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(Secretário-Geral da ONU deixa escapar a verdade…)

Entre as organizações de esquerda que se consideram marxistas, corre uma longa discussão sobre o significado da queda do Muro de Berlim e suas consequências na situação mundial hoje.

POI Rússia

A maior parte destas, fazendo coro ao estalinismo, engoliu aquele conto de que as massas, “confundidas pela propaganda imperialista”, derrubaram o “socialismo” na virada dos anos 80 para os 90, e que a partir de então se abriu um período “reacionário” na luta de classes mundial, que impossibilitaria hoje a luta pelo socialismo e pela tomada do poder pela classe trabalhadora.

Uma minoria, entre a qual se inclui a LIT-QI, considera que o que as massas derrubaram no final do século passado foram as ditaduras burocráticas estalinistas que, depois de usurpar o poder dos trabalhadores e de décadas de colaboração com o imperialismo, finalmente haviam restaurado o capitalismo em todos aqueles estados em que um dia as burguesias haviam sido expropriadas, se tornando estas mesmas burocracias parte das novas burguesias e governos destes países. E que o fim do aparato estalinista mundial abre então novas e melhores possibilidades para a reconstrução do projeto socialista revolucionário.

Mas às vezes acontece que os melhores argumentos em tais discussões vem justamente dos mais qualificados inimigos do marxismo, naqueles raros momentos quando eles chamam as coisas pelos seus nomes, de forma clara e simples. Recentemente o Secretário Geral da ONU, António Guterres, em entrevista ao canal de TV sueco SVT, com as seguintes palavras definiu a diferença entre a situação mundial hoje e no período anterior à queda do Muro de Berlim (https://www.svt.se/nyheter/utrikes/guterres-i-agenda):

“Há uma diferença entre o que havia durante a Guerra Fria e o que há hoje. Em primeiro lugar, os EUA e a Rússia já não controlam a todos, como faziam durante a Guerra Fria. Está claro que não há mais dois blocos homogêneos e bem controlados… E em segundo lugar, durante a Guerra Fria havia mecanismos de diálogo, de controle, de comunicação, para garantir que, inclusive em casos de risco de confrontos e incidentes, a situação não sairia de seu controle. Estes mecanismos agora já não existem”.

Desta forma clara e objetiva, o alto burocrata do imperialismo explicou o verdadeiro papel do aparato estalinista mundial (e dos aparatos das burocracias sindicais associados a ele) em sustentar, após a 2a Guerra Mundial, o controle do imperialismo sobre os trabalhadores e povos do mundo. O Secretário Geral também definiu claramente as grandes dificuldades atuais do imperialismo.

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E tudo ao contrário das teorias daquelas organizações de esquerda, como o Secretariado Unificado, que tentam ensinar, seguindo os passos do estalinismo, que com a queda do Muro de Berlim a luta de classes entrou numa época reacionária, quando a revolução não está mais colocada na ordem do dia. E de quebra, o alto signatário da ONU ainda desmontou os argumentos dos defensores das teorias da conspiração, que tentam explicar toda a atual instabilidade do mundo e as situações revolucionárias que de tempos em tempos sacodem países e continentes, como sendo todas controladas e orquestradas pelo imperialismo.

Claro, quando Guterres afirma que os mecanismos de controle já não existem, isso não é exatamente verdade: as burocracias sindicais seguem limitando o movimento dos trabalhadores, tanto na Europa Ocidental, como nos EUA e América Latina. Já o novo reformismo, como o PSOL brasileiro, o Podemos espanhol, o Syriza grego e a “esquerda” francesa, segue se esforçando para desviar a luta das massas para a via morta das eleições burguesas.

Todos colaboram com o estado burguês nos marcos da “democracia” parlamentar, a fonte de sustentação de seus aparatos. Exatamente nesta burocracia sindical e no reformismo, comprados com o dinheiro do estado burguês, se apoia hoje o imperialismo, em especial nos países imperialistas.

Porém, as burocracias sindicais hoje são qualitativamente mais débeis que há 50 anos, os trabalhadores mais e mais lhe dão as costas com ódio, e os novos tipos de reformismos da moda, fundamentalmente de composição classe média, rapidamente se desgastam, não chegando nem perto de cumprir o papel que jogava o aparato estalinista mundial, com controle político estrito sobre a classe operária, até logo antes de sua destruição sob os golpes das massas do Leste Europeu no final dos anos 80´. E exatamente por isso o senhor Secretário Geral da ONU não consegue esconder sua sincera nostalgia em relação ao passado.

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Se hoje o imperialismo ainda consegue conter as massas graças à ajuda das enfraquecidas burocracias sindicais e dos charlatães reformistas, é tão-somente porque a crise destes avança ainda muito mais rápido do que a reorganização sindical e política da classe trabalhadora.

Ou seja, fundamentalmente devido à ausência entre os trabalhadores de uma alternativa sindical, ou seja, organizações massivas e independentes, e especialmente, no nível político, à ausência de um partido revolucionário mundial da classe operária. A tarefa fundamental dos revolucionários reside justamente na construção destas alternativas, na prática inseparáveis entre si e sendo de fato dois lados da mesma luta, aquela pela transformação da classe operária de “classe em si” em “classe para si”.