COMPARTILHAR

O sistema capitalista nos apresenta todos os dias uma nova contradição. E é que, por um lado, apresenta o discurso da cultura do esforço e, por outro, nos mostra que o esforço não vale nada, mas o que importa é o pistolão e a classe social a que se pertence. Também nos educou sobre a necessidade de um diploma universitário, mas na vida real, os diplomas são de pouco valor, já que não podem nos salvar da permanente precariedade em que vivemos.

Por: Xabier

O mito da ascensão social

Há décadas nos apresentam a universidade como uma oportunidade, um trampolim para saltar de uma classe social para outra. Mais distante da realidade, a universidade, como instituição educativa, nada mais é do que uma engrenagem de perpetuação dos setores mais ricos. Uma instituição onde atualmente apenas as classes acomodadas têm condições de pagar uma taxa anual que não parou de crescer, e que se torna insustentável para o conjunto classe trabalhadora.

Além disso, as sucessivas leis educacionais, que desde o regime de 78 e seus sucessivos governos do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE ) e do Partido Popular (PP), não só ajudaram a expulsar os trabalhadores da universidade, mas também se dedicaram a construir um modelo em que é quase impossível combinar a jornada de trabalho com a realização dos estudos universitários.

Estamos nos referindo concretamente à LOE (Lei Orgânica de Educação), aprovada no início da década de 2000 e ao aprofundamento deste plano com a aplicação do Plano Bolonia. O que implicou, entre outras coisas, na comercialização dos mestrados como uma “recomendação compulsória” após a graduação, já que hoje em dia, um diploma sem mestrado nem sequer permite a validação técnica do diploma em muitas profissões. É um passo a passo obrigatório, onde o desembolso na maioria dos casos é enorme e está ao alcance de poucos.

Leia também:  Negociações PSOE-Unidas Podemos, o fator medo

Precisamente essa mercantilização dos mestrados gerou um mercado paralelo onde o que menos importa é o conhecimento, mas sim sua utilização como ferramenta de segregação das classes sociais. Desde a aplicação do plano Bolonia, a primeira coisa que lhes dizem logo que entram na faculdade é que, sem o mestrado, você não vai a lugar algum e que, por outro lado, um único mestrado também não é suficiente. Empurrando assim, o aluno a desistir, ou a se endividar para pagar a meia dúzia de mestrados exigidos pelo mercado de trabalho.

Depois desse enorme esforço para obter um diploma universitário, temos que enfrentar um cenário de trabalho sem expectativas, o que nos traz de volta ao desemprego e à precariedade.

É neste contexto de constante privatização e elitização da universidade, onde explode o escândalo dos mestrados das elites políticas. Um escárnio diante de todos os estudantes que, com muito esforço, viram, não apenas que suas qualificações não servem para nada, mas que as próprias universidades públicas são uma barbárie onde a classe política se atribui títulos alegremente, sem ter sequer que assistir um único dia de aula.

É vergonhoso ver como dia após dia aparece novos casos de currículos com títulos falsos e, no entanto, as demissões são contadas nos dedos de uma mão. Alguns diplomas que servem apenas para mostrar como a universidade é corrupta e onde as elites políticas querem fingir conhecimento e habilidades que não possuem.

Essa necessidade de títulos também responde a um sentimento generalizado da classe operária que nunca quis se reconhecer como tal e, por essa razão, ter acesso à universidade era supostamente a rota de fuga para uma ascensão social.

Leia também:  Estado Espanhol | O parlamento a favor da LGBTIfobia

A crise do capitalismo, com suas instituições educacionais corruptas, não faz mais do que mostrar que é impossível conciliar os interesses da classe dominante com os da classe trabalhadora. Não há outro caminho senão começar a abandonar essa ideia da ascensão social, de um trabalho que nunca acaba chegando e começar a se acostumar com a ideia de que essa crise não tem fim. De modo que, contra os seus interesses, nossa luta.

Tradução: Tae Amaru