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Nas duas últimas campanhas eleitorais Iglesias trabalhou com uma ideia obsessiva: que a UP (Unidas Podemos) teria que entrar, de qualquer forma, no Governo Sánchez. Uma obsessão partilhada pela IU-PCE [Esquerda Unida – Partido Comunista Espanhol] e os Comuns de Ada Colau. Era condição – diziam – para que o PSOE ( Partido Socialista  Operário Espanhol)  assumisse políticas “progressistas”.

Por: Víctor Alai

Certamente, esse raciocínio implicava ocultar as relações entre o PSOE e as empresas do Ibex 35 [principal indicador da Bolsa de Valores espanhola], sua aliança com o PP (Partido Popular) para aplicar o 155[1] e para reformar o artigo 135[2] da Constituição ou suas contrarreformas previdenciária e trabalhista.

Acobertando o PSOE mesmo antes de começar a governar

O problema é que, ao contrário das declarações da UP, sua presença no Governo será uma muleta e uma cobertura de esquerda ao PSOE. Desde que se tornou público a sentença do TJUE (Tribunal de Justiça da União Europeia) sobre Oriol Junqueras, nenhum dirigente da UP abriu a boca para reivindicar sua libertação e denunciar a arbitrariedade da JEC (Junta Eleitoral Central) e do Supremo Tribunal.

Também não disseram uma palavra diante da nomeação de José Luis Escribá como Ministro da Previdência Social, sendo que este indivíduo está empenhado em aumentar a idade de aposentadoria, aumentar o período de contribuição e manter o “fator de sustentabilidade” (a fórmula que liga as aposentadorias à expectativa de vida).

E ainda tem a reação raivosa dos representantes da UP nos movimentos sociais contra a greve geral basca no dia 30 de janeiro em defesa de umas pensões dignas e os direitos sociais.

O ápice de um processo de integração acelerado

A entrada da UP no Governo culmina com um acelerado processo  de integração de seu aparato dirigente na casta tão criticada. Pablo Iglesias é um “homem de Estado”. O Podemos foi criado sob a bandeira dos 15M [movimento dos indignados de maio de 2011] e as Marés [mobilizações que se diferenciavam por cores e eixos de reivindicações, como educação, saúde e outras] para depois desmantelar o movimento e integrá-lo às instituições do regime e relegitimá-las. Sobre o manifesto fundacional do Podemos, “Mover Ficha”, nem uma vírgula.

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A Constituição que eles anteriormente contestavam, agora é “um cinto de segurança e quase um programa de governo para um governo de esquerda”, segundo Iglesias (entrevista em 7 de janeiro no diário.es). Mas esta Constituição permanece a mesma de quatro anos atrás. A mesma que em 1978 legitimou a continuidade dos aparatos estatais franquistas sem nenhuma depuração: o comportamento do aparato judicial pode ser entendido sem levar isso em conta? É a Constituição que coloca sob a proteção militar a sacrossanta e forçada unidade da Espanha e preserva o poder econômico da oligarquia e o peso da Igreja. Pablo Iglesias sabe que os artigos sociais que ele reivindica com tanto ardor não valem nada, porque legalmente, não obrigam a nada. Porque sua realização choca com os direitos de propriedade dos grandes empresários que – estes sim – são legalmente intocáveis e contam com um aparato judicial reacionário à sua disposição. Tudo isso sem contar com o artigo 135, que coloca o pagamento da dívida pública aos banqueiros como “prioridade absoluta” do Estado.

A correlação de forças justifica tudo

Iglesias justifica tudo em nome da correlação de forças. O exemplo mais escandaloso foi Alexis Tsipras, do Syriza, que em julho de 2015 traiu de forma cruel o povo grego para se converter em seu carrasco em nome da União europeia (EU). Para Iglesias, como “o mundo e a política têm a ver com correlação de forças”, o que Tsipras fez foi “tudo o que se podia fazer”.

Membro da escola de Tsipras, Iglesias coloca o curativo antes da ferida e anuncia que o Governo deve “avançar em uma direção razoável, reconhecendo que as democracias são limitadas e que ainda estamos bem longe de conseguir democratizar a economia e poder disciplinar democraticamente as grandes potências econômicas descontroladas, que continuarão tendo um poder enorme e vão obrigar todos os governos, começando pelo nosso, a negociar e a ceder em muitas coisas, porque assim é a correlação de forças”.

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Iglesias também “reconhece a correlação de forças” no conflito catalão. Por isso, aceitou sem questionar o que Sánchez diz. Po isso, Jaume Asens (Comuns) se nega a defender um referendo e a anistia para “não gerar frustração” (programa 324 da TV3, em 8 de janeiro).

O surpreendente é que, nessas circunstâncias, Iglesias fale de “converter nosso país em uma referência europeia para a justiça social e a criação de novos direitos. E também numa referência mundial, em que toda a esquerda do mundo vai se referenciar no próximo governo”.

[1] Artigo 155 da Constituição do Estado Espanhol autoriza que o governo central controle as atividades e intervenha nas Comunidades Autônomas, ndt;

[2] Reforma do art. 135, em 2011 – limita o déficit e o endividamento do Estado, ou seja, cortes nos gastos sociais (saúde, educação, moradia, etc.), ndt;

Tradução: Rosangela Botelho