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O jornalista grego Kostis Kekeliadis divulga as suas notas após a viagem às ilhas onde têm chegado os refugiados, Lesbos e Kos.
Na passada quinta-feira, 20 de Agosto, Panos Kamenos, presidente do partido Gregos Independentes (ANEL sigla grega) e “sócio” de Alexis Tsipras no governo demissionário, realizou uma visita oficial à ilha de Kos. Lá, um grupo de moradores locais reservou-lhe uma “recepção calorosa”, com vaias e lançamento de ovos incluída. Para além do anedótico, o acontecimento provavelmente constitui um pré-aviso do clima que aguarda a Grécia no período pré-eleitoral que agora abre, com duas crises, a dos refugiados e a económica, como principais eixos.
Os moradores de Kos que participaram no protesto – que um comunicado da ANEL classifica de “fascistas da Aurora Dourada e elementos marginais” – exigiam ao Presidente da Câmara, Yorgos Kiritsis, que declarasse como “persona non grata” o Ministro da Defesa (em funções até segunda-feira, 24), imputando-lhe a responsabilidade pela presença de milhares de refugiados na ilha durante este Verão.
No entanto, desde a passada sexta-feira 21, o ponto mais conflituoso no trajecto que seguem os refugiados foi transferido do Egeu oriental para a fronteira da Grécia com a Macedónia eslava. Um ferry-boat de grandes dimensões está a recolher os refugiados que se encontram nas ilhas e a transferi-los para o porto de Pireu, de onde seguem viagem, em autocarro, até à província de Kilkís, no norte do país. Uma vez aí esperam a sua oportunidade de passar a fonteira da chamada “zona neutra”, acordada entre a aldeia grega de Idomeni e a pequena cidade eslavo-macedónia de Guevgueli.
Este deslocamento dos refugiados para norte não passou despercebido às autoridades alemãs, que na passada sexta-feira 21 enviaram uma delegação para visitar a “zona neutra”, encabeçada pelo cônsul Alemão em Tessalónica, Ingo von Voss, e o responsável da integração do governo da Baviera, Martin Neumeyer.
Por mero acaso… A visita coincidiu com a repressão dos refugiados, com uma violência até à data nunca vista, por parte da polícia da Macedónia. A polícia de choque empenhou-se a fundo, utilizando cassetetes, gás lacrimogéneo e balas de borracha, deixando cem pessoas feridas, quatro das quais foram transportadas para hospitais gregos.
Neste momento, mais de três mil refugiados estão retidos na “zona neutra”, enquanto continuam a chegar novos. As autoridades eslavo-macedónias anunciaram que as suas forças armadas se juntarão às da polícia nas tarefas de controlo de refugiados, a quem, desde sábado 22, foi permitida novamente a travessia da fronteira, em pequenos grupos, para prosseguirem a viagem em direcção à Sérvia.
Por seu lado, a Alemanha comunicou que, para o presente ano de 2015, autorizará a entrada de 20.000 refugiados – meta que parece uma triste gota no oceano, já que se estima que, neste momento, cerca de 2,5 milhões de deslocados Sírios aguardam nas costas da Turquia que algum barco clandestino os conduza até à Grécia.
Este é pois, um dos grandes problemas que será chamado a resolver o novo governo que surja das urnas no próximo dia 20 de Setembro. A novidade destas eleições será o novo partido (resultante da cisão do Syriza e encabeçado pelo ex-ministro do Meio Ambiente e Energia, Panayotis Lafazanis) “Unidade Popular”, um nome que remete com claramente para a formação que levou Salvador Allende à presidência do Chile em 1970.
As negociações para formar governo, sem necessidade de consultar novamente os cidadãos, entre os três partidos com maior representação parlamentar terminarão, tal como prevê a constituição, na quinta-feira 26.
O paradoxo é que hoje, a terceira força são, de facto, os deputados do Syriza que se mostraram discordantes durante a votação do terceiro Memorando, de modo que, na prática, num total de 300 deputados o Syriza conta com 124, a Nova Democracia tem 76 e logo viriam os 25 que se integram na Unidade Popular. Naturalmente, ninguém espera que as negociações em curso sejam frutíferas, ficará a solução para as eleições de 20 de Setembro, a terceira data eleitoral em menos de um ano após as legislativas de 25 de Janeiro e o referendo de 5 de Julho.
Tradução de PF