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Um minuto após a recente morte de Sergio Marchionne, a imprensa burguesa deu lugar ao consumo de toneladas de tinta para criar uma das maiores operações de glorificação na história do capitalismo italiano. E imediatamente temos que reconhecer que, do ponto de vista da burguesia e da luta de classes, isso tem um sentido mais do que lógico: abertamente óbvio, diríamos.

Por: Diego Bossi, operário da Pirelli, em colaboração com os trabalhadores da Fca-Sevel da Coordenação Slai Cobas de Chieti

Sergio Marchionne, do posto de comando de um dos maiores grupos industriais da Itália, tem sido o protagonista indiscutível da deterioração das condições da classe operária, da retração de direitos, bem como do domínio político do capital sobre o trabalho.

As promessas do marinheiro enquanto o barco afunda

Marchionne foi o homem que mais do que ninguém nos acostumou a planos de negócios: de fato, a Fiat, entre 2004 e 2013, deu origem a oito belos planos (quase um por ano), em que cada plano tem sido sistematicamente negligenciado, reorganizado, modificado as promessas do precedente (1). De resto, a técnica de mentir não é nova para os patrões e tem, em curto prazo, o mérito de valorizar as ações, infundindo confiança nos investidores e de extinguir as reações de conflito dos trabalhadores.

Assim, enquanto o “homem de suéter” (como eles chamam Marchionne na Itália, ndt.) prometia a saída de modelos que nunca apareceram, a reabertura em plena capacidade de fábricas ainda fechadas, e as estimativas de vendas nunca, mesmo remotamente, alcançadas no mundo real, milhares de famílias de trabalhadores sofreram desesperadamente com o desemprego, com a única ajuda – nem precisa dizer – dos amortecedores sociais, isto é, da ajuda do Estado aos patrões em nome dos trabalhadores: um fluxo contínuo de dinheiro público que tem vindo ao auxílio do Fiat por décadas.

A saída da Confindústria

O ano de 2011 será lembrado como o ano do retorno histórico da Fiat, onde Marchionne anunciou a saída do grupo da Confindustria a partir de 1º de janeiro de 2012. (2)

As motivações são bem explicadas na carta aberta que o CEO da Fiat enviou a então número um da Avenida dell’Astronomia, Emma Marcegaglia. Em essência, a Confindustria estava ligada a Marchionne e seus projetos, a rede de relações sindicais era vinculativa e esvaziou de fato a eficácia do célebre art. 8 do decreto Sacconi que, para colocá-lo simplesmente, teria abandonado a contratação coletiva nacional para deixar espaço para contratação de empresas sob o signo de “dividir e reinar”.

A saída da Fiat da Confindustria formou a cobertura normativa do modelo Pomigliano-Mirafiori-Grugliasco, consagrada por referendo sob chantagem ocupacional. O contrato da Federmeccanica expirará e o contrato de fábrica entrará em vigor: 120 horas extras obrigatórias nas quais é proibido fazer greve, redução de intervalos, pausa para o refeitório no final do turno, primeiros dois dias de doença não pagos e estes são apenas alguns dos aspectos mais importantes.

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Assim começou uma nova era que abriu o caminho para o capitalismo italiano lançar o maior ataque à classe trabalhadora na história republicana: a representação, o direito à greve, o direito a pausas e cargas de trabalho humanas, nunca serão os mesmos de antes. Marchionne saiu da Confindustria para preparar o caminho; dois anos mais tarde, a associação empresarial endossaria, juntamente com Cgil, Cisl e Uil, o Texto Único sobre Representação (TUR), que seguiria seus passos sobre representação sindical e direito à greve, pondo fim à democracia sindical da forma como a conhecíamos.

Os efeitos sobre a representação e seus sindicatos

Para ter uma visão clara da questão da representação sindical, é necessário voltar uns vinte e três anos, até junho de 1995, quando houve uma série de referendos de suspensão do art. 19 da lei 300/70 (Estatuto dos trabalhadores). Havia duas perguntas do referendo visando à revogação e dois critérios seletivos e restritivos da liberdade de constituição das representações sindicais: a exclusiva dos sindicatos confederados e o requisito da assinatura de contratos coletivos. (3)

Desses dois referendos, um deles, promovido por Slai-Cobas, aspirava a revogar todos os limites, consignando aos trabalhadores e às suas organizações plena liberdade; o outro, promovido pela Refundação Comunista, apoiado pela FIOM, como tão boa tradição reformista e oportunista, aspirava a remover apenas a exclusiva aos sindicatos confederais deixando em vigor a exigência de assinatura de contratos coletivos que, de fato, garantia, em qualquer caso a exclusiva para Cgil, Cisl e Uil.

A história nos diz que a revogação parcial promovida pela Refundação venceu. Quinze anos depois, a burocracia da FIOM, de carrasco e promotora da oligarquia sindical, tornou-se uma vítima nas mandíbulas de Marchionne. Não aceitando o novo modelo Pomigliano e perdendo sua batalha para o referendo, foi excluída da representação e fez um recurso para o Tribunal Constitucional (praticamente denunciou a ilegitimidade constitucional de um texto que quinze anos antes tinha aprovado). A Consulta, frente um pronunciamento que poderia ter tido consequências catastróficas sobre décadas de acordos e contratações entre a burguesia e as forças sindicais traidoras e reformistas entre o sim e o não optou por nenhum dos dois: é ilegítimo subordinando o direito de representação à assinatura de contratos coletivos; dizemos que pelo menos precisamos participar da mesa de negociações com nossa própria plataforma. Uma decisão que exclui, de fato, sindicatos combativos.

O papel de Marchionne

Sergio Marchionne, com seu modelo, foi o primeiro a realizar um ataque desse nível sobre a classe trabalhadora. Antes dele também não era possível subordinar o direito de representação sindical à renúncia de conflitos, aos retrocessos normativos e às perdas salariais; e isso é exatamente o que ele fez: impôs a representação anexando critérios políticos às regras de procedimento. Se primeiro existissem organizações sindicais da série A (as cúmplices) e outras de séries de B (as combativas), e as organizações da série B pudessem, em estado de subordinação e enfrentando procedimentos mais complexos, aceder à RSU, ou melhor, a uma parte delas (o acordo de 93 reservou um terceiro para a tríade); hoje, graças ao modelo Marchionne, sucessivamente retomado e agravado pelo Texto Único sobre Representação, de fazer seleção de renda, não haveria apenas critérios como “quão representativo você é?” e “você aceita os regulamentos eleitorais para entrar?”. Pela primeira vez desde o fim do fascismo, para obter acesso à representação sindical, será perguntado, como aos sindicatos, como eles pretendem se comportar uma vez dentro ou se pretendem aceitar certas condições de trabalho pré-estabelecidas.

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A ação combativa, pelos signatários do acordo, deixará de ser determinada livremente como uma tática durante a luta, mas se tornará uma questão preliminar para acesso à representação e às exigências sindicais relativas, incluindo licença sindical, o direito de colocação nos painéis de anúncios das empresas e chamadas para as assembleias.

O atual sistema normativo em que as relações de trabalho são baseadas poderia ser traduzido da seguinte forma: se eles são bons, não fazem greves e não impedem os nossos lucros, então poderão participar no rico banquete de licença sindical, posições exclusivas, licenças, rendas de entidades bilaterais … se não, fora de tudo!

Um sistema que, para todos os efeitos, podemos definir como corrupto; além disso, as crônicas de ultramar nos contam sobre a pesquisa que tem afetado a Fca e o líder Abruzzo, onde a corrupção entre 2009 e 2017, seria quantificada em nove milhões de dólares viajando pelas caixas da Fiat até o sindicato UAW por uma estrutura governada por sindicato e empresa. (4)

Formalmente, essa organização deveria ter a finalidade de apoiar os trabalhadores; na realidade, de acordo com a tese acusatória, revelou-se um apoio generoso aos sindicalistas, com o objetivo de assinar acordos para reduzir o custo do trabalho. Uma estrutura – nós temos que dizê-lo – que nos lembra muito de nossas entes bilaterais, administradas, precisamente, bilateralmente entre sindicatos confederados e empresas, e que são de grande interesse para os burocratas de Cgil, Cisl e Uil. Basta pensar, a título de exemplo, que em 2012, das doze páginas da plataforma de renovação do Ccnl Gomma-Plastica, oito foram dedicadas a entes bilaterais e quatro a salários e direitos. E acreditamos, porque quando falamos de entes bilaterais, estamos falando de um retorno de centenas de milhões de euros e dez mil lugares para os sindicatos (5).

O trabalho de marketing da imagem e as políticas para esconder o conflito de classe

Uma das principais habilidades políticas de Marchionne foi fazer com que os trabalhadores acreditassem que os objetivos e interesses da empresa eram eles, que o conflito de classes não existia, exceto nos livros empoeirados dos filósofos do século XIX. Com a ajuda constante e decisiva da mídia burguesa, houve uma rápida mudança do “padrão de classe hostil” para “somos todos uma única família”, a imagem ad hoc de Marchionne propunha um líder juvenil, dinâmico, afiado e de vestuário informal, que visitava com frequência as fábricas, o homem da providência que levantou a sorte da Fiat e cruzou o oceano para conquistar os americanos da Chrysler; assim, os sacrifícios cada vez mais duros impostos aos trabalhadores não eram mais vistos pelo que eram: a exploração da burguesia sobre a classe trabalhadora, mas como um desafio para todo o grupo, independentemente dos papéis, para permanecer no mercado.

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Uma investigação sobre as condições dos trabalhadores da FCA-Sevel de Atessa (CH), encomendada pela Coordenação Provincial de Slai Cobas de Chieti, com a qual nos apoiamos para a redação deste artigo, demonstra o contínuo agravamento das condições de trabalho dos trabalhadores e os sérios efeitos físicos e psicológicos que sofreram, mas isso não se traduziu em um relativo despertar das consciências porque a cultura dominante está enraizada na classe e apazigua os espíritos.

Morto um Marchionne nasce outro

Quem vê em Sergio Marchionne um dos muitos líderes italianos de seu tempo ou o recorda simplesmente como o gerente da Fiat subestima sua figura e sua obra. Sergio Marchionne foi um financiador de longo curso, colocado no Conselho de Administração (CdA) da Philip Morris -considerado um “bom salão mundial” por super lobbistas-, onde se sentou juntamente com ex-membros do governo dos Estados Unidos (6), e podemos supor que, graças à essa experiência tenha sabido foi capaz de obter o crédito necessário para a compra de Chrysler para o nascimento da FCA, uma fusão que milhares de trabalhadores italianos e americanos pagaram preço caro. Milhares de empregos perdidos e aqueles que ficaram tiveram que ajustar as contas com a renúncia contratual ao conflito, as perdas salariais e as exacerbações normativas.

Sergio Marchionne foi um guerreiro do capital que melhor do que todos soube explorar a crise econômica de 2008 para golpear duramente a classe trabalhadora; se hoje as condições dos trabalhadores são muito piores do que as de uma década atrás, devemos isso a ele. Mas, atenção, não acredite que sua morte traga ventos favoráveis ​​aos trabalhadores; mudarão nomes e rostos, mas o confronto de classes continuará inexoravelmente seu curso. A única maneira que os trabalhadores terão de superá-los será unir-se e confrontá-los com a luta.

Notas

(1) http://www.dagospia.com/rubrica-4/business/forza-programmare-sviluppo-fiat-marpionne-ha-realizzato-76613.htm
(2) http://www.ilsole24ore.com/art/economia/2011-10-03/marchionne-ribadisce-intenzione-uscire-085603.shtml?uuid=AaZqbW9D
(3) https://it.wikipedia.org/wiki/Referendum_abrogativi_del_1995_in_Italia
(4) https://www.lettera43.it/it/articoli/economia/2018/08/22/marchionne-fca-corruzione-sindacato-uaw/222856/
(5) http://cub-log.blogspot.com/2015/08/quelle-diecimila-poltrone-dei-sindacati.html
(6) http://www.ilsole24ore.com/art/notizie/2018-07-21/marchionne-l-amore-il-tabacco-e-salotto-italico-philip-morris-194625.shtml?uuid=AEDj1SQF

Artigo publicado em https://www.alternativacomunista.it/content/view/2591/1/, 7 de setembro de 2018.-

Tradução: Tae Amaru