Não é tão habitual ler em um jornal trotskista um apoio aberto ao populismo de esquerda. No entanto, o artigo Corbynismo e a ascensão do populismo de esquerda[1], de Peter Taaffe, faz justamente isso. Hoje, o populismo de esquerda, na melhor das hipóteses, significa socialismo em palavras, mas sem um programa ou ação socialista.

Por: Margaret McAdam

Sob o nome de TUSC (Frente Socialista e Sindical), o Partido Socialista apresentou-se em eleições contra o Partido Trabalhista, mas agora se opõe a isso.

No entanto, a explicação de Taaffe para a mudança de posição é contraditória. Ele explica que, junto com o Sindicato dos Trabalhadores Ferroviários, Marítimos e de Transportes (RMT) e o Partido Socialistas dos Trabalhadores (SWP), na TUSC, eles disputaram eleições para lutar contra os cortes, que estavam sendo implementados pelas prefeituras trabalhista e conservadoras. “Para este fim, nós participamos em algumas eleições em oposição ao Partido Trabalhista. Mas, quando Corbyn desafiou a liderança do Partido Trabalhista, nós o apoiamos“.

Agora, após a segunda vitória de Jeremy Corbyn[2], sugerimos à TUSC que os preparativos para os futuros desafios eleitorais sejam suspensos, para que se dê tempo para realizar as mudanças necessárias – como a resseleção[3] – para consolidar a vitória da esquerda“.

A Liga Socialista Internacional (ISL – seção inglesa da LIT-QI) rejeita completamente essa linha de pensamento de favorecer e apoiar os reformistas. Sob a liderança de Corbyn, o Partido Trabalhista concordou em continuar os cortes de serviços e empregos. Todas as prefeituras trabalhistas são lideradas pela ala direita. Portanto, não se opor a eles é abandonar a luta política central contra a austeridade.

O Partido Socialista abriga ilusões profundas na versão do socialismo de Corbyn. No entanto, o que é esse tipo de socialismo? Corbyn aposta no parlamento para fazer algumas reformulações. No entanto, mesmo as reformas propostas estão longe das reformas dos anos 1940, após a vitória do Partido Trabalhista em 1945.

Fica claro que Corbyn não procura mobilizar e liderar qualquer oposição contra a destruição de serviços públicos.

Taaffe argumenta que o Partido Trabalhista precisa de tempo para se livrar da ala direita. No entanto, a posição de Corbyn e McDonnell, o “ministro da Fazenda sombra”[4], é manter o trabalhismo como uma “igreja ampla”, que inclui a direita. Além disso, eles se opõem à resseleção!

Ouvimos uma retórica antiausteridade, mas as promessas econômicas de Corbyn buscam claramente a manutenção do capitalismo e não representam nenhum passo rumo ao socialismo.

Desde março de 2016, McDonnell tem se comprometido a reduzir o déficit atual para zero em um horizonte de planejamento de cinco anos, isto é, outra política de austeridade.

De acordo com o artigo de Taaffe, parece que o Partido Socialista acredita que as políticas de Corbyn possam levar à construção de um novo partido de trabalhadores e concordam em não desafiar os trabalhistas. Sua capitulação ao Corbynismo é completa.

Em total desacordo com o Partido Socialista, o programa da ISL é lutar contra todas as medidas de austeridade, sejam elas implementadas pelas prefeituras do Partido Conservador (ou Tory), sejam pelo Partido Trabalhista, e apoiar os candidatos antiausteridade que se opõem ao Partido Trabalhista.

Todos os representantes políticos do Partido Trabalhista, incluindo os apoiadores de Corbyn, votarão pelo apoio aos cortes aplicados pelas prefeituras nas próximas eleições de março de 2017.

Notas:

[1] Título em inglês: Corbynism and the rise of left populism. Peter Taaffe é o principal dirigente do Partido Socialista (Socialist Party), seção do Comitê por uma Internacional Operária (CWI, sigla em inglês) na Inglaterra.

[2] Em eleições internas pela liderança do Partido Trabalhista.

[3] Resseleção (reselection, em inglês) é o processo de disputa interna pela seleção de candidatos da ala esquerda do Partido Trabalhista para concorrer nas próximas eleições, em substituição aos parlamentares da ala direita.

[4] No parlamentarismo inglês, o maior partido de oposição escolhe um ministério informal, ou sombra, que faz oposição ao ministério oficial no parlamento.

Publicado em Socialist Voice, n.º 26, fev/mar-2017.

Tradução: Marcos Margarido