A luta do movimento dos imigrantes na Itália demonstra uma força desconhecida há pouco tempo. Começando pelas revoltas de Castelvolturno de 2008 e de Rosarno de 2009, que foram grandes e ocorreram em resposta às miseráveis condições de vida e de trabalho de um proletariado de imigrantes majoritariamente vindos da África e sujeitos a enorme exploração no campo, no trabalho clandestino e também vítimas da criminalidade organizada. Porém, nos últimos meses, os protestos com a ocupação de um guindaste em Brescia e de uma torre na rua Imbonati em Milão nos indicaram um crescimento e radicalização das mobilizações.
Em Brescia depois de dois meses de protestos, diante da prefeitura, para conseguirem o documento de permanência na Itália, os imigrantes ocuparam um guindaste denunciando a falsa anistia do governo. Projeto que regulariza a situação exclusivamente para os trabalhadores domésticos e para aqueles que trabalham com pessoas idosas (trabalho que a sociedade italiana tem necessidade para suprir as demandas do bem-estar público), essa ação exclui a regularização de milhares de trabalhadores de outros setores- destinados a permanecerem na clandestinidade – que prevê uma remuneração de 500 euros da parte de quem emprega (…). Com um duro golpe, o governo implementou uma norma, a famosa circular Manganelli, que impede a regularização para quem teve anteriormente uma ordem de deportação como irregular. O procedimento se transforma assim em um verdadeiro engano para os imigrantes irregulares que terminam por se auto-denunciar, acarretando a eles o caminho para expulsão.
A luta em Brescia se juntou com a de Milão, onde a partir de um acordo realizado por alguns trabalhadores imigrantes, estes resolveram sair da torre na rua Imbonati onde permaneceram por quase um mês. As duas lutas e as várias manifestações tiveram a solidariedade de outros trabalhadores imigrantes, associações, centros sociais, organizações políticas (na qual em primeiro lugar se encontrava o PdAC), sindicatos e por fim, os moradores da localidade, ao contrário das declarações alarmistas e racistas das respectivas prefeituras, de direita, com destaque para Liga.
Uma leitura sobre a falsa anistia do governo
Se o balanço destas lutas pode ser avaliado como positivo em termos de afirmação da consciência dos trabalhadores imigrantes e da grande visibilidade que eles tiveram no que se refere às condições de exploração em todo o país, não faltam consequências negativas que valem a pena refletir. Um primeiro elemento negativo diz respeito a repressão que ocorreu com alguns imigrantes que estavam na torre e no guindaste, os quais foram presos no CIE (Centro de Identificação e Expulsão) e depois expulsos rapidamente do país mesmo com apoio de manifestantes solidários que várias vezes se enfrentaram com a polícia.
O segundo elemento de reflexão diz respeito à condução das lutas e o papel das organizações nas mobilizações. Diante da forte determinação dos trabalhadores imigrantes em luta, os quais várias vezes declararam que a sua luta tem um caráter nacional reivindicando o permesso di soggiorno (permissão de estadia) para todos e sem acordos, mas para tanto seria necessária uma mobilização nacional com ocupações em diversas cidades pelos trabalhadores italianos e imigrantes. Se isso não ocorreu foi em decorrência da ambigüidade de algumas organizações italianas que na verdade não sustentaram aquelas lutas até o fim e também por causa da fragilidade do movimento dos imigrantes, que ainda hoje são fragmentados e privados de uma verdadeira direção classista. Seja em Milão ou em Brescia os imigrantes que ocuparam o guindaste e a torre, juntamente com outros companheiros nas manifestações foram enganados, ou seja, nada daquilo que reivindicavam foi cumprido pelo governo a não ser mínimas aberturas para sanar questões simples, ligadas a questões locais que não mexeram nas decisões do governo. Ocorreram negociações em Brescia coordenadas pela CISL e CGIL, os quais foram os primeiros a enganarem os imigrantes, já em Milão foi realizado uma negociação inútil, acrescenta-se a isso as infinitas pressões sobre os imigrantes dos sindicatos ligados a CGIL e a FIOM e de partidos institucionalizados que ao invés de estarem apoiando e incentivando as lutas, cumpriram outro papel, ou seja, de impedir o avanço das mesmas, desmobilizando-as e anulando as suas possíveis conquistas.
Essas lutas colocam na ordem do dia a necessidade de reforçar o movimento dos imigrantes, a partir de políticas claras. É preciso de uma direção que guie as lutas a partir de uma plataforma realmente classista, que entenda o permesso di soggiorno sem pré-condições e sua superação como o nó central das reivindicações dos imigrantes e que unifique as reivindicações do proletariado e reivindique outros direitos para os trabalhadores imigrantes neste sistema, na perspectiva de sua superação. 
Superar o permesso di soggiorno
As lutas mais radicais dos trabalhadores imigrantes na Itália há dez anos são relativas principalmente ao permesso di soggiorno. É com essa medida que os países imperialistas de todo o mundo sujeitam e exploram milhões de trabalhadores. Eles dizem que têm a necessidade de regularizar os fluxos de mão de obra de acordo com as demandas do mercado e trabalho, deixando a entender que os fluxos de entrada e as conseqüentes permissões de estadia correspondem exatamente aquilo que serve as empresas, as famílias etc.
 A verdade é que o capital tem a necessidade de criar uma zona indefinida de trabalhadores “irregulares” que são necessários a economia para poder explorá-los, pagar menos, e sem direitos sobre o trabalho e também na sociedade, sem nenhum vínculo empregatício. A implantação das leis repressivas sobre imigração promovidas pelo governo Berlusconi somente mantém uma situação violenta, criada pelo capitalismo em cada parte. Basta olhar as políticas imigratórias da União Européia que nestes anos, criaram barreiras policiais e patrulhas no mediterrâneo e que estão planificando a conexão com a agência Frontex e com a colaboração do governo grego, uma barreira divisória até o limite com a Turquia num espaço de 200 quilômetros, dotadas de sensores eletrônicos e uma vigilância de 24 horas de homens armados, muito parecido ao ‘muro da vergonha’ construído na Califórnia, Arizona, Novo México e Texas até a fronteira com o México.
Os governos de centro esquerda no poder não são diferentes do demais no que se refere aos fluxos, centros de detenção etc. As preocupações são as mesmas: “governar a imigração”, dividindo os trabalhadores imigrantes entre aqueles que servem e aqueles que não servem, entre aqueles que merecem os direitos e aqueles que serão mandados a casa, talvez prendendo-os antes em um centro de dentenção. Tudo coberto de conceitos hipócritas interclassistas como integração, interculturalismo, aceitação do outro, antiracismo, com os quais estes governos querem ocultar o verdadeiro serviço que oferecem ao capital.
Neste sentido é importante ver o documento sobre a imigração discutido na assembléia nacional do Partido Democrata de 8 e 9 de outubro de 2010 com título: “ aprendemos a viver juntos”. Reivindica-se por inteiro a lei Turco-Napolitano e cada direito fundamental e de cidadania vem subordinado à questão da qualidade dos imigrantes (como se fossem meros produtos) e da seleção dos imigrantes ‘uteis’ ao país. Em nome da qualidade do capital humano os mesmos são sujeitos as margens das cotas regulares, aos fluxos, as lutas a clandestinidade, ao permesso di soggiorno, ao exame de língua, cultura etc. Assim, torna-se ainda mais necessário que o proletariado imigrado e os italianos juntos reivindiquem a própria independência política dos partidos burgueses, incluindo os de centro-esquerda- sempre mais agentes do capital internacional- na luta pela destruição do sistema capitalista.
 
Tradução: Rogério Freitas