Na semana de 12 a 14 de setembro ocorreu em Londres o 143º Congresso Anual das Trade Unions (Sindicatos) na Grã-Bretanha. 

Com 58 sindicatos afiliados, representando 6,2 milhões de trabalhadores e trabalhadoras dos mais diversos setores, o TUC (Trade Unions Congress) é sempre um grande acontecimento. Sobretudo neste momento de crescimento das lutas na Europa contra os planos de ajuste, a expectativa em relação a esse congresso era enorme. No entanto, a poderosa burocracia sindical inglesa tratou de canalizar a bronca dos trabalhadores pelos canais oficiais. 

 

A decisão mais importante deste Congresso, que contou com a presença de 700 delegados de todo o país, foi o chamado a uma greve no dia 30 de novembro contra os ataques do governo ao setor público, sobretudo contra os cortes nas aposentadorias. Se tudo der certo, mais de 3 milhões de trabalhadores do setor público poderão parar no dia 30 novembro em toda a Grã-Bretanha, prometendo ser a maior greve nacional desde 1926.  No entanto, diante da gravidade dos ataques e da urgência que tem a classe trabalhadora em se defender, a proposta mostra-se insuficiente. Será apenas um dia de greve, que está sendo preparada para envolver, sobretudo, os setores públicos, isolando-os dos trabalhadores privados; ao mesmo tempo, é uma tentativa da burocracia de desvincular os trabalhadores ingleses do conjunto da Europa, onde está sendo preparada uma grande manifestação para outubro.  

Cresce a pressão sobre os sindicatos

O governo conservador de David Cameron não admite qualquer tipo de negociação em relação aos cortes nas aposentadorias. Para se ter uma idéia do ataque que vem sendo arquitetado pelos Tories (Partido Conservador), as mulheres inglesas, que hoje se aposentam aos 60 anos, passarão a ter esse direito apenas a partir dos 67 anos de idade.
A idéia do governo é fazer a classe pagar mais por menos, ou seja, pagar as contribuições por mais tempo, em troca de um menor tempo de aposentadoria. Mas a bronca entre os trabalhadores vem crescendo a cada dia na Inglaterra.

O processo de lutas contra esse pacote começará no dia 2 de outubro, com uma marcha organizada pelo TUC em Manchester. O NSSN (organismo que representa os shop stewards – delegados de fábrica) defendeu no TUC a abertura de um processo de ações de massa que viesse a culminar numa greve nacional contra os cortes.

O Congresso foi uma mostra importante de que a pressão das massas sobre as lideranças sindicais vem crescendo. Rob Williams, representante do NSSN no Congresso, disse que "os shop stewards estão ombro a ombro com a luta de todos os setores públicos em defesa das aposentadorias. O que o governo mais teme”, disse Williams, é que “a classe trabalhadora organizada lute de forma conjunta”. Ele conclamou a juventude, incluindo as NEETs (entidades dos jovens sem emprego, sem escola ou formação profissional), com um milhão de afiliados, a se unir à luta dos sindicatos. Esse mesmo chamado foi feito depois por Suzanne Beishon do movimento Juventude em Luta por Empregos. Ela falou sobre os terríveis efeitos dos cortes nos serviços públicos sobre os jovens e explicou como o fechamento dos clubes de jovens e o corte de 75% nos fundos destinados aos serviços de apoio aos jovens foram uma das causas das rebeliões ocorridas em Londres no mês passado.

Bob Crow, secretário-geral do RMT (sindicato dos ferroviários, marítimos e transportes), disse: "O que mudou em um ano? O capitalismo está numa crise enorme!", e defendeu uma sociedade socialista para tirar os trabalhadores dessa crise. Ele exigiu a reestatização das indústrias privatizadas, incluindo transporte e eletricidade, dizendo que as companhias de eletricidade deveriam pagar uma compensação para os trabalhadores quando fossem nacionalizadas.

Ele também alertou a Ed Miliband, líder do Partido Trabalhista (Labour Party), de que ele teria que decidir de que lado está: “Um líder trabalhista que não fica do lado dos trabalhadores frente aos maiores ataques desde a II Guerra tem um bilhete só de ida ao esquecimento”. Aproveitou para dirigir algumas palavras aos líderes do TUC, dizendo que eles estão errados se acreditam que se pode conquistar justiça e melhores condições de vida no capitalismo: “os trabalhadores precisam controlar a política para assegurar a vitória”. Alex Gordon, presidente do RMT, também conclamou a lutar pela reestatização de toda a indústria ferroviária, incluindo a produção de rolamentos e peças de uso contínuo, para liquidar de vez o transporte privado e dar início a um sistema planificado de transporte público em todo o país.

McParlin, presidente da Associação dos Trabalhadores Prisionais (POA), explicou que é dúbio o papel da POA no movimento dos trabalhadores e que ela tem radicalizado por causa dos sucessivos ataques que vem sofrendo. “A POA teve o seu direito de greve ilegalizado pelo Partido Trabalhista; no entanto, encaminhamos uma resolução ao TUC há dois anos alertando que era necessária a greve geral”.

A POA vem enfrentando um acelerado processo de privatização do serviço prisional que poderá levar ao “desastre”, segundo McParlim. Companhias privadas estão fazendo fila para terem o direito de controlar as prisões; esse processo começou com a colocação de gerentes em alguns dos serviços prisionais cujo salário inicial é muito maior do que o salário pago aos funcionários públicos.

Representando os trabalhadores da indústria da construção, Michael Dooley, do
UCATT (sindicato da construção civil), explicou como essa política do governo é um enorme ataque aos trabalhadores e conclamou os líderes sindicais a participar dos diversos protestos que estão sendo organizados, como o ato ocorrido em Londres no Estádio Olímpico (em 14 de setembro). Todos sabem que a Inglaterra se prepara para receber os próximos Jogos Olímpicos, e os trabalhadores da construção estão sendo superexplorados pela patronal.

Martin Powell-Davies, do NUT (sindicato dos professores da rede pública), disse que todos os sindicatos de professores devem fazer um lobby no parlamente em 26 de outubro, e fez um alerta ao governo: "Volte atrás ou vamos à greve". April Ashley, membro do Unison (sindicato dos trabalhadores dos servidores públicos), explicou como centenas de membros do Unison estão sob ameaça de desemprego e estão chamando uma conferência de emergência para organizar um plebiscito contra os cortes nas aposentadorias, e chamam o secretario geral da Unison, Dave Prentis, a liderar a luta.

Mark Serwotka, secretário geral do PCS (Public and Comercial Services Union), disse que mais de 10 sindicatos, entre eles o Unison, Unite e GMB poderão entrar em greve em 30 de novembro, envolvendo milhões de trabalhadores, mas os ativistas devem continuar pressionando seus sindicatos, porque muitos estão usando o argumento de que um dia de greve não basta, como desculpa para não fazer nada: "um dia pode ser um bom início", disse Mark.

Partido Trabalhista busca diluir o poder dos sindicatos

Ed Miliband, líder do Partido Trabalhista, aproveitou o TUC para fazer seu discurso mais importante do ano, já que ele está se preparando para ser candidato do partido às próximas eleições parlamentares.

Em setembro do ano passado, quando venceu a disputa para a liderança do Partido Trabalhista, Miliband demonstrou uma atitude otimista diante da grave situação da Inglaterra e procurou distanciar-se do “novo trabalhismo” de Tony Blair, criticando-o por defender a guerra do Iraque, afirmando que “o partido devia ser humilde para admitir seu fracasso no passado” e que “tinha de aceitar algumas verdades dolorosas sobre o colapso de suas idéias ultrapassadas. Ao mesmo tempo, disse que “não iria se opor a todos os cortes que o governo de coalizão (entre Conservadores e Liberais Democratas, a chamada coalizão ConDem) propusesse”, pois “há algumas coisas que a Coalizão faz e não gostamos como partido, mas temos que apoiar”.  Ao setor sindical, Ed Miliband, apelidado de "Red Ed" (Ed, o Vermelho) devido ao apoio determinante do setor sindical para sua vitória, recusou o apelido e deu seu recado: “não tenho nada a ver com a retórica exagerada de ondas de greves irresponsáveis”.

No Congresso, Miliband confirmou as piores expectativas. Mesmo frente à luta nacional dos funcionários públicos contra os cortes do orçamento e o ataque às aposentadorias, ele disse aos delegados que "eu acredito firmemente que nós precisamos reduzir o déficit. Isto significa cortes. Faríamos alguns cortes no orçamento se estivéssemos no governo", num claro recado aos bancos e aos milionários ingleses de que podem confiar nele. E, em clima de campanha eleitoral, defendeu os sindicatos como parte de uma “nova economia, de cooperação entre patrões e trabalhadores, e não de conflito” – por isso deixou claro que não apoiou a greve de junho do funcionalismo público contra os cortes na aposentadoria, “enquanto as negociações estavam em andamento”; defendeu votar "sim" num referendum sobre a reforma eleitoral; um salário mínimo vital para os jovens e sugeriu que o Partido Trabalhista, num futuro governo, adote medidas contra os salários “excessivos” dos executivos.

Porém, ao mesmo tempo em que afirma que os sindicatos são imprescindíveis à existência do Partido Trabalhista, Miliband também tem um projeto, considerado o de maior impacto na estrutura partidária nos últimos 20 anos, para tentar controlar ou diluir o poder dos sindicatos dentro do Partido Trabalhista. Ele propõe o registro de novos grupos de apoiadores, que não precisariam ser filiados, para votar nas eleições internas para líder do partido (e, portanto, virtual candidato a Primeiro Ministro). Estes grupos seriam administrados pelas regionais do partido, mas seriam habilitados a votar em uma seção eleitoral sindical, diluindo assim a influência dos sindicatos na eleição.

Os sindicatos detêm um terço dos votos no colégio eleitoral que escolhe a liderança do partido, mas poucos dos 3,5 milhões de trabalhadores sindicalizados e filiados (que pagam uma taxa) votam. Na próxima eleição, daqui a cinco anos, algumas dezenas de milhares de “apoiadores” poderão contrabalançar o peso dos sindicatos, ao inchar seu colégio eleitoral com não sindicalizados e, portanto, não sujeitos às orientações dos dirigentes sindicais. Ironicamente, Ed Miliband foi eleito pelos sindicalistas, mas ele sabe que as coisas podem mudar no futuro…   

Mas os planos de Miliband não ficam nisso. Ele também quer mudar o peso dos sindicalizados na Conferência do Partido Trabalhista, mas foi forçado a adiar este plano, deixando os sindicatos com 50% dos votos até uma revisão futura. Na prática, os sindicatos Unite, Unison e GMB controlam 40% dos votos na Conferência, tornando impossível que outros setores os derrotem. Uma das variantes propostas é dar maior peso à burocracia partidária e parlamentar.

A burocracia sindical, por sua vez, teme qualquer diluição de seu poder na conferência, pois isto poderia abrir caminho a um programa de longo prazo para desmantelar sua influência. Concordaram, porém, em entregar a lista dos sindicalizados filiados às regionais do partido, frente à reclamação de que os sindicatos controlam seus membros e não permitem que estes sejam contatados pelos candidatos, principalmente quando são de oposição ao candidato dos sindicatos. Todas estas medidas, se implementadas, farão com que o Partido Trabalhista, que há muito tempo não defende os interesses dos trabalhadores, livre-se da influência sindical na determinação de sua estrutura interna e passe a ser um partido do “eleitorado em geral”.

Em resumo, Miliband foi ao TUC para enganar os trabalhadores, dizendo que os ataques a seu nível de vida vão continuar, mas que isso será bom para o país. Uma lógica burguesa que a classe trabalhadora já não está mais disposta a engolir. Agora os trabalhadores também já sabem que caso o “Labour” chegue ao governo, fará exatamente o mesmo que Cameron.

Por isso Mark Serwotka afirmou que “a recusa de Miliband em defender seus apoiadores naturais é um tapa na cara e se voltará contra ele, mas não irá deter nossa determinação de luta para proteger a aposentadoria, empregos, salários e os serviços públicos”.

Burocracia decepciona os trabalhadores

Bendan Barber, o todo-poderoso secretário geral do TUC, tem exatamente a mesma política de Miliband. Durante o Congresso, os delegados expressaram a pressão das bases para que os sindicatos lutem contra os planos de austeridade. Barber optou por jogar um balde de água fria para esfriar o clima, limitando-se a dizer que é preciso forçar o governo a adotar uma nova política econômica, sem explicar qual política seria essa e como os trabalhadores deveriam lutar por ela. Não chamou os trabalhadores ingleses a se unirem às lutas do conjunto da Europa para fortalecer o internacionalismo operário. E também não disse uma palavra sobre a necessidade de lutar contra a draconiana legislação antissindical que vigora na Grã-Bretanha desde o governo Thatcher.

As greves aqui são ilegais, a votação em assembléia é proibida e quando um sindicato quer convocar uma greve, tem de organizar um complicado processo de ballots#. Cada trabalhador recebe em sua casa um ballot, ou seja, uma ficha para votar que é distribuída pelo sindicato. Ele preenche a ficha com seu nome, endereço, local de trabalho e vota sim ou não. Depois ele envia a ficha pelo correio para o sindicato, e a diretoria conta os ballots para saber se vai haver ou não a greve. Todo o processo tem de ser supervisionado e aprovado pelo governo. Se não for por esse esquema, as greves são ilegais e o governo corta a verba dos sindicatos, o que a burocracia quer evitar à morte. Essa legislação, totalmente contrária aos interesses dos trabalhadores, foi mantida por todos os governos, inclusive o de Tony Blair, do Partido Trabalhista. Durante o TUC, mais uma vez a burocracia sindical calou-se diante da necessidade urgente de mudar isso, e não aproveitou a presença em plenário do líder do Labour para exigir dele, cara a cara, que, se chegar ao governo, vai derrubar essa legislação.

Apesar do papel nefasto da burocracia, o TUC foi importante porque deixou claro que existe uma enorme pressão dos trabalhadores por medidas urgentes de luta contra os cortes nas aposentadorias, nos salários, nos empregos e nos serviços públicos. Diante da dureza do governo e da patronal em manter os cortes, os trabalhadores querem sentir a mesma dureza da parte de seus dirigentes pela manutenção dos seus direitos. E isso é um importante indicativo para as lutas que estão por vir: os maiores batalhões da classe trabalhadora inglesa estão com ânimo elevado!