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O desabamento da ponte em Gênova é apenas o último e mais flagrante de uma série de massacres que, cometidos em nome do lucro, acontecem na Itália com uma regularidade impressionante. Todo o sistema de infraestrutura estatal italiano é administrado por empresas privadas, e a holding Atlantia, da qual a família Benetton é a principal acionista, dirige mais da metade da malha rodoviária italiana, extraindo lucros multimilionários que nunca são reinvestidos, a não ser uma parte irrisória, na reestruturação das rodovias.

Por: Salvatore de Lorenzo/PdAC, Itália

A Atlantia, que também “administra” a ponte de Gênova, já é triste celebridade nas notícias por sua negligência na manutenção dos viadutos: em 29 de julho de 2013 um ônibus que trafegava nas imediações de Monteforte, na província de Avellino, caiu do elevado Acqualonga, pelo fato da mureta de contenção – completamente inadequada – ter cedido ao impacto. 40 dos 49 passageiros morreram. Uma dinâmica absolutamente previsível, conhecida por aqueles que viajam nesse trecho da estrada, e que revela a natureza criminosa da gestão puramente mercantilista da infraestrutura italiana.

O desabamento da ponte Morandi em Gênova, no dia 14 de agosto, que causou a morte de 43 pessoas, centenas de feridos e outros 500 evacuados das casas atingidas por pilhas de concreto desprendido da própria ponte, é apenas a enésima matança anunciada: que poderia ser sido evitada se fosse previamente interditada para sua reestruturação ou mesmo seu fechamento.

Por outro lado, é isso que emerge com absoluta clareza das investigações jornalísticas atuais. Um monitoramento conduzido pelo Instituto Politécnico de Milão revelou a situação anômala daquela ponte, conforme já mostrado por uma pesquisa do L’Espresso. A eficiência dos tirantes (cabos de aços tracionados, ndt) que sustentavam a ponte foi reduzido em 20%, e isso foi informado tanto ao Ministério de Infraestrutura, ocupado pelo grillista (seguidor de Pepe Grillo) Danilo Toninelli, como pela própria Atlantia.

Então, a enésima matança anunciada, perpetrada no altar dos lucros de um círculo estreito de homens de negócios, para quem o Estado entregou a gestão de milhares de quilômetros de infraestrutura, sem nunca fiscalizar seriamente a manutenção real dessas obras.

O falso mito da “democracia” burguesa

Estas catástrofes revelam ao mesmo tempo a impotência das grandes massas diante das decisões estratégicas impostas a parti do topo do Estado “democrático” burguês, no qual a vida das pessoas é colocada em segundo plano no que diz respeito à lógica do lucro de um estreito círculo de parasitas, para o qual o Estado “democrático” cedeu a gestão de um patrimônio de infraestrutura construído com o dinheiro e o trabalho da classe operária italiana. Isso demonstra as contradições insolúveis da “democracia” burguesa, que traz sua legitimidade do consentimento eleitoral das classes subalternas, para depois tomar decisões que se chocam com as reivindicações e necessidades dessas classes.

Este é um ponto decisivo sobre o qual é necessário que o proletariado desenvolva uma séria reflexão, removendo a incrustação da ideologia dominante, que trabalha constantemente para que as massas considerem a “democracia” burguesa como o melhor e basicamente o único sistema possível.

De fato, o progressivo agravamento das condições de vida das classes subalternas nos Estados ocidentais já deveria permitir às grandes massas compreender todas as contradições por trás da retórica idealista da “democracia” burguesa, baseada no mito da participação democrática do voto e na “imparcialidade” do sistema judicial, e a realidade nua dos fatos, que consiste na absoluta impotência das grandes massas de terem uma voz mínima em todas as escolhas estratégicas impostas pelos altos representantes políticos no contexto da “democracia” burguesa.

Qual é o peso real que tem as comunidades locais sobre a decisão imposta pela “democracia” burguesa para criar novas grandes infraestruturas, como, por exemplo, o Tav [Trem de Alta Velocidade]? Têm, por acaso, as grandes massas, no âmbito da “democracia” burguesa, a possibilidade de estabelecer se é prioritário realizar novas grandes obras como o Tav ou se não é mais sensato investir esses bilhões na reestruturação das muitas infraestruturas italianas atualmente em risco de colapso, como a ponte de Gênova?

Contudo, para destruir o falso mito da “democracia” burguesa é necessário compreender a natureza e os objetivos do Estado “democrático” burguês. No Estado e a Revolução, Lenin explicou claramente que “para Marx o Estado é o órgão de dominação de classe, um órgão de opressão de uma classe pela outra”; é a criação de uma “ordem” que legaliza e consolida esta opressão, moderando o conflito entre as classes. Para os homens políticos pequeno-burgueses, a ordem é precisamente a conciliação de classes e não a opressão de uma classe por outra; atenuar o conflito significa conciliar e não privar às classes oprimidas de certos instrumentos e meios de luta para derrubar os opressores.

Embora Lenin explicasse claramente o que é, de acordo com Marx, o objetivo do Estado: a opressão da classe dominante sobre a classe adversária. Apontou também para a criação “da ordem que legaliza e consolida esta opressão”, no nosso caso a “democracia” burguesa, o meio pelo qual a classe dominante oprime a classe adversária.

Assim como nos tempos de Lenin, embora hoje pelos intelectuais da pequena burguesia pseudo-progressista, pelos reformistas, pelos teóricos pacifistas das revoluções internas, o conflito entre as classes antagônicas fica, ao contrário, conciliável e o instrumento de conciliação é representado exatamente pela “democracia” burguesa. Quanto os interesses dos capitalistas como os da Benetton são conciliáveis com os das grandes massas é demonstrado pela matança de Gênova, onde 43 pessoas foram sacrificadas em nome dos lucros sujos da Atlantia.

Para os marxistas, ao contrário, a “democracia” burguesa, isto é, “a ordem”, é o instrumento que, no caso específico, torna legal e consolida a opressão dos parasitas como a Benetton sobre o proletariado italiano, consentindo à classe dominante continuar oprimindo a classe dominada e privá-la dos instrumentos de luta para derrubá-los contra os opressores.

Mas tarde, Lenin explicitou os limites da democracia “burguesa”: “Falar de democracia pura, de democracia em geral, de igualdade, liberdade, universalidade, enquanto os operários e todos os trabalhadores passam fome, nus, condenados à ruína e ao esgotamento […] da escravidão salarial capitalista, [e] os capitalistas e os especuladores continuam a manter a “propriedade” alcançada e o aparelho “já pronto” do poder estatal, significa debochar dos trabalhadores e dos explorados.

Significa romper bruscamente com a verdade fundamental do marxismo, que disse aos operários: devem utilizar a democracia burguesa como um imenso progresso histórico em relação ao feudalismo, mas nem por um instante esquecer o caráter burguês dessa “democracia”, sua natureza historicamente condicionada e limitada. Eles não devem compartilhar a “fé supersticiosa” no “Estado”, não devem esquecer que o Estado, mesmo na república mais democrática, e não apenas no regime monárquico, é somente uma máquina da opressão de uma classe sobre a outra classe”.

É graças à máquina opressiva da “democracia” burguesa que na Itália a gestão de grande parte da infraestrutura, realizada obviamente, com o dinheiro e o trabalho da classe operária italiana, foi dada a uma das famílias mais famosas de tubarões do capitalismo mundial, que é a família Benetton. Cujo poder corrupto de seu capital adquiriu, por exemplo, em 1991, uma parte inteira da Patagônia na Argentina, para então submeter a um autêntico genocídio e deportação ao povo Mapuche que vivia nessas terras. É a mesma família Benetton que transferiu em 2013, parte de sua produção têxtil para Daca, capital de Bangladesh, onde por alguns poucos euros ao dia explora o trabalho de mulheres e crianças em uma estrutura precária que desabou na primeira avaria na instalação elétrica.

E devido à máquina opressora da “democracia” burguesa que a Ferrotramviaria spa do “conde” Pasquini e da sua irmã, a “condessa” Glória Maria, foram presenteados com a gestão desse trecho de rede ferroviária à via única que liga Andria e Corato na Apulia, ao longo da qual dois trens se chocaram em 2016 esmagando os corpos de muitos operários e jovens estudantes.

E finalmente, é graças à máquina opressiva da “democracia” burguesa que se permite à RFI spa (Rede Ferroviária Italiana – Sociedade por Ações) lucrar com a “administração” de quase toda a rede ferroviária italiana e da linha ferroviária de Pioltello, onde em janeiro descarrilou um trem causando a morte de quatro pessoas e várias dezenas de feridos, devido ao remendo de um trecho do entroncamento ferroviário que foi simplesmente substituído. Todas são matanças produzidas pelo capitalismo dentro da ordem imposta pela “democracia” burguesa.

Nacionalização, o crime perfeito

E enquanto a fumaça dos escombros envolvia os cadáveres das vítimas de mais uma matança produzida pelo capitalismo em Gênova, os chacais que conduzem o “governo da mudança” tentaram capitalizar a indignação popular com a tragédia. Assim, o ministro do Interior, Matteo Salvini, aproveitou para dar um espetáculo diante das câmeras de TV em que, pela enésima vez, invocou a punição aos culpados, que estranhamente estão todos livres neste país, e avançou na proposta de nacionalizar a empresa. Esquecendo-se, que ele foi parte daquele governo, na época de centro-direita, que aprovou em 2008 o decreto “salva-Benetton”, que permitia que a sociedade de autoestradas não fosse obrigada a reinvestir parte de seus lucros na manutenção das infraestruturas cedidas por concessão.

Obviamente, se a proposta de Salvini de nacionalizar a administração das rodovias fosse aprovada, não seria nada além do que mais um presente para a Benetton e seus sócios, porque uma nacionalização sem a expropriação dos lucros multimilionários da empresa permitirá aos Benetton realizar o crime perfeito. Ou seja, a extorsão dos lucros advindos da administração da infraestrutura, e descarregar sobre os trabalhadores italianos os custos necessários para colocar em segurança as infraestruturas italianas já desgastadas.

Imediatamente, as organizações colaboradoras da “democracia” burguesa, como o Poder ao Povo[1], somaram-se a essa proposta de “farsa de nacionalização” de Salvini, interessados, assim como o governo, mais na aparência que na substância.

Por isso é importante esclarecer como os revolucionários abordam esse problema. Sem apoiar por um só minuto a proposta do governo, e longe de acreditar que a nacionalização em si é uma solução “mágica”, não podemos renunciar à luta por uma verdadeira nacionalização, sem indenização e assim expropriando os lucros obtidos sobre as costas dos trabalhadores, de toda a infraestrutura de transporte, das rodovias às ferrovias e aeroportos, infraestruturas que devem ser colocadas imediatamente sob o controle dos trabalhadores.

Além de ser uma medida que acaba com a exploração selvagem dos trabalhadores por liberalizações selvagens, falsas cooperativas e várias chantagens trabalhistas, que nos últimos anos, infelizmente, criaram importantes divisões entre os trabalhadores, é a única solução que pode garantir a segurança dos transportes, no interesse comum de trabalhadores e passageiros.

Artigo publicado em https://www.partitodialternativacomunista.org/

13 de setembro de 2018.

[1] Lista constituída, para as eleições legislativas de 2018, por partidos, movimentos e organizações com o intuito de reconstruir a esquerda radical na Itália, ndt;

Tradução para o espanhol: Natalia Estrada.

Tradução para o português. Rosangela Botelho