Há vários meses que os Governos de Rajoy [Espanha] e de Passos Coelho (Portugal) se gabam do “fim da crise”. Para estes senhores somente existia crise quando as manchetes dos jornais anunciavam: “A crise do euro

aprofunda-se”, “Portugal e Grécia podem sair do euro” ou “O prêmio de risco[1] remonta a níveis históricos”. Ou seja, quando os seus Governos estavam na eminência de não pagar à banca a dívida soberana. Daí, oriunda os cortes, as reformas, as reduções de salários, a precariedade extrema e os despejos. Isto é, para nós a crise aprofundou-se, na maioria das famílias o salário não chega ao fim do mês e o desemprego mantém-se em níveis históricos… mas isto não sai nas manchetes.

Sem dúvida, nas últimas semanas a crise deles voltou aos meios de comunicação: “A economia europeia está em ponto morto”, afirmava Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu (BCE), “A Europa está condenada à deflação”… Muitos se perguntam: “Que é que acontece com a crise? Não era coisa do passado?” Não.

A dívida e nós…
 
A primeira pergunta é: se os jornais não falam agora da crise do Euro, tal deve-se ao fato de a dívida pública ter baixado? Não, muito pelo contrário: o Estado espanhol aumentou a sua dívida pública para 100% do PIB. Paradoxalmente, quando a “crise do Euro” ocupava manchetes e o prêmio de risco alcançava recordes, a dívida estava em 60%.

Mas se a dívida aumentou, porque é que o prêmio baixou? Em primeiro lugar porque os bancos viram que podiam continuar a comprar a dívida pública, dado que o Governo – com os cortes sociais, a reforma trabalhista e as reduções salariais – se comprometia a despedir trabalhadores e a transferir o dinheiro eles, ao mesmo tempo em que permitia que os seus gestores continuassem a jogar com os seus cartões Black.[2]

A outra peça [do plano] era o BCE, que baixou para 0,05% a taxa de juro a que empresta aos bancos (abaixo do nível de inflação), enquanto estes emprestam aos Governos a 4 e a 5%… É assim que o Governo espanhol pôde se financiar, aumentando a dívida. Por isso, as previsões para 2015 mantêm os cortes de modo a continuar a drenar dinheiro para os bancos.

Para eles, enquanto os bancos podem cobrar os seus empréstimos e alimentar lucros, não há crise. Mas os bancos, em que pese à “flexibilização monetária” do BCE, não concedem novos empréstimos às empresas, que estão profundamente endividadas. Para isso, a reforma trabalhista é a chave, porque precisam continuar a reduzir salários para assim diminuir o endividamento das empresas com os bancos. Os trabalhadores vêm os seus salários congelados ou reduzidos e os contratados precarizados recebem 50% a menos [pelo seu trabalho]… para que eles saiam da sua crise. Por isso agora também o governo “social-democrata” de Renzi na Itália e de Hollande na França anunciam uma reforma trabalhista e [uma nova] onda de cortes.

Porque é que o BCE e o FMI falam do perigo de uma nova recessão na Europa?
 
A inovadora novidade é que a economia alemã pode entrar em recessão. A sua produção industrial em Agosto, comparada com a de Julho, caiu 4,3% (Eurostat 14.10.14), e em Julho baixou 0,4%. A questão é que a economia da UE no seu conjunto está dependente da máquina exportadora alemã e não se pode compreender a crise em cada país à margem disso.

Em 2013 a Alemanha alcançou uma balança comercial recorde, com o maior volume de exportações e de superávit (200 bilhões) dos últimos dez anos. As exportações alcançaram 1,10 trilhões de euros. Para isso teve que importar 900 bilhões em produtos fornecidos por outros países europeus para as suas filiais e outras empresas. Uma desaceleração das exportações alemãs para a China e para os EUA traz como consequência à deterioração da produção alemã e da zona euro.

As medidas do BCE: evitar o pior cenário
 
O FMI disse que 70% da banca europeia tem uma parte muito importante dos seus ativos comprometida em empréstimos que não são cobrados, particularmente a empresas. Por isso o BCE anuncia que “aumentará a liquidez”. Isto é, para além de um “resgate” de 600 bilhões de euros para salvar os bancos da ruína e, ademais, lhes emprestar dinheiro a uma taxa de juro de 0,05%, vai agora comprar-lhes dívida, deles e das empresas. Dizem que o fazem para que os bancos possam financiar as empresas para novos investimentos.

Contudo, irão mesmo investir nas empresas? Observe-se um informe da [entidade] patronal do [setor] automóvel: “O setor automobilístico na UE perdeu mais de 80 fábricas e de 500.000 empregos desde que começou a crise. A produção caiu mais de 18% e tanto os registros de carros novos como as exportações em mais de 25%. O automóvel é um produto chave para a UE, representando 7% do PIB e 10% do emprego. A Alemanha é o país que mais empregos acolhe dentro deste setor com cerca de 700.000 postos de trabalho. Seguem-se a Franca, o Reino Unido e a Espanha. A maior parte das exportações fora da UE destinam-se à Ásia (sobretudo à China), à Europa de Leste (principalmente a Rússia), à Turquia e aos EUA.” Ou seja, não está nada claro que os capitalistas irão investir. O que querem é alimentar os seus lucros. E o investimento ultrapassa a sua capacidade, pelo que não há agora outra maneira para eles do que reduzir os salários.

O BCE procura ganhar tempo, impedindo a inadimplência [o não-pagamento] em grande escala da dívida privada, que aprofundaria a queda da produção industrial e provocaria a recaída na recessão. A sua esperança é que, entretanto as exportações da Alemanha para a China e para os EUA não colapsem ou entrem em retrocesso.

A luta contra o pagamento da dívida pública e a expropriação de alguns bancos que continuam a “socializar” as suas perdas é mais necessária do que nunca, e é o único caminho, no nosso entender, para que os trabalhadores não continuem a pagar esta crise.

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Nota:

O que é a deflação?
 
A deflação é uma queda contínua dos preços das mercadorias. É o que está começando a ocorrer na UE, cuja inflação é cerca de zero, mas já é negativa na Espanha, em Portugal, etc. Os preços caem não porque haja demasiadas mercadorias, mas porque estas não podem ser vendidas a um preço que permita ao capitalista realizar a sua mais-valia. É um resultado da sobreprodução. Se a deflação se aprofunda, vai deixando sem efeito a redução dos salários nos Estados espanhol e português, pois as mercadorias também diminuem de preço e consequentemente os lucros conseguidos à custa da redução dos salários.

Ademais, se os preços caem, tal não ocorre com as dívidas, que vêem aumentado o seu valor. Se, entretanto diminuem os lucros das empresas, estas já não podem pagar as dívidas.

A criação de dinheiro e a compra de títulos da dívida dos bancos e empresas pelo BCE procura evitar a explosão da periferia europeia, endividada com os bancos alemães, franceses e norte-americanos. Todavia o dinheiro sai de Frankfurt (sede do BCE) para regressar a Frankfurt (sede dos principais bancos alemães).

Zona euro: Dívidas (percentagem do PIB) e Desemprego (em relação com a população ativa)
 

Fonte: FMI, Perspetivas da Economia Mundial (Outubro 2014)

Tradução: Miguel Almeida
Fonte: http://www.corrienteroja.net


[1] Prêmio de risco é o custo (percentagem) adicional que se cobra nos juros dos empréstimos;
[2] Cartões multibanco da Caja Madrid (N. do T.).