2016, realizaram a operação “Escudo de Eufrates” para “bloquear” o corredor que os curdos tentavam construir entre Afrin e Jazira. O objetivo foi conseguido e as forças aliadas aos turcos ficaram com o controle da cidade síria de Yarabulus e outros povoados menores.

A operação “Ramo de Oliveira” foi definida em resposta ao anúncio de que as YPG-FDS (depois de terem derrotado e expulsado o ISIS de Racqa) concentrariam 30.000 combatentes nessa fronteira (com o aparente aval dos EUA). Representa uma continuidade da política que, de acordo com o próprio governo turco, visa formar uma “faixa de segurança” em território sírio, de uns 30 km de largura, e ao longo de toda a fronteira até o limite com o Iraque, e assim obrigar as forças curdas (e a própria população) a “afastar-se” da Turquia.

Existem dois outros fatores que incidem nesta política de Erdogan. O primeiro é que ele permitiu gerar “fatos consumados” que obrigam o imperialismo norte-americano a escolher entre um aliado histórico, confiável e de muito maior peso regional (Turquia) e um aliado conjuntural e mais perigoso (as YPG-FDS). As declarações de Erdogan não deixam espaço para dúvidas: “Os EUA entenderão que não vão encontrar melhor aliado que a Turquia para trabalhar juntos na região. Tudo parece indicar que essa aposta está dando resultado.

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O segundo fator, secundário, mas real, é a intenção de Erdogan e do AKP de se fortalecer internamente face às eleições de 2019, aproveitando o sentimento nacionalista turco. Por exemplo, já conseguiu que os dois partidos de oposição, o direitista MHP e o “socialdemocrata” CHP apoiem sua política na Síria.

Os zigue-zagues dos EUA em território pantanoso

É impossível compreender o complexo panorama de forças do Oriente Médio e da Síria em particular, e sua profunda instabilidade atual, sem analisar como um dos elementos mais importantes a atual situação político-militar do imperialismo norte-americano na região.

A derrota do projeto do “Século Americano” do ex-presidente George W. Bush nas guerras e ocupações do Iraque e do Afeganistão gerou no imperialismo norte-americano o que seus próprios analistas chamaram de “síndrome do Iraque” (análogo ao que emergiu após a derrota no Vietnã, em 1974). Ou seja, a enorme dificuldade de realizar ações militares em grande escala em outros países porque acabam se transformando em ocupações permanentes e em guerras de libertação dos povos da nação ocupada, com resultados geralmente desfavoráveis em médio prazo (7). Por exemplo, após a retirada do exército norte-americano, o Iraque ficou dividido em três regiões, enquanto no Afeganistão, embora as tropas norte-americanas ainda mantenham um governo fantoche em Cabul, a maior parte do território é controlada pelos talibãs ou chefes tribais regionais.

Esta derrota obrigou o imperialismo a adaptar sua política: só poderia realizar operações militares muito limitadas (ações aéreas rápidas, apoio com armas e instrução militar a forças locais) ou “terceirizar” as intervenções, como a ação das forças armadas da Arábia Saudita no Iêmen e Bahrein. Juntamente com isso, também foi obrigado a fazer alguns acordos um tanto “oblíquos” segundo uma lógica simplista ou maniqueísta. Por exemplo, com o regime dos aiatolás iranianos, sempre considerado como “inimigo” (política iniciada pelo próprio Bush e aprofundada por Obama), para manter um governo central iraquiano em Bagdá.

Assim, em 2011, estoura o processo da revolução árabe que derruba ou ameaça derrubar regimes amigos (como o da Tunísia ou o dos militares egípcios), que se estende à Síria contra a ditadura de Bashar al-Assad (e a resposta de uma repressão genocida por parte do regime sírio acaba se transformando em uma guerra civil). Os Assad eram velhos “inimigos”, mas estavam cada vez mais próximos do Ocidente e, em especial, de Israel.

Considerando a debilidade imperialista na região, Obama realiza um jogo complexo: por um lado, apoiar a oposição síria (principalmente seus setores mais pró-imperialistas), mas sem dar-lhes muitas armas; pelo outro, forçar uma saída negociada entre “ambas as partes” e, se possível, sem a figura de Assad.

A situação na Síria tornou-se cada vez mais complexa por várias razões. Em primeiro lugar, os curdos passam a controlar política e militarmente a região de Rojava. Em segundo lugar, diante do que parecia ser uma queda rápida do regime de Assad, o governo russo de Putin envia aviões, homens e armas, e instala bases militares para defendê-lo (tarefa na qual o regime iraniano e a milícia libanesa xiita Hezbollah já estavam colaborando). Graças a esse apoio externo, o regime sobrevive e começa a contra-atacar os “rebeldes”.

O ISIS complica ainda mais a situação

A situação acabou de se complicar ainda mais pelo surgimento do ISIS que, do Iraque, avança e se apropria do território sírio, criando uma faixa contínua até Racqa. O ISIS expressa uma fração burguesa (possivelmente encorajada pela Arábia Saudita) que procurou se aproveitar da fragmentação e do “caos” do Iraque e da Síria para “redesenhar o mapa” da região, criar seu próprio Estado e controlar áreas petrolíferas, disfarçando este objetivo com uma ideologia ultrarreligiosa e antiocidente. No Iraque, conseguiu alguma base social na população sunita, perseguida pelo governo xiita de Bagdá, mas um setor importante de seus combatentes veio de vários países muçulmanos. Na Síria, pelo contrário, representava um elemento totalmente artificial e estranho (8). Naquele momento (2014-2015), o governo de Obama definiu que o ISIS era o inimigo que precisava ser eliminado de imediato para “tirá-lo da equação”.

Uma parte importante do plano de expansão e consolidação do ISIS na Síria foi o violento ataque à região curda de Kobane. O governo de Obama apoiou as YPG com armas e assessores militares, mas o principal fator que impingiu uma dolorosa derrota ao ISIS foi a heroica resistência do povo curdo (9).

O aprofundamento da política de aliança com as YPG curdas (e a criação das FDS) foi então a política escolhida por Obama para expulsar o ISIS de Racqa e de outras regiões da Síria. A recente expulsão do ISIS daquela cidade (e sua liquidação virtual como força militarmente efetiva em território sírio) mostrou que a escolha de Obama deu o resultado esperado.

E agora com Trump?

Donald Trump chegou ao governo criticando a política externa de Obama e prometendo “tornar a América forte de novo. Mas, entre suas intenções de endurecer essa política e a possibilidade de fazê-lo está a realidade que analisamos. Portanto, sua política geralmente parece oscilante e até mesmo contraditória.

Por exemplo, ele começou a “dinamitar as pontes” que Obama construiu com o regime iraniano, mas, ao mesmo tempo, deu muita importância ao relacionamento com o governo de Putin (do qual o governo iraniano é um forte aliado) para colaborar com a “pacificação” da região.

Na Síria, ele permitiu que Assad, apoiado por Putin, impusesse duros golpes militares aos rebeldes. Mas, quando o “contato russo” transformou-se num problema de política interna norte-americana, ordenou um bombardeio quase simbólico contra o regime de Assad.

Recentemente, declarou que seu governo reconhecia Jerusalém como a capital de Israel, algo que irritou a todos os árabes (amigos ou inimigos) e seus próprios parceiros europeus, sem que ficassem claras as razões nem os objetivos de fazer esta declaração naquele momento.

Apesar dessas oscilações, manteve a continuidade da política de Obama sobre o tema dos curdos em seu primeiro ano. E aprofundou-a, apoiando as YPG-FDS com armas no ataque e na tomada de Racqa. Ao mesmo tempo, procurou utilizar a autonomia de Basur para hostilizar a influência do Irã sobre Bagdá. Finalmente, tudo indica que deu o aval ao anúncio curdo de que as YPG-FDS concentrariam 30.000 combatentes na fronteira com Turquia. Várias informações indicam que, inclusive no próprio meio de Trump, havia aqueles que apontavam que essa política significava “brincar com fogo”, pelo caráter do PKK-PYD e pela deterioração das relações com o governo turco de Erdogan.

Uma mudança de rumo?  

Assim, o governo de Erdogan “chuta o pau da barraca” e o obriga a escolher um dos dois aliados. Tudo indica que optou pela Turquia e Erdogan, um aliado bem mais sólido e confiável, e que ele está deixando os curdos de Rojava à sua própria sorte.

Após o ataque turco, Rex Tillerson (secretário de Estado do governo Trump e responsável pelas relações exteriores) declarou: “Estamos comprometidos com a Turquia… e veremos o que podemos fazer para trabalhar juntos para atender suas legítimas preocupações de forma satisfatória” (10). Em sintonia, o Secretário Geral da OTAN, Jens Stoltenberg, declarou que: “A Turquia é um dos membros da OTAN que mais sofreu com o terrorismo”.

A realidade é que Trump e os EUA (embora não tenham sido consultados antes) deixam correr o ataque turco; não apoiarão a resposta dos curdos e os “aconselham” a retroceder. Inclusive, há informações de que, por baixo dos panos, comprometeram-se perante o governo turco a deixar de entregar armas às YPG/FDS (12).

Em outras palavras, tudo indica que o governo Trump está dando um giro em sua política na Síria (e na região), restabelecendo os laços com a Turquia e, como dissemos, deixando os curdos (pelo menos em Afrin) entregues à sua própria sorte.

O papel contrarrevolucionário de Putin

Outro elemento central para compreender esta complexa situação é o papel do governo Putin e da Rússia. Após a restauração do capitalismo e a queda da URSS e do aparelho stalinista internacional, a Rússia retrocedeu na hierarquia internacional das nações e em sua capacidade de influenciar os processos políticos no mundo. No aspecto econômico-financeiro, por exemplo, é muito dependente da Europa e dos Estados Unidos.

Nesta situação de declínio, o governo de Putin procura defender espaços de influência; principalmente nas repúblicas da ex-URSS e em algumas outras do “ex-mundo socialista” (como Ucrânia e Sérvia), embora também procure alianças com regimes como o iraniano. Apoia-se para isso no próprio enfraquecimento dos imperialismos ocidentais, suas contradições e os “vazios que deixam”. Mas, centralmente, sustenta-se no poderio militar herdado da ex-URSS.

No caso da Síria, desde o início do processo revolucionário em 2011, sempre apoiou sem ambiguidades a ditadura genocida de Bashar al-Assad contra os rebeldes e forneceu-lhe muito armamento. A partir de setembro de 2015, começou uma intervenção militar direta, que atualmente é expressa em alguns milhares de soldados e armas terrestres e em uma forte presença da força aérea. A desculpa foi “ajudar o governo de Assad a combater o ISIS”. Mas a realidade é que este apoio visa combater as forças rebeldes da Síria e expulsá-las das áreas que controlam.

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Em relação ao papel das forças russas na guerra civil síria, a Rede Síria de Direitos Humanos denunciou que “desde o início da intervenção russa em apoio ao regime genocida de Bashar al-Assad, em setembro de 2015, até 31 de dezembro de 2017, sua aviação matou 5.783 civis (entre eles 1.596 crianças)… além de 817 ataques a instalações civis (das quais 141 eram instalações médicas)” (13).

A cumplicidade de Putin com o ataque turco

Como parte do consenso entre Trump e Putin, houve um acordo implícito que estabelecia “áreas de responsabilidade” a oeste (Rússia) e a leste (EUA) do rio Eufrates, para evitar confrontos diretos entre suas forças ou entre seus aliados. A região de Afrin fica a oeste do rio, isto é, sob “responsabilidade russa”.

Fica muito claro que o governo de Putin deu sinal verde para o ataque turco (possivelmente desde as reuniões de Sochi) e agiu em conformidade: liberou o espaço aéreo sobre Afrin para o ataque e fez retroceder suas forças terrestres para evitar choques com os turcos. Sobre este acontecimento, a agência Al Jazeera relata: “As sementes da operação ‘Ramo de Oliveira’ foram plantadas no último verão, durante as conversações entre o ministro da Defesa russo, Sergei Shoigu, e o chefe do Estado Maior turco, Hulusi Akar, em Istambul. Como resultado dessas conversas, Moscou deu seu consentimento para o uso parcial do espaço aéreo sírio para a Força Aérea turca, abrindo caminho para a ofensiva da Turquia sobre Afrin” (14).

Para o PYD/PKK, isso representa outra “decepção”, pois consideravam o governo de Putin e as forças russas na Síria como “protetoras”. Agora, chocam-se contra a dura realidade. O General Sipan Hemo, comandante das YPG declarou: “A Rússia traiu os curdos… Chegará o dia em que a Rússia terá que pedir desculpas por falta de princípios” (15).

Na verdade, não se trata de “falta de princípios” de Putin, mas do jogo permanente de um líder burguês em defesa dos interesses de sua burguesia e de seu Estado. Uma nova amostra da “cegueira estratégica” do PYD/PKK em suas alianças e naqueles que depositaram sua confiança.

E quanto a Assad…

Como Bashar al-Assad e seu regime enfrentam este ataque? Nos anos imediatamente depois de 2011, Bashar ficou encurralado, perdeu o controle de uma parte importante do território sírio e estava prestes a cair ante a ofensiva militar dos rebeldes. Sobreviveu graças à “ajuda externa”: as milícias libanesas de Hezbollah e o envio de armas pelo Irã e Rússia.

Como vimos, em 2015, as forças militares russas entraram diretamente na guerra e permitiram uma forte ofensiva até o leste, que destruiu as forças rebeldes em muitos dos territórios que dominavam e fragmentou-as ao extremo.

Do ponto de vista formal, o ataque turco é uma violação à soberania da Síria. Neste sentido, al-Assad e seu regime agiram formalmente, declarando que responderiam militarmente ao ataque. Mas, de fato, eles não fizeram nada e sequer pediram a Putin para detê-lo.

Embora pareça contraditório, Bashar al-Assad beneficia-se do ataque turco. A trégua que ele estabeleceu com os curdos foi circunstancial: serviu para se concentrar no combate às forças rebeldes, ao mesmo tempo em que os curdos impediram o avanço do ISIS na Síria.

Mas, apoiado pelos EUA, as YPG/FDS fortaleceram-se militar e territorialmente. Essa é uma ameaça estratégica para seu regime e para suas aspirações de recuperar o controle de todo o território sírio.

Sob as atuais condições, o ataque turco e seu triunfo são a melhor opção. Não só porque enfraqueceria as forças curdas e as forçaria a retroceder, mas porque interrompe a aliança entre os EUA e as YPG/FDS.

Algumas considerações finais

Definimos a situação da Síria como um complexo “polígono de forças”. Essas forças intervêm e definem sua política em uma combinação de interesses estratégicos e necessidades conjunturais e concretas. O “tabuleiro sírio” não só muda constantemente nos domínios territoriais que cada setor possui, mas também nas alianças e acordos que estão se configurando. Nesse jogo, nunca devemos esquecer que, como no xadrez, existem reis, bispos e peões.

Portanto, devido à sua complexidade, se olharmos objetivamente, uma coisa é clara: por trás do ataque turco estabeleceu-se um acordo contrarrevolucionário entre Erdogan, Putin, Trump, Assad, e os aiatolás iranianos contra os curdos. De certa forma, é o mesmo acordo que ajudou a infligir fortes derrotas a uma parte importante dos rebeldes sírios e fortalecer al-Assad. Lamentavelmente, alguns batalhões do ELS que atuam como “tropas terrestres” dos turcos também se somaram nessa frente contrarrevolucionária.

É uma conclusão que os curdos necessitam tirar: as “grandes peças” (EUA e Rússia) fazem seu próprio jogo em defesa de seus interesses, e os “peões” sempre podem ser sacrificados.

É preciso entender que o fim da opressão que sofrem e a conquista de seu próprio Estado nunca serão alcançados pelas mãos de Obama-Trump ou de Putin. Embora possam aproveitar suas contradições, eles serão sempre estrategicamente seus inimigos, e sempre preferirão manter no jogo os seus “bispos” (como Assad, Erdogan ou os aiatolás iranianos) e não os peões. E a política de alianças seguida pelo PYD/PKK levou-os a essa situação.

A luta dos curdos só poderá triunfar, em primeiro lugar, com a unidade do próprio povo curdo, independentemente do país em que são oprimidos. É necessário exigir que os peshmergas de Basur venham em defesa de seus irmãos em Afrin. É necessário exigir que as milícias do PKK na Turquia (na medida de suas possibilidades) passem das meras declarações e apoiem os curdos de Rojava, do outro lado da fronteira.

Em segundo lugar, é muito importante que os curdos de Rojava compreendam que a política seguida pelo PYD-YPG-FDS (fazer uma trégua com Assad e atacar batalhões dos rebeldes sírios e populações controladas por eles) foi um crime político, que agora se volta dramaticamente contra eles. É necessário que façam um giro de 180º em sua política e procurem imprescindivelmente uma aliança com os setores mais progressistas das forças opositoras a Assad, e que essas forças levem adiante uma política no mesmo sentido.

Acreditamos que o que escrevemos em nosso artigo em outubro último permanece vigente. “Esta colaboração na luta entre os curdos e os árabes sírios contra o regime de Assad não é apenas possível, mas é imprescindível para que ambos os setores triunfem. No caso dos curdos da Síria, é o único caminho real para alcançar sua autodeterminação e, até mesmo, para defender a autonomia regional que conquistaram. No caso da oposição síria, é absolutamente necessário superar o momento muito difícil que vive a revolução. As políticas que vão contra essa unidade (provenientes de setores da oposição síria ou dos partidos curdos) são um duplo crime. Por um lado, contra o processo revolucionário sírio como um todo e, pelo outro, contra o destino dos curdos da Síria. Por isso, devem ser combatidas”.

Após essa extensa análise, queremos terminar reafirmando nossa posição: apoiamos e defendemos o campo militar dos curdos contra o ataque turco. Por essa razão, chamamos a realizar uma grande campanha internacional unitária por esse ponto.

Notas:

(1) http://www.aljazeera.com/news/2018/01/turkey-battles-syrian-kurds-fronts-afrin-180123075112364.html

(2) http://elcoyote.org/combates-e-bombardeios-continuam-intensos-em-afrin-curdos-acusam-russia-de-cumplicidade/

(3) https://litci.org/es/menu/teoria/sobre-la-lucha-del-pueblo-kurdo/

https://litci.org/es/menu/mundo/medio-oriente/siria/rojava-kurdistan-sirio-un-estado-burgues-atipico-parte-1/

https://litci.org/es/menu/mundo/medio-oriente/kurdistan/rojava-kurdistan-sirio-las-alianzas-peligosas-del-pyd/

(4)https://www.luna.ovh/planeta/es/Adhesi%C3%B3n_de_Turqu%C3%ADa_a_a_Uni%C3%B3n_Europea

(5) https://litci.org/es/menu/mundo/medio-oriente/kurdistan/masivo-plebiscito-la-independencia-basur-kurdistan-iraqui/

(6) Reuniões realizadas na cidade russa de Sochi, nos últimos meses de 2017, entre os governos da Rússia, Irã e Turquia para discutir políticas comuns de intervenção na Síria.

(7) Sobre este tema, ver o artigo “Reação democrática: da síndrome do Vietnã à síndrome do Iraque” no Correio Internacional n° 16 (Janeiro 2017) e no site https://litci.org/es/menu/lit-ci-y-partidos/publicaciones/correo-internacional/la-reaccion-democratica-del-sindrome-de-vietnam-al-sindrome-de-irak/

(8) Para uma análise mais completa do ISIS, EI (Estado Islâmico) ou Daesh (como o denominam os árabes) ver: https://litci.org/es/menu/mundo/medio-oriente/irak/un-ano-de-califato-en-irak-y-síria/

(9) https://litci.org/es/menu/mundo/medio-oriente/siria/la-victoria-del-povo-kurdo-en-kobane/

(10) https://lta.reuters.com/article/worldNews/idLTAKBN1FG0E8-OUSLW

(11) https://www.aljazeera.com/news/2018/01/turkey-stop-ypg-support-face-confrontation-180125182540759.html

(12) https://br.sputniknews.com/americas/2018012210338995-eua-turquia-operacao-militar-síria/

(13) http://sn4hr.org/blog/2018/01/27/51291/

(14) http://www.aljazeera.com/indepth/opinion/russia-helping-turkey-afrin-180125122718953.html

(15) Idem.

Tradução: Rosangela Botelho