Eleitores irritados com políticas cruéis de austeridade, terríveis crises imobiliárias e problemas no sistema de saúde.

Pela unificação da Irlanda em uma república democrática, socialista e laica

Por: Margaret McAdam – ISL (Liga Socialista Internacional)

O que preocupa e irrita os eleitores irlandeses é a desigualdade social, a crise da saúde, a profunda crise imobiliária com o aumento dos preços das casas e dos aluguéis e o aumento dos sem-teto (quase 10.000 no final de 2019, com um número crescente de famílias), condições precárias de trabalho e baixos salários.

Por isso, enviaram uma mensagem clara, uma mensagem que surpreendeu a todos os partidos políticos e mudou o cenário político irlandês tradicional de alternância entre os governos do Fianna Fáil e do Fine Gael. A mensagem deles é uma exigência de mudança e fizeram isso votando no Sinn Féin. Mas, o Sinn Féin concorreu com apenas 42 candidatos (para os 160 postos do parlamento irlandês, o Dáil) e 37 Teachtai Dala (TDs – parlamentares) do Sinn Féin foram eleitos. Eles receberam a maior parte dos votos (24,5%), com apenas um assento a menos que o Fianna Fáil, com 38, e dois a mais que o Fine Gael, com 35.

Após a crise econômica de 2008, o governo da Irlanda, liderado por Leo Varadkr, do Fine Gail, utilizou a dívida pública para impedir o colapso econômico, levando assim uma carga maciça de dívida aos serviços públicos e a um número crescente de pessoas com suas políticas cruéis de austeridade.

Hoje, a economia da Irlanda está novamente em expansão e tornou-se um refúgio para as multinacionais dos EUA e da UE, e o enriquecimento dos capitalistas irlandeses. Mas, apesar do crescimento econômico, a vida da maioria na República é dominada pelas preocupações mencionadas acima. Os frutos do crescimento econômico beneficiam apenas as multinacionais e a burguesia nacional irlandesa.

O governo de minoria do Fine Gael foi forçado a convocar a eleição porque estavam ameaçados por um voto de desconfiança no Parlamento devido ao estado chocante dos serviços de saúde e das listas de espera nos hospitais. Recentemente, eles sobreviveram a um voto de desconfiança em sua resposta à enorme crise imobiliária em um cenário de protestos contra propostas de comemorar o infame Black and Tans, a infame força imperialista britânica que usou de uma brutalidade selvagem contra os irlandeses durante a Guerra da Independência (1919 – 1921).

No entanto, seja qual for a aliança política formada, o resultado será um governo de minoria. A aliança Fianna Fáil e Fine Gael tem 73 cadeiras (elas precisarão de outras 7), mas suas políticas e ações foram claramente rejeitadas pelo povo e forçaram o governo a cair. Tal aliança poderia inflamar as massas.

Foi às propostas eleitorais do Sinn Féin que os eleitores responderam, às promessas de aumento do orçamento para a saúde e construção de moradias. Os menores de 55 anos foram particularmente motivados por suas políticas devido ao ódio generalizado às políticas existentes e à instabilidade que está afetando suas vidas.

O Sinn Féin precisa de uma maioria de 80 cadeiras para formar um governo. Eles conversaram com vários partidos de esquerda e radicais: o Solidarity-People Before Profits (5 cadeiras), os Verdes (12), os social-democratas e trabalhistas (6), bem como parlamentares independentes. No entanto, um programa socialista não está na agenda porque o Sinn Féin é um partido pró-capitalista e não enfrentará o domínio da economia pelas multinacionais e pelo capitalismo irlandês.

A raiva que garantiu uma votação expressiva ao Sinn Féin interconecta-se com legados do passado, como a ocupação britânica da Irlanda, os recuos dos partidos pró-burgueses ao aceitar a partição[1] e a consequente guerra civil (1921); o aumento do domínio da Irlanda pelas multinacionais e pela UE; e a crise de 2008 com uma recuperação responsável pelo aumento da miséria da maioria.

A mídia e muitos partidos de esquerda descreveram o resultado da eleição como “uma revolução nas urnas” ou “um terremoto político”. Com muitos da esquerda pensando que o Sinn Féin pode liderar uma luta contra o capitalismo irlandês, que pode ser consistentemente de esquerda ou até liderar um governo socialista.

Um grupo irlandês que recentemente se separou do Partido Socialista britânico (SP) após a ruptura do CIO pergunta: “O Sinn Féin (SF) usará seu programa para fazer um desafio real, não apenas aos partidos do capitalismo irlandês, mas ao próprio sistema?”[2]

Apesar da ruptura, sua tendência ao reformismo de esquerda não é diferente à do partido do qual se separaram. Da mesma forma que os demais partidos de esquerda, incluindo o Solidarity e o People Before Profit, que estão dispostos a fazer um acordo com o Sinn Féin para formar um governo, o Partido Socialista irlandês[3] concorda em participar de um governo capitalista.

O acordo para formar um governo de coalizão liderado pelo Sinn Féin significaria o apoio a um governo de frente popular que desviaria e controlaria qualquer movimento emergente de classe ou a luta social.

A Pobreza

A Irlanda tem uma das taxas mais altas de empregos mal remunerados da OCDE, a segunda mais alta depois dos Estados Unidos.

Em 2018, os 10% mais ricos da população receberam quase 25% da renda total do país, enquanto os 10% inferiores receberam apenas 3,6%.[4]

Há “uma desigualdade no emprego e no crescimento dos salários na recuperação econômica, com uma força de trabalho mais polarizada, um aumento de empregos mal remunerados, empregos com jornada parcial e trabalho precário”.[5]

Quem domina a República da Irlanda?

Mais de 1000 gigantes em Investimento Estrangeiro Direto (IED) como a TIC, Social Media, Pharmaceuticals e Finance fizeram da Irlanda o centro de suas operações na Europa com nomes como a Google, HP, Apple, IBM, Facebook, LinkedIn, Twitter, Pfizer, GSK e Genzyme.

A Irlanda continua a atrair uma quantidade enorme de IED; de fato, é o segundo país mais atraente do mundo depois da Cingapura. Também possui as mais baixas taxas de imposto sobre empresas (12,5%) na Europa, com uma vantagem adicional de 25% de crédito fiscal para investimentos em pesquisa e desenvolvimento.

O imperialismo domina a economia irlandesa. O norte da Irlanda é uma colônia da Grã-Bretanha, o sul é uma neocolônia do imperialismo da UE e dos EUA. É esse domínio que criou o crescimento das taxas de pobreza com governos subservientes.

A unificação da Irlanda pode acontecer?

Segundo o jornal britânico Economist, existe uma “possibilidade real e crescente de unificação da Irlanda”, por causa do voto no Sinn Féin, por causa do Brexit e porque a maioria no norte e sul deseja permanecer na UE – apesar da UE ser a fonte de sua opressão.

A maioria da população irlandesa apoia a reunificação irlandesa, embora não tenha sido um fator importante para o aumento de votos no Sinn Féin. Muitos, incluindo os membros do Sinn Féin, acreditam que agora podem aumentar a pressão para um plebiscito sobre a fronteira. Mas, na realidade, o Sinn Féin defendeu um plebiscito dentro de cinco anos e conforme os limites do Acordo da Sexta-feira Santa (1998).

O apoio à reunificação extrapola a questão do Brexit. O censo da Irlanda do Norte em 2021 deve confirmar que os católicos serão mais numerosos que os protestantes pela primeira vez[6]. E na República, a influência da igreja católica, que antes uma barreira para a comunidade “protestante” do norte, declinou drasticamente. O declínio da igreja católica após os casos de abuso infantil levou à derrota de sua luta contra restrições à contracepção, casamento gay e direito de escolha das mulheres [isto é, do direito ao aborto] – tudo avançou e tem uma influência no desejo de reunificação. Uma Irlanda reunida teria que ser laica, sem discriminação ou perseguição a qualquer religião e com o fim de todos os laços do Estado com a igreja [católica e protestante].

Processo de paz?

As comunidades do norte permanecem segregadas, com 96% das escolas no norte e mais de 94% das moradias sociais divididas entre republicanos/nacionalistas e legalistas/unionistas[7].

Hoje, em Belfast, existem mais de 100 “muros da paz” que separam ruas e comunidades. Foram erguidos mais muros após o chamado Processo de Paz (1998) do que durante a guerra civil contra a ocupação do exército britânico, liderada pelo Sinn Féin e pelo IRA.

“No entanto, antes do que a maioria das pessoas espera, o momento para uma Irlanda unida pode ser imparável. Se a Escócia aprovar a independência [em um possível segundo plebiscito], muitos na Irlanda do Norte perderiam sua conexão ancestral com a Grã-Bretanha. Se o governo de Westminster [isto é, do Reino Unido] se recusar a reconhecer que há uma maioria a favor da unificação na Irlanda do Norte, poderia ser tão desestabilizador quanto convocar um referendo”.[8]

O Sinn Féin é um partido antiausteridade?

No sul, o Sinn Féin concentrou suas campanhas eleitorais em medidas antiausteridade e habitação. No entanto, nos seis condados da Irlanda do Norte a história é diferente. O Sinn Féin desempenhou um papel significativo na administração de cortes de orçamento e privatizações brutais e implementou sorrateiramente a política de austeridade de Westminster com seus parceiros, o DUP[9]. Por mais de 20 anos, o Sinn Féin compartilhou o governo com o DUP em Stormont [o parlamento irlandês] antes do colapso da aliança, em 2017. Ambos foram responsáveis pelo aumento da desigualdade, pela qual os ricos ficam mais ricos e os pobres mais pobres e nada fizeram para reverter esta desigualdade chocante e crescente.

De acordo com um relatório da ONU de 2018, West Belfast (reduto do Sinn Féin, 54% dos votos em 2019) tem a segunda maior taxa de pobreza infantil em toda a Grã-Bretanha e mais de 23.000 menores de idade em Belfast estão registrados como em “moradia precária” (do sofa-surfing[10] ao morador de rua).

“O fechamento [de Stormont, de 2017 a 2020] foi uma cortina de fumaça conveniente, enquanto a austeridade caía pesadamente sobre a população em um estado de bem-estar social reduzido, marcado por um número crescente de empregos inseguros com contratos de zero hora e crescente insegurança habitacional”.[11]

Dívida externa e pública

As massas irlandesas terão que organizar, repudiar e cancelar a dívida externa, uma dívida que não é delas, para acabar com a crescente pobreza. A Irlanda possui a terceira maior dívida per capita do mundo, atrás apenas do Japão e dos EUA e tem uma dívida maior que a Grécia. Os governos irlandeses já pagaram bilhões de euros, mas à custa dos serviços públicos. Há uma dívida adicional de muitos bilhões de euros, inclusive de Parcerias Públicas e Privadas (para a construção de estradas, pontes e outros projetos públicos). A UE, através das suas comissões antidemocráticas, e o Banco Central Europeu impulsionaram o aumento da pobreza no sul. As dívidas devem ser canceladas e a camisa de força da UE removida.

O próximo governo

Mesmo com o Sinn Féin tendo maioria no Dáil, nada fará para enfrentar o sistema que é feito para oprimir, explorar e abandonar a classe trabalhadora – o capitalismo. O Sinn Féin não é um partido socialista. A luta por uma Irlanda verdadeiramente independente tem que remover todas as amarras coloniais e neocoloniais e apenas um movimento de massas da classe trabalhadora que luta pela derrubada do sistema capitalista pode resolver e reverter a austeridade e a desigualdade.

Unidade da Irlanda

“Nosso principal objetivo político é alcançar a unidade irlandesa e o plebiscito sobre a unidade, que é o meio para garantir isso”. (Programa eleitoral do Sinn Féin).

Apoiamos incondicionalmente o fim da ocupação e o controle britânico no norte da Irlanda. Em primeiro lugar, porque enfraqueceria o imperialismo britânico e o controle do governo britânico sobre a Escócia e daria um impulso às lutas de libertação em todo o mundo.

A luta pela reunificação só virá da mobilização nas ruas pelo fim da austeridade e da opressão, com o objetivo de sempre promover os interesses dos trabalhadores. Uma Irlanda reunida ajudaria a unir os trabalhadores do norte e do sul para lutar juntos contra o trabalho precário, austeridade e desigualdade. Na luta pelos interesses dos trabalhadores e do povo oprimido, os sindicatos e as lutas comunitárias devem se unir, organizar e mobilizar.

Historicamente, os sindicatos fazem acordos com o Fianna Fáil. Todos os pactos sociais dos sindicatos com os governos anteriores devem ser repudiados, enquanto dando total apoio às alianças entre sindicatos independentes.

Jovens, mulheres e trabalhadores terão que construir a luta, como fizeram contra o aumento da tarifa da água e pelo direito das mulheres de escolher, construindo e apoiando todas as ações dos trabalhadores contra a austeridade, mantendo o controle democrático da base sobre os dirigentes. As eleições são o resultado dessas lutas e a massa deseja ir muito além. Mas o Sinn Féin é incapaz de ser a força para liderar esse movimento.

O que vem agora?

Um novo partido terá que ser construído, fiel à perspectiva de James Connolly, de que apenas uma revolução socialista contra o capitalismo irlandês será capaz de derrotar o controle britânico (incluindo a derrota da UE e o controle imperialista de hoje). Esse partido deve ser um partido revolucionário construído no norte e no sul pela unidade e independência.

Um partido revolucionário capaz de construir a luta pela reunificação incondicionalmente e lutar sempre para promover os interesses dos trabalhadores, jovens, e de todos os oprimidos, incluindo as mulheres, agricultores pobres e desempregados (como Connolly aconselhou).

“… o poder político deve, para as classes trabalhadoras, sair diretamente do campo de batalha industrial como expressão da força econômica organizada da classe trabalhadora; caso contrário, não virá. Com a classe devidamente organizada no setor industrial e político, cada extensão do princípio de propriedade pública nos aproxima da reconquista da Irlanda por seu povo; significa a retomada gradual da propriedade comum de toda a Irlanda por todos os irlandeses – a realização da Liberdade”[12]. (A reconquista da Irlanda, James Connolly, 1915)

Redução e congelamento dos aluguéis em um nível acessível!

Projeto de construção de habitação pública para acabar com a crise imobiliária!

Pelo fim do trabalho precário!

Reconstrução do serviço de saúde gratuito e acessível a todos!

Construção do movimento de massas nas ruas, os trabalhadores mostraram que podem vencer!

Nacionalização de todos os serviços públicos, sob o controle dos trabalhadores e usuários!

Nacionalização de todas as multinacionais estrangeiras e irlandesas sob controle dos trabalhadores!

As grandes empresas criaram miséria suficiente – nacionalização sem indenização!

Pela unidade da Irlanda laica e sem discriminação!

Nenhum pagamento da dívida externa e pública!

Pela construção de um partido revolucionário marxista, operário e internacionalista para liderar essa luta!

[1] A Irlanda foi dividida em República da Irlanda e o norte da Irlanda, ocupada pela Inglaterra.

[2] http://socialistparty.ie/2020/02/socialist-party-statement-general-election-2020-now/

[3] O Partido Socialista irlandês e o Partido Socialista inglês faziam parte do Comitê por uma Internacional Operária (CIO ou CIT, CWI em inglês) antes da ruptura organizada por Peter Taaffe, principal dirigente do partido inglês.

[4] https://www.socialjustice.ie/sites/default/files/attach/policy-issue-article/6217/2020-01-29-election2020briefingincomedistributionfinal.pdf

[5] Ibid.

[6] Usamos os termos católico e protestante em relação à comunidade majoritária e tradição. Isso não significa que todos os republicanos sejam católicos ou que todos os protestantes apoiem os unionistas, mas esses termos definem áreas nos seis condados de Ulster. Houve lutas comuns por parte dos trabalhadores e também pelos direitos civis. Por exemplo, trabalhadores do porto de Derry. Mas, essas alianças sempre foram alvos das forças repressoras unionistas e britânicas.

[7] Republicanos/nacionalistas: defensores da Irlanda única. Legalistas/unionistas: defensores da manutenção do domínio britânico.

[8] https://www.economist.com/leaders/2020/02/13/irish-unification-is-becoming-likelier

[9] DUP: Partido Unionista Democrático, com quem o Sinn Féin governou por serem os dois maiores partidos do Parlamento irlandês, chamado de Stormont.

[10] Sofa-surfing – morador provisório em casa de amigos ou parentes, por não ter moradia própria.

[11] https://inequality.org/research/sinn- Féin-austerity-record.

[12] https://www.marxists.org/archive/connolly/1915/rcoi/chap09.htm

Tradução: Marcos Margarido