Veja o que está acontecendo no M5S.
 
Depois que este artigo foi escrito, e antes da sua publicação, vimos a saída do deputado Currò do M5S – Movimento Cinco Estrelas. Trata-se de uma circunstância que se inscreve no processo analisado no texto que segue.

Entre as muitas coisas que Paolo Becchi fez – ele que é professor de filosofia do direito da Universidade de Gênova e “não-ideólogo” do “não-partido” de Grillo -, esteve o apoio ao M5S para oferecer a este movimento uma improvável “base teórica”, uma que realmente parecesse séria. Quando, depois das últimas eleições regionais na Emilia Romagna e na Calábria, Beppe Grillo confessou estar “um pouco cansado” (utilizando assim a frase do famoso filme Forrest Gump), o professor respondeu com uma forte critica ao movimento e à sua direção parafraseando Woody Allen: “O PD está morto, Força Itália está morta e também o M5S não se sente bem” [1].


E, de fato, enquanto sua popularidade cai, muito se fala da crise com a qual o Movimento 5 Estrelas se debate, a despeito do grande número de eleitos nas diversas eleições das quais participou nesses anos. Nos ocuparemos no artigo que segue para fazer a análise sobre a situação do movimento que é dirigido pelo genovês Beppe Grillo.

O M5S até o momento de sua projeção nacional

Em muitas ocasiões tentamos aprofundar a análise sobre essa força política que as eleições políticas de 2013 consagraram como a segunda sigla mais votada nacionalmente, depois da coalizão dirigida pelo PD, e a primeira em diversas regiões (Marche, Ligúria, Sicília, Sardegna). E o fizemos definindo o grillismo como o calmante de um conflito social, privado de uma direção política autenticamente revolucionária e órfã até mesmo da esquerda reformista que naquela época traiu as aspirações das massas no altar do compromisso com a grande burguesia e os seus representantes institucionais [2].

Até mesmo a esquerda cortejou Grillo para sair sob a sua bandeira na fase ascendente do M5S, o que o fez conquistar publicidade gratuitamente utilizando parasitariamente a notoriedade do cômico genovês; e ainda hoje alguns sindicatos de base flertam com o movimento pentaestrelado, negligenciando suas posições notoriamente antissindicais e anti-imigrantes. Nós, por outro lado, não hesitamos em defini-lo como uma força caracterizada por um populismo reacionário, cujo bloco social de referência é composto e formado por “desempregados, precários, pequena burguesia proletarizada, famílias sufocadas pelas hipotecas e aposentados que vivem abaixo da linha de pobreza… setores da pequena e média burguesias, alentados pela possibilidade de eventuais alívios fiscais”, que se encontraram de frente com “uma proposta política interclassista, ambígua e amigável até mesmo para setores da extrema-direita, que constituiu uma mistura de liberalismo, fetichismo tecnológico, ódio pela “oligarquia” e meritocracia, e temas sociais (No Tav, No-F35, água pública, etc.), recusa das políticas monetárias caindo em palavras de ordem nacionalistas, proposta de dissolução das organizações políticas e sindicais do movimento operário”. [3] Um bloco tão heterogêneo se desenvolveu afinando e estratificando no tempo exatamente com base nas previsões que avançamos no texto já citado [4].

A partir da entrada no parlamento

Foi, de fato, “a aventura parlamentar, a relação entre os eleitos e Grillo-Casaleggio, as atitudes na relação com as outras forças políticas” que determinaram a evolução do M5S para aquilo que conhecemos hoje.

As eleições políticas de fevereiro de 2013 deram ao movimento pentaestrelado um resultado surpreendente se pensarmos em seu pouco tempo de vida: 162 eleitos entre deputados e senadores que, no entanto, uma vez assegurados em sua própria base parlamentar, tiveram que lidar com a linha política decidida pelos dois dirigentes da “sigla”, isto é, Beppe Grillo e Gianroberto Casaleggio. As aspirações de muitos eleitores de esquerda – que, se sentiram traídos pelos partidos reformistas (Refundação Comunista, Esquerda Ecologia Liberdade – SEL, e socialdemocracia) e confiaram sua esperança no M5S para que as realizasse – foram prejudicadas por uma ação parlamentar estéril apesar dos números e do confronto entre os eleitos e o líder com o seu pequeno círculo de colaboradores, motivado substancialmente pela gestão altamente hierarquizada do movimento.

Basta apenas considerar, como exemplo, o abandono do grupo parlamentar dos deputados Labriola e Furnari, em polêmica com as declarações de Grillo em relação à história do Ilva e das numerosas expulsões decretadas por votações via web, até chegar enfim, à cassação dos deputados Artini e Pinna, com um total – até hoje – de 31 desligamentos. Para ver melhor, e além das motivações oficiais, todos os afastamentos (voluntários ou sancionados) foram produto de um questionamento sobre a liderança e de uma linha política que tem caminhado sempre mais para um populismo reacionário.

Das declarações sobre o tema dos migrantes portadores de tuberculose, ou pior, de ebola, sob uma suposta “moral” da máfia do passado comparada com a de hoje, “corrupta” pelo sistema financeiro; das declarações do deputado Di Battista em favor de uma tratativa política com os degoladores reacionários do ISIS, à escolha de formar um grupo comum, no parlamento europeu, com a UKIP (extrema direita) da Grã Bretanha, força xenófoba, homofóbica e misógina; para chegar enfim à exposição midiática para os jornalistas sensacionalistas […] e, há apenas poucos dias, a depuração da polícia (que apenas uma hora antes  reprimiu violentamente a passeata da greve geral), que não representaria um “inimigo” sendo composta por “pessoas abandonadas pelo Estado”: são todos peças – isso apenas para citar alguns episódios significativos – de um progressivo caminho para posições sempre mais abertamente reacionárias. Tanto que Francesco Storace, líder de “A Direita”, declarou: “Sobre a imigração, Grillo está saqueando todas as propostas de “A Direita”. Seja bem vindo”.

As eleições regionais, as últimas expulsões e o “Open Day” de Pizzarotti

É claro que um percurso assim esteja marcado por um desencanto, se não mesmo por uma desilusão, em setores do eleitorado progressista que esperavam no M5S a força política com capacidade de expressar as suas aspirações em uma sociedade tão diversa; e que esse sentimento de traição tenha sido demonstrado no gradual abandono das urnas.

O resultado das últimas eleições regionais na Emilia Romagna e na Calábria é, desse ponto de vista, inequívoco. Do boom eleitoral, passando pelas eleições europeias de maio passado, o M5S perdeu 400.000 votos na Emilia e quase 200.000 na Calábria. A análise desse resultado decepcionante determinou as últimas expulsões: bastou que o deputado toscano Artini colocasse em discussão a consoladora observação de Beppe Grillo sobre o êxito eleitoral (segundo o qual o abstencionismo não havia de modo algum atingido o movimento, que, ao contrário, teria ganhado votos em relação às regionais de 2010) para determinar a sua expulsão junto à da deputada Pinna. A intenção era claríssima: evitar que o descontentamento, que começava a se espalhar também entre alguns “fidelíssimos” do cômico genovês, propagasse a mancha de óleo tornando-se desse modo um golpe na “direção”.

E assim, Grillo atuou com uma estratégia feroz: de um lado, o corte de um par de cabeças (justamente as de Artini e de Pinna); e, por outro lado, um aparente “passo atrás” com a nomeação de um “diretório” de cinco  fiéis seguidores, reservando a si o papel de “fiador” com a desculpa de estar “um pouco cansado”.

Essa “manobra” (também de “cima para baixo” e aprovada pelo golpe do televoto) é, por outro lado, realizada com a intenção de enfraquecer parcialmente a convenção organizada pelo prefeito pentaestrelado de Parma, Pizzarotti, sempre criticando a direção de Grillo e Casaleggio, e visto por amplos setores do M5S como um possível ponto alternativo de atração. De qualquer forma, no entanto, a assembleia de Parma se postulou como parte importante para uma “refundação grillina”: a intenção de Pizzarotti não era de fato a de romper com o M5S e fundar um outro partido – o que seria objetivamente um suicídio – mas sim agregar um polo interno no movimento para contrabalancear aquilo que é visto como um desvio.
 
O amadurecimento do bloco social e os novos concorrentes do M5S

O “Open Day” de Parma prenuncia, assim, uma longa partida de xadrez entre Pizzarotti e Grillo-Casaleggio sobre equilíbrios internos do M5S. Uma dinâmica que se estagna sobre o aprofundamento de uma crise não apenas conjuntural, mas abertamente relevante com a força política grillina que não tem mais a exclusividade da chamada “antipolítica”, onde é obrigado a competir com outros dois pretensos  “rottamatori”: Renzi e Salvini. Não é por acaso que ambos são emergentes personagens midiáticos que têm invertido a tendência à crise de seus respectivos partidos e que, ao seu modo, se candidatam a expressarem as aspirações de uma indistinta “gente” contra a “elite”. E, não por acaso, ambos são atualmente alvos diretos dos ataques de Grillo.

A diferença do M5S com outros, que já pré-anunciaram a implosão e o declínio irreversível, é que nós pensamos que, com a sua visível perda de consenso, determinou-se um forte redimensionamento em relação ao período em que parecia estar na busca pela conquista do poder mas, ao mesmo tempo, produziu-se uma certa consolidação do bloco social que atualmente o sustenta, hoje menos heterogêneo, “depurado” seja pelo apoio dos setores da grande e média burguesia industrial, seja por grande parte do eleitorado de esquerda que não se sente mais representado pelos tradicionais partidos reformistas e socialdemocratas; e assim, seguramente mais homogêneo de um ponto de vista de classe. Isso é o que faz uma força política que por mais que se reconheça um relevante setor da pequena burguesia empobrecida, uma fatia dos pequenos e médios empreendedores e um consistente setor médio precário muito escolarizado, mas que ainda hoje agita um programa ambíguo, faz também reivindicações sobre temas sociais (No Tav, No Muos, água pública, etc.), ideal, então, para um movimento policlassista que se configura como de direita e de esquerda ao mesmo tempo: um movimento que é necessário combater, e oferecer uma posição de classe, seja pela sua proposta geral filocapitalista e antioperária, seja por aquela oportunista pela face social fraca.

Notas
 
[1] “Becchi e a crise grillina”.  A fulminante batuta de Woody Allen era: “Deus está morto, Marx está morto e também eu não me sinto muito bem”.
[2] “O que é realmente a “revolução” das cinco estrelas. Por uma análise de classe do grillismo” (http://tinyurl.com/nc9oful).
[3] Resoluções da Direção Nacional do PdAC de 9-10/3/2013 (http://tinyurl.com/n4kzef8).
[4] V. nota 2.
[5] Referência ao sequestro e assassinato do deputado socialista Giacomo Matteoti pelos fascistas em 1924.

 
Tradução: Nívia Leão.