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Dia 26 de março, de acordo a distintas fontes, entre 10 e 30 mil pessoas novamente saíram às ruas em protesto na Ingushétia. Mesmo 10 mil pessoas já é um número enorme para esta pequena república do Cáucaso russo, com cerca de 3.000 km2 e menos de 500 mil habitantes.

Por: POI – Partido Operário Internacional (Rússia)

É a segunda manifestação em menos de 6 meses. A primeira foi em outubro passado, quando os líderes pró-Putin das repúblicas da Tchetchênia e da Ingushétia, Kadyrov[1] e Evkurov, pelas costas de seus povos, assinaram um acordo sobre a transferência para a Tchetchênia de um pedaço de entre 7 e 10% da Ingushétia, uma república por si mesma já minúscula. O acordo foi assinado à revelia inclusive da Constituição da Ingushétia, que determina que para tais questões é necessária a realização de um referendo popular.

O Tribunal Constitucional da Ingushétia considerou o acordo ilegal, por sua vez o Tribunal Constitucional da Rússia o considerou legal, demonstrando a disposição de Moscou em passar por cima da Ingushétia em nome dos interesses de Kadyrov. Porém, a tentativa do Kremlin de fazer um agrado a Kadyrov às custas da Ingushétia não saiu tão fácil quanto calculavam: os ingushes saíram às ruas protestar contra o acordo.

O estopim para a segunda manifestação, a de março, foi a justamente a tentativa de Evkurov de retirar da Constituição Ingushe a necessidade do referendo, para retrospectivamente “legalizar” a entrega das terras ingushes, uma medida vergonhosa até para o hipócrita direito burguês. Na manifestação se exigiu a renúncia de Evkurov, que há tempos está entalado na garganta dos ingushes, além de se levantarem exigências de caráter econômico, contra a pobreza na região. O Cáucaso, Ingushétia incluída, é uma das regiões mais pobres da Rússia, com seus habitantes muitas vezes tendo que ir buscar a sorte em outras regiões. A crise e piora das condições de vida sob os governos de Putin é o que indubitavelmente alimenta os protestos.

Os acontecimentos envolvem questões muito além da territorial. A questão territorial, como qualquer outra contradição, sempre foi usada pela Rússia para dividir os povos do Cáucaso entre si, envenenando uns contra os outros, para assim poder com mais segurança manter sua dominação sobre o conjunto. O que se passa não é apenas uma transferência de terras para a Tchetchênia. É uma recompensa de Putin a Kadyrov por seus serviços prestados em sufocar a resistência do povo tchetcheno e a luta dos povos de todo o Cáucaso contra a opressão. Por seu papel em restaurar o domínio do Kremlin na região e fortalecer o poder do regime de Putin, defensor dos interesses dos oligarcas[2] e da FSB[3], sobre todo o país.

Há uma cadeia causal, que começa com o sufocamento da resistência tchetchena, que conduziu ao sufocamento das lutas dos povos de todo o Cáucaso, que por sua vez conduziu à aceitação por parte dos trabalhadores russos de toda a política repressiva e chauvinista de Putin, que conduziu a que estes confiem todas as suas esperanças no “líder forte” e interrompam qualquer luta por seus interesses de classe, o que conduziu à ascensão trunfante sobre todo o país do regime oligárquico e pró-FSB de Putin, o que por sua vez conduziu ao silenciamento de todas as vozes por toda a Rússia, condição necessária à implementação do atual modelo colonial de total dependência do país da extração de recursos naturais e dos capitais estrangeiros, que conduziu à atual situação social dos trabalhadores russos de degradação, falta de perspectivas, ausência de direitos e repressão policial.

Esta é a cadeia causal, organicamente completada pela contrarrevolução na Síria e Ucrânia, que determina o pesadelo sentido por cada trabalhador russo, mas da qual estes ainda não são totalmente conscientes. É nesta sequência causal que o enviado e carrasco de Putin, Kadyrov, segue jogando seu papel fundamental. É de onde recebe do Kremlin permanentemente algum “bônus”, no caso em questão, um pedaço da Ingushétia.

Os povos do Cáucaso sofrem de um mal comum – a secular opressão russa. O genocídio pelas mãos do general tsarista Ermolov, as deportações estalinistas de tchecthenos, ingushes e outros povos, as guerras da Tchechênia promovidas por Yeltsin e Putin que tranformaram a capital Groskiy em ruínas, o terror atual do regime de Putin com seus representantes locais, verdadeiros carrascos contra os povos, as agressões de Putin contra seus idiomas nacionais.

É o mesmo mal de que sofrem também os trabalhadores russos, os quais o Governo Putin tenta atrair para seu lado, envenenando-os com grandes doses de chauvinismo grão-russo, para que aceitem suportar a miséria e falta de direitos ante os oligarcas, órgãos repressivos e o “novo Tsar”, que governam graças às ilusões em uma “Rússia Grande”, que absolutamente nada tem a ver com a crua realidade. Difícil surpreender-se que após sufocar o Cáucaso com seu regime repressivo e oligárquico, Putin tenha calado a boca dos trabalhadores russos com seu cassetete policial e agora persegue-os com um chicote para que trabalhem mais e por mais tempo (sem aposentadoria). Ao acreditar na propaganda chauvinista grã-russa de Putin, apoiando suas agressões contra outros povos e desprezando os trabalhadores imigrantes, os trabalhadores russos, expressando a máxima de Marx, literalmente forjam suas próprias correntes. O sufocamento do Cáucaso é a pedra fundacional de toda a pirâmide da escravização dos trabalhadores russos.

Um ascenso das lutas dos povos do Cáucaso contra a opressão, pela saída do Cáucaso debaixo do controle do regime oligárquico e repressivo de Putin (assim como a revolução na Ucrânia) ameaça com destruir toda esta pirâmide de opressão e exploração construída nas atuais fronteiras da Rússia sobre as costas dos trabalhadores de diferentes povos, incluído aí o mais numeroso deles, o russo. Isso é algo que o regime de Putin não pode aceitar de forma alguma. Por isso o Cáucaso não é só a pedra fundamental do regime, mas também o seu Calcanhar de Aquiles.

Por isso qualquer agitação no Cáucaso preocupa o regime. Ainda mais que nas manifestações foi “lembrado” também o nome de Putin, o “padrinho” de tudo o que está acontecendo: “Venha imediatamente para cá explicar porque você não gosta do povo ingushe. Quem não respeita os anciãos do povo, aquele eu também nunca respeitarei… Se você decidiu retirar uma parte de nosso território, saiba que isso para nós significa o mesmo que a morte, e morrer nós pretendemos dignamente” falou a Putin o ancião Akhmed Barakhoev, acompanhado pelos manifestantes pelo grito de “Alá é grande!”. Por tal insubordinação, o ancião foi preso.

Por isso no Cáucaso estão estacionadas imensas forças militares russas. Por isso por todo o Cáucaso há regimes ditatoriais que apostam no sufocamento total de qualquer resistência. Por isso Putin, copiando o que fez em Grozniy, destrói as cidades sírias e junto com Assad assassinou centenas de milhares de sírios, para que a revolução neste país não incendiasse uma nova luta de libertação dos povos do Cáucaso. Por isso as atuais manifestações na Ingushétia sofrem repressão. As tentativas da Guarda Russa de dispersá-las pela força (teve que vergonhosamente voltar atrás devido à resistência dos manifestantes); a presença de agentes especiais mascarados nas manifestações e franco-atiradores nos edifícios vizinhos: o regime de Putin estava pronto para, em caso de necessidade, realizar um massacre. Houve buscas com agentes mascarados em mais de 15 endereços. Nas ruas colocaram veículos militares e blindados. Foi desligada a internet para que não houvesse vazamento de informações e para que as pessoas não pudessem se organizar.

Por isso foram presos o ancião Akhmed Barakhov, Barakh Tchemurziev (do movimento “Suporte da Inguchétia”), Musa Masalgov (organização de defesa dos direitos humanos “MASHR”), Abo Dobriev, Khabazh Dzaurov, Bagaudin Khautiev, Guelaniy Khamkhoev, Magomed Khamkhoev, Ibrahim Muzhakhoev, Adam Azhigov, Vakha Barakhoev, Amir Oskanov, Musa Tepsaev, Akhmed Pogorov. Vários foram agredidos durante as prisões. Também receberam multas de até US$2500,00 por “participar em ações ilegais”, “chamar à desordem” e “violência direcionada aos representantes do governo” Zarifa Sautieva, Ismail Nalguiev, os blogueiros Bekkhan Khashagulgov e Israpil Nalguiev, vice-representante do Centro Espiritual da Ingushétia Musa Meyrieva, representante do Conselho dos Clãs da Ingushétia Malsagu Uzhakhova.

Por isso Putin protege claramente Evkurov, se recusando a demiti-lo do posto, já que isso significaria para ele “expressão de fraqueza”. Abrir um precedente de recuo pela pressão do povo, que poderia inspirar as pessoas à resistência, é inadmissível para o regime autoritário de Putin inclusive nas regiões russas, quanto mais no Cáucaso.

Tudo isso demonstra o quanto o sufocamento do Cáucaso é uma questão vital para o regime de Putin, pró-oligárquico e baseado nas forças de repressão da FSB. Demonstra o quanto o regime teme perder o controle na região.

O governo teme que os protestos possam dividir as forças de repressão, compreendendo muito bem que as condições para tal já existem: os enviados para reprimir as manifestações de outubro fizeram suas orações conjuntamente com os que protestavam. Já nas manifestações de março, uma divisão policial se recusou a dispersar os manifestantes. A divisão foi então reestruturada, com dezenas de membros expulsos por “perda de confiança (aliás, por esta razão, o Ministro do Interior da Ingushétia Dmitriy Kava, vacilou em dispersar os manifestantes com força policial, o que lhe custou seu posto. A “honra” então de reprimir passou para as mãos da disciplinada Guarda Russa). Por temor a incidentes deste tipo, o governo se esforça em utilizar-se de forças “externas” à Ingushétia para repressão. Por exemplo, os detidos foram levados à república vizinha da Kabardino-Balkária, distante dos locais de protesto e do seu povo. Assim como as revistas de residências foram realizadas diretamente por forças sob comando da FSB.

Qualquer trabalhador e simplesmente qualquer pessoa honesta deve estar contra a injustiça levada a cabo contra o povo ingushe por Putin e seu soldado Kadyrov, com a assistência patética de Evkurov lambe-botas de Kadyrov, este por sua vez lambe-botas de Putin. O povo ingushe deve decidir por si mesmo suas questões territoriais. A questão territorial no Cáucaso deve ser decidida pelos povos do Cáucaso, e não pelos agentes de Putin a la Kadyrov.

Evkurov se viu obrigado a retirar o projeto de cancelamento da necessidade de referendo “para ajustes”. O fez ainda antes da manifestação, quando já estava claro que o povo iria resistir. O recuo de Evkurov já é uma pequena vitória do povo ingushe contra o próprio Evkurov, Kadyrov e Putin, mas somente o primeiro sucesso no longo caminho pela frente até a libertação da Ingushétia e de todos os povos do Cáucaso da opressão do regime de Putin.

Na libertação dos povos do Cáucaso dos carrascos de Putin será decisiva e vital a solidariedade entre os povos do Cáucaso contra a opressão russa. Por exemplo, para que as forças de repressão não possam transferir os presos a outras regiões, para que estas forças repressivas não tenham apoio em nenhuma região. Mas não será menos importante a solidariedade dos trabalhdores russos para com os povos oprimidos do Cáucaso. Hoje na Rússia o povo trabalhador está preso no laço do regime policial e oligárquico de Putin, e sente as consequências disso diariamente. O laço aperta mais no Cáucaso e na Ucrânia, literalmente até sangrar. No caso dos russos ainda não até sangrar, o que o regime tenta fazer passar como um privilégio.

Mas é o mesmo laço em todos, e ele vem se apertando. Por isso inclusive os trabalhadores russos se vem obrigados a cada vez trabalharem mais e mais, receberem menos e menos, e a suportarem tudo calados. A libertação deste laço é uma tarefa comum. A liberdade do Cáucaso, a liberdade da Ucrânia, significam também a liberdade dos trabalhadores russos. Por isso os trabalhadores russos também necessitam estar contra as agressões de Putin em relação a outros povos. Isso é indispensável também para a sua libertação da opressão do regime oligárquico-policial vigente na Rússia.

[1] Presidente da Chechênia, aliado de Putin no massacre e opressão do povo checheno. Encabeça um governo totalitário na região com traços diretamente fascistas. Qualquer oposição política é eliminada. Graças ao regime de terror imposto, na região Putin “venceu” as eleições com mais de 97% dos votos… Kadyrov se autointitula o “soldado de infantaria de Putin” (N do T)

[2] Assim são chamados os grandes capitalistas russos, que se apropriaram dos antigos monopólios estatais soviéticos  (N do T)

[3] Serviço Federal de Segurança, polícia política, sucessora da sinistra KGB  (N do T)