COMPARTILHAR

A “igreja ampla” e a Frente Popular

O tipo de adulação que surgiu no início da liderança reformista de Corbyn está mais fraco do que antes, sua recusa em romper com o establishment do partido, por medo de perder sua elegibilidade mostrou sua fraqueza. Se ele está com muito medo de entrar em conflito com a “igreja ampla” do Trabalhismo, como ele poderia enfrentar a “igreja ampla” do capitalismo?

Por: Margaret McAdam – Liga Socialista Internacional – Reino Unido

A “igreja ampla” do Partido Trabalhista (Labour) sempre teve algo da natureza de uma frente popular, que agora está sendo empurrada para além dos limites do Partido Trabalhista. John McDonnell foi à Escócia para se adaptar às exigências do Partido Nacional Escocês (SNP – Scottish National Party), um partido capitalista abertamente nacionalista. Ele prometeu ao SNP um novo referendo sobre a independência da Escócia se o Partido Trabalhista formar um governo.

O líder do Partido Trabalhista Escocês não está feliz porque esta proposta contradiz a política trabalhista escocesa e a posição formal do Partido Trabalhista do Reino Unido de não apoiar tal referendo[1].

No entanto, McDonnell reconhece a fraqueza do Partido Trabalhista de Corbyn e deseja ignorar a política trabalhista se ele puder construir a base de um futuro governo de “unidade”.

Ele segue a sugestão de Tom Watson, vice-líder do Partido Trabalhista, que falou há alguns meses sobre um governo de unidade nacional, e os parlamentares trabalhistas têm conversado sobre uma aliança com os Verdes e até com os Democratas Liberais.

Isso pode ser visto no fato de que alguns Conselhos Municipais[2] de maioria trabalhista, em Liverpool, por exemplo, estão ansiosos para fazer a próxima rodada de cortes draconianos em serviços e empregos públicos em unidade com os Democratas Liberais.

Tais frentes populares nos Conselhos, com o SNP ou com os verdes são uma repetição de todas as frentes populares que ocorreram na história: contra a classe operária. Elas serão usadas para tentar conter e derrotar a luta dos trabalhadores e continuar a impor a austeridade.

Que esse é o pensamento de muitos da esquerda reformista é mostrado pelo artigo de Paul Mason, A melhor tática do trabalhismo para derrotar Boris Johnson? Uma Frente Popular, no The Guardian. A necessidade de se livrar dos conservadores é usada pelos apoiadores da Frente Popular para justificar sua posição. Mas eles nunca defendem uma unidade na luta da classe trabalhadora para derrubar os conservadores do poder.

Sem dúvida, McDonnell segue sua política desse tipo de pensamento.

A ISL diz não ao governo da Frente Popular. Somos pela independência de classe dos trabalhadores, contra todos aqueles que procuram manter a austeridade e desejam apoiar uma Europa imperialista e capitalista.

Se Mason, o partido Trabalhista ou os Verdes chamassem uma ação dos trabalhadores para se livrarem do governo, lutaríamos lado a lado, mas opondo-nos a qualquer política de um governo de salvação nacional.

Dizemos nada de Frente Popular; a luta independente dos trabalhadores para remover Johnson é a maneira de lutar pelos interesses dos trabalhadores e pelo socialismo.

Conselhos conservadores e trabalhistas reduzirão mais serviços

Muitos Conselhos (1 em cada 5) estão propondo cortes drásticos como a última parte dos atuais planos do orçamento de quatro anos. Os Conselhos trabalhistas estão planejando muitos milhões de cortes que atingirão todos os serviços, incluindo assistência social e a adultos, centros de primeiro emprego, serviços de biblioteca e coleta de lixo.

Até 2020-21, todas as autoridades locais deixarão de ser financiadas pelo governo central, e um grande número delas poderá seguir o caminho do Conselho de Northamptonshire, controlado pelos Tories (Conservadores), que faliu no ano passado. Até 2022, até um terço dos Conselhos poderá deixar de existir.

A análise independente da Pricewaterhouse Coopers sobre as pressões financeiras enfrentadas pelos governos locais em todo o país no período até 2024/25 afirma que as autoridades locais precisarão de £ 51,8 bilhões adicionais.

O slogan para derrotar os planos conservadores no passado era: “É melhor quebrar a lei do que quebrar os pobres”. Mas os conselheiros trabalhistas de esquerda e de direita votam a favor dos cortes e contra os pobres.

Exigimos que os Conselhos convoquem reuniões em todas as regiões para combater o governo central, a fim de lutar por mais serviços e empregos públicos e pôr um fim à privatização.

Os grupos antiausteridade que surgiram em 2013 devem ser reconstruídos, mas sem o controle do Partido Trabalhista ou das burocracias sindicais.

As comunidades da classe trabalhadora precisam organizar e construir organizações comunitárias de combate. Os sindicalistas de base são fundamentais. Eles devem ajudar a organizar a luta contra os cortes!

“Socialistas” espanhóis e britânicos

Podemos, o partido “radical” espanhol, tentou seguir um caminho fácil. Eles fizeram promessas anticapitalistas nas quais muitos ativistas da Espanha (e da Grã-Bretanha) acreditaram.

Mas o que houve? Podemos subiu e caiu em cinco anos. Em 2015, obtiveram 5,2 milhões de votos (apenas 340.000 a menos que o PSOE – Partido Trabalhista da Espanha) e conquistou a liderança de muitas das principais prefeituras. Quatro anos depois, perdeu 1,5 milhão de votos e os governos municipais dos quais havia conquistado o controle.

Ele surgiu na “onda de indignação social e política desencadeada pelo movimento de massas 15M” (de www.corrienteroja.net, seção da LIT-QI na Espanha) que lutou contra a austeridade e a miséria e tornou-se uma referência internacional, como o Syriza na Grécia.

Mas ambos os partidos traíram a confiança dos jovens, ativistas e trabalhadores. Nem romperam com o parlamentarismo de esquerda nem com a União Europeia. É por isso que argumentamos que há um paralelo com o Corbynismo.

Corbyn surgiu dentro do velho trabalhismo reformista, não fora dele, ele não surgiu das lutas de massas, mas mais pela profunda frustração com as traições do Novo Trabalhismo [cujo principal representante é Tony Blair] em relação às lutas de massas contra a guerra e a austeridade.

Corbyn comprometeu-se muitas vezes ao se adaptar ao establishment do Partido Trabalhista e modifica suas posições para apaziguar a direita do partido: na campanha do Brexit, ao não defender uma saída dos trabalhadores e socialista da UE e não lutar por sua dissolução junto aos trabalhadores europeus; ao instruir e prestar apoio aos líderes dos Conselhos que fazem cortes drásticos nos serviços e empregos públicos; ao recusar apoio à revolução síria, recuando da defesa do povo palestino e aceitando as definições sionistas sobre o antissemitismo; e ao fazer acordos com bancos e multinacionais.

Syriza e Podemos mostram onde tais compromissos levam.

[1] No referendo sobre a independência da Escócia realizado em 2014 o Partido Trabalhista uniu-se ao Partido Conservador contra a independência, que perdeu por apertada margem.

[2] Similar à Câmara de Vereadores no Brasil, mas em alguns casos assume também a função executiva, isto é, não há um prefeito eleito.

Fonte: Socialist Voice N. 36

Tradução: Marcos Margarido