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O acesso das grandes corporações das principais potências ocidentais aos recursos naturais, empresas e força de trabalho de países economicamente mais frágeis, junto à possibilidade de remeter para fora lucros destes países, sempre foi uma característica central da ordem mundial imperialista. A penetração de capitais ocidentais em países mais débeis conduz à submissão destas economias em relação às potências imperialistas, à sua colonização passo a passo, ao crescimento do saque e empobrecimento da população. Exatamente este permanente saque do globo terrestre por um punhado de estados imperialistas (os centros do capital financeiro mundial) é a expressão fundamental do imperialismo.

Por: I. Razin

Os estados imperialistas disputam o acesso de suas corporações aos recursos de outros países, possuindo instituições especiais para isso. Por exemplo, na Alemanha atua o Comitê Oriental da Economia Alemã (Ost-Ausschuss der Deutschen Wirtschaft), cuja tarefa, como está no próprio nome, é ampliar o espaço vital do capital alemão no Leste Europeu. Ou seja, garantir que os territórios do Leste, através da penetração e ramificação das corporações financeiras alemãs, se tornem território livre para estas. Não é segredo quem está no campo de visão deste «Drang nah Osten» [“Marcha sobre o Leste”, o lema de Hitler para invadir a URSS – NdR] do capital monopolista alemão, porque mesmo depois da 2ª Guerra Mundial, o Leste segue no Leste.

Por iniciativa deste Comitê Oriental da Economia Alemã, o sr. Putin recebeu em 12 de outubro último, na cidade russa de Sochi, os chefes e donos das principais corporações alemãs. Em seu inflamado discurso, ele disse que: “Nós estamos prontos para criar todas as condições para que os empresários estrangeiros se sintam confortáveis no mercado russo. Em estreita colaboração com o círculo dos negócios, continuamos aperfeiçoando nossa base legal, práticas legais, estamos eliminando barreiras administrativas excessivas, investindo recursos no desenvolvimento da infraestrutura e, obviamente, na formação de pessoal qualificado. Contamos com que as empresas alemãs sigam atuando em nosso território… Na Rússia se abrem novas possibilidades para os negócios em geral e para os nossos amigos externos, incluindo os da Alemanha”.

Ou seja, o “Líder Nacional” não somente se reuniu com os grandes capitalistas alemães (os amigos externos), como literalmente os recebeu de braços abertos, chegando a prometer adaptar a legislação do país aos interesses dos monopólios e criar para eles, com dinheiro público obviamente, toda a infraestrutura necessária para seus negócios, quer dizer, pavimentar o caminho para eles.

Se poderia ter alguma esperança em que, analogamente às promessas de Putin de “florescimento” do povo russo, as promessas aos capitalistas ocidentais tampouco sejam cumpridas. Porém há um fato: o capital financeiro alemão já penetrou profundamente na economia russa: as turbinas Siemens e o controle desta empresa sobre o que restou da indústria de máquinas geradoras russa; na telefonia móvel, sistemas de comunicação e demais equipamentos; os trens com os lindos nomes russos “Sapsan” e “Lastochka” também são Siemens, assim como o controle financeiro e tecnológico nos setores de construção de trens; os automóveis alemães, importados e montados na Rússia, além de outras empresas alemãs por todos os lados: material de construção Knauf, Basf na indústria química, METRO no varejo de alimentos e ainda a extração e envio do gás siberiano pela Alemanha. Não é por casualidade que o ex-chanceler alemão Gerad Shroeder se tenha tornado, desde 29 de setembro deste ano, Presidente do Conselho de Diretores da “estatal” Rosneft, a principal petroleira russa. Esta lista de exemplos se estende ad infinitum. E se somam ainda às enormes dívidas das empresas russas junto aos bancos alemães (e demais bancos ocidentais) e o envio anual à Alemanha de bilhões de dólares em juros e lucros. Não por acaso, o Secretário de Imprensa da Câmara de Comércio Exterior Russo-Alemã, sr. Kneltz, comentando o encontro acima citado, tenha achado por bem exibir-se anunciando os próximos alvos dos capitalistas alemães: “O sucesso dos negócios alemães se baseia no planejamento estratégico de longo prazo. Os investidores alemães planejam não para um bimestre ou ano, mas na perspectiva de 10, 20 ou mais anos”.

Ou seja, em relação às promessas feitas aos proprietários das corporações ocidentais, se pode dizer que o “Líder Nacional” as cumpre muito bem! Mas entre o cumprimento das promessas aos capitalistas ocidentais e o não-cumprimento das promessas ao povo russo há uma importante relação: um está em oposição ao outro, já que numa colônia ou semicolônia, com o aumento da opressão do capital externo, ninguém pode viver bem. Obviamente, com a exceção dos governantes coloniais e seus amigos, os grandes burgueses (que na prática significam a mesma coisa). E o justo pessimismo dos trabalhadores russos em relação a seu nível de vida futuro, não é nada mais que o outro lado da moeda do otimismo dos burgueses alemães, incentivado por Putin.

«Drang nah Osten» pode ocorrer não somente através de tanques. Afinal, os tanques não são um fim em si mesmos, são somente um meio para apropiar-se da riqueza do país, transformá-lo em colônia (ou semicolônia). Se nos territórios sob cuidado do Comitê Oriental da Economia Alemã há um governo, pronto para receber os capitalistas alemães de braços abertos, os tanques deixam de ser necessários; neste caso o próprio governante do país cumpre o papel de tanque. E se além disso o governo ainda tem a capacidade de se apresentar ao povo como um grande patriota, vendendo a entrega do país como um “Reerguimento Nacional”, então melhor ainda para os “amigos externos”: mais difícil fica para o povo ir à luta contra a colonização do país e contra o regime/governo que a aplica.

O sentido deste “Reerguimento Nacional” de Putin foi muito bem resumido no “Fórum Econômico Eurasiático” realizado em outubro último, pelo já citado novo Presidente do Conselho de Diretores da Rosneft, o ex-Chanceler da Alemanha, Shroeder: “O interesse da Europa e da Alemanha é que a Rússia floresça. Por duas razões: para nós, em especial para a Alemanha, é necessário o mercado russo; e além disso, necessitamos dos recursos naturais e humanos para a nossa indústria”. Resumindo: “Nós necessitamos de uma colônia”.

As consequências da colonização da Rússia já se sentem no dia-a-dia e vem crescendo (uma vez mais: numa colônia, o povo trabalhador simplesmente não pode viver bem). Por isso a única saída é ir à luta contra o regime da FSB (ex-KGB – NdR) e dos grandes proprietários dirigido por Putin, responsável pela colonização em curso no país.

Trabalhadores! O regime de Putin serve aos interesses dos grandes proprietários russos, burocratas e seus “amigos externos” – os donos do capital monopolista ocidental. Juntos, eles passo-a-passo vem conduzindo a Rússia no caminho de se tornar uma colônia. O aumento da pobreza entre o povo trabalhador é reflexo disso. Melhorar a vida dos trabalhadores exige dar um fim a este regime da FSB e grandes proprietários, expropriar a eles e ao capital ocidental, para dar um fim à dependência do país!