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Na semana passada, um ataque de drones afetou fortemente a capacidade de extração de petróleo da Arábia Saudita, seguida por um aumento de até 20% no preço internacional do barril.

Por: Alejandro Iturbe

O ataque foi reivindicado pelo grupo político religioso houthi que, no Iêmen (país localizado ao sul da Península Arábica), luta contra o governo central sustentado pelas tropas sauditas [1]. Afetou severamente as instalações dos campos de Abqaiq e Khurais, com os mais altos níveis de produção na Arábia Saudita. O resultado é que o fornecimento diário de petróleo saudita aos mercados internacionais caiu para menos da metade, uma redução equivalente a 5% do total mundial. Estima-se que levará vários meses para normalizar a produção [2].

A partir desse fato, começaram as especulações sobre o ataque. A tecnologia usada pelos houthies é bastante sofisticada, capaz de atingir com precisão alvos a mais de 1.000 km do ponto de lançamento. Nesse sentido, o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, acusou o regime iraniano de estar por trás do fato. As autoridades de Teerã negaram estar envolvidas [3].

É uma questão muito confusa. É verdade que os regimes da Arábia Saudita (intimamente ligados ao imperialismo dos EUA) e do Irã (com fortes relações com Putin e Rússia) mantêm uma forte disputa para ser o “poder regional”. É por isso que o Irã apoia os houthies no Iêmen. Também é verdade que o imperialismo o sancionou para conter seu desenvolvimento nuclear.

No entanto, o regime iraniano busca há anos um diálogo e pactos com o imperialismo dos EUA para estabilizar sua localização na “ordem mundial”. Isso foi expresso no pacto assinado com o governo de Barack Obama em 2015, pelo qual o Irã aceitou os controles imperialistas nesse campo.

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O governo Trump anulou esse acordo e voltou a tensionar a relação. Mas o regime iraniano respondeu com um chamado para “retomar o diálogo”, como expressou na viagem surpresa do seu ministro das Relações Exteriores à recente cúpula do G7 em Biarritz (França) para solicitar a mediação dos outros governos imperialistas [4 ]. Nesse contexto, é improvável que tenha sido o governo de Teerã (que não tem nada de antiimperialista) que conduziu esse ataque.

Outro campo de especulação é sobre os “vencedores e perdedores” que estariam no cenário internacional após o ataque. Um analista coloca entre os “perdedores” a Arábia Saudita, a China e o Irã, por diferentes razões, e entre os “vencedores” os Estados Unidos, a Rússia e outros países produtores de petróleo, agrupados na OPEP [5].

Fora dessas considerações políticas e econômicas, este mesmo artigo expressa que “consumidores” também “perderão”, uma vez que o aumento do preço internacional do petróleo passará rapidamente para o dos combustíveis, o que afetará seu poder de compra.

O preço internacional do barril, que estava em média de pouco mais de 60 dólares, subiu rapidamente para 70, e não está descartado que, nos próximos meses, possa chegar a 100. As grandes empresas petrolíferas aproveitam essa situação como abutres para aumentar seus lucros sem ter que investir um único dólar adicional.

Entre outras conseqüências, esse aumento de preço provavelmente terá duas. A primeira é uma provável aceleração da dinâmica recessiva na qual está indo a economia mundial. [7]. A outra é o novo ataque aos padrões de vida dos trabalhadores e das massas que esse aumento implica, e a possível resposta a eles. Lembremos que o processo dos coletes amarelos na França começou por um aumento anterior no preço da gasolina. Hoje estamos começando a ver a primeira reação no Haiti, onde ocorre uma greve geral contra a falta de combustível [7].

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[1] Sobre este tema ver: https://litci.org/es/menu/mundo/medio-oriente/yemen/invasion-terrestre-en-yemen/  y https://litci.org/es/archive/la-revolucion-avanza-en-yemen/

[2] Ver https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2019/09/entenda-os-ataques-a-instalacoes-de-petroleo-na-arabia-saudita.shtml y https://www.bbc.com/mundo/noticias-internacional-49690725?fbclid=IwAR0wZhbn2TBXIF7w8xd9PY7SLFyPMHey_7x-Y-i6DMx52HQenIX4x26VpnA

[3] Ídem

[4] https://www.youtube.com/watch?v=ZPK_4t3VPsw

[5] https://www.lanacion.com.ar/el-mundo/quienes-son-los-ganadores-y-perdedores-del-ataque-al-corazon-petrolero-de-arabia-saudita-nid2288436

Tradução: Vitor Jambo.